Certeza absoluta

Posted: 20th outubro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo – Caderno 2
20 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Em época de eleições, não somos apenas vítimas de spams e posts inflamados de terceiros alegando que o Aécio tem caspa ou que a Dilma comeu um pombo, mas, o que é ainda pior, somos vítimas de nossos próprios vieses cognitivos. Que são até mais difíceis de combater, pois são involuntários e quase instintivos.

Segundo a psicologia, viés cognitivo é um padrão de desvio do julgamento que nos leva a tomar decisões ou interpretar evidências de forma distorcida, sem perceber.

De acordo com o viés de grupo, por exemplo, podemos escolher um partido ou candidato e nos comportar feito hooligans perante a torcida oposta. Praticamos a indignação seletiva, perdoando ou justificando as faltas de nosso time e condenando prontamente o outro lado. Tudo o que nossos amigos fazem é bom, e tudo o que os adversários aprontam é automaticamente desprezível.

Também estamos sujeitos ao viés de confirmação, que é a propensão a buscar, priorizar e acatar informações que comprovem nossas opiniões preexistentes, ao mesmo tempo que rejeitamos tudo o que as contradiga. Através dessa lógica seletiva, tentamos nos defender de indícios que possam abalar os alicerces de nossas certezas.

É o que acontece quando procuramos no jornal apenas as notícias que estejam de acordo com o que pensamos, seja a redução da maioridade penal ou a criminalização da pochete.

Outro viés perigoso é a chamada “racionalização pós-compra”, um mecanismo de valorização posterior de escolhas já feitas. Trata-se de uma forma subconsciente de justificar nossas decisões – sejam carros de luxo ou votos passados – e satisfazer nosso desejo psicológico de consistência, evitando assim dissonâncias cognitivas.

Também tendemos a interpretar dados ambíguos de modo a favorecer nossas ideias. De acordo com Leonard Mlodinow, autor de “O andar do bêbado”, estamos mais preocupados em encontrar e confirmar padrões do que em diminuir nosso índice de conclusões falhas.

Pior: cada vez mais, a internet tem reforçado nossos vieses cognitivos. Filtros e algoritmos de pesquisa priorizam os resultados que queremos ver, e não necessariamente o que precisamos ver. (A esse respeito, ver vídeo do ativista Eli Pariser em www.ted.com.) Também há filtros nas redes sociais, onde, além disso, excluímos os opostos e nos cercamos de nossos pares.  

Não procuramos mais informação, mas confirmação, rejeitando tudo aquilo que é desconfortável, desafiador e antagônico. Queremos continuar confortáveis com nossas visões de mundo, então buscamos dados que as sustentem. Em vez de provar que certas hipóteses estão erradas, passamos o tempo tentando provar que estão certas; porém, como ensina a ciência, só nos aproximamos da verdade quando buscamos o maior número possível de evidências contrárias.

Em resumo: é preciso ter mais isenção e menos cera no ouvido. (E isso vale também para quem menospreza a opção de votar nulo.)

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
13 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Na primeira vez em que vi as luas de Júpiter, estava sozinha com meu binóculo na laje de casa. Montei um tripé, apontei para o planeta e, quando o foco enfim se estabilizou, vi quatro pontos luminosos ao redor. Quase engasguei ao me dar conta do que era. Fiquei olhando para os lados, abanando os braços e repetindo: “As luas! As luas!”, mas não havia ninguém por perto. (Ou talvez tenham todos se escondido.)

Nos últimos anos, obcecada por efemérides celestes e questões de natureza intergaláctica, passei incontáveis horas esquadrinhando o céu em busca de coisas interessantes, e em geral só encontrando minúsculos cocôs cósmicos identificados como HIP 104428. (Confesso que costumo focalizar a região onde se encontra Eta Carinae, na esperança de vê-la explodir de forma gloriosamente pirotécnica, talvez em nosso derradeiro segundo sobre a Terra.)

O fácil acesso a imagens de alta resolução feitas por satélites pouco contribui para a nossa persistência nas noites mais frias. Mesmo em observações com telescópios profissionais, é de bom-tom alertar os novatos sobre a decepção que fatalmente terão, caso estejam esperando anéis em tecnicolor ou estrelas binárias dançando em espirais brilhantes ao som de Tchaikovsky.

