Bônus: cartõezinhos de despertar com horários que eu preciso que alguém me acorde no dia seguinte, se possível usando força desnecessária e barulhos de buzina.

Bônus: cartõezinhos de despertar com horários que eu preciso que alguém me acorde no dia seguinte, se possível usando força excessiva e barulhos de buzina.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
27 de julho de 2015

por Vanessa Barbara

Às vezes conto para as pessoas que sofro de uma doença de sono que me obriga a dormir, no mínimo, dez horas por dia. Dez a doze. Menos que isso, é praticamente impossível – a saída seria passar o dia à base de medicamentos estimulantes como a modafinila para me manter alerta. E nem isso costuma funcionar bem.

Conto que tenho uma doença que me obriga a dormir dez horas por dia, e o que sempre ouço é: “Quem me dera poder dormir dez horas por dia!”.

Se o leitor pensou isso, faça o favor de voltar ao primeiro parágrafo: eu tenho uma doença. Não foi uma escolha. Eu bem que gostaria de poder dormir apenas seis ou oito horas por dia. Tenho, além disso, um “atraso de fase”, ou seja, só sinto sono depois das três ou quatro da madrugada, o que só faz piorar a situação. Além de dormir menos, eu também gostaria de almoçar como as pessoas normais, de marcar compromissos pela manhã, de fazer planos do tipo “acordar cedo, sair para nadar e depois ir para o trabalho”, de ter um emprego padrão e de ver a luz da manhã – ela é completamente diferente da luz da tarde.

Só que não posso.

E não foi por falta de tentar. Mas, como dizia a minha médica, numa analogia inesperada, ter uma doença crônica é como nascer morena e querer ser loira – você até pode pintar o cabelo, mas a raiz vai continuar nascendo escura. É como ser diabético e gostar de doces, ou como ser hipertenso, ou como não ter uma perna; existe um terreno muito reduzido dentro do qual você pode tentar manobrar e procurar paliativos, como tomar modafinila nos dias piores, mas basicamente não se pode fazer muita coisa a respeito além de conviver com o problema. E, vez ou outra, lidar com o fato de que vou acordar com o sol se pondo e ficar mal por ter perdido o dia.

Mesmo explicando tudo isso, ainda ouço: “Vidão, hein?”, ou: “Eu também dormiria o dia todo, se pudesse”. Ou pior: “O organismo se acostuma. Eu mesmo não gostava de acordar cedo, mas arrumei um emprego e agora acordo às seis”.

Ao que parece, há pessoas absolutamente incapazes de se colocar no lugar do outro, e que medem o mundo de acordo com a sua própria régua. Ou seja: se eu consigo acordar cedo todos os dias, é certamente por mérito próprio, então devo julgar aqueles que não conseguem usando o meu parâmetro. Se eu consegui comprar uma casa com o meu salário, não há motivo para que os outros não consigam; se eu consegui amamentar o meu filho até os dois anos de idade, as outras mulheres é que são incompetentes. E por aí vai. Cansei de escutar conselhos sobre higiene do sono dados por quem nunca teve problemas para dormir, ou por quem teve apenas um pouco de insônia nesta vida.

Para essas pessoas, uma novidade: admitir que há mais sorte do que mérito na maioria das coisas que conseguimos fazer não machuca. E nos ajuda a ter mais empatia com aqueles que não precisam do seu palpite, mas da sua compreensão.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
20 de julho de 2015

por Vanessa Barbara

É sabido que as salas de espera dos consultórios médicos contêm uma grande quantidade de revistas velhas, como uma edição de Ciência Hoje com uma matéria sobre a invenção do isopor e um número especial de Casa e Jardim sem capa. O que não sabíamos é que esse fenômeno está mais ligado ao roubo de exemplares novos do que ao fornecimento proposital de edições antigas, conforme os resultados de um estudo publicado na revista BMJ (antiga British Medical Journal) no fim do ano passado.

