Três por cinco

Posted: 6th novembro 2018 by Vanessa Barbara in Crônicas
Tags: , , , , , , ,

Revista Continente
Ed. 214 – Outubro de 2018

por Vanessa Barbara
Ilustrações: Janio Santos

Ninguém sabe tanto de ativismo político quanto Djalma. Aos 56 anos, ele acumula no currículo 37 manifestações, seis ocupações, quatro debates, uma reintegração de posse, dois panelaços e até uma ação direta. Esteve na Avenida Paulista no dia 13 de junho de 2013 e quase foi um dos 241 detidos. No início deste ano, foi proibido pela polícia de entrar na Estação Bresser-Mooca ao protestar contra o aumento da passagem. Já foi atingido por um tiro de bala de borracha no cotovelo, tomou inúmeras cacetadas e costuma se proteger do gás amarrando no rosto uma camiseta velha. A princípio, comparecia às passeatas de chinelo e bermuda, mas hoje em dia não se rende mais a esse tipo de amadorismo. Prefere ir de tênis para correr mais rápido e de calça jeans para se proteger dos estilhaços das bombas de efeito moral.

Não perdeu nenhum dos 11 atos contra a Copa do Mundo, que, na sua opinião, foram extremamente profícuos. Conhece pelo nome vários socorristas, advogados ativistas, fotógrafos, observadores legais e membros da Defensoria Pública. Gosta dos black blocs porque são animados e têm escudos originais, feitos de pranchas de isopor e pedaços de portas, e porque eles lembram a si próprio quando jovem.

Só de olhar, Djalma sabe distinguir uma manifestação boa de uma mais mixuruca. “Tá vendo essas faixas? Quando tem umas bem compridas, caprichadas, é um bom sinal”, declarou, durante uma marcha em apoio à greve dos professores. Bandeiras e bandinhas também são ótimos indícios, embora Djalma esteja se referindo sobretudo à quantidade de presentes.

Ele também sabe calcular – melhor do que ninguém – a probabilidade e a intensidade da repressão policial. Segundo ele, não há uma correlação tão grande entre o número de manifestantes mascarados e a atitude dos homens da lei; importa mais a quantidade de policiais, de viaturas, de motos, de helicópteros e de cavalos. Quanto maior o efetivo, pior. O clima de tensão entre as partes é igualmente relevante para os cálculos de Djalma, que tenta se posicionar de modo a não ficar na mira do Choque nem muito próximo das bandeiras. “Já tomei uma bandeirada e fiquei roxo por duas semanas”, justifica. Ele odeia quando a tropa passa batendo o cassetete nos escudos, de forma ameaçadora, como se estivesse chamando o povo para a briga.

Outra das habilidades de Djalma é identificar policiais infiltrados, os P2, no meio da marcha. “Eles dão muito na cara. Um dia vieram todos com relógio na mão direita, depois todos de camiseta azul. Na marcha contra a crise da água, em 2014, a gente viu uns quatro ou cinco com sacolas da Alô Bebê. Aí se tocaram que não dava para ser assim e desencanaram do padrão”, conta. “Mas continuam dando bandeira. Ficam pescoçando a conversa dos outros, andam por aí de cara fechada.”

Por algum motivo, Djalma gosta de observar cachorros durante a passeata e, em maio do ano retrasado, sacou o celular para fazer o vídeo de um cão que se refrescava numa grade de ventilação. Já chegou a ver quatro caninos no mesmo ato, incluindo um que era puxado pela dona e não queria ir de jeito nenhum: ficou sentado e empacou de vez. “Estava protestando contra o protesto”, deduziu.

Morador do Jardim Peri Alto, Djalma vive dando depoimento para a mídia alternativa – seus dois streamers preferidos são o Arrow Collins e o Peixe Ninja, que às vezes ele acompanha de perto porque acha divertido. A grande imprensa nunca o procurou. Por despeito, ele às vezes vai para trás da barreira policial, onde costumam ficar os repórteres de televisão, e espera começarem as transmissões ao vivo. Então ele passa ao fundo do enquadramento fingindo descer uma escada.

***

Aos três anos de idade, Djalma sofreu uma infecção no ouvido e perdeu 70% da audição do lado esquerdo. Isso é bom e ruim: bom porque ele não se assusta tanto com as bombas, e ruim porque ele não escuta direito o que está se passando. “Nunca entendi uma palavra daqueles jograis do final”, ele admite. “Tenho que viver perguntando para as pessoas se já acabou, se estão dispersando.”

Seja qual for o assunto do protesto, ele sempre se confunde e escuta o povo gritar “lasanha”. Por exemplo:

“Da Copa, da Copa,
da Copa eu abro mão
Eu quero mais dinheiro
pra lasanha e educação”.

Ou

“Vai cair, vai cair
A lasanha vai cair”.

Por isso ele às vezes é visto rindo sozinho, e o sorriso dura até entender o que está sendo dito. (“Ninguém mais luta por lasanha”, lamenta.)

Ele também acha graça na sigla do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais, que em janeiro de 2014 organizou uma série de atos pela melhoria dos albergues da prefeitura. “Que catso esses caras estão fazendo aqui?”, ele repetia, trocadilhesco.

Muitos manifestantes fazem cara feia porque ele não leva o ativismo a sério. Djalma quase provocou uma confusão durante um debate na Praça Roosevelt, em julho do ano passado, quando os policiais jogaram bombas e detiveram advogados e manifestantes. No meio do drama, ele se aproximou de um integrante do Território Livre e sugeriu: “Sabe? Vocês deveriam arrumar outra palavra para usar no lugar de ‘debate’. Porque os caras escutam e só entendem ‘…bate…’. E dá nisso aí”.

***

Num sábado à noite, pela primeira vez, Djalma conseguiu convencer a esposa a acompanhá-lo num ato. Era o mês de junho e inúmeros coletivos se reuniram em uma “Grande Formação de Quadrilha pelos Presos Políticos”. Na ocasião, Dilma e Alckmin contraíram matrimônio, o jogador Ronaldo foi para a cadeia e “manifestantes” e “PMs” fizeram par numa dancinha antológica. Tudo correu bem, ainda que houvesse fileiras de policiais (de verdade) cercando a praça.

A quadrilha teve balancê, “caminho da Rota”, “caldeirão de Hamburgo” e outras figuras tradicionais das festas juninas.

“Olha a democracia!”
“É mentira…”
“O viaduto quebrou!”
“…”

Djalma ganhou uma máscara de PM, que era um xerox grudado num palito, ao passo que a esposa ficou com a máscara dos manifestantes. A polícia revistou e “cumprimentou” os ativistas, que retribuíram a gentileza na mesma medida. Teve até um túnel de corredor polonês patrocinado pela ala dos fardados, além de fogueira, pipoca e amendoim.

Ainda que estivesse muito frio, a esposa se divertiu e permitiu que Djalma continuasse participando das manifestações. Inclusive perguntou quando haveria outra festa junina, de repente ela poderia levar um bolinho para ajudar.

***

Ao longo do tempo, Djalma desenvolveu várias teorias sobre os comandantes das operações: nas áreas mais centrais, os coronéis Freitas e Mascarenhas são bons de papo, mas prendem até grávida; com o major Olavo não dá para conversar, mas ele sabe conter as tropas com pulso firme. Na zona sul, o tenente-coronel Tobias é um cara verdadeiramente legal. Encarregado das regiões mais nobres como Paulista e Jardins, o coronel Bastos deixou crescer o bigode e desde então tem sido generoso na aspersão de gás lacrimogêneo – consta até que já mirou no lendário Homem de Uma Perna Só. “Vão dizer que estou mentindo, mas, na manifestação do dia 16 de janeiro de 2014, eu vi o Homem de Uma Perna Só chutar uma bomba. Te juro. Tá aqui o Haroldo que não me deixa mentir.”

Haroldo é o melhor amigo de Djalma, e o único que aguenta suas graçolas associando os vapores tóxicos do gás de pimenta com os da escova progressiva. Ambos moram no mesmo bairro e se conheceram no centro, durante o “Futebol dos Excluídos” do padre Júlio Lancelotti. Haroldo estava trabalhando nas proximidades e ficou curioso para saber a natureza daquela aglomeração em frente à Sala São Paulo. Tímido, teve de reunir coragem para perguntar a Djalma, que explicou em minúcias do que se tratava e o apresentou a todos. Logo descobriram que eram praticamente vizinhos e ficaram trocando informações sobre conhecidos em comum. Haroldo ganhou uma camiseta, mas não quis jogar por vergonha. No final, juntou-se aos moradores de rua e recebeu um copo de chá e um sanduíche de presunto e queijo. A partir de então, procura Djalma para saber quando será a próxima manifestação e como irão resolver a logística – eles têm muito a aprontar e precisam se preparar com antecedência. Vão juntos, mas se separam quando o ato começa a andar. Haroldo vai para a rabeira e Djalma permanece no meio, rindo e gesticulando.

