A Very Suspicious Traveler

Posted: 18th maio 2015 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
Tags: ,

The New York Times
May 17th, 2015

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — I DON’T know if I’ll ever be comfortable with the silence that comes after I’ve handed my papers to the passport control officer. In that moment, I instantly recall all my faults and sins from my childhood, including the day I accidentally broke an entire bowl of ceramic fruits from a friend’s dinner table. (I later tried to glue them back together.)

There should be a German word for this fear, something long and terrifying. Instead of being afraid to fly, I’m mortally afraid of landing and being judged by the officer at the airport, even if I don’t have anything to hide.

It started in Dublin Airport, seven years ago, when I forgot to put my return ticket in my hand luggage. It was my second time abroad, and also my honeymoon. My then husband and I planned to stay a week before going back to Brazil. But nobody had told me I should present the return ticket to the immigration officer as proof that I really intended to return, so I checked it with my luggage.

The officers interrogated us separately, as if they wanted to catch any divergences. I showed them our printed hotel reservation, but they insisted on confirming the information by telephone; for some reason, the hotel clerk said we’d booked a room for one day only. Near tears, I mumbled in broken English. It was almost 6 p.m. and we were starving. Finally they took pity on us and let us in, stamping a seven-day travel visa. “She would never fit in our system,” one officer said — implying that, if my plan was to find a job there and stay on as an illegal immigrant, I wouldn’t have any luck anyway.

I thought that, being more cautious, I would never face this situation again, but there’s definitely something wrong with me. (In the mornings, I usually think it’s my hair.) A few years later, I had a hard time entering Britain, even after presenting my return ticket and hotel reservation. The officer asked me several times what the purpose of my visit was (“tourism,” I kept repeating) and then remarked: “Long trip, huh?” On another occasion, I was scolded for having answered “three weeks” instead of “19 days.” “It’s not the same thing, ma’am,” a grumpy officer said.

The U.K. border control is a nightmare for many Brazilians. Last year, according to British Home Office immigration statistics, around 18,000 travelers — .015 percent of the total number of visitors — were refused entry to the country. Americans, Albanians and Brazilians were the three most refused nationalities upon arrival, in absolute numbers. At Heathrow Airport, a friend of mine was once handcuffed and sent back to Brazil because her student visa had expired.

Sometimes I get so nervous at passport control that I start to find myself suspicious. In China, an officer asked me twice what I intended to do alone in Beijing (“tourism,” again) and then gave me a seven-day visa when I had planned to stay for 10. On another occasion, my friends — and my baggage — were allowed to board a ferry to Hong Kong while I was kept in Macau. I started to wonder why I bother traveling at all, instead of staying home in my pajamas.

Two years ago, my passport control angst led me to get a European passport (which I could do because my grandparents were Portuguese), hoping this would make me look less like a potential illegal immigrant in the eyes of the world. But now I’m afraid I look even more suspicious, since having two passports is obviously a spy thing.

Brazilian citizens are able to enter 146 countries either without a visa or by receiving one upon arrival. This makes us 21st in the world in terms of freedom of travel, according to the 2014 Henley & Partners Visa Restrictions Index. At the top of the list, with visa-free travel to 174 countries each, are the United States, Britain, Finland, Germany and Sweden. Afghans have the worst access, being able to enter only 28 countries without a visa, followed by Iraqis, with 31.

Before traveling to the United States, Brazilians must apply for a tourist visa. It costs $160 and takes a few weeks to be issued. The procedure involves filling out a long form that asks if you have tuberculosis or a mental disorder, if you’re a terrorist or a saboteur, or if you ever contributed to any charitable organization. The applicant must schedule both a personal interview and an appointment for fingerprints and a photograph.

Despite all that, a visa does not guarantee entry; Customs and Border Protection officials still have the authority to deny admission. In 2014, 223,712 people were refused entry to the United States. Grounds for inadmissibility included immigration violations and national security reasons. Sometimes, no justification was given.

I’ve never tried my luck at United States passport control before. Next week will be my first time, as I’m heading to New York for a three-week vacation.

Sorry, I mean 22 days.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
11 de maio de 2015

por Vanessa Barbara

Não sei quem foi que começou, mas, de uns tempos pra cá, a imprensa tem replicado sem reservas uma informação em suas matérias sobre a dengue. De acordo com uma infinidade de reportagens, a Organização Mundial de Saúde classifica como “epidemia” quando há mais de 300 casos de dengue por 100 mil habitantes. (Alguns dizem que a classificação é do Ministério da Saúde, e não da OMS.)

Só que, até onde pude apurar, nenhum jornalista se deu ao trabalho de procurar a fonte primária desse dado, limitando-se a replicar outros veículos de imprensa. Numa busca, a única coisa que consegui saber com certeza é que o Ministério da Saúde afirmou que mais de 300 casos/100.000 habitantes caracteriza “alta incidência” da doença. E só.