Durante um mês, os pesquisadores da Universidade de Auckland monitoraram o paradeiro de 87 revistas na sala de espera de um consultório e verificaram que as primeiras a sumir eram as mais recentes, sobretudo as de fofoca, que evaporavam em questão de dias. O estudo terminou quando praticamente todas as de fofoca desapareceram – novas e velhas. Restaram apenas exemplares de revistas como Time e The Economist. A taxa de sumiço foi de 1,32 revista por dia.

Como em todo bom estudo científico, foi desenvolvido um gráfico com os principais achados estatísticos e houve até uma admissão de conflito de interesses, em que um dos pesquisadores confessou que esperava ganhar uma assinatura vitalícia da The Economist depois que o artigo fosse publicado. É inegável a seriedade com que se conduziu o estudo, intitulado “An exploration of the basis for patient complaints about the oldness of magazines in practice waiting rooms: cohort study” [Uma investigação do fundamento da queixa dos pacientes quanto à decrepitude das revistas nas salas de espera dos consultórios: estudo de coorte”].

Dele se depreende um outro grande segredo da vida: a importância de encarar coisas sérias como se fossem tolas, e as tolas como se fossem sérias. Por nenhum motivo senão o de que é mais divertido.

Na semana passada citei Anne Lamott e seu livro Bird by Bird, que fala sobre o sofrimento da escrita. Em uma passagem, ela diz que o perfeccionismo do escritor se baseia na “crença obsessiva de que se você correr de maneira suficientemente cuidadosa, pisando em cada pedra da forma exata, não terá de morrer”, uma ideia que associa a obra de arte à busca pela imortalidade e que é muito repetida em livros de psicologia como A negação da morte, de Ernest Becker. A autora conclui: “A verdade é que você vai morrer mesmo assim, e que muita gente que não está sequer olhando para os próprios pés vai se sair muito melhor do que você e vai se divertir mais no processo”.

Por isso, se é para ser perfeccionista, o segredo é fazê-lo em situações que dificilmente pediriam extremo zelo, como limpar o umbigo (com cotonete, Higiapele, óleos minerais perfumados) e montar um quebra-cabeça (dividindo a área em regiões temáticas, classificando as peças conforme o formato, a cor e a tonalidade).

Nas outras coisas, mais sérias, recomenda-se agir com a leveza de quem folheia uma edição de Casa e Jardim de 1974.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
13 de julho de 2015

por Vanessa Barbara

George Orwell já disse que escrever é uma luta horrível e exaustiva, como sofrer uma crise prolongada de alguma doença dolorosa. Semanas atrás, a jornalista Pamela Druckerman afirmou, em um artigo para o The New York Times que, três ou quatro dias antes de qualquer prazo, ela entra em surto. “Fico até tarde em pânico, comendo biscoitos e prometendo a mim mesma que vou mudar de profissão”, confessou ela, que, aliás, costuma ganhar um quilo por coluna. “Meu marido uma vez perguntou: ‘Vai sempre ser esse escândalo hercúleo? Escrever não pode ser um trabalho normal, no qual você acorda, executa calmamente suas tarefas e vai para casa?’ Infelizmente, a resposta é não. O trabalho criativo não é um trabalho normal. É claro que, com o tempo, suas habilidades aumentam e você fica melhor na estrutura. Mas continua sendo um escândalo hercúleo.”

Há uma tonelada de livros sobre o ofício de escrever, como “Sobre a escrita”, de Stephen King, “Becoming a writer”, de Dorothea Brande, e o meu preferido, “The Elements of Style”, de William Strunk Jr. e E. B. White, um manual de gramática e estilo voltado ao escritor de língua inglesa, mas que tem dicas para todos.

Porém, nenhum deles fala tão bem sobre o sofrimento da escrita quanto “Bird by Bird: Some instructions on writing and life” [Pássaro por pássaro: Algumas instruções sobre a escrita e a vida], da escritora americana Anne Lamott. À primeira vista, pode soar como um livro de autoajuda, edificante demais pra ser bom, mas Lamott é muito engraçada e sabe tudo de autodepreciação.