O amigo de Djalma é mais sério e costuma sumir diante do primeiro indício de tumulto. É menos sociável e mais desconfiado; não puxa conversa com ninguém e já foi confundido várias vezes com um P2, até que Djalma viesse em seu socorro. Também não tem a sagacidade do vizinho. Certa vez, num envelopamento próximo ao Metrô Butantã, foi prensado contra uma parede por uma fileira de policiais com escudos, que não o enxergaram por ele ser baixinho. A cena terminaria em tragédia, se os jovens não viessem socorrê-lo. Talvez pela primeira vez na vida, Haroldo ficou tão bravo, que foi tirar satisfações com o comandante. Conseguiu dizer apenas duas ou três frases de indignação e, para piorar, chamou o tenente-coronel de major.

Ele tem medo de sangue e mantém distância dos socorristas em serviço. Djalma, por sua vez, adora dar uma espiada nas rodinhas de feridos e não hesita em acudir manifestantes assustados, a quem oferece água e um apoio para sair do meio do bombardeio. Já viu fratura exposta, luxações, braço quebrado, buraco na cabeça, paulada generalizada, olho perdido, dentes arrancados. Estava presente quando surraram um policial no Terminal Parque Dom Pedro e não achou aquilo correto. Só não se meteu lá no meio porque acabaria apanhando também.

Viu socorristas serem agredidos repetidas vezes. Numa ocasião, um rapaz tirou o capacete para arrumar os óculos de proteção e tomou uma cacetada na cabeça. Estava com uma câmera na mão, e desmaiou. Em outra, Djalma viu um policial torcer sem dó o pulso de uma socorrista. Também jogaram spray de pimenta numa moça que estava sendo acudida e detiveram inúmeras vezes os membros do GAPP (Grupo de Apoio ao Protesto Popular), inclusive durante um atendimento de fratura no fêmur.

Em 17 de janeiro, Djalma testemunhou o momento em que um socorrista se aproximou de policiais que cercavam 18 detidos. O rapaz perguntou à tropa se havia algum ferido naquela aglomeração, pois ele tinha material de primeiros socorros.

Socorrista: “Aqui na mochila tem soro fisiológico, tem gaze…”
Policial, alarmado: “Gás?!?”
Socorrista: “Gaze! Gaze!”

Djalma repetia essa história aos amigos que ia encontrando, e em todas as ocasiões Haroldo caía na risada como se fosse a primeira vez. Quando não havia repressão, as manifestações eram um ponto alto na vida dos dois, uma oportunidade de travar contato com pessoas diferentes e conhecer a cidade sob um novo ângulo. Chegavam bem cedo e ficavam circulando pela área, cumprimentando conhecidos e perguntando quais eram suas expectativas para o evento. (Djalma quase sempre acertava. Tinha um instinto único para farejar repressão.) Nas poucas vezes em que os manifestantes conseguiam efetivamente terminar o ato – em vez de serem “terminados” –, ambos aplaudiam e se abraçavam, como se tivessem conseguido algo notável. Por outro lado, assim que começavam a ouvir bombas, tinham uma tática: sem correr, encostavam-se num dos cantos da rua e esperavam o tumulto passar. Se a polícia jogasse gás, cobriam os rostos com camisetas velhas. Se disparasse balas de borracha, escondiam-se atrás de um poste ou uma banca de jornal.

Numa manifestação em 9 de janeiro de 2015, acabaram se perdendo quando o Choque cercou a frente e a traseira do ato. Foram para lados opostos e Haroldo se deu bem refugiando-se junto a uma parede; Djalma, no entanto, ignorando os próprios preceitos de segurança, cruzou em disparada a Avenida Consolação e correu para a José Eusébio, uma travessa claustrofóbica ladeada pelos muros do cemitério. Foi um erro. A polícia veio na cola dos manifestantes, que tiveram de se espremer pela rua estreita, onde o gás se concentrou. Alguns desmaiaram, outros quase foram pisoteados. Djalma perdeu um tênis. Na outra ponta, na Avenida Angélica, uma tropa os aguardava.

Foi quando ele tomou seu primeiro tiro de bala de borracha, que na hora não doeu – só depois. Levado ao hospital, passou por uma microcirurgia para a retirada do projétil, que havia sido disparado a menos de cinco metros de distância e estava incrustado no braço, próximo ao cotovelo.

O curioso é que, nessas horas, em vez de sentir medo, Djalma ganhava mais força, como se a adrenalina o tomasse por inteiro e o impulsionasse para a manifestação seguinte. Haroldo dizia que, quanto mais o amigo apanhava, mais forte ele voltava. E mais piadista: na última manifestação contra o aumento da tarifa, quando lhe indagaram se a assembleia popular já havia definido o trajeto da marcha, ele respondeu: “Já. Vamos direto para o DEIC”, afirmou. “Para facilitar, né? Tem um monte de ônibus da polícia ali atrás, passe livre, o pessoal nem precisa andar.”

Alguns riram, outros só suspiraram.

Ninguém sabe tanto de ativismo político quanto Djalma, que vende água a dois reais – três por cinco – e fatura 200 reais nos dias “de manifestação boa”. Atrás da multidão, vai seu amigo Haroldo recolhendo papelão e latinhas de alumínio, com medo da chuva e das bombas que ameaçam cair.


VANESSA BARBARA, jornalista e escritora, colunista do time internacional do The New York Times desde 2013. É autora de Operação Impensável (Intrínseca, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura), Noites de Alface (Alfaguara, ganhador do Prix du Premier Roman Étranger) e O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, Prêmio Jabuti de Reportagem), entre outros.
JANIO SANTOS, designer e ilustrador da revista Continente.

Some Brazilian conservatives see the presidential candidate Jair Bolsonaro as representative of everything they value. They should look closer.

Supporters of the Brazilian right-wing presidential candidate Jair Bolsonaro at a rally on Sunday. Credit: Nelson Almeida/Agence France-Presse — Getty Images

The New York Times
Oct 24, 2018

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — For a liberal woman like me, it’s hard to understand why anyone would vote for a presidential candidate who has been described by international publications as “racist, homophobic and sexist” (Libération), “a threat to democracy” (The Economist), a “Trump of the tropics” (The Guardian), “a xenophobe” (Clarín) and a sympathizer with “military dictatorships and torturers” who has “openly expressed fascist ideas” (Zeit).

I’m referring, of course, to Jair Bolsonaro, the current front-runner to become the next president of Brazil. The far-right Mr. Bolsonaro is a former army officer who has served seven terms as a federal congressman, during which, according to Le Monde, he was “an insignificant politician from Brasília, better known for his verbal excesses than for his parliamentary activism.” Now, according to a recent survey by the polling firm Ibope, 59 percent of voters plan to support him in the second round of the elections, which will take place on Sunday. (Fernando Haddad, the candidate of the left-leaning Workers’ Party, has 41 percent of voters behind him.)

Mr. Bolsonaro’s ascendancy has deeply polarized Brazilian society. For the past decade, our presidential elections have been the stage for a center-left versus center-right face-off, which at times has provoked some heated debates — but now it feels like the house is burning down. More than ever, the election has become a battle over values — fairness versus equality, freedom versus authority, justice versus legality — in which both sides are appealing to the self-evident nature of their own views.

And so in an effort to understand my fellow Brazilians, I’ve turned to the work of the psychologist Jonathan Haidt, whose moral foundations theory makes an impressive attempt to connect people with differing political views. Having done so, I can concede that there’s something about Mr. Bolsonaro that activates deep moral intuitions in his supporters. Many people side with him not for his proposals but because to them, he has become a symbol of everything good. The problem is that these people are responding only to Mr. Bolsonaro the symbol — not Mr. Bolsonaro the man.

Mr. Bolsonaro speaks of fairness, for example. According to Mr. Haidt, fairness is about proportionality; it is the idea that people should get only what they deserve. Mr. Bolsonaro’s supporters are angry about the perceived abuse of social welfare programs such as Bolsa Família, which provides financial aid to poor families. They feel aggrieved by the image of people getting money without working. (They also don’t support affirmative action.)

That’s all understandable. And yet if that’s the case, why aren’t Mr. Bolsonaro’s voters more disturbed by the times he himself has violated principles of fairness? For many years, for instance, he received housing assistance from the Congress despite possessing an apartment in Brasília. When asked about this, he told a newspaper, in vulgar language, that he used the allowance to have sex. What about the fact that in his 26 years as a lawmaker, he secured the passage of only two bills, while at the same time multiplying his assets and those of his family? Mr. Bolsonaro and his sons possess have properties valued at $4 million, according to the newspaper Folha de S. Paulo.

Mr. Bolsonaro speaks of patriotism and authority — moral foundations that are important to conservatives. His campaign slogan is “Brazil above everything and God above everyone.” And yet, as a captain in the army in the 1980s, he was punished for disloyalty after writing an article in a magazine publicly complaining about his wages — an interesting display of respect for authority. He was later accused and convicted of planning to bomb military barracks as well as a pipeline that supplies water to Rio de Janeiro, also as part of his protest against low salaries. (Mr. Bolsonaro denies the bomb plan and was acquitted on appeal.)