Não há dúvidas de que o surto deste ano é grave (a despeito das evasivas do governo) e que podemos chamá-lo de epidemia, mas só porque a definição do termo é ampla o suficiente para permiti-lo; não porque essa seja uma categoria usada por algum órgão oficial. (Se alguém de fato tiver esse dado, por favor compartilhe e eu mordo a língua. Não vale citar a imprensa, tem que ser a fonte original.)

Tais deslizes podem parecer pequenos, mas são perigosos porque dão respaldo a todo tipo de negligência e má-fé jornalística. Os veículos brasileiros não costumam ter departamento de checagem, portanto cabe ao repórter certificar-se duplamente da origem e da veracidade da informação que repassa.

Mesmo o New York Times, com seu torturante departamento de checagem, às vezes publica mitos como se fossem fatos, à la Facebook. Encontrei um desses erros há um ano em uma matéria sobre hábitos de leitura dos mexicanos. O autor citava um certo estudo da Unesco que nunca existiu, mas que foi vastamente noticiado, e o descuido passou batido pela checagem. Meu trabalho detetivesco acabou gerando uma errata. (Fiquei feliz porque, dessa vez, a culpa não era minha.)

Anos atrás, a imprensa afirmou que os árabes liam, em média, seis minutos por ano, segundo um estudo da Unesco. O jornal Al-Akhbar foi checar essa informação e não obteve sucesso. Um funcionário da Unesco entrevistado disse que a entidade “é uma dessas organizações às quais as pessoas gostam de atribuir estudos estatísticos quando desejam dar credibilidade a algo”. Cauteloso, o Al-Akhbar entrou em contato com jornalistas e acadêmicos que acabaram confessando ter obtido a informação de segunda mão.

“Para uma estatística repetida com tanta frequência, é peculiar que não se consiga traçar sua origem, mas é ainda mais peculiar que as pessoas estejam tão dispostas a repassá-la como um fato”, afirmou a jornalista Leah Caldwell, que assina a matéria.

Alguns veículos de imprensa se apressariam em classificar tal hábito como uma epidemia.

Dez dias de dengue (tradução)

Posted: 7th maio 2015 by Vanessa Barbara in Traduções
Tags: , , , ,

The International New York Times
1 de maio de 2015

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil — Em março, passei dez dias na cama, basicamente me queixando e ingerindo vastas quantidades de pera – o único alimento que eu conseguia achar remotamente apetecível. Fui um dos cerca de 500 mil brasileiros infectados por dengue nos primeiros três meses de 2015, quase metade deles no estado de São Paulo. Um mosquito chamado Aedes aegypti transmite a doença tropical, que, em casos extremos, pode levar a hemorragia interna, falência de órgãos e morte. Nesses três meses, 132 brasileiros morreram de dengue – mais de um por dia.

Fui provavelmente infectada em casa, a despeito das medidas domésticas de segurança máxima que adotei.

Passo repelente nas pernas. Todas as janelas e portas da casa estão equipadas de telas, mas ainda assim mantenho duas raquetes de mosquito à mão. Elas têm o formato de raquetes de tênis e descarregam um choque elétrico suficiente para matar insetos. Uma delas fica no quarto, onde trabalho, e a outra na sala, onde assisto filmes enquanto rebato mosquitos vigorosamente como por esporte.

Apesar das precauções, os pernilongos continuam me picando sem dó. Essa primeira semana de março não foi diferente das anteriores, passada inteiramente trabalhando em casa e fritando mosquitos.

Então, no domingo, acordei cansada e febril, com uma temperatura de quase 39 graus. Estava exausta e com uma dor de cabeça irritante. Mas nada de dor de garganta, tosse ou substâncias viscosas escorrendo pelo nariz. Então procurei o dr. Google e aprendi que uma febre súbita sem os sintomas típicos de um resfriado é evidência de dengue (ou chikungunya, outra doença transmitida pelo mesmo mosquito listrado).

Lembrei imediatamente de todos os anúncios governamentais na TV e em revistas que orientavam as pessoas a buscar ajuda médica em caso de suspeita de dengue, e achei quase um dever cívico ir até o hospital. Não há cura para a dengue, mas um tratamento precoce pode diminuir o índice de mortalidade para 1%. Além disso, eu estava tomando um anti-inflamatório chamado meloxicam para aliviar uma dor no pescoço e precisava saber, com certeza, se podia continuar com o tratamento. (Todo brasileiro sabe que pacientes com suspeita de dengue não devem tomar aspirina porque isso pode agravar hemorragias.)

Passei mais de três horas na sala de espera de um hospital particular coberto pelo meu plano de saúde antes que o médico pudesse dar uma olhada no meu hemograma. Então ele disse que estava tudo bem, e que exames específicos para dengue só podiam ser feitos seis dias após os primeiros sintomas. “Sim, pode ser dengue”, ele afirmou. “Mas, sinceramente, pode ser qualquer coisa.” Ele disse que eu podia continuar tomando o meloxicam e me mandou pra casa com uma receita de paracetamol para baixar a febre.