É um bom livro para quem tem ansiedade de escrita e precisa aprender a se “trollar” para aliviar a coisa. Numa passagem, ela menciona como são seus primeiros rascunhos de um texto: “A coisa toda estava tão comprida, incoerente e pavorosa que eu passaria o resto do dia com medo de ser atropelada antes de conseguir escrever uma segunda versão. Temia que as pessoas lessem o texto e entendessem que o acidente foi na verdade um suicídio, que entrei em pânico porque meu talento desapareceu e a minha mente entrou em colapso.”

Em outro trecho, que trata de sentimentos que todo escritor costuma ter em dias alternados, Lamott fala da agonia de enviar um material e ficar aguardando a resposta: “Depois de passar a manhã inteira ao telefone lendo passagens do meu romance, eles [o editor e o agente] concordariam que se trata do livro mais constrangedor já escrito, e passariam a uivar e a gritar de tanto rir. A certo ponto meu editor riria tanto que teria de tomar um pouco de digitális, e o meu agente romperia um vaso sanguíneo da garganta.”

O título da obra de Lamott é uma menção a um trabalho de ornitologia que o irmão da autora teve de fazer para a escola. Tomado pelo desespero de um prazo curto e sem saber por onde começar, ele ouviu um valioso conselho do pai: “Pássaro por pássaro. Apenas faça o trabalho, pássaro por pássaro.”

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
6 de julho de 2015

por Vanessa Barbara

Teve a história do casal australiano que comprou ingressos para assistir a uma partida da Copa do Mundo em Salvador, na Bahia, e foi parar em El Salvador, a 6 mil quilômetros de distância, por causa de um erro da agência de viagens. E do turista britânico que foi pego no Aeroporto Internacional de Dubai com uma bituca de 0,003 grama de maconha colada na sola do sapato e foi condenado a quatro anos de prisão (ele acabou sendo perdoado). Conta-se também da história de um suíço que foi preso nos Emirados Árabes Unidos por portar três sementes de papoula na roupa, migalhas de um sanduíche que ele comeu no aeroporto de Londres.

Muita coisa pode dar errado durante uma viagem, como perder três dedos do pé no Panamá ou ser erroneamente diagnosticado com câncer no Havaí, ou até voltar de Belize com cinco larvas no cérebro. Além disso, há grandes imprevistos que podem ocorrer na sua ausência – lembro da história de uma chinesa que, em 2001, passou um mês de férias com os pais, deixando o marido sozinho em casa. Quando voltou, descobriu que o papagaio do casal havia adquirido um novo vocabulário: agora ele sabia falar “divórcio”, “eu te amo” e “tenha paciência”. Aparentemente, a ave estava escutando conversas telefônicas do marido com a amante. Ao entrar com o pedido de divórcio, a mulher cogitou a possibilidade de levar o papagaio como testemunha.

Como eu disse, férias podem ser perigosas. Este ano tirei a primeira folga remunerada da minha vida e, enquanto eu estava fora, os Bombeiros tiveram de ser acionados. O incidente envolveu um gato preso na lança do portão, vizinhos correndo para socorrê-lo com alicates e o dedo do meu pai sangrando profusamente, após uma tentativa de resgate que redundou em vigorosas mordidas. A vítima felina já foi mencionada nesta coluna: é um gato de cor caramelo que pertence à máfia local e andou dando mostras de insubordinação, motivo pelo qual se especula que não tenha sido um acidente. Apesar do susto, gato e dedo passam bem.

Muitas coisas ocorreram durante a minha ausência: oito dirigentes da FIFA foram presos num escândalo de corrupção, o Senado aprovou sérias restrições ao seguro-desemprego, a padaria Flor do Mandaqui passou a servir jantar (o isopor de sopa vale muito a pena), o casamento homossexual foi legalizado nos Estados Unidos, meu plano de saúde aumentou 16,30%. Os vizinhos novos contrataram um personal trainer e passaram a ligar o som no volume máximo todas as tardes. Uma das minhas tartarugas foi dada como morta só porque estava dormindo pesadamente.

Você sai de férias e volta diferente, mas, da mesma forma, mudam as coisas que sempre estiveram ao seu redor.

Enquanto eu estava fora, achando que vivia uma grande aventura em terra estrangeira, a minha casa sofria uma grave – e até agora inexplicada – infestação de tatus-bola.

