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O Estado de São Paulo – Caderno 2
18 de abril de 2016

por Vanessa Barbara

Como todos sabem, tive uma educação clássica, quase vitoriana. Cresci em um ambiente sóbrio que valorizava manifestações culturais de alto nível como hinos de times de futebol e músicas do Biquíni Cavadão, além de me cercar de amigos doutos que conseguiam soprar bolhinhas de saliva e encostar a língua no nariz. Ao longo da vida, dediquei-me a adquirir habilidades sólidas, como manusear um mimeógrafo, tirar água do ouvido e assar uma batata na terra.

Me arrisco a dizer que essa educação autodidata e comprometida com os grandes temas do engrandecimento humano se estende até hoje; quando não sei alguma coisa, vou ao Google. Em questões práticas, consulto o YouTube.

É possível aprender todo tipo de ofício navegando no site e assistindo a vídeos de diversas naturezas, desde os francamente amadores às superproduções hollywoodianas. Outro dia, descobri o tutorial de um pomposo veterinário português ensinando uma técnica para dar comprimidos a cães, no caso um garboso pastor alemão. Já um completo anônimo me mostrou, em um vídeo de produção duvidosa, como dar remédio em gotas a animais em recuperação. Também aprendi a apalpar tartarugas aquáticas para ver se estão com ovos, fazer uma cópia de chave usando um cartão de plástico, consertar o trackpad de um notebook, pronunciar Eyjafjallajökull, utilizar um coletor menstrual, dobrar lençóis de elástico, tirar pelos de um tapete, manipular faixas de áudio no Final Cut Express e consertar um zíper que saiu do trilho. (Só não tentei ainda cuspir fogo usando maisena. Aguardem as próximas crônicas.)

Uma das coisas mais dignas que se pode fazer com a ajuda do YouTube é aprender coreografias, como o shim sham, a Macarena, o clipe de Thriller (Michael Jackson) e uma cena de dança do filme Bande à Part, de Jean-Luc Goddard. É por meio de infinitas repetições que decoramos os passos básicos de Tá tranquilo, tá favorável (MC Bin Laden), Shake a Tail Feather (The Blues Brothers), Do You Love Me? (Contours) e a dança sincronizada que a banda OK Go faz nas esteiras ergométricas em Here It Goes Again. A real utilidade? Brilhar muito nas festas de família e puxar assunto na fila do Bilhete Único.

Minha mãe também é uma adepta ferrenha da educação pelo YouTube: aprendeu a melhor forma de passar massa corrida na parede, lustrar um fogão, limpar uma impressora, consertar uma bacia de privada, fazer primeiros-socorros em ferimentos, selar um cavalo e limpar um teclado de computador.

Aos 6 anos de idade, meu sobrinho já dá mostras de seguir o exemplo familiar: ele aprendeu a abrir uns trinta tipos de Kinder Ovo apenas assistindo a infindáveis e soníferos vídeos de pessoas se dedicando à tarefa.

De quebra, aprendemos a fazê-lo cair no sono quando tudo mais falhou.

O mistério da cadela

Posted: 13th abril 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
11 de abril de 2016

por Vanessa Barbara

Há exatamente um mês, resgatei uma cadela perdida numa avenida perto de casa. Desde então, já providenciei banho, consulta veterinária, castração e holísticas massagens de pança, sem esquecer dos exploratórios passeios diários em que aproveitamos para conhecer juntas o novo bairro, cheirar todas as árvores, perseguir besouros, encarar pessoas de óculos, batizar os postes com xixi (ela) e conversar com lojistas dos arredores (eu).

Não posso falar por ela, mas, de minha parte, nunca fui tão extrovertida, parando a cada quarteirão para trocar impressões com outros donos de cães e apresentando orgulhosamente a amiga felpuda para a sociedade. Minha popularidade cresceu muito, e hoje já cumprimento os passantes feito uma deputada. Nessas ocasiões, aproveito para contar o pouco que sei da história da cachorra, espalhando a notícia o tanto quanto possível.