Fiquei aliviada, até que recorri de novo ao dr. Google. Aparentemente é possível fazer um exame de sangue para dengue após o primeiro dia de febre, antes que os anticorpos apareçam. O teste que detecta o antígeno NS1 é barato e confiável. Também descobri que não era nada recomendável continuar tomando o meloxicam porque, como a aspirina, ele também podia aumentar o risco de hemorragias; meu ortopedista telefonou no dia seguinte me proibindo de fazê-lo.

Acredito que o médico do hospital não reportou meu caso como dengue, portanto não estou incluída nas estatísticas do Ministério da Saúde. Levei três semanas para confirmar que foi mesmo dengue, após fazer uma sorologia em um laboratório particular que comprovou a presença de anticorpos contra a doença no meu sangue.

A situação é ainda pior no sistema público de saúde. Semanas atrás, um amigo com sintomas de dengue esperou por mais de quatro horas num AMA (Assistência Médica Ambulatorial) em Aricanduva. Devido ao excesso de pacientes, disseram que ele só poderia agendar um hemograma para dali a um ou dois dias, e que os resultados demorariam mais alguns dias para serem processados. Exames de sorologia estavam fora de questão. “Pacientes que chegam depois das 4 da tarde só conseguem marcar para o dia seguinte”, ele me contou. “A médica me aconselhou a voltar ‘caso a dengue seja hemorrágica’.”

A prefeitura de São Paulo está fazendo um esforço para suprir as lacunas. Semanas atrás, ergueu tendas de emergência para tratar pacientes em áreas de alto risco e chegou a pedir ajuda do Exército.

A dengue é endêmica no Brasil, com surtos regulares sobretudo na estação das chuvas, que vai de janeiro a maio. Há quem diga que o principal motivo da epidemia deste ano em São Paulo é a crise hídrica. Uma infraestrutura obsoleta e a falta de investimentos na área transformaram uma simples estiagem em uma grave situação de escassez, e as pessoas se viram forçadas a armazenar água em recipientes abertos, que são os criadouros perfeitos para pernilongos.

Mas a mesma história se repete todo ano, com diferentes desculpas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a incidência de dengue em todo o mundo aumentou trinta vezes nos últimos cinquenta anos. Hoje, mais de 40% da população mundial corre o risco de ser infectada, inclusive em países desenvolvidos. O vírus tem pelo menos quatro subtipos diferentes, ou sorotipos, então mesmo que você já tenha tido dengue uma vez, continua suscetível aos demais tipos. Infecções subsequentes elevam o risco de complicações mais graves. Até o momento, não há vacinas confiáveis contra a doença.

Minha febre persistiu por quase uma semana. Também desenvolvi uma dor de cabeça bem atrás dos olhos – outro sintoma clássico de dengue. Fiquei tonta e muito fraca, tanto que não conseguia nem espremer a pasta de dentes. A doença é também chamada de “febre quebra-ossos”, por causa da forte dor muscular e articular que provoca. Tudo o que eu conseguia fazer era dormir, beber água e comer frutas.

Na sexta-feira à noite, minha febre baixou, bem como a minha pressão arterial. Toda vez que eu me levantava, o mundo girava e eu precisava me sentar – às vezes no corredor ou no chão da cozinha – se não quisesse desmaiar. Também tive erupções de pele nas pernas e braços. Esses sintomas podem indicar a progressão para a dengue hemorrágica, a forma mais grave da doença, com taxas de mortalidade que chegam a 20%.

Mas, desta vez, eu e o dr. Google decidimos esperar, e, com o passar dos dias, fui melhorando. No fim, só o que restou foi uma pequena fraqueza – e mais três outros subtipos de dengue para pegar.

 


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do NYT. 

Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 1 de maio de 2015. Tradução da autora.

Vende-se até o título

Posted: 5th maio 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
Tags:

SweetSmell460

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
4 de maio de 2015

por Vanessa Barbara

Nunca tinha assistido ao filme A embriaguez do sucesso (Sweet Smell of Success, 1957), um drama noir com Tony Curtis e Burt Lancaster.

O longa fala de J. J. Hunsecker, um influente colunista social nova-iorquino que tem o poder de salvar ou destruir reputações – e o utiliza como lhe convém. Seu parceiro Sidney Falco é um inescrupuloso assessor de imprensa cujo objetivo é alavancar a própria carreira, mesmo que à custa de enganar seus clientes. Ambos se unem para arruinar a reputação de um jovem músico de jazz que deseja se casar com a irmã de Hunsecker – e conseguem fazê-lo sem que o colunista tenha que sujar diretamente as mãos. “Ele tem os escrúpulos de um porquinho-da-índia e a ética de um gângster”, descreve um dos personagens. “Eu nunca daria uma mordida em você. É um biscoito recheado de arsênico”, declara Hunsecker a Falco, que sorri, orgulhoso.

Naturalmente, o filme me deu várias ideias.