According to military records, Mr. Bolsonaro’s superiors also considered him immature. For a brief time, he was involved in gold mining; his superior, Col. Carlos Pellegrino, said that the captain had ambitions “to seek by other means” — outside the military — “the opportunity to fulfill his aspirations to be a rich man.” So much for all that patriotism.

One thing is true, though: Mr. Bolsonaro is loyal. The Bolsonaro clan are a tight-knit bunch, many of them working in the same field. Mr. Bolsonaro is so supportive of traditional family structures that he has been married three times. His first wife, Rogéria, was a City Council member in Rio de Janeiro for two terms, with the support of her then-husband. His second wife, Ana Cristina, at one point accused him of threatening her, but eventually withdrew her complaint; she was running for Congress, but failed to get elected.

Three of his sons are also politicians: Flávio has just been elected to Brazil’s Senate; Eduardo was re-elected to the congress; and Carlos has been a City Council member in Rio de Janeiro since he was 17. Mr. Bolsonaro’s brother, Renato, tried and failed to be mayor of Miracatu and became a special aide to a City Council member. He was discharged from the job after a TV report revealed that he was getting paid without reporting to work.

Many conservative voters appreciate authority because it creates order. They aspire to elect a strong ruler with a firm grip on the country. However, I’m not sure Mr. Bolsonaro is capable of enforcing his command. One example: He acknowledges that he has only a “superficial understanding” of economics. When asked questions about taxes or public debt, he relies entirely on the judgment of his economic adviser, Paulo Guedes. In addition, after being stabbed in a recent street rally, he has refused to attend political debates with Mr. Haddad, which hasn’t made him sound authoritative or self-confident at all.

According to Mr. Haidt, conservative voters also place particular importance on the value of sanctity (or purity), rejecting ideas of degradation. But Mr. Bolsonaro would degrade our nation with his rudeness and ignorance. He has been disrespectful to women, homosexuals, blacks and indigenous people, and has shown an inability to represent our people with class and intelligence. He’s far from being a world leader.

When it comes to moral intuitions, Mr. Bolsonaro looks poised to fulfill conservative hopes only on the surface: Look closer, and he acts against everything they most cherish. Let’s hope Brazilians realize that — and quickly.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

Alguns conservadores brasileiros enxergam o candidato a presidente Jair Bolsonaro como representante de tudo aquilo que eles valorizam. Deviam olhar com mais cuidado.

Eleitores do candidato presidencial de direita Jair Bolsonaro em uma manifestação no domingo. Créditos: Nelson Almeida / Agence France-Presse — Getty Images

The New York Times
24 de outubro de 2018

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil — Para uma mulher liberal como eu, é difícil entender por que alguém votaria em um candidato a presidente que foi descrito pela imprensa internacional como “racista, homofóbico e sexista” (Libération), “uma ameaça à democracia” (The Economist), um “Trump dos trópicos” (The Guardian), “um xenófobo” (Clarín) e um simpatizante de “ditaduras militares e torturadores” que “expressou abertamente ideias fascistas” (Zeit).

Estou me referindo, é claro, a Jair Bolsonaro, o atual líder na corrida para se tornar o próximo presidente do Brasil. O candidato de extrema direita é um ex-capitão do Exército que serviu sete mandatos como deputado federal, período no qual, segundo o Le Monde, ele foi “um político insignificante de Brasília, mais conhecido por seus excessos verbais do que pelo ativismo parlamentar”. Agora, de acordo com uma pesquisa recente do Ibope, 59% dos eleitores pretendem apoiá-lo no segundo turno eleitoral que acontecerá no próximo domingo. (Fernando Haddad, o candidato de esquerda do Partido dos Trabalhadores, tem 41% de intenção de votos.)

A ascensão de Bolsonaro polarizou profundamente a sociedade brasileira. Na última década, nossas eleições foram palco de confrontos entre centro-esquerda e centro-direita que tantas vezes provocaram debates acalorados – mas agora parece que o circo está pegando fogo. Mais do que nunca, a eleição se tornou uma disputa sobre valores – equidade vs. igualdade, liberdade vs. autoridade, justiça vs. legalidade –, na qual ambos os lados estão apelando para a natureza óbvia de suas próprias visões.

Portanto, num esforço para entender meus compatriotas, voltei-me para o trabalho do psicólogo Jonathan Haidt, cuja teoria das fundações morais faz uma tentativa impressionante de conectar pessoas com diferentes visões políticas. Ao fazê-lo, devo admitir que existe algo em Bolsonaro que ativa profundas intuições morais em seus eleitores. Muita gente toma partido do candidato não por suas propostas, mas porque, para essas pessoas, ele se tornou um símbolo de tudo o que é bom. O problema é que essas pessoas estão apenas reagindo a Bolsonaro como símbolo – e não como ser humano.

Bolsonaro fala de equidade, por exemplo. De acordo com Haidt, a equidade diz respeito à proporcionalidade; é a ideia de que as pessoas apenas devem obter o que merecem. Os eleitores de Bolsonaro ficam zangados com o percebido abuso de programas sociais como o Bolsa Família, que provê apoio financeiro a famílias pobres. Eles se sentem ultrajados pela ideia de pessoas ganhando dinheiro sem trabalhar. (Também não apoiam ações afirmativas, como cotas em universidades.)

Tudo isso é compreensível. E ainda assim, se esse é o problema, por que os eleitores de Bolsonaro não ficam mais incomodados com as ocasiões em que ele mesmo violou princípios de equidade? Por muitos anos, por exemplo, ele recebeu auxílio-moradia do Congresso, apesar de possuir um apartamento em Brasília. Quando perguntado sobre isso, ele afirmou a um jornal, em linguagem chula, que usou o dinheiro para fazer sexo (“comer gente”). E quanto ao fato de que, após 26 anos como legislador, ele só conseguiu aprovar dois projetos de lei, enquanto multiplicava seus bens e os de sua família? Bolsonaro e os filhos têm um patrimônio de 15 milhões de reais, de acordo com o jornal Folha de S. Paulo.

Bolsonaro fala de patriotismo e autoridade – fundações morais importantes para os conservadores. O slogan de sua campanha é: “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. E ainda assim, enquanto capitão do Exército, nos anos 80, foi preso por deslealdade após escrever um artigo em uma revista reclamando publicamente de seu salário – uma demonstração peculiar de respeito à autoridade. Ele foi posteriormente indiciado e condenado por planejar pôr bombas em quartéis e em uma adutora que abastece o Rio de Janeiro, também como parte de seu protesto contra salários baixos. (Bolsonaro nega o plano das bombas e foi inocentado após recorrer.)

De acordo com registros militares, os superiores de Bolsonaro também o consideravam imaturo. Por um breve período, ele esteve envolvido com o garimpo de ouro; seu superior, coronel Carlos Pellegrino, disse que o capitão tinha ambições de “buscar por outros meios” – ou seja, fora do Exército – “a oportunidade de realizar sua aspiração de ser um homem rico”. Não é preciso dizer mais nada sobre todo aquele patriotismo.

Uma coisa é certa, porém: Bolsonaro é leal. O clã dos Bolsonaro é um bando coeso, e muitos de seus membros trabalham na mesma área. Bolsonaro é tão partidário das estruturas familiares tradicionais que se casou três vezes. Sua primeira esposa, Rogéria, foi vereadora do Rio de Janeiro por dois mandatos, com apoio do então marido. A segunda mulher, Ana Cristina, acusou Bolsonaro de ameaçá-la de morte, mas acabou retirando a queixa; ela concorreu a deputada federal, mas não conseguiu ser eleita.

Três de seus filhos também são políticos: Flávio acaba de ser eleito para o Senado; Eduardo foi reeleito como deputado federal; e Carlos é vereador do Rio de Janeiro desde os 17 anos de idade. O irmão de Bolsonaro, Renato, tentou e não conseguiu se eleger prefeito de Miracatu; depois se tornou assessor especial de um vereador. Foi exonerado do cargo depois que uma reportagem de TV descobriu que ele estava recebendo o salário sem aparecer para trabalhar.

Muitos conservadores apreciam a autoridade porque ela cria ordem. Eles desejam eleger um governante forte com um pulso firme no país. Porém, não sei se Bolsonaro é capaz de impor seu comando. Um exemplo: ele admite que tem apenas um “conhecimento superficial” de economia. Quando lhe fazem perguntas sobre impostos ou dívida pública, ele depende inteiramente do julgamento de seu assessor econômico, Paulo Guedes. Além disso, após ser esfaqueado em um evento recente de campanha, ele se recusa a comparecer a debates com Haddad, o que não o faz parecer nem um pouco competente ou autoconfiante.

De acordo com Haidt, os eleitores conservadores também dão uma importância singular ao valor da santidade (ou pureza), rejeitando ideias de degradação. Mas Bolsonaro degradaria o nosso país com sua rudeza e ignorância. Ele foi desrespeitoso às mulheres, aos homossexuais, aos negros e aos indígenas, e demonstra inabilidade em representar nosso povo com classe e inteligência. Está muito longe de ser um líder mundial.

