Trabalho nas horas vagas

Posted: 23rd fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
23 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Outro dia acordei cedo, tomei café, li o jornal, botei uma roupa séria e fui jogar “Papers, Please” [“Os documentos, por favor”].

Lançado em 2013, o jogo de computador se passa nos anos 80 e tem como cenário a cabine do posto de fronteira de uma república imaginária chamada Arstotzka. O herói é o funcionário responsável pelo controle de imigração do país, cuja função é analisar os documentos dos recém-chegados, conferindo ou negando acesso a Arstotzka. Seu objetivo é barrar elementos indesejáveis.

Basicamente é isso. Por horas a fio, o jogador se diverte em comparar documentos e vistos, checando os locais de emissão, datas de expiração, certificados de vacinação, nome, sexo, foto, duração e propósito da visita. Então carimba o passaporte com os dizeres “aprovado” ou “negado”. Se deixa algum detalhe escapar, é advertido ou punido com um desconto no salário.

É bem parecido com o que chamamos de trabalho.

Conforme a história vai se desenvolvendo, mais exigências e particularidades entram em jogo, por exemplo: caso o visitante esteja muito acima do peso registrado nos papéis, é preciso submetê-lo a uma radiografia em busca de armamentos ou drogas. Se os nomes não batem, faz-se necessário tirar as impressões digitais do infeliz. Alguns dias de expediente são abreviados por ataques terroristas, e, após tais ocorrências, há um veto geral para os cidadãos de alguma república vizinha (Obristan, Kolechia, Antegria). Há também listas de criminosos procurados e uma infinidade de minúcias para checar, sobretudo quando se sabe que o tempo é curto e o salário está relacionado à produtividade.

Mais tarde, o herói ganha permissão para prender suspeitos e até alvejar terroristas que se aproximem da fronteira. Há ofertas de suborno, pilantras recorrentes como Jorji Costava e um grupo de rebeldes encapuzados lutando pela democratização de Arstotzka, que afinal de contas é governada por um regime ditatorial. Você pode ou não se meter nisso. Também pode liberar a entrada de imigrantes por piedade, mas terá que arcar com as consequências.

Eu, por exemplo, escolhi ser bovinamente fiel à minha gloriosa pátria e agi da forma mais fascista possível – fascista e incompetente. Escorracei os militantes pela liberação do povo, esmaguei asilados políticos, aceitei suborno dos meus superiores e segui estritamente as regras da fronteira. Lá pela segunda semana de trabalho, meus erros constantes acabaram por reduzir meu salário. Naturalmente deixei morrer meu filho, minha mulher, minha cunhada e meu tio. (Os inúteis viviam doentes e faziam questão de ter aquecimento e comida.) Como resultado, ganhei uma promoção e subi na vida.

Um amigo meu se disse horrorizado com a minha ética de trabalho e afirmou, orgulhoso, que decidiu colaborar com o movimento rebelde e libertou Arstotzka da tirania.

Fingi que não ouvi e chamei o próximo da fila.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
16 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Na semana passada, falei das pequenas coisas capazes de nos aproximar de pessoas que condenamos sem conhecer; poderia fazer uma crônica também sobre os policiais que acompanham os protestos e que muitas vezes são vistos como um bloco único formado por insensíveis máquinas de cumprir ordens e bater em manifestantes. Eles também podem gostar de doce de leite, torcer pelo Corinthians, levar o cachorro à missa e ter opinião sobre o aumento da tarifa, a despeito das ordens do governador ou de seus superiores.

Poderia, mas nunca me expressaria tão bem quanto Rubem Braga, que acompanhou os pracinhas na Segunda Guerra e teve seus textos reunidos em “Crônicas da Guerra na Itália”. À crueza dos fatos, o repórter adiciona seu olhar de cronista que busca pontos singelos no cotidiano daqueles homens, detalhes despretensiosos, anedotas, histórias de vida e preocupações. “Encontramos no meio do caminho o general Cordeiro de Farias, que está deixando crescer um bigode, e vamos a um Centro de Tiro”, escreve.