Em primeiro lugar, a partir de agora só vou escrever sobre assuntos que me tragam algum proveito pessoal, por exemplo: as próximas oito colunas falarão sobre a urgência de uma estação de metrô no Mandaqui e de uma escola de sapateado no Lauzane. Entrarei em conluio com uma confeitaria de minha predileção para publicar elogios que serão convertidos em bolos.

A partir daí, acatarei sugestões de pauta oferecidas durante jantares de graça e hospedagens em casas de campo luxuosas de grandes barões da comunicação. Contratarei um porteiro para receber brindes das empresas – estou precisando de um tênis novo e de uma raquete de matar mosquitos –, e subitamente serei obrigada a abrir uma conta no HSBC da Suíça. Um simpático corretor de imóveis, preocupado em diminuir o déficit de moradia neste país, me oferecerá um apartamento em área nobre por metade do preço, com varanda gourmet. Todos passarão a ser muito gentis, ainda que eu continue despenteada.

Irão me convidar para eventos de estirpe e ganharei prêmios inventados só para o meu agrado. Não só conseguirei pagar as minhas contas como me tornarei cliente premium do banco, o que significa que pagarei menos taxas, terei melhores oportunidades de investimento e o gerente deixará de fazer bullying com o meu saldo em conta.

Lá por agosto, quando já estiver elogiando políticos de moral duvidosa e advogando para grandes empreiteiras, serei finalmente aceita entre os meus coleguinhas de poder, o que me autorizará a lutar pelos interesses de quem me for mais persuasivo. Encontrarei belos argumentos em socorro de meus aliados e perdoarei suas faltas usando palavras como “governabilidade” e “golpismo”. Serei utilitarista e pragmática.

E chegarei mais cedo em casa utilizando os préstimos da linha Ocre do metrô, que ligará o Sapopemba ao Mandaqui com trens de última geração e um sistema de sprinkler acionado automaticamente quando faz muito calor.

Governo do Estado de São Paulo. Trabalhando por você.

The International New York Times
May 1, 2015

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — In March, I spent 10 days in bed, mostly moaning and eating large quantities of pears — the only food I found remotely appetizing. I was one of the roughly 500,000 Brazilians infected with dengue fever in the first three months of 2015, over half of them in the state of São Paulo, according to the Ministry of Health. Here, a mosquito called Aedes aegypti spreads the tropical disease, which, in extreme cases, can lead to internal bleeding, organ failure and death. In those three months, 132 Brazilians died of dengue fever — more than one a day.

I had probably been infected at home, despite my maximum-security domestic measures.

I cover my legs with insect repellent. All of my windows and doors are equipped with mosquito nets, but I still keep two electric mosquito swatters inside the house. The swatters are shaped like tennis rackets and deliver an electric shock strong enough to kill bugs. One stays in the bedroom, where I work, and the other in the living room, where I watch movies while violently hitting insects as if for sport.

Despite the precautions, the bugs keep biting me without mercy. That first week of March was no different from the others, spent entirely working and roasting mosquitoes at home.

Then, on Sunday, I woke up tired and feverish, with a temperature of 102 degrees. I was exhausted and had an annoying headache. But no sore throat, no cough and no viscous substances running through my nose. So I reached Dr. Google and learned that a sudden fever not accompanied by typical flu symptoms is evidence of dengue (or chikungunya, another disease brought on by the same striped mosquito).

I promptly recalled all the public awareness ads on TV and in magazines urging people to seek immediate medical attention if they suspect they have dengue, and I felt almost a civic duty to report to a hospital. There is no cure for dengue, but timely treatment lowers the death rate below 1 percent. Also, I was taking a prescription anti-inflammatory drug called meloxicam to relieve neck pain and I needed to know, for sure, if I should keep taking it. (Every Brazilian knows that dengue patients shouldn’t take aspirin because it can aggravate bleeding.)

I spent more than three hours in the waiting room of a private hospital covered by my health insurance before the doctor could take a look at my blood count. He then said it was fine. He proceeded to tell me that specific tests for dengue fever could be performed only six days after the first symptoms. “Yes, it could be dengue,” he told me. “But honestly it could be anything.” He said it was fine to keep taking the meloxicam, and sent me home with a prescription to reduce my fever.

I was relieved, until I resorted again to Dr. Google. Apparently it is possible to test for dengue after the first day of fever, before antibodies appear. The NS1 antigen test is cheap and reliable. I also learned that it was definitely not advisable to continue to take meloxicam because, like aspirin, it could also raise the risk of bleeding; my orthopedist called the next day to forbid me from doing it.

I assume the doctor I saw at the hospital didn’t report me as having dengue, so I guess I’m not included in the Ministry of Health statistics. It took three weeks for me to find out for sure it was dengue, after a test at a private laboratory showed that my blood serum contained antibodies to the disease.

The situation is even worse within the public health system. Recently, a friend with symptoms of dengue fever waited more than four hours to be seen by a doctor in a community health care center. Because of the excess of patients, he was told he couldn’t get a blood count test for another day or two, and the results would take several more days to be processed. Blood serum tests were out of the question. “Patients who arrive after 4 p.m. are told to return the next day,” he told me. “My doctor advised me to return ‘if the dengue was hemorrhagic.’ ”

The São Paulo authorities are making an effort to fill in the gaps. The city recently set up medical tents to treat patients in high-risk areas and even called in the army to help.