Ainda que provavelmente ela tenha sido abandonada, continuamos com as buscas pelo dono, movidos por um pendor investigativo que não faria feio numa série policial de estirpe. Tentamos, por exemplo, descobrir o nome do animal – mas lá se foi o alfabeto inteiro sem que ela demonstrasse qualquer menção de atender aos epítetos de Pretinha, Princesa, Lulu, Hebe, Pipoca, Panqueca e Pudim. Tentamos até Milady, Maria das Dores e Dilma, um nome que seria apropriado caso um dia ela subisse no sofá, quando então poderíamos gritar: “Fora, Dilma!”.

No início, deixávamos que ela nos guiasse, na esperança de que pudesse reconhecer o caminho de volta para casa, o que não ocorreu. Deixo aqui o meu pedido público de desculpas a todos os vigilantes de estacionamento que foram surpreendidos por uma cadela cheirando a área, num furor olfativo totalmente desgovernado. Percebi que ela não faz ideia da direção para onde vai, sendo seduzida sobretudo pelo chorume de sacos de lixo e por outros cães.

Também procuramos identificar seus hábitos e adivinhar de onde veio. Por exemplo: a cachorra adora perseguir pessoas com sacolas de supermercado. Dá atenção especial a crianças e idosos; acorda bem cedo e aprecia o aroma de feijão. Odeia barulho de aspirador de pó e ficou sobressaltada quando passei por ela com uma caixa de papelão.

Donde: seus donos originais eram matutinos, gostavam de ir ao supermercado e não davam a mínima para o meio ambiente, pois sempre saíam de lá com uma profusão de sacolinhas de plástico. Criavam um neto pequeno que tinha anemia, daí o cheiro constante de feijão. Limpavam a casa de raro em raro, e por isso a cachorra não conseguiu se acostumar com o barulho do aspirador de pó. Ao decidirem abandonar a quadrúpede, colocaram-na numa caixa de papelão e a jogaram na rua.

Eu queria poder terminar esta crônica dizendo: a partir do perfil que traçamos anteriormente, conclui-se que quem abandonou a pequena cadela foi ninguém menos do que Donald Trump.

Mas acho que preciso de mais dados.

Traumas fotográficos

Posted: 5th abril 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
4 de abril de 2016

por Vanessa Barbara

Lembro que era um dia de calor – os termômetros da rua Heitor Penteado marcavam 34 graus – e que me pediram para levar uma mala com meia dúzia de opções de blusas. Quando entrei no estúdio fotográfico e reparei que tinha pé-direito alto, camarim de maquiagem e holofotes, muitos holofotes, já tinham levado a minha mala e não havia mais como fugir.

Participei de muitas outras sessões de fotos para divulgação de livros ou colunas de jornal, todas marcadas por certo grau de tortura e constrangimento social, mas os fotógrafos costumam estar cientes da natureza invasiva de seu trabalho e tentam agir como hábeis depiladores: só mais um pouco, estamos quase acabando, muito bem, vai ficar ótimo. A foto que acompanha esta coluna, por exemplo, foi tirada em quinze minutos pelo experiente José Patrício, do Estadão, que só pediu que eu me postasse diante de uma coleção de enciclopédias, e ficou me distraindo com histórias sobre a cobertura política das eleições. Dois ótimos fotógrafos ligados a editoras, Fernanda Fiamoncini e Nino Andrés, costumam contar piadas e escolher paredes diferentes da casa para usar como fundo. O máximo que fazem é arrumar uma mecha de cabelo fora do lugar.

Não foi o caso dessa sofrida sessão de fotos na Heitor Penteado, que durou entre três e quatro horas – ou dias, ou meses.

Primeiro, uma moça analisou as blusas e foi passá-las. Fiquei realmente apavorada quando ela disse que, enquanto isso, um assistente iria “fazer o meu cabelo” – um conceito que não consigo entender, sobretudo porque achei que ele havia acordado num dia ótimo e estava pronto para brilhar diante das câmeras. O assistente abriu malas enormes cheias de secadores, grampos e bobes, sacou uma escova gigante e se pôs a jogar uns gases tóxicos ao meu redor. (Mais tarde, em casa, posso jurar que saiu uma mosca do meu cabelo, provavelmente fossilizada numa camada de laquê.)