Quando o assunto é intuições morais, Bolsonaro parece pronto para atender aos desejos dos conservadores, só que apenas na superfície: basta analisar mais detidamente para ver que ele age contra tudo o que eles mais valorizam. Vamos esperar que os brasileiros percebam isso – e rápido.


Vanessa Barbara é autora de dois romances e dois livros de não-ficção em português. É colunista de opinião do New York Times – Internacional. Tradução da autora.

Alexis Jang

The New York Times
August 27, 2018

by Vanessa Barbara
Trad. Uol Notícias

É preciso ter determinação para fazer um parto normal no Brasil, e não estou falando só do ato de dar à luz.

Meu país tem um dos índices mais altos de cesarianas do mundo: em 2015, elas corresponderam a 55% de todos os nascimentos. (Em comparação, nesse mesmo ano, os Estados Unidos tiveram um índice de 32% de cesáreas, ao passo que na Suécia estas representaram somente 17,4% dos nascimentos.)

É claro que cesáreas são necessárias e salvam vidas em certas situações, como em casos de prolapso do cordão umbilical ou de descolamento de placenta. Mas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), quando o índice de cesáreas supera os 10%, não há indícios de que elas ajudem a reduzir a mortalidade materna e neonatal; pelo contrário, a cirurgia pode levar a complicações consideráveis e é por isso que a OMS a recomenda somente quando necessário.

Esse definitivamente não é o caso aqui. Em hospitais particulares brasileiros, os índices de cesarianas são até mesmo mais altos do que em hospitais públicos, chegando a uma média de 84,6%. O procedimento é mais lucrativo para essas instituições, que precisam pensar no dinheiro, e mais conveniente para os médicos, que não precisam esperar por horas pelo processo natural do parto.

Assim, as cesáreas são recomendadas rotineiramente por uma série de pretextos, muitos deles tão implausíveis como: alergia a placenta, asma, escoliose, gengivite, bebê cabeludo demais, partida de futebol entre Atlético e Cruzeiro e, a mais criativa de todas, a teoria de que a evolução tornou o corpo feminino incompatível com o parto.

Cirurgia é a regra; parto vaginal, a exceção.

Então, quando expressei minha vontade de deixar a natureza seguir seu rumo antes do nascimento de minha filha, dois meses atrás, minha ginecologista-obstetra disse que ela consentiria “somente se tudo corresse perfeitamente até a data do parto”.

Ela não parecia notar que sua lógica estava invertida: o parto natural é que deveria ser a norma, a menos que houvesse algo de errado. Mas talvez isso fosse esperado de uma médica que, de acordo com números do meu plano de saúde, tem uma taxa de 80% de cesáreas. Quando perguntei por que ela não havia feito mais partos vaginais, ela disse que hoje em dia a maioria de suas pacientes enfrentavam complicações durante a gestação. Aparentemente o Brasil é o país das anomalias estatísticas.

Nós, que queremos um parto normal, muitas vezes precisamos recorrer a pequenas casas de parto com uma equipe de parteiras e enfermeiras, onde não costuma haver anestesia disponível, ou a hospitais públicos, onde, de acordo com um estudo da Fundação Perseu Abramo, as mulheres têm maior probabilidade de sofrer violência obstetrícia, ou seja, agressões físicas, sexuais e verbais da equipe médica durante o parto.

Uma terceira opção é contratar uma “equipe de parto” completa com profissionais particulares (composta de um obstetra ou uma parteira, uma enfermeira, uma doula, um anestesista e um neonatologista) que atende a paciente em casa ou em um hospital particular. Mas a maioria das mulheres não têm condições de pagar seus honorários, que giram em torno de US$ 4.000 (R$ 16,5 mil).

De qualquer forma, é necessário se preparar antecipadamente. Eu, por exemplo, li o “Intrapartum Care for a Positive Childbirth Experience” da OMS (ou “Cuidados para uma Experiência de Parto Positiva”). Também é preciso registrar um plano de parto com suas escolhas a respeito do processo.

O meu continha exigências que deveriam ser óbvias, tais como a possibilidade de se movimentar livremente durante o trabalho de parto, escolher a posição do expulsivo e ter a presença do meu marido na sala, além de uma longa lista de intervenções rotineiras – mas possivelmente prejudiciais – que eu não queria, como depilação pubiana, enema para evacuação e ruptura artificial de membranas.

Em minhas pesquisas também descobri que não existem indícios suficientes da eficácia de um procedimento chamado episiotomia, uma incisão cirúrgica da vagina feita supostamente para proteger o assoalho pélvico de lacerações. O procedimento foi amplamente adotado no passado, mas seu uso tem se reduzido continuamente ao longo das quatro últimas décadas, uma vez que os estudos têm mostrado que ele não somente não traz benefícios como também pode até contribuir para lacerações mais graves e disfunção do assoalho pélvico. Mas no Brasil as episiotomias ainda são realizadas em 53,5% dos partos.

Quando minha obstetra disse: “Eu faço episiotomias todas as vezes”, decidi procurar outro médico. (Ela também disse: “Ninguém merece um parto de 12 horas, certo?”, ainda que eu não fosse me incomodar com isso.)

Em vez de uma equipe inteira, decidi contratar somente um obstetra e uma enfermeira, que seriam complementados pela equipe do hospital. As contrações começaram em uma manhã de domingo, no meio de uma partida da Copa do Mundo entre a Inglaterra e o Panamá. Eu estava em casa quando comecei a me sentir estranha e pingar um pouco de sangue.

Quando começou a partida entre Japão e Senegal, eu já estava vomitando suco de laranja e ligando para a enfermeira desesperadamente. A certa altura vi um urubu preto pousando sobre o telhado do prédio vizinho. (É sério.)

Quando a enfermeira chegou, quatro horas após o início do trabalho de parto e várias duchas quentes depois, eu estava com quase 8 cm de dilatação. Corremos para um dos hospitais cobertos pelo meu plano de saúde (com uma taxa de 88% de cesáreas), onde me deram uma anestesia combinada de duplo bloqueio que me devolveu a alegria de viver.

A próxima etapa envolveu sete horas de exercícios, massagens e alguns passos de lindy hop ao som de “Fly Me to the Moon”. A equipe do hospital às vezes caía nos mesmos procedimentos de rotina incutidos neles por milhares de cesarianas: a obsessão com a assepsia, por exemplo, era absurda. Lembro-me claramente de uma enfermeira que tentava trocar um lençol sujo embaixo de mim enquanto eu tentava me concentrar em uma contração, embora já houvesse muito sangue e vômito por toda parte. Mais tarde vieram verificar, várias vezes, pontos cirúrgicos que não existiam.

Durante todo o processo, o anestesista do hospital não me deixou comer ou beber nada, para o caso de eu precisar de uma cesárea. (Uma revisão feita recentemente pela Cochrane, uma organização independente internacional que produz avaliações sistemáticas de evidências sobre tratamentos de saúde, não encontrou nenhum indicativo que justificasse esse protocolo.)

Quem poderia imaginar que, em jejum, passar várias horas em trabalho de parto começaria a soar impossível e uma cesárea começaria a parecer uma escolha sensata? Felizmente minha obstetra conseguiu contrabandear para o quarto vários copos de água e gelatina de pêssego, e foi assim que consegui dar à luz minha filha Mabel: com a ajuda de anestesia, exercícios e gelatina. Era quase meia-noite.

O fato de eu conseguir fazer isso sozinha e imediatamente segurar Mabel em meus braços, amamentando-a por quase uma hora, era um pequeno milagre em um cenário tão medicalizado e paternalista.

É uma pena que seja necessário tanto esforço, dinheiro e conhecimento para que uma mulher consiga ter o que deveria ser normal. Afinal, um parto vaginal é o desejo de 72% das mulheres brasileiras no começo de suas gestações; nos meses seguintes muitas delas são convencidas a fazerem cesáreas, às vezes só pela conveniência de seus médicos.

Pensando bem, isso não surpreende em um país onde o aborto ainda é ilegal. No parto, assim como em tantas outras questões relacionadas aos direitos da mulher, todos querem opinar sobre o que deveríamos fazer. Aqui, o verdadeiro milagre é uma mulher ser ouvida.


* Vanessa Barbara, colunista de opinião, é editora do site literário A Hortaliça e autora de dois romances e de duas obras de não ficção em português.

Este texto foi publicado em inglês na página A23 da edição nacional do The New York Times de 28 de agosto de 2018, com o título: Land of the C-Section.

Le1 (France)
3 Octobre 2018

Vanessa Barbara

J’AI UN NEVEU DE 8 ANS qui s’appelle Augusto. Comme tous les neveux de 8 ans, un de ses principaux passe-temps est de casser des choses : des roues de petites voitures, des lampes torches, un arbre de Noël, un bras de superhéros qu’il a jeté du haut du balcon… À chaque fois que ça arrive, comme quand un verre tombe et se brise en mille morceaux, la solution est la même : « Oh, mamie va réparer ! » (Mamie – ma mère, en l’occurrence – est connue pour ses capacités à coller, visser, remboîter et rafistoler les jouets.)