O mundo real é bem mais opaco. A olho nu, é possível enxergar cinco planetas, mas, na melhor das hipóteses, todos se parecem com estrelas comuns. Podemos captar as cores de diferentes objetos celestes, mas o que chamamos de “supergigantes vermelhas” não passam de manchas tênues no céu.

Quem acompanhou a passagem do cometa Halley em 1986 sabe o quão distante foi a experiência de uma “cauda de luz varrendo a superfície terrestre”, como se noticiou em 1910.

Pior: há vezes em que não conseguimos sequer vislumbrar borrões. É notória a triste sina de Guillaume Le Gentil, que, em 1771, tentou acompanhar o trânsito de Vênus e falhou por culpa das péssimas condições climáticas. O astrônomo abandonou tudo na Europa e empreendeu uma viagem até a Índia, onde quase que certamente testemunharia a efeméride. Dedicou onze anos à missão, foi dado como morto, perdeu a esposa e não viu nada.

Guardadas as devidas proporções, eu mesma me esforcei para ver o fenômeno na França, em 2011, sem resultados. (Estava nublado.) Também passei noites em claro, à beira da hipotermia, olhando para o horizonte gélido da Islândia, e o que vi em quase todas as ocasiões foi uma aurora boreal semelhante a nacos de nuvens encardidas. Só na última quarta-feira é que finalmente testemunhei labaredas de luz verde dançando entre as estrelas – e foi como ganhar na loteria.

São raros e breves os momentos de glória, mesmo para quem é paciente e está vestindo luvas de esqui. No resto das vezes, convém contar apenas com uma mente imaginativa e o hábito de cultivar reações exageradamente lunáticas diante de coisas que mais ninguém vê.

Sim, eu falo sueco

Posted: 7th outubro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S. Paulo
6 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

As luvas de inverno estavam em promoção naquela loja em Estocolmo. Pergunto ao vendedor, em inglês, se eles têm daquele modelo em um tamanho menor.

Ele responde que não e, na sequência, engata uma longa explanação – só que em sueco. Eu permaneço parada, olhando e chacoalhando a cabeça em profunda consideração.

Neurônio número 1: Ok, estamos entendendo o que ele está falando?
Neurônio número 2: Não há indícios para sustentar essa hipótese.
Neurônio número 3: No entanto, ele continua a falar.
Neurônio número 4: Que língua mais engraçada. Acho que entendi “couve-flor”.
Neurônio número 5: (Tentando dar sentido a uma suposta menção a “couve-flor” na conversa.)
Neurônio número 6: Não. Não estou entendendo nada.
Neurônio número 7: Então por que ninguém ainda não o interrompeu?

*

Estando na Suécia ou na República Checa, existe um breve momento em que você julga compreender o conteúdo de uma conversação em língua estrangeira – dessas mais excêntricas, sem raízes comuns com o português ou o inglês –, mas em geral é só o cérebro alucinando ou captando alguns gestos e entonações mais reconhecíveis. Depois de uns dias sozinho num país de língua esquisita, existe a curiosa sensação de que, a qualquer momento, uma chave de tradução será acionada e tudo se tornará compreensível. (Como o peixe-babel de Douglas Adams ou a Tardis de “Doctor Who”.)

Às vezes o visitante, ciente dos obstáculos de comunicação, tenta sanar o problema falando a sua própria língua, só que mui-to-de-va-gar. Ou mais alto. Conheci um italiano e uma brasileira que resolviam suas pendências cada um em seu próprio idioma, às vezes falando ao mesmo tempo, numa interação digna de Chewbacca e Han Solo.

Em Gotemburgo, uma brasileira conversava tranquilamente com seus conterrâneos quando foi apresentada a um editor escandinavo. Sob os olhares espantados dos presentes, ela engatou uma conversa com o editor, que foi avidamente acompanhada pelos silenciosos membros do convescote. Ao final do colóquio, ela simplesmente se vira e afirma, como se estivesse pedindo desculpas:

“Sim, eu falo sueco.”

Para alguns, isso é normal. Para a maioria, dominar um idioma obscuro não pertence ao reino do possível, sendo nulas as possibilidades de engatar uma conversação normal com um nativo sem fatalmente dizer coisas como: “Preciso de um colírio para os ouvidos”.