Depois ele cuidou da maquiagem. Pedi que fosse o mais leve possível, sem cílios postiços, e me garantiram que seria quase imperceptível. Passei um tempo com a cabeça para trás sendo coberta por pincéis, batons, sombras e uma nuvem cor-de-rosa. Quando ergui o rosto, parecia uma atriz dos anos 80 ou uma capa da finada revista Nova. O leitor imagine o cabelo da Melanie Griffith em Uma secretária de futuro e a maquiagem da Farrah Fawcett na capa da Cosmopolitan de abril de 1975. Fui ao banheiro para tirar uma das demãos de pó, abaixar o cabelo e procurar uma rota de fuga – só não saí correndo por pura covardia.

Passei as horas seguintes seguindo orientações de onde colocar as mãos e como dar ares de inteligência. Cogitou-se a possibilidade de tirarem meu sapato e me fotografarem com os pés descalços (só sobre o meu cadáver). Por fim, botaram vento no meu cabelo. Vento. No cabelo.

Quando as fotos saíram, nenhuma daquelas mulheres se parecia comigo.

Tá com pena? Leva pra casa!

Posted: 29th março 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
28 de março de 2016

por Vanessa Barbara

Estava subindo a avenida quando vi a cachorra pela primeira vez. Desgovernada, ela corria ladeira acima, na contramão do trânsito e na faixa de ônibus, desviando assustada dos veículos que passavam. Tentei alcançá-la, mas ela era muito rápida e perdi seu rastro num cruzamento. Por isso continuei meu caminho, esperando que a cachorra encontrasse o dela.

Ao sair do supermercado, duas horas e um temporal depois, peguei uma rua paralela, e lá estava de novo a pequena quadrúpede: bebendo água da sarjeta e parecendo ainda mais assustada. Hesitei por um minuto. A cadela, apavorada, disparou rumo à avenida. Quase foi atropelada por uma moto e um caminhão, e por um instante seria esmagada se não ouvisse a buzina de um ônibus. Larguei meu carrinho de compras e fui atrás dela, atraindo-a para a calçada. Ela se assustou, recuou, mas esperei que se aproximasse.

Foi assim que, numa sexta-feira, levei para casa uma cachorra de oito quilos no braço esquerdo e um carrinho cheio de bananas e figos no direito, descendo uma escadaria enquanto tentava acalmar o animal.

Nunca tive um cão; entendo apenas de tartarugas e de distúrbios do sono. Corri para perguntar aos amigos “o que cachorros comem” e o que fazer com a peluda, que a essa altura estava parada no meio da sala, ainda tremendo. Arrumei ração e uma coleira, e passei a divulgar fotos pela internet em busca do dono.

A vira-lata tem aproximadamente dois anos, é preta com tufos de pelos brancos, muito dócil e treinada. É de porte médio e possui um par de olhinhos castanhos meio chorosos. Estava sem coleira e não é castrada, mas tem todo jeito de ter tido um dono: só faz suas necessidades quando a levo para passear, é bem cuidada e desconhece a típica satisfação canina de destroçar móveis estofados. Dorme onde lhe colocam uma almofada e quase nunca me desobedece. Quando está feliz, abana o rabo tão vigorosamente que parece um helicóptero prestes a decolar.

Passei o fim de semana perambulando com ela pela região, notificando taxistas, cabeleireiros, porteiros e transeuntes. Levei a cadela a um veterinário, que me disse que ela está bem – só muito traumatizada e triste, possivelmente com saudades do dono. Cadastrei a canina em sites como cachorroperdido.com.br e procurasecachorro.uol.com.br, postei sua foto no Facebook e alertei os pet shops da região. Imprimi cartazes. Quase telefonei para o detetive Marcondes, que encontrou a cadela Branquinha e descobriu o paradeiro do shih tzu Hulk.

Lembrei da história de um amigo, que certo dia explicou para a filha de 6 anos que cães vira-latas eram aqueles que reviravam lixeiras na rua, pois ninguém os queria. “Isso não existe”, ela respondeu, recusando-se a viver num mundo em que há cachorros desamparados, maltratados, esquecidos.

Enquanto escrevo, a cadela lambe o meu dedão do pé.

A protest against Brazil’s president, Dilma Rousseff, in Brasilia on Monday. Credit: Andressa Anholete/Agence France-Presse — Getty Images

A protest against Brazil’s president, Dilma Rousseff, in Brasilia on Monday. Credit: Andressa Anholete/Agence France-Presse — Getty Images

The New York Times
26 de março de 2016

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brasil — Se você estiver no Brasil esses dias, não use roupas vermelhas. Nem deixe a barba crescer. No clima político atual, você corre o risco de ser tachado de comunista ou simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Pode sofrer bullying e ser chamado de mortadela (um tipo de embutido que é geralmente considerado comida de pobre).