Mesmo reportando uma situação de guerra, e portanto atípica, Braga descreve os aspectos que fazem tais pessoas diferentes de todas as outras e também aqueles que as aproximam de qualquer ser humano, aliado ou inimigo, metido em uma trincheira lamacenta bem longe de casa.

Na história de cada soldado – como aquele que veio de Monte Aprazível e estava terminando o liceu, ou aquele que é filho do proprietário das Perfumarias Carneiro, ou o sargento Domingos Leite que é da rua Goitacazes, 1726 e vai se casar no inverno, ou o outro que quando começa a falar de boi não para mais – também vamos nos tornando seus velhos conhecidos.

Isso pode trazer à tona uma empatia que é tão necessária em tempos de ódio, quando tudo é reportado como uma guerra entre o lado de cá e o lado de lá.

“Há um mundo de coisas que os jornais não dizem”, afirma Braga. São bobagens irrelevantes para a Secretaria da Segurança Pública ou para o chefe de gabinete do prefeito – mas que são essenciais para a maioria de nós. Dados que vão além do “efetivo de 800 policiais” e “44 pessoas detidas”. Quando lemos, por exemplo, sobre o “comandante da operação, tenente-coronel Bexiga”, não sabemos qual o tom da voz dele, se tem senso de humor, se está com os pés doloridos.

Não que isso sirva como justificativa para as ações alheias. É só que, nesse processo de aproximação, podemos nos tornar mais compreensivos e sensíveis a outros pontos de vista.

Um exemplo está na carta de um soldado para a família, tal qual foi descrita por Rubem Braga: o sujeito fez “um enorme lero-lero sentimental de começo a fim, disse que está morrendo de saudades, viver sem ti é uma desgraça, eu não sei como aguento essa separação, é uma agonia medonha, choro pensando em ti, e no fim de tudo isso meteu esse P.S. – ‘manda me contar o resultado do jogo do Bangu’”.

Brasil, terra dos gatunos

Posted: 10th fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in Traduções
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The International New York Times
5 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Trad. George El Khouri Andolfato (Uol Notícias)

Um antigo lugar-comum em Hollywood diz que se você roubou um banco ou vendeu segredos de guerra para o inimigo, ou mesmo se apenas desviou fundos de alguma empresa, então você deve fazer as malas e fugir para o Brasil.

Segundo meu breve trabalho de detetive, talvez o primeiro filme a fazer referência a essa atração peculiar exercida pelo Brasil sobre os fugitivos internacionais foi “O Mistério da Torre”, uma comédia britânica de 1951 estrelada por Alec Guinness. Seu personagem rouba 1 milhão de libras em ouro do Banco da Inglaterra, derrete as barras em miniaturas da Torre Eiffel e vai “direto para o Rio de Janeiro. Uma terra alegre e animada de jovialidade e desembaraço social”.

Um ano depois, o drama de Hollywood “5 Dedos” apresentava um ambicioso serviçal da embaixada britânica que decide vender segredos aos nazistas. O personagem de James Mason pretende receber 200 mil libras em 12 semanas, então correr para uma “nova vida. Um novo nome”. Juntamente com sua parceira, uma condessa arruinada interpretada por Danielle Darrieux, ele planeja fugir das “guerras, intrigas e medos” e se tornar como o homem elegante que certa vez viu na sacada de uma casa brasileira, no alto da encosta acima do porto. “Ele parecia próximo o bastante para ser tocado, mas estava fora do alcance de todos.”

Não causa surpresa que tantas histórias de ficção envolvam personagens fugindo para cá para escapar da lei. Hoje o Brasil conta com um tratado de extradição com os Estados Unidos, mas ele entrou em vigor apenas em 1964. Nós não tínhamos um tratado semelhante com o Reino Unido até 1997, permitindo assim a Ronald Biggs – que teve participação secundária no Grande Assalto ao Trem Pagador de 1963 e escapou de uma prisão em Londres em 1965 – viver aqui em liberdade por décadas.