Eu, de minha parte, costumo começar uma frase em francês, continuá-la em espanhol e terminar tudo com um inglês de dar pena. Minha técnica básica de comunicação em língua estrangeira é a de inspirar piedade – seguida pelo método de apontar coisas e imitar patos.

Os chineses naturalmente se divertem muito.

Eu e minha avó contra o deputado (tradução)

Posted: 2nd outubro 2014 by Vanessa Barbara in Traduções
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The International New York Times
3 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Doze anos atrás, ajudei a cassar um deputado. Pelo menos temporariamente.

A história teve início em 7 de setembro de 2002, dia da Independência do Brasil. Naquele feriado, minha avó de 68 anos me contou sobre o curso de informática que estava fazendo. Era gratuito, ela disse, e a professora era boa, mas algo estava muito errado.

O curso era patrocinado por um candidato a deputado estadual. Seu nome estava impresso em todas as páginas da apostila, ao lado do número que deveria ser pressionado nas urnas eletrônicas, e havia também uma grande foto dele sorrindo. Minha avó me mostrou o texto padrão para os exercícios de digitação: era uma breve biografia do parlamentar, um resumo de suas principais realizações e feitos mais nobres. Ela sabia tudo de cor e ficava repetindo mecanicamente – dava para ver que estava zangada.

Além disso, ela teve de apresentar o título de eleitor para se inscrever no curso. “Isso não é ilegal?”, ela me perguntou.

Na época, eu era estudante de jornalismo e queria mudar o mundo, então decidi investigar. Ela me convidou para a cerimônia de formatura, alguns dias mais tarde, e fui ao local com meu gravador e a câmera fotográfica. Gravei o discurso de formatura, no qual a professora pedia aos dez ou mais alunos que votassem em seu benfeitor, “pra ele continuar fazendo esse trabalho bonito que ele faz”. O candidato não estava lá, mas seu assessor aconselhou que os alunos “fizessem o que devia ser feito”, observando que uma das maneiras de valorizar o curso era “através do voto”. O presente de formatura era uma camiseta de propaganda política.

Enviei todas as provas para o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, uma ONG recém-criada que contava com o apoio de organizações como a Ordem dos Advogados do Brasil. O grupo entrou com um processo contra o candidato por compra de votos, e o caso foi para o Tribunal Regional Eleitoral.

Nesse meio-tempo, ele foi eleito.

Quando minha avó e eu fomos finalmente chamadas para servir de testemunhas de acusação, anos depois, parte da família ficou com medo. Alguns ainda se lembravam de como era testemunhar na época da ditadura militar, apenas trinta anos atrás: inútil, perigoso e potencialmente letal. Outros insistiam em dizer que isso não era da nossa conta.

Mesmo assim, testemunhamos – diante do próprio candidato e de uma fileira extensa de advogados de defesa. Eles me perguntaram uma série de coisas como: “Quantas pessoas estavam presentes?” e “Depois de quanto tempo você soube?”, como se eu fosse abrir uma planilha e responder: “Trezentos e quinze, senhor; oito dias, nove horas e dezessete minutos. Horário de Brasília”.

O candidato foi inocentado por questões processuais, mas o caso foi para o Tribunal Superior Eleitoral, onde ele foi, por fim, condenado.

Poderia ser uma história de sucesso sobre duas improváveis heroínas cumprindo seu dever cívico, mas isso seria muito óbvio. Como o caso demorou mais de três anos para ser julgado, o deputado perdeu apenas o último ano de mandato. Nenhuma outra penalidade foi aplicada. Então, em 2006, ele se candidatou e foi eleito para mais quatro anos na Câmara. De acordo com a nossa legislação, continuava perfeitamente elegível.

Cinco anos atrás, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral liderou uma enorme campanha que levou à aprovação da lei da Ficha Limpa, que torna inelegíveis por oito anos os candidatos previamente condenados por decisão de órgão colegiado. Seria o caso do nosso deputado cassado, que continuava na política, mas ele de alguma forma encontrou uma forma de escapar à lei. Em 2010, perdeu as eleições, mas, como primeiro suplente do partido, substituiu outro deputado e assim cumpriu seu sétimo mandato, no qual criou gloriosamente o Dia Estadual do Ovo. (Que tramitou em regime de urgência.)