Por outro lado, eu também não usaria a camiseta da seleção brasileira. Nesse caso você pode ser confundido com um coxinha, apelido dado por razões inexplicáveis àqueles que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Atualmente, os coxinhas odeiam o governo – e os mortadelas – com um furor que a maioria das pessoas reserva a quem rouba sua vaga no estacionamento.

Como chegamos a esse ponto? A atual situação política no Brasil é uma mistura de House of Cards e Game of Thrones. A nova temporada começou no dia 4 de março, quando Luiz Inácio Lula da Silva (popularmente conhecido como Lula), ex-presidente e renomada liderança do PT, foi levado coercitivamente pela Polícia Federal para depor. O interrogatório faz parte da investigação de um esquema extenso de corrupção que já implicou vários de seus aliados, incluindo o ex-ministro da Casa Civil e o tesoureiro do PT. Lula deu um depoimento de três horas, e então o Ministério Público pediu sua prisão sob a acusação de lavagem de dinheiro. (O pedido de prisão preventiva ainda está pendente.)

Quando ele foi liberado pela polícia, o país estava em chamas. De um lado, muita gente comemorou, seja por satisfação de ver que mesmo um ex-presidente podia ser responsabilizado legalmente, ou por ódio ao PT e a Dilma, a sucessora de Lula que foi escolhida a dedo pelo próprio e que está sofrendo um processo de impeachment no Congresso, sob alegações de manipular o orçamento. Do outro lado estavam os apoiadores de Lula, que temem que os grandes conglomerados de mídia, junto com o Judiciário e os partidos de oposição, possam estar orquestrando um golpe para remover a esquerda do poder e devolver o Brasil aos conservadores. (Não ajuda em nada o fato de que algumas das pessoas que pedem o impeachment também sejam a favor de uma intervenção militar.)

Desde então houve uma série de reviravoltas. Em 13 de março, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em todo o país para protestar contra o governo. Três dias depois, Dilma nomeou Lula como ministro da Casa Civil, uma manobra que o protege temporariamente de um processo, já que os ministros só podem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal. No mesmo dia, um juiz federal vazou o grampo de uma conversa telefônica entre Dilma e Lula, na qual ela diz que iria mandar os papéis da nomeação para usar “em caso de necessidade”. Aos olhos da oposição, isso prova que o propósito da nomeação foi escudar o ex-presidente da prisão; a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República afirma que Dilma foi mal interpretada. Enormes protestos e contraprotestos ocuparam as ruas desde então.

Para aqueles que ainda apoiam a presidente, a decisão de vazar o áudio dos grampos telefônicos é ultrajante, um artifício executado para incitar protestos, e que sugere que alguns juízes estariam dispostos a violar a privacidade e as liberdades civis de altas autoridades com vistas a derrubar o governo. Inúmeros juristas declararam que o Judiciário quebrou o protocolo e agiu de forma ilegal, dando a entender que a divulgação dos grampos é parte de um golpe. Os apoiadores do governo também temem que a crise política possa criar um vácuo preenchido por oportunistas da extrema direita.

Ao que parece, ambos os lados têm suas inquietações sobre o futuro do país e suas próprias versões da realidade. A polarização entre mortadelas e coxinhas tornou-se tão extremada que não dá mais para levar o cachorro para passear sem ouvir gritos de “Fora, Dilma” ou “Não vai ter golpe”. Aliás, um cachorro foi atacado na semana passada no Rio de Janeiro por usar um lenço vermelho. Às vezes a oposição raivosa soa como um bando de torcedores histéricos de times de futebol: toda vez que Dilma fala no telejornal da noite, as pessoas se debruçam sobre a janela para bater panelas, e motoristas buzinam em sinal de protesto.

É isso o que mais me assusta. O furor parece estar aumentando em ambos os lados. Seria melhor agora que os brasileiros se acalmassem, ouvissem atentamente uns aos outros (sem bater panelas ou ceder a um alarmismo cego) e deixassem as investigações criminais seguirem seu curso, contanto que sejam desempenhadas de acordo com a lei. É hora de acreditar na força de nossas instituições democráticas. E na neutralidade ideológica de nossos cachorros.