Dengue is endemic to Brazil, and there are regular cycles of outbreaks, especially during the rainy season, from January to May. Some say that the main reason for the epidemic this year in São Paulo is the current water crisis. Outdated water infrastructure and a lack of investment have turned an ordinary drought into a serious shortage, and people have been forced to store water in open containers, which are perfect breeding grounds for mosquitoes.

But the same story plays out every year, with different excuses. According to the World Health Organization, the incidence of dengue worldwide has increased thirtyfold over the last 50 years. More than 40 percent of the world’s population is now at risk of being infected, including people in developed countries. The virus has at least four different strains, or serotypes, so even if you’ve had dengue once, you’re still vulnerable to the other types. Subsequent infections increase the risk of severe complications. So far, there’s no reliable vaccine against it.

My fever persisted for almost a week. I also developed a headache right behind my eyes — another classic symptom of dengue. I was dizzy and very weak, so much so that I couldn’t squeeze the toothpaste. The disease is also called “breakbone fever,” because of the intense muscle and joint pain it causes. All I could do was sleep, drink water and eat a little fruit.

By Friday evening, my fever had dropped, but so did my blood pressure. Every time I stood up, the world spun and I had to sit down — sometimes in the corridor or on the kitchen floor — so that I wouldn’t faint. I also broke out in a rash on my legs and arms. These symptoms could indicate a progression to dengue hemorrhagic fever, the severest form of the disease, with fatality rates as high as 20 percent.

But, this time, Dr. Google and I made the decision to wait. And, as the days passed, I got better and better. In the end, all that remained was some minor weakness — and three other subtypes of virus to catch.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo and the editor of the literary website A Hortaliça.

brazilblacks-master675

Lianne Milton para The New York Times

The New York Times – America
En español
April 1, 2015

por Vanessa Barbara

SAO PAULO, Brasil — Un viernes por la noche en febrero, hubo un corte de electricidad en las calles de Palmeirinha, una favela de Rio de Janeiro. Tres adolescentes negros estaban jugueteando frente a su casa. Uno de ellos echó a correr y los otros dos lo siguieron, riendo. En ese momento llegó la policía disparando. Chauan Jambre Cezário, de 19 años de edad, fue herido de gravedad. Alan de Souza Lima, de 15 años, murió allí mismo con el celular en la mano: él había grabado todo en video, hasta sus últimos minutos de agonía.

Según el reporte oficial emitido al día siguiente, los chicos fueron baleados después de enfrentarse a la policía. Los agentes dijeron haber encontrado dos armas en el sitio y acusaron a Cezário de haberse resistido al arresto. El chico, que vende helados en la playa de Ipanema, fue llevado a la sala de urgencias y esposado a la cama.

Los cargos fueron retirados, pero la experiencia de Cezário, junto con la muerte de su joven amigo, narra una historia de violencia contra los jóvenes negros en Brasil.

Los afro-brasileños – gente que se identifica como negra o marrón – constituyen el 53 por ciento de nuestra población, de un total de 106 millones de habitantes. Es la población negra más grande del mundo fuera de África y la segunda después de Nigeria. Según el Fondo de Naciones Unidas para la Infancia, los brasileños negros de 12 a 18 años de edad tienen tres veces más posibilidades de ser asesinados que los blancos de su misma edad. Una investigación del Fondo Brasileño de Seguridad Pública encontró que los brasileños negros representan el 68 por ciento de todas las víctimas de homicidio.

Pero también tienen más posibilidades de morir a manos de la policía. Un estudio de la Universidad de San Carlos muestra que 58 por ciento de todas las personas asesinadas en Sao Paulo por la policía militar son negras. Y constituyen el 62 por ciento de todas las personas encarceladas en todo el país.

“Cuando vemos una patrulla de policía, se nos paraliza el corazón”, me dijo Luiz Roberto Lima, fotógrafo negro de Río de Janeiro que vivió en las calles en su adolescencia. “Nos pueden matar solo por estar en la calle, por defender nuestros derechos o por puro gusto. Y aunque no tengamos antecedentes penales nos pueden inventar algo en contra nuestra.”

Él se refería a los famosos “asesinatos de resistencia”, en los que la policía les dispara a las víctimas después de que éstas presuntamente dispararon primero. Y ya no hay más investigación, que es lo que probablemente hubiera ocurrido en Palmeirinha de no haber sido por la evidencia en video.

La desigualdad racial obviamente tiene raíces históricas. En Brasil, la esclavitud duró tres siglos aproximadamente, desde principios del siglo XVI hasta mediados del XIX, periodo en el que llegaron cinco millones de esclavos procedentes de África: unas once veces más que en América del Norte. El país fue el último de América en abolir la esclavitud, en 1888. Pero muchos afro-brasileños siguen confinados a los márgenes de la sociedad. Actualmente, casi 70 por ciento de las personas que viven en pobreza extrema son negras. Y están casi por completo ausentes de posiciones de poder. Los 39 ministros del gabinete de la presidenta Dilma Rousseff son blancos, excepto uno: el titular del Secretariado Especial para el Fomento de la Igualdad Racial.