Como colocou o personagem de Tom Hanks em “Um Dia a Casa Cai” (1986): “Eles não têm leis no Brasil? Eles não têm polícia?” E há o golpista em “A Máquina de Fazer Milhões” (1968), que entra no país com uma bolsa cheia de dinheiro. Quando ele chega à alfândega, ele abre a bolsa e diz exatamente o que contém – “dinheiro” – com a autoridade alfandegária apenas respondendo: “Desfrute sua estadia no Brasil”. 

Segundo “Olhar Estrangeiro”, um documentário de 2006 de Lúcia Murat, mais de 40 filmes não brasileiros envolvem fora-da-lei expressando um desejo de fugir para o Brasil. Mas apenas poucos são bem-sucedidos. Talvez o exemplo mais famoso seja “Primavera para Hitler” (1968), no qual Max Bialystock e seu contador, Leo Bloom, planejam pegar seus milhão de dólares e voar para o Rio, mas acabam na prisão.

Ao longo dos anos, se esses personagens não olham para o Brasil por causa de sua má reputação de leis frouxas ou reputação de paraíso ensolarado, eles vêm à procura de aventura em uma terra “primitiva”, cheia de riscos desconhecidos. Eles podem se referir à América do Sul como se fosse um único país, e misturar Brasil e México. Em “Fu Manchu e o Beijo da Morte” (1968), o diabólico gênio do crime Fu Manchu (interpretado por Christopher Lee) se esconde na selva brasileira e planeja usar um antigo veneno inca em seu plano maligno para conquistar o mundo. (Não importa que o Império Inca estivesse localizado no Peru moderno.)

Naquele mesmo ano, o sofisticado e belo Thomas Crown (Steve McQueen) deu pistas para Vicki Anderson (Faye Dunaway) sobre seu destino final em “Crown, o Magnífico”: “Samba, Pão de Açúcar, selva, piranha”.

Mal sabem eles.

Quando se trata de estereótipos, o Brasil é acima de tudo uma selva exótica, tropical, cheia de mulheres bonitas usando biquíni. Muitos fora-da-lei sonham em terminar suas vidas na praia de Copacabana bebendo piña coladas, assim como o protagonista de “A Volta de Max Dugan” (1983). Na vasta filmografia de fugitivos para o Brasil, Michael Keaton dança um samba depois de fraudar a loteria (“Os Trapaceiros da Loto”, 1987), Eric Idle e Robbie Coltrane se disfarçam de freiras para se aposentarem da máfia (“Freiras em Fuga”, 1990), Val Kilmer e Kim Basinger fogem para cá com US$ 3 milhões (“O Grande Assalto”, 1993), e Kerry Fox compra uma passagem só de ida para o Brasil após deixar seus melhores amigos morrerem (“Cova Rasa”, 1994).

Por anos, esse clichê de paraíso permaneceu notavelmente consistente. Há menos de uma década, nós tínhamos Philip Seymour Hoffman roubando seus próprios pais para financiar sua fuga para o Rio com sua esposa (“Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto”, 2007), enquanto o Hulk se esconde dos militares americanos em uma favela brasileira (“O Incrível Hulk”, 2008). Um pouco depois, Johnny Depp, como John Dillinger, planeja tomar um avião para Caracas e depois para o Rio, “para um pouco de diversão ao sol” (“Inimigos Públicos”, 2009).

O filme mais recente dessa linhagem é “Velozes & Furiosos 5: Operação Rio”. Ele mostra o personagem de Vin Diesel fugindo da prisão e então indo para o Rio para roubar US$ 100 milhões de um empresário corrupto.

Mas dessa vez, a imagem do Brasil mudou. Ele é descrito como uma terra de narcotraficantes armados e mulheres fáceis. Estranhamente, muitas pessoas falam espanhol. Um personagem diz que todo mundo no Rio pode ser comprado; outro chama o lugar de um “buraco infernal”.

Do céu ao inferno em apenas poucos quadros.