 


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês na página A19 do The New York Times do dia 26 de março de 2016, com o título: Brazil’s Vicious Politics. Tradução da autora.

A protest against Brazil’s president, Dilma Rousseff, in Brasilia on Monday. Credit: Andressa Anholete/Agence France-Presse — Getty Images

A protest against Brazil’s president, Dilma Rousseff, in Brasilia on Monday. Credit: Andressa Anholete/Agence France-Presse — Getty Images

The New York Times
March 26, 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — If you’re in Brazil these days, you shouldn’t wear red. Or grow a beard. In the current political climate, you’ll risk being tagged as a Communist and a supporter of the leftist Workers Party. You could be bullied and called mortadela (a sausage commonly regarded as a poor man’s food).

On the other hand, I wouldn’t wear the yellow-and-green jersey of the Brazilian soccer team, either. That could get you mistaken for a coxinha (fried chicken dumpling), a nickname given, inexplicably, to those calling for President Dilma Rousseff’s ouster. Nowadays, coxinhas hate the government — and mortadelas — with a passion most people reserve for someone who stole their parking space.

How did it come to this? The political situation in Brazil right now is a blend of “House of Cards” and “Game of Thrones.” The new season began on March 4, when Luiz Inácio Lula da Silva (popularly known as Lula), the former president and the distinguished leader of the Workers Party, was taken into custody by the Federal Police. He was questioned as part of an investigation into a sprawling graft scheme that has implicated many of his allies, including his former chief of staff and the treasurer of the Workers Party. Mr. da Silva gave about three hours of testimony, and then public prosecutors sought his arrest on suspicion of money laundering. (The warrant is still pending in the court.)

When he was released from questioning, the country was on fire. On one side, people celebrated, either out of joy that even a former president could be held accountable by the law or out of hatred for the Workers Party and Ms. Rousseff, Mr. da Silva’s handpicked successor, who is facing impeachment proceedings in Congress over allegations that she manipulated the state budget. On the other side, Mr. da Silva’s supporters worried that corporate media outlets, along with the judiciary and opposition parties, might be orchestrating a coup to remove leftists from power and put Brazil back in the hands of conservatives. (It doesn’t help that some of the people calling for Ms. Rousseff’s impeachment are also in favor of a military intervention.)

Since then there have been more cliffhangers. On March 13, more than a million people took to the streets across the country to protest the government. Three days later, Ms. Rousseff appointed Mr. da Silva as her chief of staff, a move that could shield him temporarily from prosecution because ministers can be judged only by Brazil’s highest court. On the same day, a federal judge leaked the wiretap recording of a telephone call between Ms. Rousseff and Mr. da Silva, in which she informed him that she would send the appointment papers “in case they are needed.” Critics say this proves the nomination’s purpose was to protect the former president from arrest; the president’s office says Ms. Rousseff had been misunderstood. Huge protests and counterprotests have clogged the streets since then.

For those who still support Ms. Rousseff, the judge’s decision to leak the audio recordings was outrageous, intended to incite demonstrations, and suggests that a handful of judges are willing to violate the privacy and civil liberties of high-level officials in order to bring down the government. Even many legal experts have said that the judiciary has breached protocol and acted outside the law, strongly suggesting that the release of intercepts is part of a coup. Government supporters also fear that the political crisis could create a political void that is filled by opportunists from the extreme right.

Both sides, it seems, have their own fears for the country’s future and their own versions of reality. The polarization between mortadelas and coxinhas has gotten so bad that you can’t even take your dog for a walk without hearing cries of “Fora Dilma!” (“Out with Dilma!”) or “Não vai ter golpe” (“There will be no coup”). In fact, a dog was attacked last week in Rio de Janeiro for wearing a red bandanna. Sometimes the angry opposition sounds like hysterical soccer fans: Every time Ms. Rousseff speaks on the evening newscast, people lean out their windows to bang pots, and drivers honk their horns in a sign of protest.

That is what frightens me. The frenzy seems to be escalating on both sides. It would be better now for Brazilians to calm down, listen carefully to one another (without pot-banging or blind alarmism) and let the criminal investigations run their course, provided they are carried out according to the law. It’s time to believe in the strength of our democratic institutions. And in the ideological neutrality of our dogs.