La situation ressemble à ce qui se passe au Brésil depuis quelques semaines. D’abord, la candidature de Luiz Inácio Lula da Silva, du Parti des travailleurs, a été bloquée par le Tribunal suprême électoral. Ensuite, les candidats du centre ont échoué à engranger des voix. Quand, donc, les sondages ont révélé que Bolsonaro – une vieille figure de l’extrême droite – se trouvait en tête des intentions de vote du premier tour de la présidentielle, le pays a réagi comme un petit garçon tout gêné après avoir fait tomber un vase. « Mamie va le réparer », dirent les Brésiliens à l’unisson.

À moins d’un mois des élections, un contingent énorme de grands-mères, de mères et de filles sont venues à la rescousse pour réparer les dégâts. Aux yeux d’une grande partie des femmes, la pire chose qui puisse arriver serait que Bolsonaro devienne président. Selon une étude récente de l’Ibope (Institut brésilien de l’opinion publique et de la statistique), 54 % des Brésiliennes ne voteraient jamais pour ce candidat. Parmi les électeurs de sexe masculin, seuls 37 % ont manifesté leur rejet.

Jair Bolsonaro est un ancien capitaine de l’armée brésilienne qui a été député fédéral pendant vingt-six ans. Au cours de cette période, il n’a voté que deux projets de loi, ainsi qu’un amendement constitutionnel exigeant l’émission de reçus lors des votes sur les urnes électroniques. Mais pour ses électeurs, cela ne change rien. Plus que son implication parlementaire, il est connu pour ses opinions en faveur de la torture et du coup d’État militaire de 1964, qui instaura une dictature de vingt années au Brésil. Il a dit par le passé que, s’il était président, il fermerait le Congrès et organiserait un coup d’État « le jour même ».

Le slogan de sa coalition est : « Le Brésil au-dessus de tout, Dieu au-dessus de tous. » Pour lui, « cette histoire d’État laïc, c’est n’importe quoi. L’État est chrétien et la minorité qui serait contre, qu’elle s’en aille. » Et d’ajouter : « Les minorités doivent s’incliner devant les majorités. »

Il ne faut donc pas s’étonner de son long passif de mépris et de commentaires désobligeants à l’égard de plusieurs segments de la population, et pas seulement des femmes. Il a déjà affirmé, par exemple, qu’il préférait que son fils meure dans un accident plutôt qu’il soit homosexuel. Il a qualifié les Amérindiens de « gens qui puent » et les réfugiés de « scories du monde ». Il y a quelques années, il a traité une députée fédérale de traînée et lui a dit qu’il ne la violerait pas parce qu’elle « ne le méritait pas », car elle était « très laide ». Il a aussi avoué qu’il paierait un salaire moins élevé à une femme car elle peut tomber enceinte.

Bolsonaro se vante de ne posséder qu’une compréhension superficielle de l’économie. Il veut autoriser le port d’armes pour les citoyens, défend la castration chimique pour les violeurs et dit que la police militaire brésilienne, une de celles qui tuent le plus au monde (1), « devrait tuer encore plus ».

C’est pour toutes ces raisons que les femmes ont décidé de prendre position. Le 30 août, une publicitaire de Bahia a créé un groupe Facebook appelé « Femmes unies contre Bolsonaro » qui, en quelques semaines, a atteint les 3 millions de participants. Ce groupe a été à l’origine du hashtag #EleNão (#PasLui) sur Twitter et a entraîné des manifestations massives qui ont rempli les rues de plusieurs villes du Brésil le 29 septembre.

Cette initiative a incité d’autres catégories de la population à se révolter contre le candidat. Nous avons vu par exemple une mobilisation des fonctionnaires contre Bolsonaro. Et aussi des couturières. Par un effet domino, d’autres groupes ont suivi : des scientifiques, des bibliothécaires, des enseignants, des médecins, des sages-femmes, des banquiers, des écrivains, des écologistes, des funkeiros (2), des cinéphiles, des brodeuses, des fumeurs de shit et des policiers antifascistes.

Même les adeptes du zen ont perdu patience. Un professeur a créé l’événement « Yoga et yogis contre Bolsonaro », exprimant son refus « de principes qui heurtent la culture de paix du yoga ».

Sur Facebook, 37 000 personnes ont manifesté leur intérêt pour l’événement « Les plantes contre Bolsonaro », qui avait comme slogan : « Pas même une laitue ne voudrait de ce candidat comme président. » Le mouvement « Les chiens contre Bolsonaro » a réuni 40 000 intéressés sur les réseaux sociaux. Quant au groupe « Sorcières contre Bolsonaro », il a rassemblé des milliers de féticheuses bien décidées à conjurer le péril à force de sortilèges et de coups de balai.

Un des événements les plus populaires a été « Psychologues contre Bolsonaro », dont on a profité pour qualifier de « profondément phallique » l’attirance du candidat pour les armes, et diagnostiquer une « confusion complète entre les stades oral et anal » dans son discours.

Dans le domaine de la musique, nous eûmes « Les joueurs de triangle contre Bolsonaro » et « Les contrebassistes contre le fascisme »…

Comme on peut le voir, il a suffi que les femmes viennent à la rescousse et les choses ont commencé à revenir à la normale. On espère que, le 7 octobre, Jair Bolsonaro n’obtiendra pas assez de voix pour atteindre le second tour. Là, oui, nous pourrons respirer, soulagées. Parce qu’une démocratie brisée, il n’y a aucune mamie qui sait la réparer.


1. En 2017, les forces de police brésiliennes ont tué plus de 5 000 personnes, soit 2,4 victimes pour 100 000 habitants. L’écrasante majorité sont de jeunes hommes noirs.

2. Amateurs de funk, la musique phare des favelas.

Traduction par AURÉLIEN FRANCISCO BARROS & HÉLÈNE SEINGIER. Illustration Stéphane Trapier. 

Vanessa Barbara: Née en 1982 à São Paulo, cette journaliste brésilienne est notamment l’auteur des Nuits de laitue (Zulma, 2015), qui lui a valu en France le prix du premier roman étranger 2015.

Le1 (França)
3 de outubro de 2018

por Vanessa Barbara

Tenho um sobrinho de 8 anos chamado Augusto. Como todos os sobrinhos de 8 anos, um de seus principais passatempos é o de quebrar coisas: rodas de carrinho, lanternas portáteis, uma árvore de Natal, o braço de um super-herói que ele arremessou do alto de uma varanda. Sempre que isso acontece, como quando um copo vai ao chão e quebra em caquinhos, a solução é a mesma: “Ah, a vovó conserta”. (A vovó – no caso, minha mãe – é conhecida por sua competência em colar, aparafusar, encaixar e remendar os brinquedos.)

Pode-se dizer que a situação é parecida com o que tem acontecido no Brasil nas últimas semanas. Primeiro, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, foi barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Depois, os candidatos de centro falharam em angariar votos. Quando, então, as pesquisas indicaram que o primeiro lugar na corrida presidencial era justamente Jair Bolsonaro – uma antiga figura da extrema direita –, o país agiu como um garotinho constrangido após derrubar um vaso. “A vovó conserta”, disseram os brasileiros em uníssono.

Faltando pouco mais de um mês para as eleições, um contingente enorme de avós, mães e filhas veio em socorro para consertar.

Na opinião de grande parte das mulheres, a pior coisa que pode acontecer é Bolsonaro se tornar presidente. De acordo com uma pesquisa recente do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), 54% das brasileiras jamais votaria no candidato. Entre os eleitores do sexo masculino, apenas 37% manifestou rejeição ao político.

Jair Bolsonaro é um ex-capitão do Exército que serviu como deputado federal por 26 anos. Durante esse período, aprovou apenas dois projetos de lei, além de uma emenda constitucional exigindo a emissão de recibos dos votos nas urnas eletrônicas. Mas nada disso faz diferença para seus eleitores. Mais do que pelo seu desempenho parlamentar, ele é conhecido por suas opiniões favoráveis à tortura e ao golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura de vinte anos no Brasil. No passado, ele já disse que, se fosse presidente, fecharia o Congresso e daria um golpe “no mesmo dia”.

O slogan de sua coligação é: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Para ele, “não tem essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude”, conforme disse em um discurso. E completou: “As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

Por isso não é de estranhar seu longo histórico de desrespeito e de comentários depreciativos a vários setores da população, não só às mulheres. Ele já afirmou, por exemplo, que preferia um filho morto em um acidente a um filho homossexual. Chamou os indígenas de fedorentos e os refugiados de “escória do mundo”. Anos atrás, xingou uma deputada federal de vagabunda e disse que não a estupraria porque ela “não merece”, por ser “muito feia”. Também confessou que pagaria um salário menor a uma mulher, pois ela pode engravidar.

Bolsonaro se gaba de possuir apenas um entendimento superficial de economia. Ele quer liberar as armas aos cidadãos, defende a castração química para estupradores e diz que a Polícia Militar brasileira, uma das que mais mata no mundo, “tinha que matar é mais”.