Assa Ariyoshi

Assa Ariyoshi

The International New York Times
26 de junho de 2015 

Por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brasil – No mês passado, os professores da rede pública estadual de São Paulo anunciaram o fim de uma greve de três meses – sem que nenhuma de suas demandas tenha sido atendida. Pela primeira vez, a greve chegou às manchetes de um jornal de grande circulação; até então, havia sido praticamente ignorada. A manchete dizia: “Derrotados, professores de SP põem fim à greve”.

Foi a greve de professores mais longa do estado. Eles mantiveram até o fim a demanda de paridade salarial com outras categorias de profissionais com ensino superior – o que significaria um aumento de 75%. Trata-se de um incremento considerável, mas o princípio de paridade é previsto pelo Plano Nacional de Educação, uma lei sancionada no ano passado pela presidente Dilma Rousseff. De acordo com a lei, a paridade deve ser atingida até 2020.

Os professores também pediam classes menores com, no máximo, 25 alunos. A Secretaria de Educação estipula um número máximo de 40 alunos nas salas de aula do Ensino Médio, mas em fevereiro, no início do ano letivo, houve relatos de classes com 85 ou 95 alunos. Como se não bastasse, o governo fechou mais de 3 mil salas de aula este ano, de acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Para uma jornada de 40 horas, os professores com graduação que lecionam para alunos de 5a. série até o 3o. ano do Ensino Médio ganham um salário-base de R$ 2.415,89 por mês. E esse é o melhor dos casos; os que lecionam para as séries iniciais do Ensino Fundamental ganham R$ 2.086,93 por mês. A hora-aula dos professores das séries mais avançadas é de R$ 12,08, menos da metade do que recebe um trabalhador de fast-food nos Estados Unidos. Vamos repetir: eles ganham 12 reais para ensinar uma classe inteira de 40 alunos durante uma hora.

Os professores também se queixam de que o governo não respeita uma lei que dispõe que um terço da jornada de trabalho deve ser gasta em atividades extraclasse, como corrigir provas e preparar aulas.

Por piores que sejam, essas condições de trabalho só se aplicam aos professores oficialmente contratados pelo governo; dos 251 mil professores do estado, cerca de 57 mil (ou 23%) são temporários, sem garantias trabalhistas, aposentadoria ou seguro-saúde. Após o primeiro ano de contrato, um professor temporário deve ficar fora do trabalho por 40 dias; depois do segundo ano, o afastamento obrigatório aumenta para 200 dias por ano – mais de seis meses de desemprego para cada ano trabalhado. Essa tática tem sido utilizada desde 2009 para evitar que os professores temporários sejam considerados funcionários públicos com vínculos trabalhistas.

Os professores também pediam que o governo diminuísse a restrição nas perícias médicas. Eles reportam problemas de saúde frequente, resultantes do péssimo ambiente de trabalho. Em 2013, 7,3% (ou 14.340) dos 194 mil professores efetivos estavam afastados por motivos de saúde. Os números oficiais não estão disponíveis, mas, de acordo com um estudo feito pelo sindicato, o principal motivo das licenças médicas é a depressão, seguido de transtornos de ansiedade, rouquidão e hipertensão.

Mais de 4 milhões de alunos frequentam as 5,3 mil escolas públicas da rede estadual de São Paulo. Eles são, em sua maioria, pobres, já que as famílias mais ricas costumam matricular seus filhos em escolas particulares, onde os professores podem chegar a ganhar R$ 50 por hora.

Diante das demandas de centenas de milhares de professores, o governador Geraldo Alckmin reagiu com desdém. “Todo ano é essa novela”, ele declarou em março. Mais tarde, chegou a negar a existência da greve. (Também negou a crise hídrica, embora muitos bairros, como o meu, passem boa parte do dia sem água.)

Quanto às demandas dos grevistas, Alckmin disse que o governo já deu um aumento cumulativo de 45% nos últimos quatro anos. O sindicato afirma que esse número representa, em sua maioria, gratificações incorporadas ao salário, e que o aumento nos últimos quatro anos foi de 29,9%, no melhor dos casos. A inflação do período foi de 27,7%.