Lula e o frango

Posted: 22nd março 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
21 de março de 2016

por Vanessa Barbara

A essa altura, todo cidadão que se preze já conhece a história do frango. Se há um ponto alto no depoimento do ex-presidente Lula para a Polícia Federal, ocorrido no início do mês, é o momento em que ele descreve uma viagem para Nova York realizada em 2003.

Lula afirma que a diária paga pelo governo era muito baixa, de modo que alguns seguranças levaram comida para o quarto do Waldorf Astoria – mais especificamente, frango com farinha. “Eles imaginaram que o cofre era o micro-ondas e colocaram o frango lá dentro, e não conseguiram abrir o cofre, acho que o frango deve estar lá até hoje ou o cara do hotel encontrou o frango”, ele conta, sabe-se lá a troco de quê. O delegado da PF concorda e diz que até hoje não é possível pagar um hotel decente com a verba repassada pelo Poder Executivo.

O depoimento segue nesse tom um tanto amigável e gratuito, como um interrogatório de filme no qual se prepara o terreno para extrair confissões. Ler a íntegra da transcrição, um documento de 109 páginas recentemente divulgado pela imprensa, é uma atividade surreal de lazer que foi executada por muita gente em busca de alívio para a insônia.

Muitos consideraram o depoimento de Lula uma excelente montagem de uma peça de Teatro do Absurdo, escrita por um autor situado entre Beckett e Stoppard. Em certos momentos, há apenas nonsense, como quando ele diz que o papel do Instituto Lula é “tentar mostrar para as pessoas que é possível pescar”, ou quando confessa ficar “chateado de ver um delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho”. Diante de um questionamento obscuro, ele diz: “Não entendi a pergunta. Dormiu pouco essa noite?”.

Em linhas gerais, o tédio domina. Uma das indagações feitas pelo delegado é: “Mas o que cansa mais, estar fora do país ou viajar para aquele país?”. A resposta: “Eu acho que o que cansa mais é o avião mesmo, é desgastante”.

Não estou aqui tecendo juízos de valor sobre o conteúdo, mas afirmando que a transcrição tem inegáveis qualidades literárias. Quem duvidar que recorra a esta cena, que menciona um ex-prefeito petista: “O senhor sabe se o José Fillipi costuma usar um serviço de táxi com o mesmo taxista?”, pergunta o delegado, de forma inesperada. Lula: “Serviço de quê?” Delegado: “Táxi, táxi…” Declarante: “Eu não sei, querido.” Delegado: “Não sabe se ele anda de táxi?” Lula: “Não sei.” Delegado: “Sabe se tem algum taxista que é amigo dele?”

Ou este outro diálogo, travado entre o delegado e um advogado de defesa:

Delegado: “Eu só posso fazer perguntas se eu tiver investigando a pessoa sobre quem eu estou perguntando?” Defesa: “Então, eu acredito que sim.” Delegado: “Não.” Defesa: “Porque a partir do momento que o senhor está fazendo uma pergunta em relação ao advogado, o senhor está investigando o advogado.” Delegado: “Não”. Defesa: “Sim.” Delegado: “Não.” Defesa: “Está.”

É quase um esquete do Monty Python.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
14 de março de 2016

por Vanessa Barbara

Rumo à total reescrita da música popular brasileira, decidimos dar curso à experimentação semântica que se iniciou na semana passada com o estudo do avô no cancioneiro nacional e seguiu, incólume, na exploração de outras e mais revolucionárias possibilidades. Maravilhado, um leitor escreveu para agradecer pela lição de vida e para informar suas mais recentes descobertas, entre as quais: “Solto a vó nas estradas/ Deixo a velha pra lá” (Milton Nascimento).

Ora, todos os que já se debruçaram sobre o tema sabem que o método-avô leva automaticamente ao Corolário do Umbigo, que prevê a troca de “amigo” por “umbigo”, sem qualquer prejuízo estético.

Vejam: “Umbigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves” (Milton Nascimento). Este exemplo, embora destituído de sentido, mostra um carinho singular pela referida depressão cutânea.