Brazil, the outlaw’s paradise

Posted: 10th fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The International New York Times
Feb. 5, 2015

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — A long-established piece of wisdom in Hollywood says that if you have robbed a bank or sold war secrets to the enemy, or even if you’ve just embezzled some company funds, then you should pack your stuff and move to Brazil.

According to my brief detective work, perhaps the first film to reference the peculiar attraction that Brazil holds for international runaways was “The Lavender Hill Mob,” a 1951 British comedy starring Alec Guinness. His character steals one million pounds in gold from the Bank of England, melts the bars into miniature Eiffel Towers and comes “straight on to Rio de Janeiro. Gay, sprightly, land of mirth and social ease.”

A year later, the Hollywood drama “5 Fingers” presented an ambitious British Embassy valet who decides to sell secrets to the Nazis. James Mason’s character intends to collect 200,000 pounds in 12 weeks, and then dash into “a new life. A new name.” Alongside his partner, a ruined countess portrayed by Danielle Darrieux, he plans to escape “the wars, the intrigues, fears,” and to become like the elegant man he once saw on the balcony of a Brazilian villa, high in the mountainside above the harbor. “He seemed close enough to touch, and yet he was beyond the reach of anyone.”

It’s not surprising that so many fictional stories revolve around characters fleeing here to escape the law. Today Brazil does have an extradition treaty with the United States, but it has been in effect only since 1964. We had no similar treaty with Britain until 1997, thus allowing Ronald Biggs — who had a role in the Great Train Robbery of 1963 and escaped from a London prison in 1965 — to live here in freedom for decades.

As Tom Hanks’s character puts it in “The Money Pit” (1986): “Don’t they have any laws in Brazil? Don’t they have any police?” Then there’s the con artist, in “Hot Millions” (1968), who enters the country with a bag full of money. When he gets to customs, he opens the bag and says exactly what it contains — “money” — to which the officer just answers: “Enjoy your stay in Brazil.”

According to “The Foreign Eye,” a 2006 documentary by Lúcia Murat, more than 40 non-Brazilian movies involve outlaws expressing a desire to flee to Brazil. Yet only a few of them succeed. Perhaps the most famous example is Mel Brooks’s “The Producers” (1968), in which Max Bialystock and his accountant, Leo Bloom, plan to take their million dollars and fly to Rio, but end up in prison instead.

If, over the years, these characters don’t look to Brazil because of its disreputable loose laws or reputation as a sunny paradise, they come searching for adventure in a “primitive” land, full of unknown dangers. They might refer to South America as if it were a single country, and mix up Brazil and Mexico. In “The Blood of Fu Manchu” (1968), the diabolical mastermind Fu Manchu (played by Christopher Lee) ensconced himself in the Brazilian jungle and planned to use an ancient Incan poison in his evil plot to conquer the world. (Never mind that the Inca Empire was located in modern-day Peru.)

That same year, a sophisticated, handsome Thomas Crown (Steve McQueen) gave a hint to Vicki Anderson (Faye Dunaway) about his final destination in “The Thomas Crown Affair”: “Samba, Sugarloaf, Jungle, Piranha.”

Little do they know.

When it comes to stereotypes, Brazil is above all an exotic, tropical wilderness full of beautiful women wearing small bikinis. Many outlaws dream about ending their lives on Copacabana Beach drinking piña coladas, just like the protagonist of “Max Dugan Returns” (1983). In Brazil’s vast runaway filmography, Michael Keaton dances a samba after defrauding the lottery (“The Squeeze,” 1987), Eric Idle and Robbie Coltrane disguise themselves as nuns to retire from their gangster jobs (“Nuns on the Run,” 1990), Val Kilmer and Kim Basinger flee here with $3 million (“The Real McCoy,” 1993), and Kerry Fox buys a one-way ticket to Brazil after leaving her best friends to die (“Shallow Grave,” 1994).