Por tudo isso é que as mulheres decidiram se posicionar. No dia 30 de agosto, uma publicitária da Bahia criou um grupo no Facebook chamado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, que em poucas semanas chegou aos 3 milhões de integrantes. O grupo deu origem a uma hashtag no Twitter, #EleNão, que também viralizou. E, por fim, levou a um protesto massivo que ocupou as ruas de várias cidades do Brasil no dia 29 de setembro.

A iniciativa das mulheres também inspirou outras categorias a se levantar contra o candidato. Tivemos, por exemplo, uma mobilização de servidores públicos contra Bolsonaro. E também de costureiras. Em um efeito dominó, outros grupos se seguiram: cientistas, bibliotecários, professores, médicos, parteiras, bancários, escritores, ambientalistas, funkeiros, cinéfilos, bordadeiras, maconheiros e policiais antifascismo.

Até os praticantes do zen perderam a paciência. Um instrutor criou o evento “Yogas e yoguines contra Bolsonaro”, manifestando repúdio aos “princípios que ferem a cultura de paz do Yoga”. E prometeu entoar na rua algumas palavras de ordem: no caso, o mantra sagrado “Om Shanti”.

No Facebook, 37 mil pessoas se interessaram pelo evento “Plantas contra Bolsonaro”, que teve como slogan: “Nem uma alface quer o candidato como presidente”. O protesto “Cachorros contra Bolsonaro” reuniu 40 mil interessados na rede. Já “Bruxas contra Bolsonaro” agregou milhares de feiticeiras empenhadas em excomungá-lo com magias e vassouradas.

Um dos eventos mais populares foi “Psicólogas(os) contra Bolsonaro”, que aproveitou para classificar como “profundamente fálico” o apreço do candidato por armas e diagnosticou uma “completa confusão entre a fase oral e anal” em seu discurso. Na área da música, tivemos “Triangulistas contra Bolsonaro” e “Contrabaixistas contra o fascista”.

Uma vez que a onda começou, ninguém foi capaz de segurar: tivemos “Comedores de espetinho contra Bolsonaro”, “Pombos de Osasco contra Bolsonaro” e “Apreciadores de gim-tônica contra Bolsonaro”. E ainda: “Pessoas com tipoia contra Bolsonaro”, “Filhotes de Golden Retriever contra Bolsonaro” e até “Irredutíveis gauleses contra Bolsonaro” (em menção a Asterix).

Como se vê, bastou que as mulheres viessem em socorro e as coisas já começaram a entrar nos eixos. Espera-se que, no dia 7 de outubro, Jair Bolsonaro não consiga votos suficientes para ir ao segundo turno. Aí, sim, poderemos respirar mais aliviadas.

Porque diante de uma possível democracia partida, não há vovó que consiga consertar.


Nascida em 1982 em São Paulo, a jornalista brasileira Vanessa Barbara é autora do romance Nuits de laitue (Zulma, 2015), vencedor do prêmio de melhor romance estrangeiro de 2015, na França.

Brazilian presidential politics have spiraled into chaos. What’s a voter to do?

Hundreds of thousand of Brazilians demonstrated against the extreme right-wing presidential candidate Jair Bolsonaro with the motto #EleNão (#NotHim) in Sao Paulo on Saturday. Credit: Gustavo Basso / NurPhoto, via Getty Images

The New York Times
Oct 2., 2018

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

Leer en español

SÃO PAULO, Brazil — Last month, just a few weeks before voting day, Cabo Daciolo announced a new strategy for the presidential elections here: He would spend 21 days in the mountains fasting and praying.

Mr. Daciolo is one of a dozen candidates on the ballot for the first-round of the elections, which will take place Sunday, and hilltop retreats aren’t his only unconventional election strategy: He recorded a video asking his supporters to stop donating money to his campaign and, instead, to pray for the country. One of his priorities, he says, is to protect Brazil from the domination of “the bankers, the New World Order, the Illuminati and the Freemasonry.” Mr. Daciolo has also boldly denounced plans for the establishment of Ursal, the Union of Socialist Republics of Latin America — a supposed conspiracy to suppress all borders between our countries in order to make one single Communist Latin American nation, which is, um, not a thing.

Brazilians are bracing for the end of a peculiar election period.

Another candidate, former President Luiz Inácio Lula da Silva, the front-runner in the polls — up until at least a month ago, when his eligibility was rejected by the Supreme Electoral Court — has been in prison since April. Mr. da Silva, one of the most popular politicians in Brazil’s history, is serving a 12-year prison term for corruption and money laundering.

But his trial was controversial. About three-quarters of Brazilians think that powerful people just want to keep him out of the election, according to a survey by Ipsos, a research company. His supporters consider Mr. da Silva, the most prominent politician in the left-leaning Workers’ Party, a victim of a biased judicial system. They say the evidence against him was weak, largely based on unreliable testimony obtained through plea bargains.

In August, the United Nations Human Rights Committee, a panel of independent experts, requested that the government “take all necessary measures to ensure that Lula can enjoy and exercise his political rights while in prison.” According to the experts, Mr. da Silva should be allowed to run as a candidate in the 2018 presidential elections, “until his appeals before the courts have been completed in fair judicial proceedings.” Under the so-called Clean Slate Law, approved in 2010 by Mr. da Silva himself, candidates are barred from holding public office for eight years if a criminal conviction has been upheld on appeal. (Mr. da Silva’s conviction was upheld by a three-judge panel in January.)

Mr. da Silva was officially kicked out of the race at the end of August. The Workers’ Party has put forward a substitute, the former São Paulo mayor and national education minister Fernando Haddad, but Mr. Haddad has less than four weeks to present himself and his case to voters. In some regions of the country, Mr. Haddad is so unknown that voters have referred to him, not infrequently, by seemingly random other names, such as “Mr. Andrade” and “Mr. Adauto.”

The new front-runner in the polls is a former military officer, Jair Bolsonaro. He is a far-right candidate promising political renewal despite having served seven terms as a federal congressman. In 26 years, he wrote 171 bills, of which two became law. (He also proposed and won passage of a constitutional amendment requiring electronic voting machines to issue a paper receipt.)

He acknowledges that he has only a “superficial understanding” of economics, but this hardly matters to his voters, who love him despite — or is it because of? — his multiple remarks insulting women, blacks, gays, refugees and indigenous people. Mr. Bolsonaro has recently been spared by the Supreme Court from a charge of inciting hatred, but was ordered to pay a female lawmaker after he said in a newspaper interview that she was “very ugly” and not “worth raping.”

Despite his provocative rhetoric, it was startling when, on Sept. 6, Mr. Bolsonaro was stabbed during a campaign rally. The assailant claimed to be following the orders of God. The candidate suffered serious abdominal injuries and spent 23 days hospitalized. (The stabbing had little effect on polls.)

Mr. Bolsonaro is nostalgic for the years when Brazil was a dictatorship; he’s been crusading for a return to military rule for more than two decades. “We will never resolve serious national problems with this irresponsible democracy,” he said back in 1993. A recent article in The Economist called him, accurately, “a threat to democracy.” Last month, he made a live video from his hospital bed in which he cast doubt on Brazil’s electronic voting system. “In the second round, the major worry is not losing the vote, but losing to fraud,” he said. There is a concern that he might not accept the results of the election if he loses.

Mr. Bolsonaro’s voter rejection level, at 42 percent, is the highest of all the candidates, according to recent data from the polling firm Ibope. It’s so high that a Facebook group called Mulheres Unidas Contra Bolsonaro (Women United Against Bolsonaro) gathered 2.5 million members in a couple of weeks. On Twitter, the hashtag #EleNão (NotHim) quickly went viral. But rejection levels for the Workers’ Party and Mr. Haddad are also strong, at 29 percent, especially among elites.

So we have a candidate who has been praying in the mountains, an ex-candidate in prison, one whose name no one can remember, and another who may be plotting against democracy.

Personally, I would love to vote for the 36-year-old social activist Guilherme Boulos, one of the main leaders of Brazil’s Homeless Workers’ Movement and a new force on the left. His priority is combating social inequality by enacting progressive tax reform while increasing public investment in infrastructure, housing, health care and education. His agenda is way more radical and less compromising than the one of the Workers’ Party.

But, according to polls, fewer Brazilians intend to vote for him than even the monastic Cabo Daciolo, with his concerns about the Freemasonry and the Illuminati. Under Brazilian election rules, there will be a second-round runoff between the two top candidates if no one wins a majority of votes on Sunday. So what is a social-justice-loving Brazilian who doesn’t want to see her country set back by decades to do? At the moment, the best option for tactical voting is Mr. Andrade.

I mean, Mr. Haddad.

But it’s a pity to see that, even in such an odd election contest, more people will still vote for delusions than leftist ideals.


Ms. Barbara is an author and a contributing opinion writer. 

A version of this article appears in print on , on Page A27 of the New York edition with the headline: In Brazil, Delusions of Democracy.