En una reciente entrevista para un periódico, la escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie aseguró que “Brasil se niega a aceptar la cuestión racial”. A ella le sorprendió enterarse, durante una visita hace algunos años, que aquí no se habla mucho del tema, como si el racismo no fuera un problema. Y agregó: “No puedo evitar notar que en Brasil están relacionadas la raza y la clase. Puedo ir a restaurantes buenos y no ver a una sola persona negra.”

Esta observación puede confirmarse con lo que los brasileños llaman la “prueba del cuello”. Acuñada por el servidor público Francisco Antero y la maestra de historia Luzia Souza, la prueba consiste en contar a las personas blancas y negras en diferentes roles, en diferentes circunstancias. Por ejemplo, se estira el cuello en una joyería y se cuenta cuántos vendedores son negros y se compara con el número de clientes negros. O se echa una mirada en una escuela elegante y se cuenta cuántos estudiantes y profesores son negros, y después se compara con el número de empleados negros.

Recientemente apliqué la prueba del cuello en una lujosa heladería en un barrio rico de Sao Paulo. Cinco de los siete empleados eran negros, contra uno solo de los 30 clientes. Y sospecho que era extranjero. Después, en un autobús urbano, de unas dos docenas de pasajeros, yo era una de los tres únicos blancos.

Para mejorar esta situación, el gobierno brasileño ha establecido en los últimos años algunos programas de acción afirmativa, como reservar para las minorías raciales cierto porcentaje de empleos en el servicio civil y lugares en las universidades públicas. También ha entregado derechos parciales sobre tierras a nueve comunidades formadas por quilombolas (descendientes de esclavos fugitivos). Aunque esos derechos de tierras están garantizados en la Constitución, se calcula que los han recibido solo 5.8 por ciento de las 214,000 familias que viven en quilombos.

El programa universitario de acción afirmativa más antiguo ha existido desde hace diez años, pero sigue recibiendo duras críticas. Uno de los principales diarios brasileños ha tomado una posición firme en contra de las cuotas raciales en las universidades, sosteniendo que bastaría un sistema que fomentara la diversidad socioeconómica. Algunos críticos consideran las cuotas una especie de discriminación inversa, o se preocupan que puedan incitar al odio racial en nuestra “democracia racial” imaginaria, donde blancos y negros juegan lado a lado en las calles sin temor a que les den un balazo en el pecho.

Es como lo dijo Adichie. Brasil sigue negándose a aceptar la realidad.


Vanessa Barbara es columnista del periódico brasileño O Estado de Sao Paulo y editora del sitio Web literario A Hortaliça.

caution_jazz_hands_magnet-r551de9da76154f3fa3215a6836aef707_x7j3u_8byvr_325

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
27 de abril de 2015

por Vanessa Barbara

Não precisam me agradecer, mas estou prestes a revelar, nesta humilde coluna, algo que mudará a vida dos senhores. O leitor que ainda não estiver sentado, faça o favor de puxar uma cadeira e dedicar total atenção à pérola de sabedoria que está por vir. Aí vai:

O segredo da vida é ser muito ruim e extremamente dedicado a algo.

Por exemplo: passar vinte anos treinando voleibol com extrema seriedade, mesmo sabendo que não se tem altura ou aptidão para o esporte. Treinar pesado e disputar cada ponto como valesse vaga para o Mundial, ainda que o nível esteja mais parecido com o de um Campeonato Interescolar de Batata Quente.

Após protagonizar uma situação ridícula, como, por exemplo, acertar uma raquetada na própria testa enquanto joga pingue-pongue, o segredo é esperar que todos em volta parem de rir e afirmar: “É normal entre os atletas de ponta do tênis de mesa, nível olímpico, errar a bolinha e rebater o ar. É, não é? Hugo Hoyama, 1992? Alguém?”

Saber ser ridículo é um dos grandes trunfos de um indivíduo, que fica orgulhoso quando tromba com uma lixeira na rua e pede desculpas, e depois faz questão de relatar o incidente no Facebook. Viver com sabedoria é se desequilibrar de um barco, cair de costas na água e levantar com uma mesura, dizendo: “Obrigado, senhoras e senhores. Obrigado.”

Mas passar vergonha pode acontecer com qualquer um, e aqui estamos falando de procurar ativamente a vergonha e cultivá-la às segundas e quartas, preferencialmente pagando por isso.

Fiz aulas de sapateado por uns dez meses, mas tive de parar depois que o professor titular foi dar uma volta ao mundo e o substituto arrumou outro emprego. Admito que minha turma pode ter tido vasta influência na deserção em massa dos instrutores, que invariavelmente olhavam no espelho, examinavam nossa performance e pensavam: “Bem que minha mãe falou: seja médico, meu filho. Seja advogado”.