Alckmin também foi amplamente citado ao afirmar que o salário dos professores em São Paulo é 26% maior do que o salário mínimo da categoria (R$ 1.917,78), o que é verdade, embora poucos mencionem o fato de que o PIB per capita do estado é 48% maior do que o PIB do Brasil como um todo. Alckmin insistiu em dizer que a greve não tinha o menor sentido e que ele aumentaria os salários dos professores “na hora certa”.

Alguns grevistas lembraram que, em janeiro, o governador aumentou o próprio salário em 4,7% – ele ganha atualmente R$ 21.631 – e os salários de seus 25 secretários em 17,8% – eles ganham R$ 19.648. O aumento mais recente havia ocorrido em 2013.

Após treze semanas de greve e dezenas de manifestações, o governador não fez uma única proposta de aumento para os professores. Apenas propôs estender o plano de saúde aos professores temporários (mediante um desconto de 2% do salário) e diminuir o afastamento obrigatório de 200 dias. No fim de maio, depois de brigar na Justiça, Alckmin conseguiu cortar o salário dos grevistas, o que levou ao fim da greve. Dias depois, um editorial de um jornal de grande circulação anunciou que os professores haviam sido desmoralizados em todas as frentes.

Como se a derrota já não fosse grande o suficiente.

Dois dias após vencer os professores, Alckmin foi anunciado pelo partido como um provável candidato à Presidência do Brasil, em 2018.


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do NYT. 

Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 26 de junho de 2015. Tradução da autora.

Another defeat for Brazil’s kids

Posted: 26th junho 2015 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
Tags: , ,
Assa Ariyoshi

Assa Ariyoshi

The International New York Times
June 26, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — This month, public school teachers from the state of São Paulo announced the end of their three-month-long strike — without any of their demands having been met. For the first time since it began, the strike reached the front page of a major newspaper; it had been mostly neglected until then. The headline declared: “Defeated, São Paulo’s Teachers Put an End to Their Strike.”

It was the longest teachers’ strike in the state. They maintained to the end their demand of pay parity with other college-educated professionals — which would ultimately have meant a 75 percent salary increase. This is a steep rise in public salaries, but the parity principle is part of the National Educational Plan, a law adopted last year with support from President Dilma Rousseff. According to that plan, parity is to be achieved by 2020.

The teachers also demanded smaller classes, with at most 25 students. The secretary of education stipulates a maximum of 40 students in high school classes, but last February, at the beginning of the school year, there were accounts of classes with 85 or 95 enrolled students. As if that weren’t bad enough, the state government shut down more than 3,000 classes this year, according to the teachers’ union for São Paulo State.

For a 40-hour workweek, professionals with a graduate degree who teach fifth to 12th graders earn a base salary of $770 a month, or $9,240 a year. And this is the best scenario; those who teach for elementary school (first through fourth grades) earn $8,100 a year. The extra hourly wage for teachers in the upper grades is $3.80, less than half what a fast-food worker earns in the United States. Let me stress the point: They are paid around $4 for teaching a whole class of 40 students for an hour.

The protesters also complain that the government does not follow a law that mandates one-third of the working hours to be spent in activities outside the class, such as marking exams and preparing for class.

Bad as they are, these working conditions apply only to teachers officially hired by the state; of the 251,000 teachers in São Paulo, about 57,000 (or 23 percent) are temporary employees, without regular civil-service protections, retirement pensions or health care. After the initial one-year contract, a temporary teacher must stay off the job for 40 days; after the second year, the obligatory withdrawal increases to 200 days — more than six months of unemployment for each year of work. This approach has been used since 2009 to avoid classifying the temporary employees as permanent civil servants with regular labor protections.

The strikers also wanted the government to reduce restrictions concerning sick leaves. Teachers often report health problems, a result of the poor working environment. In 2013, 7.3 percent (or 14,340) of the 194,000 permanent teachers in the state were off duty because of medical issues. Official data aren’t available, but according to a union study, depression was the main ailment, followed by anxiety disorders, hoarseness and hypertension.