Hoje ele concorre novamente a deputado estadual.

Isso resume o atual desencanto dos brasileiros com a política, e também o cinismo da minha avó sobre o assunto. Hoje com 80 anos, ela decidiu que não irá mais votar. (No Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos de 18 a 70 anos.)

Nossa história recente aponta para decepções parecidas. Em 1989, o Brasil teve suas primeiras eleições diretas para presidente desde a época da ditadura militar. Dois anos depois, o presidente eleito foi obrigado a renunciar após acusações de corrupção. Fizemos uma nova Constituição em 1988, e era muito boa. Mas muitos dizem que “não pegou”. Em 2002, elegemos nosso primeiro presidente de esquerda oriundo da classe operária, e que mais tarde foi reeleito. Então parte do governo mostrou-se envolvida num esquema de corrupção, em 2005.

Agora estamos prestes a votar de novo para presidente, no próximo dia 5 de outubro, mas desta vez não há grandes expectativas.

A noção de leis aprovadas que simplesmente “não pegam” e de políticos desonestos que continuam a ganhar eleições a despeito de todas as evidências contrárias alimenta a nossa desilusão coletiva. As coisas parecem acontecer (ou não) a despeito dos nossos esforços, de formas que não conseguimos compreender. Ano passado, milhões de pessoas foram às ruas protestar contra a má qualidade dos serviços públicos, mas pouca coisa mudou – se é que isso chegou a ocorrer. Ano após ano, nossos políticos apenas criam mais Dias do Ovo e aumentam os próprios salários.

Hoje a maioria dos brasileiros acredita que nossa democracia representativa está apodrecida. Sentem que nada vai mudar, não importa o que façam. Temo que isso seja verdade.

Mas eles desistiram até de tentar.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 3 de outubro de 2014. Tradução da autora.

Grandma and Me vs. The Congressman

Posted: 2nd outubro 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The International New York Times
October 3, 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — Twelve years ago, I helped oust a congressman. At least temporarily.

The story began on Sept. 7, 2002, Brazil’s Independence Day. On that holiday, my 68-year-old grandmother told me about her new computer training lessons. They were free, she said, and the teacher was good, but something was very wrong.

A candidate who was running for Congress the following month had sponsored the course. His name was printed on every page of the course brochure, along with his candidate number (which voters would press in the voting machines), and there was a huge photograph of him smiling. My grandma showed me the sample text for typing exercises: It was a short biography of the politician, a summary of his main accomplishments and noblest deeds. She already knew everything by heart, and she kept repeating it robotically — you could see that she was angry.

Also, she had had to present her voter registration card in order to enroll in the course. “Isn’t that illegal?” she asked me.

I was a journalism student at the time, and I wanted to change the world, so I decided to investigate. She invited me to her graduation, later that week, and I went to the building with my tape recorder and a camera. I recorded the graduation speech, in which the teacher asked the 10 or so students to vote for their benefactor, so he could “keep on doing his beautiful work.” The candidate himself wasn’t there, but one of his political advisers told the students that one way to show appreciation for the course was “by the vote.” The graduation gift was a campaign T-shirt.

I submitted all the evidence to the Movement Against Electoral Corruption, a newly formed nonprofit group that had the support of organizations such as the Brazilian Bar Association. The group formally accused the candidate of buying votes, and the case went to the regional electoral court.

In the meantime, he was elected.

When my grandma and I were finally called as witnesses for the prosecution a few years later, part of our family was afraid. Some of them still remembered what it was like to be a witness during the military dictatorship, only 30 years ago: worthless, dangerous and potentially lethal. Others told us to mind our own business.

Nonetheless, we testified, in front of the candidate himself and a handful of his defense lawyers. They asked me for details such as, “How many people were present at the graduation?” and “How many days did you wait to present the evidence?” as if I could open an Excel spreadsheet and answer, “Three hundred and fifteen, sir; eight days, nine hours and 17 minutes, Brazilian local time.”

The candidate was acquitted on procedural grounds, but the case went to the superior electoral court. There he was finally convicted.

It could be a success story about two improbable heroines fulfilling their civic duties, but that would be too easy. Since the trial proceedings took more than three years, the congressman was deprived of his seat only in the last year of his tenure. No other penalties were applied. Then, in 2006, he was elected for another term of four years. According to our law, he was still eligible.