For years, these paradise clichés remained remarkably consistent. Less than a decade ago, we had Philip Seymour Hoffman robbing from his own parents to fund his escape to Rio with his wife (“Before the Devil Knows You’re Dead,” 2007), while the Hulk hides from the United States military in a Brazilian favela (“The Incredible Hulk,” 2008). A little later, Johnny Depp, as John Dillinger, planned to grab a plane to Caracas and then to Rio, “for some fun in the sun” (“Public Enemies,” 2009).

The most recent movie in this lineage is “Fast Five” (2011). It shows Vin Diesel’s character escaping from prison and then going to Rio in order to steal $100 million from a corrupt businessman.

But this time, the image of Brazil has changed. It is depicted as a land of armed drug traffickers and easy women. Oddly, lots of people speak Spanish. One character says that everybody in Rio can be bought; another one calls the place a “hellhole.”

From heaven to hell in just a few frames.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo and the editor of the literary website A Hortaliça.

Enciclopédia das ruas

Posted: 9th fevereiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
9 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Tem o Alexandre, que é socorrista e já foi detido pela polícia enquanto estancava o sangue de um rapaz atingido por estilhaços de bomba de efeito moral. Ele é natural de Bauru e possui um jabuti chamado Tango. (Caso um dia descubra que o quelônio é fêmea, pretende mudar para “Rumba”.)

Tem o Manoel, que trabalha com terraplenagem, é católico e membro do grupo de Observadores Legais. Vestidos com um colete amarelo, eles acompanham e registram a ação dos policiais durante as passeatas. Manoel afirma que fez três faculdades e só não fez a quarta “porque acabou o cimento”.

Tem o Igor, advogado que às vezes leva o cachorro Carlos à missa, sofre de astigmatismo e alega veementemente que a gata Theodora esconde as meias dele.

Tem a Vânia, que possui uma dezena de cães em casa e apareceu uma vez no Jornal Nacional protegendo os policiais de pedradas. E o Pierre, que usa joelheiras, lê Brecht, gosta de astronomia e entra em discussões longuíssimas sobre política e participação popular.

E o Vitinho, de 21 anos, que foi atingido por uma bomba de efeito moral em setembro de 2013 e perdeu a visão do olho direito, mas continua nas ruas. Ele costuma compor a frente do ato e anda por aí de tapa-olho, assim como o fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu a visão do olho esquerdo após ser ferido por uma bala de borracha em junho de 2013.

E o Vinícius, estudante de química que distribui livros para moradores de rua e perdeu quatro dentes após ser surrado numa manifestação em janeiro do ano passado.

Tem também o Donato, jornalista, corintiano, que eu não conseguiria reconhecer na rua sem o capacete. No time dos fotógrafos também podemos citar o Adorno, que me ensinou a consertar um pino solto da máscara de gás, e o Eli, um gigante que usa máscara, capacete, óculos e uma sólida couraça. (É a ele que uma repórter da revista Vice se referiu ao escrever que, em meio a uma nuvem de gás, “um maluco passou correndo por mim com uma armadura preta, tirando foto enlouquecidamente”.)

Outro que está sempre nas ruas é o Pablo, professor da USP que gosta de doce de leite e tem um filho de 8 anos. E o padre Júlio, de 66 anos, que às vezes participa do cordão da frente e já foi ferido na perna por uma bala de borracha.

E a minha mãe, uma revisora de 61 anos, 1,49m de altura e 43kg que carrega nos atos uma bolsa repleta de gaze, soro fisiológico e leite de magnésia, materiais notoriamente utilizados para fabricar coquetéis Molotov.

São esses alguns dos “vândalos” e “vagabundos” que participam das manifestações pela redução da tarifa em São Paulo.

“Mete bala”, gritou um senhor da janela do prédio.

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O Estado de São Paulo – Caderno 2
2 de fevereiro de 2015

por Vanessa Barbara

Minha tartaruga está resfriada.

Pouco antes do Natal, um dos meus três cágados de água doce – tigres d’água brasileiros – começou a apresentar sinais de apatia, levando-me a crer que se tratava de uma típica melancolia do tempo de festas.