Há outros mais complexos, que o leitor haverá de encontrar: “Ter um umbigo/ Na vida é tão bom ter umbigos/ A gente precisa de umbigos no peito/ Umbigos no pé” (Balão Mágico). Ou mesmo: “Umbigos para sempre é o que nós iremos ter” (Agnaldo Rayol) e “Eu quero ter um milhão de umbigos/ E bem mais forte poder cantar” (Roberto Carlos).

Elementos não faltam para corroborar nossa teoria, recentemente chamada por Zé Miguel Wisnik de “revolucionária”, “adiposa” e “comprometida com os grandes temas”.

Em uma fase subsequente deste estudo, ainda em busca de financiamento, decidimos trocar “samba” por “panda”, com resultados até que ecológicos, como em “Quem não gosta de panda bom sujeito não é” (Dorival Caymmi) e “Não deixe o panda morrer/ Não deixe o panda acabar” (Alcione). A matéria é polêmica, sobretudo quando dedos são apontados: “Agora eu sei/ Que toda vez que o avô existe/ Há sempre um panda triste” (Baden Powell).

Por fim, há que se trocar “caminho” por “cominho”. Um exemplo: “É pau, é pedra/ É o fim do cominho.” (Tom Jobim)

Com a substituição, mesmo o pop nacional ganha significados poéticos jamais suspeitados: “Meu cominho é cada manhã/ Não procure saber onde estou/ Meu destino não é de ninguém/ E eu não deixo meus passos no chão.” (Capital Inicial)

A poesia moderna também não fica de fora, demonstrando apreço precoce pelo Código de Defesa do Consumidor: “Tinha uma pedra no meio do cominho/ No meio do cominho tinha uma pedra.” (Drummond)

Por fim, na voz do Rei Roberto, descobre-se o hino definitivo desse condimento oleaginoso: “Um dia o ar se encheu de amor/ E em todo o seu esplendor as vozes cantaram/ Seu canto ecoou pelos campos/ Subiu as montanhas e chegou ao universo/ E uma estrela brilhou mostrando o cominho.” (Roberto Carlos)

Em tempos como estes, em que pouca coisa faz sentido, talvez a saída seja apelar para o lirismo botânico: “Você me pergunta/ Aonde eu quero chegar/ Se há tantos cominhos na vida/ E pouca esperança no ar” (Raul Seixas).

O avô na MPB

Posted: 14th março 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
7 de março de 2016

por Vanessa Barbara

Em seus esforços para a sistematização dos estudos musicológicos no Brasil, pesquisadores de todas as filiações teóricas parecem negligenciar um forte elemento identitário, um fator que perpassa todas as manifestações melódicas nacionais sem distinção: o avô.

Muniz Sodré citou o negro, José Ramos Tinhorão falou em transculturação, Sérgio Cabral mencionou Isaurinha Garcia, mas o avô, coitado, continua esquecido. É hora de reparar essa injustiça. Nesta crônica, falaremos sobre o pai do pai no cancioneiro nacional, conforme seus grandes intérpretes.

Qualquer canção permite a substituição de “amor” por “avô”. Vejam: “Cantarei sozinho imerso em minha dor/ A valsa de quem não tem avô” (João Gilberto)

Ou: “Ah! se ela soubesse que quando ela passa/ O mundo sorrindo se enche de graça / E fica mais lindo por causa do avô.” (Tom Jobim)

Na verdade, com a adoção do método-avô, as canções adquirem novos significados e se abrem para a intertextualidade. As letras, às vezes superficiais, assumem maior complexidade semântica e podem refletir sobre a efemeridade da vida:

“Avô igual ao teu eu nunca mais terei/ Avô que eu nunca vi igual/ Que eu nunca mais verei/ Avô que não se perde/ Avô que não se mede/ Que não se repete.” (Cidade Negra)

Ou: “Eu quero cantar o avô/ Antes que o avô acabe.” (Chico Buarque)

Em inúmeros casos, comprova-se a jocosidade do compositor, que anteviu a interpretação avoenga e se apropriou desta. Mesmo os músicos mais consagrados podem ceder à galhofa, fazendo uma deselegante menção à falta de condicionamento físico do pobre senhor: “Chego a mudar de calçada/ Quando aparece uma flor/ Dou risada do grande avô.” (Chico Buarque)

Ou: “Só não poderá falar assim do meu avô/ Este é o maior que você pode encontrar.” (João Gilberto)

Os exemplos são infinitos e o leitor poderá tirar a prova por si mesmo, bastando apenas um rádio de pilhas e algum pendor investigativo.