Five years ago, the Movement Against Electoral Corruption led a huge campaign that persuaded the president to approve the long-awaited Clean Record Act, which stipulates that politicians who are convicted of a crime cannot apply for public jobs for eight years. That should have been the case for our convicted candidate, who was still in politics, but somehow he found a way to bypass the law. He lost the election but, as a substitute for the party, replaced another congressman who had to step down and thus fulfilled his seventh term, in which he gloriously created a holiday called the State Egg Day. (This was classified as an “urgent matter.”)

He’s currently running for Congress again.

That sums up Brazilians’ political disenchantment nowadays, and also my grandmother’s cynicism on the subject. Now 80, she’s decided never to vote again. (In Brazil, voting is mandatory for citizens between 18 and 70.)

Our recent political history shows similar disappointments. In 1989, Brazil held its first direct presidential election since the military dictatorship. Two years later, the president was forced to resign over accusations of flagrant corruption. We had a new Constitution in 1988, a nice one. But some say “it didn’t stick.” In 2002 we elected our first left-wing president from the working class, who was later re-elected. Things were finally looking better. Then it turned out part of the government was involved in a case of vote-buying in 2005.

Now we’re about to vote for president again, on Oct. 5, but there are no great expectations.

This notion of approved laws that simply “don’t stick” and of dishonest politicians who continue to win elections despite all evidence against them fuels our collective disillusion. Things seem to happen (or don’t) despite our best efforts, in ways we cannot grasp. Last year, millions protested in the streets against the poor quality of public services, but little, if anything, has changed. Year by year, our politicians just create more Egg Days and raise their own salaries.

Today most Brazilians believe that our representative democracy is rotten. And they feel that, whatever they do, nothing is going to change. I’m afraid that they’re right.

But they don’t even try anymore.


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

Vexames internacionais

Posted: 29th setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo – Caderno 2
29 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Conhecer um país estranho é como voltar a ter cinco anos: você não vai entender se é pra puxar ou empurrar, vai tomar bronca o dia todo, comer areia e envergonhar os adultos. (Na dúvida, convém não encostar nas coisas.)

No meu primeiro dia em Londres, logrei êxito em acionar um alarme de emergência no banheiro de um hotel chique. Pensei que aquela cordinha vermelha servisse para acionar a descarga, e foi com gosto que a puxei – talvez mais de uma vez, feito um sino.

Vi que alguma coisa estava errada quando a descarga não funcionou e ouvi um apito estridente que não parou enquanto não puxei de novo a cordinha – seguiu-se um burburinho de ingleses desesperados lá fora, perguntando se estava tudo bem. Encontrei a cordinha certa e saí do banheiro sem olhar nos olhos de ninguém.

Em Paris já pedi cuscuz achando que se tratava do cuscuz à paulista. Quando veio aquela farofa e o cozido de carnes, argumentei reiteradamente ao garçom que aquele não era o prato que eu tinha pedido. Como uma boa criança de cinco anos, almocei só as batatas-fritas.

Há quem confunda Roterdã com Amsterdã e desça na cidade errada, ou, como um casal australiano durante a Copa do Mundo, vá para El Salvador em vez de Salvador, na Bahia.

Experimente deixar suas roupas numa lavanderia familiar em Xangai e você nunca mais vai se sentir seguro de si – ou de que seus moletons irão um dia voltar. Tente pedir serviço de quarto num hotel em Macau, ou frango agridoce num restaurante em Hainan. Experimente entabular qualquer tipo de comunicação com os taxistas em Pequim – incluindo aí o seu destino – sem ter tudo anotado em chinês. Até hoje não sei o que queria um sujeito que me abordou na rua em Macau perguntando se eu conhecia alguma indústria aeronáutica naquela região – talvez fosse um código para alguma coisa ilícita. Tipo durians.

Jamais peça durians para comer em Cingapura – eles têm cheiro, gosto e textura de chulé. Não sem razão, o porte de durian no metrô é ilegal.

Na China, dizer “não” para um vendedor equivale a pechinchar vigorosamente por um produto, sendo necessários aproximadamente cinco “nãos” para que ele corte o preço pela metade e finalmente desista. Não me perguntem como efetivamente dizer “não”.