Entre o Natal e o Réveillon, o “tartarugo” Napoleão me pareceu mais animado, porém logo em seguida parou de comer. Mais uma vez, pensei em promessa de Ano-Novo, talvez uma dieta radical de desintoxicação para corrigir os excessos de 2014. Vários dias se passaram.

No momento em que ele dispensou uma ração especial de camarão, anchovas e ovas de formiga, uma espécie de bife à parmegiana dos quelônios, chamei imediatamente o veterinário. Ele pediu uma radiografia da cavidade celomática do pequeno réptil, coisa que eu jamais imaginei ser possível.

(Há clínicas especializadas nesse tipo de exame diagnóstico, bastando que a tartaruga fique quieta e não tente morder o técnico.)

Foi como descobrimos que Napoleão estava com pneumonia, uma das doenças mais comuns (e fatais) nesse tipo de animal. O corajoso cascudo foi internado na casa do veterinário e por lá ficará durante catorze dias – na companhia de um porco-espinho e de um coelho em reabilitação pós-operatória –, onde tomará duas injeções de antibióticos por dia e fará nebulizações com medicamentos. Também estão previstos banhos periódicos com chá de camomila.

É evidente que, em casa, estão todos apreensivos quanto à recuperação do quelídeo, que ademais sempre foi muito pensativo e taciturno. Também sofria de insônia e passava madrugadas em claro, cheirando o fundo do aquaterrário com um ar solitário. Fora isso, Napoleão nunca ficou doente e, aos cinco anos de idade, pesa 750 portentosos gramas.

Não é só a família que se preocupa com o estado de saúde da tartaruga, mas também completos desconhecidos já manifestaram curiosidade a respeito, abordando-me em confraternizações e protestos. O constrangedor é que, diante de uma questão singela como: “Sua tartaruga está melhor?”, eu costumo agir tal qual uma mãe de recém-nascido e realmente respondo quais são as minhas aflições e expectativas quanto à recuperação do pequenino. Inclusive para pessoas que eu nem sequer conheço. E mostro as chapas de raio-X e as fotos mais recentes do quelônio descansando sobre a bancada da clínica.

A uma plateia atônita, calada e prisioneira das minhas narrativas sem clímax, explico que Napoleão tentou morder vigorosamente o estetoscópio e o dedo do doutor, o que é um bom sinal.

As pessoas costumam assentir, afastando-se progressivamente de mim.

**

Atualização de última hora: O coelho recebeu alta hospitalar e está bem, mas o porco-espinho faleceu, bem como uma chinchila idosa que fez companhia a Napoleão em sua primeira noite de internação. Ela morreu por intoxicação de fumaça de churrasco.

Bom dia pra quem?

Posted: 26th janeiro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
26 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Poucas coisas me parecem tão misteriosas quanto a transição entre boa tarde e boa noite. É de se espantar que os primeiros criadores das línguas humanas tenham insistido em manter esse dilema para todas as gerações vindouras.

Em tempos de horário de verão, a trama se complica. Se ainda não escureceu, podemos chamar de noite? A partir de que horas “boa tarde” vira “boa noite”? Talvez seja às seis em ponto, às seis e um, ou quem sabe exista um protocolo oficial baseado no azimute do Sol e na amplitude ortiva vezes o fuso horário menos oito – protocolo vastamente conhecido pelos nossos barbeiros e taxistas, com quem nunca se deve discutir.

Para o resto de nós, o drama é cotidiano. Conheço um amigo que, pouco depois do meio-dia, resolveu falar “boa tarde” para o porteiro. “Ele me deu bom dia”, contou, de forma dramática. “Repeti ‘bom dia’, claro, ele parecia mais decidido do que eu.”

Entendo perfeitamente. É sempre constrangedor ser corrigido em nossas saudações cotidianas, sobretudo quando são sete da noite e você diz “bom dia!” para o psiquiatra. (Provavelmente ele fará algumas anotações a respeito.)