Toda semana, o professor passava uma sequência fácil de coreografia, por exemplo: “flap – ball change – heel – toe – heel”, que acabava com “mãos de jazz” (aquele movimento em que o dançarino exibe as duas mãos espalmadas, abanando-as de forma dramática). Vinha um silêncio e ele pedia que repetíssemos. O resultado era sempre parecido com uma manada de búfalos frenéticos girando para o lado errado e terminando em tempos distintos. Afinal, cada aluno tinha um momento íntimo para expressar a sua arte. Só havia uma certeza: “mãos de jazz” era como sempre terminávamos nossas memoráveis performances. (Não há vídeos. Não insistam.)

Na série Bunheads, a professora de sapateado de uma cidadezinha pergunta para uma das alunas há quanto tempo ela faz aulas. A moça não tem certeza, mas calcula que há uns dois ou três anos. “Você não está evoluindo”, exclama a professora. “Eu sei!”, retruca a aluna, visivelmente satisfeita.

“Digo, você é realmente terrível!”

E ela, empolgada: “Não sou?”.

IMG_5812

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
20 de abril de 2015

por Vanessa Barbara

Estou absolutamente convencida de que existe uma máfia de gatos na minha rua, comandando igualmente humanos e cães com o pulso firme de quem só tem medo de banho. (As cinco tartarugas da área governam a si mesmas desde o tempo dos dinossauros, constituindo, portanto, um estado independente.)

Quando anoitece, o gato branco de codinome Polaco caminha tranquilamente pelo meio da rua, like a boss, enquanto os moradores trancam as portas e rezam baixinho – não tenho dúvidas de que se trata de uma mistura felina de Michael Corleone e Avon Barksdale. Como todos os mafiosos de respeito, ele tem o rabo torto e um tique nervoso que o faz enrolar e desenrolar a ponta da cauda quando sob pressão. Acabo de vê-lo espreitando um dos operários da construção aqui da frente, enovelando a cauda, como que para intimidá-lo.

É evidente que a máfia felina mandaquiense tem relações escusas com o setor imobiliário e as empreiteiras; não é raro que um gato salte o muro para cobrar dívidas impiedosamente. Precisa ver o que fazem com os passarinhos indisciplinados.

E não é só isso: outro dia o Polaco estava – à luz do dia! – sabotando as telecomunicações do bairro. Vi o meliante tentando mascar a antena parabólica da casa da Juliana. Ao ser surpreendido, o arisco capo me lançou um olhar de desdém e continuou mordiscando o que lhe era de direito.

Mas, se me perguntarem, eu não vi coisa alguma.

Também não sei de nada sobre a tarde em que o Caramelo apareceu no meu jardim e ficou na cola de uma borboleta. Trata-se de um legítimo corner cat, ou seja, um gato de baixo status na hierarquia do crime, cuja missão é alertar os chefes da aproximação iminente do homem do biju. Mas às vezes eles se distraem com moscas.

Como todos os novatos, Caramelo é mais propenso a virar informante e passar para o nosso lado; meses atrás, cedeu aos meus afagos e ao suborno de leite que ofereci e, diante do olhar ameaçador do chefão Polaco, dormitou e ronronou em meu colo, numa sessão de coçadinhas que durou até o anoitecer.

Acho que, aos poucos, estamos conseguindo desestruturar essa organização nefasta que torna prisioneiros todos os moradores do meu quarteirão. Costumamos sair de cabeça baixa, andando rápido, tentando não olhar nos olhos de nenhum bichano. Polaco nos proíbe de ir trabalhar quando decide se deitar nos nossos tapetes. Ele tem os olhos azuis cortantes e um semblante malévolo, sobretudo quando interrompem seu cochilo.

Dias depois dessa fatídica tarde em que cooptei o gato laranja, avistei Polaco e Zeca (um felino cinza de raça nobre) rondando o meu jardim, distribuindo inequívocas provas de vilania e poder. Zeca me encarou longamente e se pôs a cavoucar a terra em busca de um tatu-bola. Pouco depois, encontrei pegadas de gato na mesa do escritório. (É sério.)

Aposto que vou acordar, um dia desses, com um cadáver de minhoca na minha cama.

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
13 de abril de 2015

por Vanessa Barbara

Depois da crônica “Extraordinários” (O Estado de S. Paulo, 5/1/2015), vários mineiros de confiança vieram me procurar para dizer que: a) estavam presentes quando o tiranossauro perseguiu o Chevette na estrada de Piau para Coronel Pacheco; ou b) gostariam de mais informações sobre a criação de tarântulas; ou c) a planta que germinou dentro do gesso do indivíduo citado era um pé de feijão.

Outras histórias vagamente críveis foram relatadas, motivo pelo qual resolvi publicar uma segunda parte da série sobre os mineiros, esses seres que estão sempre nos lugares mais improváveis em momentos pouco cabíveis, junto a criaturas que podem ou não existir no universo cognoscível.