Dos ingleses e alemães você sempre vai tomar um esculacho, ainda que não tenha culpa de nada. As autoridades inglesas são eternas professorinhas de coque com uma régua na mão; se você pisar dois centímetros para fora de uma faixa obrigatória, elas vêm te passar uma descompostura de fazer aflorar a rosácea do primeiro-ministro. Os franceses retribuirão as gentilezas se você tentar falar no idioma deles, mas continuarão bufando a respeito de tudo. Os suecos são muito simpáticos e costumam elogiar quem traz a própria sacola.

Já os chineses riem muito, normalmente de você.

Um conto do 1756

Posted: 23rd setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
22 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Juro que aconteceu, mas não foi comigo. Quem me contou foi um cidadão de boa índole, e por sinal muito cioso dos detalhes, no qual os senhores leitores podem confiar. (Ok, confesso: foi a minha mãe.)

Um senhor subiu no ônibus quase vazio, lá pela altura do Imperatriz, com um volume qualquer enrolado numa blusa, e sentou num dos bancos da frente. O ônibus seguiu caminho, feliz e balouçante, até parar num engarrafamento a quinhentos metros dali.

Ninguém pareceu se abalar com o trânsito saturado de automóveis, algo bastante normal por aquelas bandas. Apenas aguardavam com a paciência de sempre, olhando pelo vidro e pensando na vida.

Foi quando um segundo elemento, tresloucado e esbaforido, trajado com elegância, materializou-se na calçada da direita. Falava ao celular e gesticulava para o senhor que estava sentado à janela, mas não deu para entender o que estava se passando. De dentro do ônibus, este apenas fazia “não” com o dedo, entre zombeteiro e seguro. “Não, não”, ele repetia, mudo.

O ônibus finalmente arrancou e virou uma rua, a galope. A cena já teria se esvaído da mente dos passageiros, catalogada na classe de “incidentes urbanos a esclarecer”, quando o camarada com a blusa na mão levantou-se de súbito e gritou para que o motorista parasse no ponto – como se a vida de sua blusa dependesse disso.

Julgando prudente obedecer ao passageiro, talvez detectando um certo nível de urgência naquela situação, o condutor estancou e o senhor da blusa desceu pela porta da frente. Saiu correndo.

Atônito, o motorista nem fechou a porta e continuou preso no tráfego – até que, surpresa!, o homem elegantemente trajado tornou a se materializar na calçada ao lado do ônibus, tal qual um justiceiro de faroeste. Houve quem cogitasse uma aparição sobrenatural.

Desta vez ele carregava um notebook. Da calçada, ainda ofegante, explicou ao motorista que havia sido assaltado no escritório, e que tinha visto o bandido subir no 1756. Munido de um furor reparatório, partiu ao encalço do meliante, talvez correndo e tomando táxis sucessivamente, até que conseguiu reconhecer o ladrão na janela e este se apavorou, descendo do coletivo em disparada.

Após curta perseguição, o homem conseguiu agarrá-lo na rua e recuperou o computador roubado.

Tudo isso o cobrador recontou aos passageiros mais distraídos, em meio a comentários gerais. O coletivo arrancou mais uma vez. Dobrou a esquina da avenida Cruzeiro do Sul e, nesse meio tempo, até chegar ao ponto final, o motorista ainda conseguiu entreter a plateia com uma peripécia de sua lavra, segundo a qual fora certa vez assaltado e, quando o infrator deu as costas, tascou uma ratoeira extragrande recém-comprada na cabeça do infeliz.

Nada mais emocionante do que um bom congestionamento.

E a Copa?

Posted: 16th setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S. Paulo – Caderno 2
15 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Dois meses após o término da Copa do Mundo, o governo ainda não sabe dizer quanto custou o evento. Também não divulgou qual foi o impacto do torneio na economia brasileira, porém admitiu que a queda do PIB no segundo trimestre deveu-se à redução de dias úteis no calendário provocada pelos jogos.

A chamada Matriz de Responsabilidades da Copa, que é a tabela oficial de prestação de contas do governo, foi atualizada pela última vez em setembro de 2013 – ou seja, há um ano. Naquela época, previa-se um gasto total de R$ 25,5 bilhões, dos quais 85,5% de recursos públicos. Hoje não se sabe qual a verdadeira dimensão dessas despesas.