Uma das saídas é afirmar, de forma singela: “Aposto que um monte de gente já te deu bom dia hoje, eu já estou dando bom dia para amanhã, para garantir”. Ou a clássica: “É bom dia porque eu não almocei ainda, né?”.

Depois da meia-noite, então, o cenário vira terra de ninguém. Faz-se igualmente aceitável proferir “bom dia” ou “boa noite”, sendo, porém, questionável a escolha de “boa tarde”, ainda que em nome da autonomia dos seres e da defesa das liberdades individuais.

(Lembrança aleatória: certa vez, quando eu tinha uns 12 anos, uma bola de futebol desceu a ladeira e foi interceptada por uma senhora, que a devolveu. Como forma de agradecimento, um dos meninos exclamou: “Muito obrigado! E tenha uma boa vida”.)

Como se vê, a questão é espinhosa. Muito pode ser dito em defesa dos atendentes de telemarketing, que, do interior de suas P.A.s (posições de atendimento), não conseguem enxergar o mundo lá fora e, portanto, estão autorizados a escolher o período que lhes convêm. (A esse respeito, muitos garantem que o trabalho é tssstelefone da seguinte forma: “mais seguro.a rua exclamou: ” resolveu dar boa tarde para o porteiro. “.s (posiçssstelefone da seguinte forma: “mais seguro.a rua exclamou: ” resolveu dar boa tarde para o porteiro. “.s (posição massacrante que, em casa, continuam atendendo ao telefone da seguinte forma: “Santana Laboratórios, Sheila, bom dia”.)

Pessoas mais inseguras optam pelo “olá” ou por um aceno de cabeça. Outras se recusam a participar desse jogo doentio. Lembro de uma amiga que, às seis da manhã de um dia frio, recebeu bom dia de outrem e respondeu, furiosa: “Bom dia pra quem?”.

Hard times

Posted: 22nd janeiro 2015 by Vanessa Barbara in Sem categoria
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Moral Reasoning 22: Justice with Michael Sandel

O Estado de São Paulo – Caderno 2
19 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Andei assistindo aos episódios de “Justice” com o fervor de quem acompanha “Lost”.

Trata-se de uma série de 12 aulas ministradas em Harvard pelo filósofo político Michael Sandel, disponíveis com legenda no canal de YouTube da UnivespTV. O curso aborda as principais doutrinas éticas defendidas ao longo da história, como o utilitarismo de Bentham e Mill (preocupado em proporcionar o máximo de felicidade para o maior número de pessoas), o libertarismo de Locke (defensor do livre mercado) e o imperativo categórico de Kant (focado nos direitos humanos e na dignidade intrínseca dos indivíduos).

Há ação e suspense nas aulas de Sandel, que explica os conceitos a partir de dilemas éticos discutidos pelos alunos. Entre um episódio e outro, eu me desesperava: “Meu Deus! Como é que os filósofos vão responder ao utilitarismo?” ou: “Será que o rapaz pró-meritocracia com relógio de ouro vai aparecer no próximo?”. Passei madrugadas torcendo para Rawls e discordando veementemente de Aristóteles, aquele pateta que prega a distribuição de flautas só para quem sabe tocar bem. Fiquei sem resposta em alguns momentos, revi meus conceitos e, mais importante, consegui fugir dos spoilers.

Sandel submete à argumentação dos alunos uma profusão de casos bizarros, como o clássico dilema do vagão desgovernado.

Nele, você é maquinista de um trem sem freios. No fim da linha, há cinco operários que você fatalmente irá atingir e matar. A única opção é desviar para uma bifurcação onde há apenas um trabalhador nos trilhos. Você: a) decide desviar e matar apenas um operário, b) mantém o curso e mata os cinco.

Adotando a lógica utilitarista, a maioria escolhe desviar o curso. Mais eis que o professor acrescenta outra camada ao problema: imagine que você está no alto de uma ponte e pode parar o trem jogando algo pesado nos trilhos. Por coincidência, há um homem obeso ao seu lado.