More than four million students attend one of the 5,300 public schools run by the state of São Paulo. They are mostly poor, since richer families generally enroll their children in private schools, where teachers can earn as much as $16 per hour.

Faced with the demands of hundreds of thousands of teachers, the state’s governor, Geraldo Alckmin, reacted disdainfully. “Every year is the same story,” he said in March. Later, he even denied the existence of the strike. (He also denied the water crisis, though many neighborhoods, mine included, are disconnected from the water supply for most of the day.)

About the strikers’ demands, Governor Alckmin said that the government had already given them a cumulative raise of 45 percent in the last four years. The union, on the other hand, claims that this number includes bonuses that were already paid on a fixed basis, and that the wage raise in the last four years amounts to 29.9 percent at its best. The rate of inflation in this period was 27.7 percent.

Governor Alckmin has also been widely quoted as saying that the wage of teachers in São Paulo was 26 percent higher than the national minimum wage for the category ($620 per month, or $7,440 per year), which is true, though hardly anyone mentioned the fact that the gross domestic product per capita in the state is 48 percent higher than in Brazil as a whole. Governor Alckmin kept saying that the strike didn’t make any sense, and that he would raise the teachers’ wages at the “right time.”

Some protesters remembered that, in January, the governor raised his own salary by 4.7 percent — he now makes $83,856 a year — and the salaries of his 25 secretaries by 17.8 percent; they now earn $76,164 a year.

After 13 weeks of strikes and dozens of rallies, the governor didn’t make any proposals to raise the teachers’ salaries. He offered only to extend health care to temporary teachers (through a 2 percent salary deduction) and to decrease their annual 200-day obligatory withdrawal from the job. In the end of May, after struggling in the Superior Court of Justice, Governor Alckmin managed to cut the wages of the protesters, leading to the end of the strike. A few days later, an editorial in a major newspaper proclaimed that the teachers had been demoralized on all fronts.

As if their defeat wasn’t already bad enough.

Two days after beating the teachers, Governor Alckmin’s party announced that he is a probable candidate for the Brazilian presidency in the 2018 election.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo and the editor of the literary website A Hortaliça.

Aviso de férias

Posted: 12th junho 2015 by Vanessa Barbara in Sem categoria
Tags:

Estou de férias. Retomarei as crônicas no Estadão em julho.

(Amaze.)

60210095

O Estado de São Paulo – Caderno 2
25 de maio de 2015

por Vanessa Barbara

Imaginem os senhores esta plácida cronista numa manhã de verão, percorrendo uma trilha deserta em Ilha Grande. Havia lama no caminho, árvores de fruta-pão e uns passarinhos discretos contra o céu azul quase sem nuvens. Imaginem que a cronista chega ao fim da trilha e encontra o mar, e ao encontrá-lo larga os chinelos na praia e vai boiar.

É então interrompida por um som vindo aparentemente de enormes caixas acústicas celestiais, uma voz retumbante que grita “Arerê, um lobby, um hobby, um love com você”. Uma escuna lotada de turistas havia acabado de ancorar na baía, despejado dezenas de banhistas na água com seus espaguetes coloridos, e por lá ficaria pela próxima hora, ecoando os últimos sucessos de Skank, Banda Eva e Chiclete com Banana.

Não tenho nada contra o Skank nem contra boias em forma de espaguete – pelo contrário, posso até militar em favor da banda ou desses engenhosos flutuadores em polietileno expandido, se um dia for necessário. Não gosto é de ser obrigada a escutar coisas porque alguém assim decidiu – porque alguém se achou no direito de quebrar o silêncio coletivo com um som alto qualquer, seja ele um ruído de motor ou um concerto para violino e orquestra.

Nem os tampões de ouvido mais poderosos têm a capacidade de anular por completo aquilo que considero uma violação de um de nossos direitos básicos: o direito de ficar em paz, a menos que seja uma emergência. A poluição sonora sequestra uma parte da sua mente e a inunda com informações que você nunca pediu; é como um alarme de incêndio do qual não se pode fugir, sem nenhum incêndio por apagar.