Em entrevista para o blog do jornalista Rodrigo Mattos, do Uol, o secretário executivo do Ministério do Esporte declarou que as contas só serão atualizadas em outubro – provavelmente depois das eleições. Ele não soube informar se o número deve subir ou descer, mas deu a entender que não pretende incluir novos itens, apenas revisar os existentes.

Naturalmente, o assunto não causou espanto.

Assim como não parece ser um problema o fato de que, segundo o portal Superesportes, das 32 obras de mobilidade urbana que restaram na lista, 23 não estão concluídas (Em Cuiabá, fala-se em uma constante “revitalização dos tapumes” da avenida do CPA).

A passividade com que muitos de nós assistem, do sofá, aos lances mais acintosos do cotidiano é um dos legados desta Copa, que contou com botinadas dignas de replay.

Tivemos o episódio das capas de chuva, no qual o governo de Brasília quase efetuou a compra de 17 mil impermeáveis a R$ 314 cada – ainda que a Copa fosse disputada em época de seca. Tivemos um estádio que custou R$ 1,4 bilhão e apresentou goteiras. Tivemos oito operários mortos durante a construção das arenas, e também a queda de um viaduto em Belo Horizonte com duas vítimas fatais.

Em São Paulo, as manifestações contra a Copa resultaram em 89 pessoas feridas e 508 detidas – a maioria para “averiguação”. Muitos protestos não puderam nem sair do lugar, em episódios de forte repressão que foram denunciados pela Anistia Internacional.

Nada disso chegou a ser tão discutido quanto a contusão do Neymar, que adquiriu contornos de tragédia nacional – ainda que 45 dias depois ele tenha voltado a jogar -, e, por fim, o placar do jogo contra a Alemanha, que até hoje é considerado fonte de “vergonha” e “humilhação” para o povo.

A julgar pela sonora indiferença do público e da mídia com a Matriz de Responsabilidades da Copa, a corrupção e o superfaturamento estão absolutamente liberados para os próximos Jogos Olímpicos. O resultado no esporte nem precisa ser bom – e é quase certo que ninguém vai se interessar pela conta.

Alegria de pobre

Posted: 9th setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo
8 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Matthew Killingsworth é psicólogo de Harvard e criador do Track Your Happiness (www.trackyourhappiness.org), um projeto que utiliza smartphones e e-mails para avaliar a felicidade em tempo real, ao longo do dia. Durante cerca de um mês, a cobaia responde perguntas sobre o que estava fazendo em determinado instante e qual o grau de bem-estar auferido. O resultado é uma série de gráficos que determina quais são as principais fontes individuais de felicidade em relação aos afazeres, o foco, as interações e a produtividade.

Meu relatório acaba de ficar pronto e fiz uma descoberta: sou mais feliz quando estou num ônibus. O aumento da minha satisfação pessoal é notável quando me encontro no interior de um coletivo, sendo comparável apenas à minha satisfação em restaurantes (média de 70%).

(É curioso perceber que minha alegria despenca para ridículos 25% quando estou em terminais ou pontos de ônibus aguardando a condução, e sobe uma infinidade de pontos percentuais conforme galgo os degraus.)

Realmente não há maior fonte de contentamento nesta vida do que vislumbrar um 971M vazio vindo na sua direção, conseguir sentar no banco alto e abrir a janela para receber vento no rosto – ainda que seja um bafo seco de poluição e escapamento. Nada mais feliz do que passar velozmente pelo corredor de ônibus, ultrapassando automóveis parados com motoristas tristes em seu interior.

Por outro lado, não há nada mais depressivo do que tomar ônibus na hora do rush e ficar 50 minutos preso no tráfego da rua Voluntários da Pátria, de pé, prensada entre dois idosos e um beliche. Nada pior do que fila tripla no ponto e o ônibus que não chega nunca.

Há algumas semanas experimentei o Paese (Plano de Apoio entre Empresas de Transporte em Situação de Emergência), que é acionado quando as estações de metrô da linha amarela fecham para obras. Nessas ocasiões, uma frota de ônibus atende aos passageiros no caminho entre as estações.