Cientos de miles de personas en Brasil se manifestaron en contra del candidato de ultraderecha Jair Bolsonaro con la consigna #EleNão (Él no) en São Paulo, el 29 de septiembre de 2018. Credit: Gustavo Basso/NurPhoto, vía Getty Images

The New York Times

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Read in English

SÃO PAULO — En septiembre, a pocas semanas de la primera vuelta electoral en Brasil, Cabo Daciolo anunció una nueva estrategia para las elecciones presidenciales: dijo que iba a pasar veintiún días de ayuno y rezo en las montañas.

Daciolo es uno de los más de diez candidatos presidenciales para la primera vuelta del 7 de octubre y sus retiros espirituales no son la única estrategia poco convencional. También grabó un video en el que les pide a sus partidarios que ya no donen fondos para su campaña sino que recen por el país. Dice que una de sus prioridades es proteger a Brasil de la dominación de “banqueros, el Nuevo Orden Mundial, los illuminati y los masones”. Daciolo, además, ha denunciado que hay planes para establecer la Ursal, Unión de Repúblicas Socialistas de América Latina; es una teoría de conspiración acerca de la eliminación de todas las fronteras entre los países para crear una sola nación comunista latinoamericana… y, claro, es algo que no existe.

Los brasileños ahora se preparan para el fin de un periodo electoral muy peculiar.

Otro candidato, el expresidente Luiz Inácio Lula da Silva —quien lideraba en las encuestas hasta hace un mes, cuando fue inhabilitado por el Tribunal Supremo Electoral— ha estado en prisión desde abril. Lula, uno de los políticos más populares de la historia brasileña, cumple una condena de doce años por cargos de corrupción y lavado de dinero.

Aunque su juicio fue controversial. Alrededor de tres cuartos de la población brasileña cree que los poderosos solamente quieren evitar que participe en la campaña, de acuerdo con una encuesta de la empresa de investigación Ipsos. Sus partidarios creen que Lula, la figura más destacada del Partido de los Trabajadores (PT), es víctima de un sistema judicial sesgado. Dicen que la evidencia en su contra era insuficiente y que fue obtenida en buena medida por testimonios no confiables de personas que hablaron a cambio de sentencias reducidas.

En agosto, el Comité de Derechos Humanos de la ONU, un pánel de expertos independientes, solicitó que el gobierno “tomara todas las medidas necesarias para asegurarse de que Lula pueda disfrutar y ejercer sus derechos políticos estando en prisión”. De acuerdo con los expertos, Lula sí debería poder postularse para las presidenciales “hasta que sus apelaciones ante todas las cortes sean completadas en procesos judiciales justos”. Con la llamada ley de ficha blanca, aprobada en 2010 por el mismo Lula, los candidatos tienen prohibido tener cargos públicos durante ocho años si se ha mantenido una condena penal después de una apelación. (El caso de Lula fue confirmado por un pánel de tres jueces en enero).

Lula fue oficialmente expulsado de la contienda en agosto. El PT postuló a un sustituto, el exalcalde de São Paulo y exministro de Educación Fernando Haddad, pero a él le quedan menos de cuatro semanas para presentarse a sí mismo a los votantes si es que llega a haber una segunda vuelta. En algunas regiones del país, Haddad es alguien tan poco conocido que los votantes se han referido a él por otros nombres como “Andrade” y “Adauto”.

El nuevo puntero en las encuestas es el antiguo oficial militar Jair Bolsonaro. Es un candidato de ultraderecha que promete una renovación política pese a que él mismo ha sido siete veces diputado federal. En veintiséis años en ese cargo escribió 171 proyectos y solo dos se volvieron ley. (También propuso y consiguió que se aprobara una enmienda constitucional para que se obtenga un recibo en papel tras usar las máquinas de voto electrónico).

Bolsonaro reconoce que solo tiene un “entendimiento superficial” de la economía, pero eso le importa poco a sus votantes, que lo aman pese a —¿o será justamente debido a?— sus múltiples declaraciones insultando a mujeres, afrobrasileños, personas homosexuales, refugiados e indígenas. Bolsonaro se salvó hace poco de enfrentar cargos de incentivar el odio por el Tribunal Supremo, pero le ordenaron pagarle a una legisladora sobre la que dijo en una entrevista que era “muy fea” y alguien a quien no “valdría la pena violar”.

Pese a su polémica retórica, fue sorpresivo que Bolsonaro fuera apuñalado en un mitin el pasado 6 de septiembre. El sospechoso asegura que seguía las órdenes de Dios. El candidato sufrió heridas abdominales severas y pasó veintitrés días en un hospital. (El apuñalamiento no parece haber tenido mucho efecto en los sondeos).

Bolsonaro se ha mostrado nostálgico por aquellos años en los que Brasil era una dictadura; durante más de dos décadas ha abogado por el regreso de un gobierno militar. “Nunca resolveremos los serios problemas nacionales con esta irresponsable democracia”, dijo en 1993. La revista The Economist lo calificó en un artículo reciente, de manera fiel, como “una amenaza a la democracia”. En septiembre transmitió en vivo desde su camilla en el hospital y arrojó dudas sobre el sistema de votación electrónica de Brasil. “En la segunda vuelta la principal preocupación no es perder el voto, sino perder por fraude”, dijo. Hay preocupaciones de que se niegue a aceptar los resultados de la elección en caso de que pierda.

El nivel de rechazo de los votantes hacia Bolsonaro, de 42 por ciento, es el más alto para todos los candidatos, de acuerdo con la encuestadora Ibope. Es una cifra tan alta que un grupo llamado Mulheres Unidas contra Bolsonaro (Mujeres unidas en contra de Bolsonaro) sumó 2,5 millones de integrantes en tan solo unas semanas. En Twitter, la etiqueta #EleNão (Él no) se volvió viral. Pero los niveles de rechazo al PT y a Haddad también son altos, de un 29 por ciento, sobre todo entre las élites.

Así que tenemos a un candidato que está rezando en las montañas, un excandidato en prisión, uno cuyo nombre nadie recuerda y otro que parece estar haciendo planes en contra de la democracia.

Personalmente, me encantaría votar por un activista social de 36 años llamado Guilherme Boulos, uno de los principales líderes del movimiento de Trabajadores Sin Techo y una fuerza emergente de la izquierda. Su prioridad es combatir la inequidad social al aumentar la inversión pública en infraestructura, vivienda, salud y educación. Su agenda política es mucho más radical que la del PT.

Pero según las encuestas hay menos brasileños que pretenden votar por Boulos que por el monástico Cabo Daciolo y sus preocupaciones sobre los masones y el iluminado. Las leyes electorales brasileñas establecen que debe haber un balotaje si ningún candidato consigue la mayoría de los votos este domingo. Entonces, ¿qué debe hacer algún brasileño que sí quiera justicia social y no quiera ver retroceder a su país? Por el momento, la mejor opción es un voto táctico por Andrade.

Digo, por Haddad.

Es una lástima que así sea y que en una campaña tan extraña más gente aún quiera votar por las ilusiones que por ideales de la izquierda.

Alexis Jang

The New York Times
Aug. 28, 2018

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — It takes determination to have a normal childbirth in Brazil, and I’m not talking about just getting through labor.

My country has one of the highest rates of cesarean sections in the world: In 2015, they accounted for 55 percent of all births. (By comparison, that same year, the United States had a C-section rate of 32 percent, while in Sweden, they accounted for just 17.4 percent of births.) Sure, C-sections are necessary and lifesaving in certain situations, like cord prolapses or placental abruptions. But according to the World Health Organization, once C-section rates climb higher than 10 percent, there is no evidence that they help reduce maternal and newborn mortality; on the contrary, the surgery can lead to significant complications, which is why the W.H.O. recommends it only be undertaken when medically necessary.

That’s definitely not the case here. In Brazilian private facilities, C-section rates are even higher than in public hospitals, reaching 84.6 percent. The procedure is more profitable for these institutions, which must think about money, and more convenient for doctors, who don’t have to wait hours for the natural processes of labor to unfold. And so, C-sections are routinely prescribed under an endless number of pretexts, many of them as implausible as: placental allergies, asthma, scoliosis, gingivitis, an excessively hairy baby, a soccer match between Atlético and Cruzeiro, and — most creative of all — the assumption that evolution made the female body incompatible with labor.

Surgery is the rule; vaginal childbirth is the exception.

So when I expressed my desire to let nature take its course ahead of the birth of my daughter two months ago, my ob-gyn told me she would assent “only if everything goes perfectly until the due date.” She didn’t seem to notice that her logic was inverted — natural labor should be the default unless something goes wrong — but perhaps that was to be expected from a physician who, according to insurance records, has an 80 percent C-section rate. When I asked why she hadn’t overseen more vaginal births, she said that nowadays, most of her patients face complications in their pregnancies. Brazil, it seems, is the land of statistical anomalies.

Those of us who want a normal delivery must often resort to small birthing centers with a staff of midwives and nurses, where epidurals are usually not available, or to public hospitals, where, according to a study by the Brazilian think tank Fundação Perseu Abramo, women are more likely to suffer obstetric violence — that is, physical, sexual, and verbal abuse from medical staff during labor. A third option is to hire a whole “birth team” of out-of-network professionals (composed of an obstetrician or midwife, a nurse, a doula, an anesthetist and a neonatologist) who attend to the patient at her home or in a private hospital. But most women cannot afford their fees, which hover around $4,000.