Em “Rápido e devagar: Duas formas de pensar”, o psicólogo Daniel Kahneman afirma que, com o tempo, nossa atenção tende a se desviar de situações novas, por mais desagradáveis que sejam, tornando-as mais toleráveis. “As principais exceções são dor crônica, exposição constante a ruído alto e depressão severa”, afirma. “Dor e ruído são biologicamente ajustados como sinais para chamar a atenção, e a depressão envolve um ciclo autorreforçador de pensamentos infelizes. Desse modo não há adaptação para essas condições.”

Um exemplo cada vez mais comum – e torturante – é ser obrigado a permanecer em lugares onde a televisão está ligada. Quase toda a sua atenção se volta para o depoimento sem interesse de uma celebridade num programa dominical, e não há meio de desviá-la. Por mais que se tente prestar atenção em uma conversa de verdade entre os presentes, há sempre um vácuo de distração, um momento em que um dos falantes interrompe a frase e se perde. E a conversa morre.

Fogem à minha compreensão a música alta nas piscinas dos hotéis, o rádio ligado numa sessão de massagem e a televisão como presença confirmada nas confraternizações de família ou consultórios médicos.

(O vizinho decidiu ligar o rádio neste exato ponto do texto e eu não lembro mais como pretendia terminar.)

O Estado de São Paulo – Caderno 2
18 de maio de 2015

por Vanessa Barbara

Desde 15 de outubro do ano passado, logo após o término do primeiro turno das eleições, falta água na minha casa, que fica na zona norte de São Paulo.

No início era assim: todos os dias, por volta das 17h, a torneira secava completamente. Às 4h54 da manhã, a água retornava como que por decreto, causando estrondos apavorantes nos canos da casa e ameaçando estourar tudo o que encontrasse pelo caminho.

A partir de dezembro, houve ocasiões em que a água voltou um pouco antes, lá pelas 4h30, mas passou a sumir cada vez mais cedo. Atualmente, temos água apenas das 5h às 13h, em média. Mas o humor das torneiras é absolutamente imprevisível; uma amiga certa vez acordou às 7 da manhã só para poder lavar o cabelo e deu de cara com um chuveiro seco. Teve de ir para o trabalho sem tomar banho. Por aqui, é comum programar uma lavagem de roupas para o dia tal e dar com os burros n’água, com o perdão da expressão.

Isso acontece ainda que, em janeiro, o governador Geraldo Alckmin tenha declarado que não havia “racionamento no sentido de fechar o sistema e abrir amanhã. Não tem e nem deve ter”. E completou: “Agora, restrição hídrica claro que tem”.

Em fevereiro, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo, Benedito Braga, admitiu, em entrevista para O Estado de S. Paulo, que a Sabesp de fato fechava o registro de parte da rede de distribuição. “O sistema de redução de pressão não está disponível em todos os locais. Em alguns lugares, de fato, é preciso haver uma intervenção física, que não é telemetrada”, declarou.

Foi uma confissão isolada em meio a um deserto de negação. A rigor, não há corte de água nem risco de rodízio – tudo não passa de alucinação.

Segundo uma reportagem publicada na revista piauí, a partir de março a Sabesp teria adotado oficialmente um esquema de redução da pressão da água. O professor Rubem Porto, da Escola Politécnica da USP, explicou: “Algumas pessoas, infelizmente, vão ficar sem água, ou porque estão em áreas altas, que a pressão não atinge, ou estão muito no fim da rede de abastecimento, onde a água não chega. Felizmente é pontual”.

É bem pontual, não há dúvida: por volta das 4h52, a água volta aos canos do bairro. Depois vai embora sem se despedir. Uma vez por trimestre, somos premiados com quase um dia inteiro de torneiras funcionais, mas não dá pra saber quando isso acontecerá, nem por quê. Amigos que moram em Itaquera e no Jaçanã vivem se queixando do corte diário cada vez maior; os de Higienópolis nunca ouviram falar do assunto, talvez porque habitem em prédios.

Na véspera de Natal, tivemos um indulto desses, com água jorrando das torneiras ao longo da tarde. Houve quem considerasse um milagre; outros, a prova de que tínhamos um governador cristão.