Um amigo me contou de um senhor de Governador Valadares que tentou imigrar para os Estados Unidos sem falar inglês. Dentro de uma van cheia de ilegais, ao ouvir o policial da fronteira dizer ao motorista: “OK, thank you very much”, ele entendeu: “OK, tranque o velho e mate”. E saiu gritando: “Não, por favor, não precisa matar, não”.

Fica a critério do leitor, dependendo de seu estado de origem, acreditar ou não nessa anedota.

Da mesma fonte veio o caso de uma senhorinha, também mineira e imigrante, que trabalhava num restaurante americano. Segundo consta, ela ficava indignada quando ouvia o chefe gritar: “Potato! Potato!”, porque entendia: “Puteiro! Puteiro!”.

Tem também a história de um camarada que, na infância, meteu um grão de feijão numa das narinas enquanto brincava com uma porção crua da referida fava. Como o item não bloqueou sua respiração, lá ficou; dizem que só descobriram a traquinagem quando um galho verde começou a brotar do interior de seu nariz.

Da respeitável e extensa tribo dos metaleiros de Juiz de Fora veio a história do sujeito que capturou um morcego na mangueira do quintal e o levou para o festival de bandas novas. O morcego se tornou um sucesso, pulando e se debatendo loucamente dentro do bolso da camisa do rapaz. Todos interpretaram convenientemente que ele estava curtindo o som.

Todo mineiro é biologicamente capaz de recontar uma história extraordinária com o rosto impassível, sem esboçar dúvida; caso o interlocutor cometa a imprudência de duvidar do fato, ele desfia na hora um rosário de parentes distantes que podem confirmar a veracidade da informação, indivíduos com os quais você nunca terá contato.

Meu colega Humberto Werneck, jornalista de integridade inatacável, que escreve neste jornal aos domingos, mencionou um conterrâneo que jurou nunca mais botar os pés na calçada em frente à própria casa depois que a Prefeitura passou a cobrar taxa de pavimentação. “Para sair, ele estendia uma tábua do portão à rua; na volta, dava um berro e alguém da casa vinha com a tábua, qual ponte levadiça”, contou. “Dizem que por ali passou seu corpo rumo ao cemitério.”

O teste do pescoço

Posted: 9th abril 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
Tags: ,

O Estado de São Paulo – Caderno 2
6 de abril de 2015

por Vanessa Barbara

Em 2013, o funcionário público Francisco Antero e a professora de história Luzia Souza criaram o “teste do pescoço”, uma forma simples de saber se existe segregação racial onde você mora.

Basta espichar o pescoço para dentro de uma joalheria, por exemplo, e contar quantos balconistas são negros (a categoria inclui pretos e pardos). Ou espiar o interior de um colégio de elite e calcular quantos professores e alunos são afrodescendentes. Em hospitais de ponta como Sírio-Libanês e Albert Einstein, dê uma pescoçada nos quartos e veja quantos pacientes são negros, e quantos médicos negros trabalham por lá. “Aproveite para meter o pescoço nos corredores e conte quantos negros limpam o chão”, escreveu a dupla, num post de Facebook que foi replicado mais de 9 mil vezes.

Os resultados são categóricos. Apliquei o teste em um restaurante de classe média alta nos Jardins e descobri que apenas um dos 119 clientes era negro. Entre os garçons e manobristas, a taxa subiu para quatro de dez.

Numa sorveteria da mesma região, que cobra 10 reais a bola, os resultados foram similares: cinco dos sete atendentes eram negros, em oposição a um em trinta clientes – e tenho quase certeza de que ele era estrangeiro.

A contabilidade é bem distinta quando o espaço é o transporte público; no interior do Lauzane 1744, há algumas semanas, eu era um dos três brancos em um universo de mais de vinte passageiros cansados. A maioria também é negra nos trens e metrôs, sobretudo no horário do rush e em linhas mais periféricas, como a Vermelha, na qual há uma incidência de 70 a 80% de passageiros negros. (Fonte: meu pescoço.)

Inúmeras outras questões podem ser submetidas ao teste: quantos alunos negros estudam em universidades públicas? Quantos manequins negros há nas vitrines dos shoppings? Quantos moradores de rua são afrodescendentes, e quantos dos nossos ministros são negros? (Resposta: apenas uma, a chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.)

O Brasil tem a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria. Segundo o IBGE, são 106 milhões de pessoas que se auto-identificam como pretas ou pardas, ou 53% da população. Ainda assim, uma mera pescoçada é suficiente para constatar que brancos e negros não frequentam os mesmos lugares, e que estes últimos são muitas vezes vistos como serviçais ou suspeitos.

Testes menos subjetivos que o do pescoço confirmam esse cenário: no país, o número de analfabetos negros é o dobro do número de brancos e a renda dos negros é pelo menos 40% menor. Os negros correspondem a 68,8% da população abaixo da linha da pobreza, a 68% das vítimas de homicídio e a 61,7% da população carcerária.

Um tanto contraditório para o país da democracia racial.