Mesmo os utilitaristas mais ferrenhos hesitam em empurrar o homem sob essas novas circunstâncias, ainda que, olhando friamente, o caso também envolva o sacrifício de um indivíduo em prol da maioria. Para piorar, Sandel introduz uma nova variável: e se o gordo fosse o responsável pela sabotagem dos freios?

(Não perca o próximo capítulo.)

Sandel pretende colocar à prova nossas convicções diante de casos concretos, ainda que extravagantes, fazendo-nos reformular ou elaborar melhor nossas concepções.

“O objetivo deste curso é despertar a inquietude da razão e ver até onde ela pode nos levar”, diz o professor. “E se essa inquietude permanecer e continuar incomodando nos dias e anos vindouros, então nós, juntos, conseguimos alcançar algo que não é nada pequeno.”

A série é ideal para alternar com “Cavaleiros do Zodíaco”.

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O Estado de S. Paulo – Caderno 2
12 de janeiro de 2015

por Vanessa Barbara

Em 25 de agosto de 1959, uma semana após o lançamento de “Kind of Blue”, o trompetista Miles Davis foi surrado e detido pela polícia de Nova York.

Ele fumava um cigarro do lado de fora do clube Birdland, após tocar um set de músicas transmitido ao vivo pela emissora de rádio das Forças Armadas. Foi quando um policial (branco) o abordou e ordenou que circulasse. O músico respondeu: “Por quê? Eu trabalho aqui. É o meu nome ali no letreiro, Miles Davis”. O policial disse: “Não interessa, eu falei para você sair daqui. Se não for embora, vou prendê-lo.”

Davis não se moveu e encarou o oficial com um olhar desafiador, enquanto outros dois policiais se aproximavam. Recebeu voz de prisão e, sem haver oferecido resistência, foi golpeado no estômago e na cabeça, diante de dezenas de testemunhas atônitas que saíram do clube após ouvir a confusão. Aos gritos, elas pediam que parassem.

O escândalo foi tamanho que membros da Hodges-Robbins Orchestra, que ensaiavam do outro lado da rua, viraram os microfones para a janela e captaram os policiais xingando Davis de “nigger”.

Sangrando, o trompetista foi conduzido ao 54o. Distrito. Na delegacia, os policiais continuaram com as provocações, esperando que ele reagisse.

Miles Davis foi indiciado por conduta desordeira e agressão, e posteriormente inocentado. Teve sua licença de músico cassada por vários meses e tomou cinco pontos na cabeça. Em sua autobiografia, ele conta que o incidente o tornou de novo amargo e cínico, bem quando ele enxergava mudanças positivas na luta pelos direitos civis. “Mas então fui cercado mais uma vez pelos brancos e aprendi que, quando isso acontece, se você é negro, não há justiça. Nenhuma justiça.”

Cinquenta e cinco anos depois, pouca coisa mudou. Nos últimos meses os americanos voltaram às ruas para protestar contra a violência policial dirigida aos negros, que continuam sendo tratados com truculência. Segundo a ProPublica, em comparação aos brancos, os negros nos Estados Unidos têm 21 vezes mais chances de serem mortos pelas forças de segurança.

Já no estado de São Paulo, de acordo com uma pesquisa da Ufscar, 61% das vítimas da polícia são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. No Brasil, um jovem negro tem um risco 2,5 vezes maior de ser vítima de homicídio.

Em um show de stand-up, o comediante Chris Rock resumiu bem a situação: “Saí da barriga da minha mãe; a partir daí, tudo o que acontecia no raio de três quarteirões, eu era suspeito”, declarou. “Quando passo na rua, as mulheres já deixam preparado o spray de pimenta, todo mundo esconde as chaves, tranca a porta dos carros, faz posturas de caratê. Eu levanto o olhar e há uma porção de senhorinhas brancas ao telefone – elas irão discar 911 e simplesmente esperar que eu faça alguma coisa.”

“Eu nasci suspeito”, costuma dizer Chris Rock.