Eu trocaria a bondade pela transparência.

A Very Suspicious Traveler

Posted: 18th maio 2015 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
Tags: ,

The New York Times
May 17th, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — I DON’T know if I’ll ever be comfortable with the silence that comes after I’ve handed my papers to the passport control officer. In that moment, I instantly recall all my faults and sins from my childhood, including the day I accidentally broke an entire bowl of ceramic fruits from a friend’s dinner table. (I later tried to glue them back together.)

There should be a German word for this fear, something long and terrifying. Instead of being afraid to fly, I’m mortally afraid of landing and being judged by the officer at the airport, even if I don’t have anything to hide.

It started in Dublin Airport, seven years ago, when I forgot to put my return ticket in my hand luggage. It was my second time abroad, and also my honeymoon. My then husband and I planned to stay a week before going back to Brazil. But nobody had told me I should present the return ticket to the immigration officer as proof that I really intended to return, so I checked it with my luggage.

The officers interrogated us separately, as if they wanted to catch any divergences. I showed them our printed hotel reservation, but they insisted on confirming the information by telephone; for some reason, the hotel clerk said we’d booked a room for one day only. Near tears, I mumbled in broken English. It was almost 6 p.m. and we were starving. Finally they took pity on us and let us in, stamping a seven-day travel visa. “She would never fit in our system,” one officer said — implying that, if my plan was to find a job there and stay on as an illegal immigrant, I wouldn’t have any luck anyway.

I thought that, being more cautious, I would never face this situation again, but there’s definitely something wrong with me. (In the mornings, I usually think it’s my hair.) A few years later, I had a hard time entering Britain, even after presenting my return ticket and hotel reservation. The officer asked me several times what the purpose of my visit was (“tourism,” I kept repeating) and then remarked: “Long trip, huh?” On another occasion, I was scolded for having answered “three weeks” instead of “19 days.” “It’s not the same thing, ma’am,” a grumpy officer said.

The U.K. border control is a nightmare for many Brazilians. Last year, according to British Home Office immigration statistics, around 18,000 travelers — .015 percent of the total number of visitors — were refused entry to the country. Americans, Albanians and Brazilians were the three most refused nationalities upon arrival, in absolute numbers. At Heathrow Airport, a friend of mine was once handcuffed and sent back to Brazil because her student visa had expired.

Sometimes I get so nervous at passport control that I start to find myself suspicious. In China, an officer asked me twice what I intended to do alone in Beijing (“tourism,” again) and then gave me a seven-day visa when I had planned to stay for 10. On another occasion, my friends — and my baggage — were allowed to board a ferry to Hong Kong while I was kept in Macau. I started to wonder why I bother traveling at all, instead of staying home in my pajamas.

Two years ago, my passport control angst led me to get a European passport (which I could do because my grandparents were Portuguese), hoping this would make me look less like a potential illegal immigrant in the eyes of the world. But now I’m afraid I look even more suspicious, since having two passports is obviously a spy thing.

Brazilian citizens are able to enter 146 countries either without a visa or by receiving one upon arrival. This makes us 21st in the world in terms of freedom of travel, according to the 2014 Henley & Partners Visa Restrictions Index. At the top of the list, with visa-free travel to 174 countries each, are the United States, Britain, Finland, Germany and Sweden. Afghans have the worst access, being able to enter only 28 countries without a visa, followed by Iraqis, with 31.

Before traveling to the United States, Brazilians must apply for a tourist visa. It costs $160 and takes a few weeks to be issued. The procedure involves filling out a long form that asks if you have tuberculosis or a mental disorder, if you’re a terrorist or a saboteur, or if you ever contributed to any charitable organization. The applicant must schedule both a personal interview and an appointment for fingerprints and a photograph.

Despite all that, a visa does not guarantee entry; Customs and Border Protection officials still have the authority to deny admission. In 2014, 223,712 people were refused entry to the United States. Grounds for inadmissibility included immigration violations and national security reasons. Sometimes, no justification was given.

I’ve never tried my luck at United States passport control before. Next week will be my first time, as I’m heading to New York for a three-week vacation.

Sorry, I mean 22 days.