No processo, pode inclusive se deparar com evidências criminais, como nos versos: “Permita que o avô/ Invada a sua casa, coração” (Cidade Negra) e “O avô faz a gente enlouquecer/ Faz a gente dizer coisas/ Pra depois se arrepender” (Grupo Raça). E, no exemplo mais assustador de todos, pertencente ao ramo da pirotecnia: “Tá pegando fogo o nosso avô/ Me leva pra onde você for.” (Só Pra Contrariar)

E que ninguém nos acuse de preconceito de gênero, pois é também possível trocar “a voz” por “avós”. Exemplo: “Não me deixe só/ Que eu tenho medo do escuro/ Eu tenho medo do inseguro/ Dos fantasmas da minha avó.” (Vanessa da Mata)

Este exercício pode alçar as mais diversas canções a uma excelência poética jamais imaginada. Arrisco dizer que, com um pouco de esforço, será possível atingir uma sofisticação semântica quase bíblica; afinal, ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem avô eu nada seria.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
29 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

Sendo a data mais singular do nosso calendário, 29 de fevereiro marca também o Dia Mundial das Doenças Raras, promovido pela ONG Eurordis.

De forma geral, doenças raras são distúrbios que acometem uma a cada 2 mil pessoas, e que, por esse motivo, não são alvo prioritário de investimentos em pesquisas em busca da cura ou tratamento. O diagnóstico também é difícil; estima-se que os pacientes com esses distúrbios só recebam um parecer correto após visitar sete médicos. Apesar disso, há cerca de 7 mil doenças raras em todo o mundo, afetando 560 milhões de pessoas. A maioria é causada por um defeito genético e não tem cura.

Algumas são mais conhecidas, como espinha bífida, fibrose cística e Huntington. Outras, nem tanto, como a ictiose arlequim, na qual há um engrossamento da pele do bebê e a formação de escamas que se racham facilmente, e a fibrodisplasia ossificante progressiva (FOP), que causa a formação de ossos no interior dos músculos, tendões, ligamentos e tecidos conectivos.

O símbolo de conscientização adotado pelo movimento é uma fita com listras de zebra, por motivos óbvios.

Imagine o que significa ser portador de uma doença que acomete apenas 10 mil pessoas no mundo, e sentir que se foi sorteado numa loteria cruel. Tenho uma amiga que sabe qual é a sensação; anos atrás, foi diagnosticada com polineuropatia amiloidótica familiar (PAF). É uma doença neurodegenerativa com graves implicações sensitivas, motoras e autonômicas, e que se torna fatal cerca de dez anos após o início dos sintomas.

Cíntia Saggio perdeu a mãe, a avó e um tio para a PAF. Aos 27 anos, vieram os primeiros sinais: ela perdeu a sensibilidade à dor nos pés e a sensibilidade à temperatura do joelho para baixo. Fez o teste genético e detectou a mutação no gene da transtirretina, um erro que faz o fígado produzir uma proteína anômala, suscetível à formação de fibras amilóides que se acumulam nos tecidos.

A progressão natural da doença seria atrofia muscular, paralisia, disfunções gastrointestinais e dores incapacitantes, seguidos de insuficiência cardíaca e falência renal.

O principal tratamento disponível no Brasil é o transplante de fígado, que bloqueia a progressão da doença, mas não reverte as lesões já existentes. Cíntia entrou para a lista de espera e em meses ganhou um órgão novo, num transplante todo pago pelo SUS. Como seu fígado era estruturalmente normal, foi doado para outra pessoa.

Hoje ela está bem, toma imunossupressores e faz parte da diretoria da Associação Brasileira de Paramiloidose (ABPAR).

Casos como o de Cíntia reforçam a importância da doação de órgãos e do investimento em pesquisas, ainda que voltadas para doenças raras. Sabe-se, por exemplo, que o estudo de defeitos congênitos pode contribuir para campos mais amplos; a pesquisa do tumor de Wilms serviu para entender a biologia genética e molecular do câncer.

Podem agradecer às zebras.