In any case, it’s necessary to prepare beforehand — I, for instance, read the W.H.O.’s “Intrapartum Care for a Positive Childbirth Experience” — and write down a birth plan with one’s choices concerning labor and delivery. Mine contained demands which should be self-evident, such as the ability to move around freely during labor, to choose the delivery position, and to have my husband present in the delivery room, as well as a long list of potentially harmful, but nonetheless routine interventions that I didn’t want, such as pubic shaving, the administration of an evacuation enema, and the artificial rupture of membranes.

In my research I also learned that there is a lack of evidence for the effectiveness of a procedure called an episiotomy, a surgical incision of the vagina that is performed to, supposedly, protect the pelvic floor from lacerations. The procedure was widely adopted in the past, but has undergone a steady decline over the last four decades as studies have shown that it not only does not provide benefits, but might even contribute to more severe lacerations and pelvic floor dysfunction. But in Brazil, episiotomies are still performed in 53.5 percent of births.

So, when my ob-gyn said, “I do perform episiotomies, every time,” I decided to find another doctor. (She also said, “Nobody deserves a 12-hour labor, right?” even though I would have been fine with it.)

Instead of a whole team, I decided to hire only an obstetrician and a nurse, who would be complemented by the staff at the hospital. The contractions began on a Sunday morning, in the middle of the World Cup match between England and Panama. I was at home when I started to feel weird and spotted some blood. By the time Japan vsSenegal had begun, I was vomiting orange juice and frantically calling the nurse. At some point, I saw a black vulture landing on the roof of a neighboring building (seriously).

When the nurse arrived, four hours into the start of labor and many hot showers later, I was almost 8 centimeters dilated. We rushed to one of the hospitals in my insurance plan’s network (with a C-section rate of 88.8 percent), where they gave me a combined spinal-epidural block that made life beautiful again.

The next stage took seven hours of exercises, massages, and a few lindy hop steps to the sounds of “Fly Me to the Moon.” The hospital staff sometimes fell into the same routine procedures drilled into them by thousands of C-section births: The obsession with sterility, for example, was absurd. I clearly remember a nurse aimlessly trying to change a dirty sheet under me while I tried to concentrate on a contraction, even though there was already blood and vomit everywhere in the room. Later, they would check me over many times for surgery stitches that didn’t exist.

During the whole process, the hospital’s anesthesiologist wouldn’t allow me to eat or drink anything, just in case it turned out I needed a C-section. (A recent review by Cochrane, a global independent organization that produces systematic assessments of evidence on health care, found no evidence supporting this protocol.) Who could have guessed that without any food, enduring hours of labor would start to feel impossible and a cesarean would start to look like a sensible choice? Luckily my obstetrician smuggled in several cups of water and peach Jell-O, and that was how I managed to deliver my daughter, Mabel: with the help of anesthetics, exercise and Jell-O. It was almost midnight.

The fact that I could do this by myself, and then immediately hold Mabel in my arms and nurse her for an hour was a little miracle of its own in such a medicalized, paternalistic setting. It’s a shame that it takes so much effort — and money, and knowledge — for a woman to get what should be normal. A vaginal birth is, after all, the wish of 72 percent of Brazilian women at the beginning of their pregnancies; then so many of them are persuaded to have a C-section in the months that follow, sometimes only for the convenience of their doctors.

But when you think about it, this is not a surprise in a country where abortion is still illegal. On childbirth, as on so many other matters concerning women’s rights, everybody wants to have a say in what we should do. Here, the real miracle is a woman being heard at all.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this article appears in print on , on Page A23 of the New York edition with the headline: Land of the C-Section.

Credit: Zeloot

The New York Times
June 18, 2018

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — Brazil becomes an odd place during the World Cup.

People are given time off from work when the national team is playing, so that they can go home and blow horns for three hours straight. Media coverage becomes even more soccer-oriented than usual: Topics like why Brazil’s mascot (Canarinho Pistola, whose name roughly translates as “easily pissed-off canary”) is better than FIFA’s official 2018 one (Zabivaka, a soccer-playing wolf) are suddenly deemed newsworthy. Politics grinds almost to a halt, even though every World Cup year is also a major election year. For a month, everything happens against a backdrop of soccer-related euphoria.

That worries me, because my daughter is due to be born on June 22, the day Brazil plays Costa Rica. It’s true that the exact date cannot be predicted, but she’ll certainly arrive sometime during the tournament. And everybody knows it’s easier to give birth on your own (with the help of some YouTube instructional videos) than it is to get the attention of any Brazilian during the World Cup — this applies to taxi drivers, to the staff in the hospital and even to the baby herself.

I know this because I was born during Brazil’s game against the Soviet Union in the 1982 World Cup, in Spain. It was an arduous childbirth — and it didn’t help matters that it coincided with an arduous match, making it the worst timing ever.

That day, my mother started to feel mild contractions in the morning and went to the hospital around noon, driven by my father and grandfather. After filling out admissions paperwork, she casually suggested that the two of them should go home, because everything would probably take some time. She didn’t even have the chance to repeat these words before they were gone; the first match of the day, Italy versus Poland, had already begun, and it would be followed by Brazil versus the U.S.S.R. at 4 p.m. My grandmother was mortified when she saw the two men coming home alone, but she couldn’t persuade them to go back.

While Italy and Poland faced off in a tedious and ultimately scoreless match in the city of Vigo, my mom dressed in a hospital gown and laid back on a table, where apparently, a team of nurses helped break her water. (She’s not sure of this, since nobody said anything about the procedure, but as soon as she got up, there was a puddle on the floor.) They then took her to a small room surrounded by glass windows. She settled in, and the nurses left to go about their work, pausing periodically in a TV room nearby, where the Brazil versus U.S.S.R. match was about to begin.

Those first few hours didn’t go smoothly. It was my mother’s first time going through normal labor — my older brother was born via a speedy C-section right after she ate eight slices of pizza — and she wasn’t quite prepared for what to expect. As the pain got more intense, she tried to breath through it and imagined she was somewhere else.

At the Ramón Sánchez Pizjuán Stadium, in Seville, things weren’t going well either. Local fans, who’d started out rooting for Brazil, changed their minds at the 17-minute mark, when the referee failed to award a penalty to the Soviets after one of our players pulled down one of their forwards as he was about to shoot. Spanish fans booed loudly and started to shout “Fuera Brasil!” (Out Brazil!)

As the pain became overwhelming, “I started to flail my arms and legs awkwardly,” my mom told me later. Brazil’s national team seemed to follow similar tactics, running aimlessly around the field and misplacing even the easiest passes. They also collided countless times with the photographers gathered around the pitch. Everything was falling apart. That year, Brazil had put together one of our best teams in history, but come game day, the players were acting as if they’d been taken by surprise by a sudden increase of prostaglandins and a baffling cervical dilation.

At the 34-minute mark, the Soviets took one lazy shot at the goal, which our goalkeeper let slip through his hands with equal laziness. The score was now 1-0, them. In São Paulo, my mom — scared and alone and epidural-less — was in despair. Unfortunately, the women in my family are very restrained — I’m trying to correct this terrible flaw for the next generation — so she didn’t scream. She just feverishly hoped that someone would appear to take care of her.

But the second half had just begun in Seville, and finally things were starting to look auspicious: Brazil went on the attack and local fans resumed their cheering. “I really don’t know what time it was, but somebody in the TV room finally saw me floundering and came to help,” my mom said.

Nobody told her anything about how dilated she was (nor did they tell her the score), but they did put her on the gynecological table, where two nurses covered her knees with a blue cloth. The obstetrician told her to push, but by then she was too exhausted to even breathe. She got an episiotomy. One of the nurses put her hands on my mother’s belly and started to help her.

I like to think that I was born at the exact moment when Doctor Sócrates — one of our most beloved players, a midfielder who was also a political activist and had a bachelor’s degree in medicine — dribbled past two Soviets, stabilized the ball as if preparing a patient for a surgery and shot it into the corner of the net. By then, my head had already emerged — or so I imagine — but at 7.5 pounds and 18 inches, I had to really stretch to see into the TV room and watch the Doctor’s feat, and as a result, I made it the rest of the way into the world (and immediately became a fan of Corinthians, the team for which he played.) Nobody heard me cry, because they were too busy celebrating.

“It’s a little girl,” the nurses announced. Doctor Sócrates marked the occasion by holding his fists up high in a gesture of victory.

The nurses cleaned me off, wrapped me up and showed me to my mother as if I were the original Jules Rimet Trophy. My mother’s first impressions of me were that of a cute, if very hairy, little baby. But I was born with jaundice and had to be quickly taken to the nursery for phototherapy. As my mother delivered the placenta and nurses sutured the cut, she heard some other shouts that could have been reactions to Brazil’s second and winning goal. Or not. It’s impossible to know for sure the chronology of that afternoon’s events.

All we know is that my father and grandfather came back after the end of the match and they were both very pleased with the efforts of our national team.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.