Naquele domingo, o Paese representou uma alta de 60% na minha alegria bruta: a fila era grande, mas corria rápido, pois havia inúmeros ônibus à disposição. Ninguém tinha de passar pela catraca nem pagar passagem. O esquema era eficiente: o coletivo abria as portas, pegava os passageiros e saía. Sem parar em nenhum ponto, o motorista singrou os corredores da avenida Rebouças como quem explora novos continentes; levou quinze minutos para ir do Largo da Batata até a Avenida Paulista.

A alegria, meus senhores, é um ônibus rápido e vazio, e isso foi comprovado por um cientista de Harvard em pesquisa com uma amostra representativa de mandaquienses (um).

Tanto que, agora, quando a tristeza começa a bater, meus entes queridos já não hesitam em agir em meu benefício: basta erguer o braço e acenar para o ônibus mais próximo.

Visigodos, bárbaros e ostrogodos

Posted: 2nd setembro 2014 by Vanessa Barbara in Sem categoria
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IMG_9600Foto: Eli Simioni

Blog Posfácio
2 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Nota preliminar: esta resenhista resolveu ater-se exclusivamente ao conteúdo do livro, abstendo-se de opinar sobre o assunto por questões óbvias, ainda que tétricas: na situação atual, não podemos contar com a garantia de direitos constitucionais básicos como liberdade de expressão e reunião – a julgar pelas prisões arbitrárias e pela prática de um certo “direito penal de autor”, que ocorre quando se investiga uma pessoa em busca de materialidade e autoria de condutas delituosas. Portanto, a resenha se limitará às ideias apresentadas pelo cientista político canadense Francis Dupuis-Déri, que não é brasileiro e não poderá ser alvo de investigação por formação de quadrilha armada, corrupção de menores e incitação à violência. (Pelo menos a princípio. Lembrem-se de Bakunin.)

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Escrito por Francis Dupuis-Déri, Black blocs [Les black blocs: la liberté et l’égalité se manifestent] foi publicado originalmente em 2003, e atualizado de forma sistemática até a edição atual, de 2014. O próprio autor revela, nas últimas páginas do livro, que de início julgava que a tática black bloc estava diminuindo em tamanho e importância, mas se mostrou equivocado na previsão: cada vez mais parece ser uma “imagem do futuro” que vem ganhando força e, portanto, merece análises mais detidas e responsáveis.

Ele explica que o chamado “bloco negro” surgiu no início da década de 80 no contexto do movimento autonomista alemão – os Autonomen, que pregavam a descentralização do poder, a autogestão e a colaboração em rede, praticando uma política igualitária e participativa. Para eles, a autonomia individual e a autonomia coletiva eram complementares e igualmente importantes. Da mesma forma, os black blocs atuam segundo princípios ligados à tradição política anarquista, como liberdade e igualdade, e podem possuir ideologias variadas: marxismo, feminismo radical, ambientalismo. A estrutura é sempre horizontal e sem hierarquia – Dupuis-Déri conta que, nesse cenário inicial, seis pessoas chegaram a ser acusadas de pertencer a uma “organização criminosa” conhecida como BB. Isso aconteceu em 1981, em Frankfurt. Mas o caso foi arquivado e as próprias autoridades admitiram que a organização nunca existira.

A roupa preta é inspirada na tradição anarcopunk e representaria a solidariedade em massa a uma causa ou a resistência conjunta à opressão. As máscaras teriam como objetivo proteger a identidade dos ativistas e, ao mesmo tempo, conferir-lhes uma identidade coletiva. (Além de resguardá-los contra gás lacrimogêneo e spray de pimenta.)

No contexto de uma manifestação de rua, os BB podem ajudar a dar voz aos ativistas, sobretudo por consistirem numa força de resistência à repressão policial. Em certas ocasiões, para além da postura defensiva, eles podem decidir pela ação direta. Praticam uma espécie de vandalismo performático: quebram vidraças de instituições financeiras ou governamentais como forma de chamar a atenção para sua oposição ao que consideram símbolos do capitalismo.

Segundo Dupuis-Déri, a ação direta “é uma reação a sentimentos de injustiça e situações de opressão, desigualdade e violência sistêmica”. Seria uma tentativa de mostrar que os bens materiais não são tão importantes – Dupuis-Déri conta que muitos dos participantes dessas ações ficam surpresos com a indignação das pessoas diante de vidraças quebradas, visto que a “propriedade não sente dor”, parafraseando uma pichação em Seattle. “Não machucamos pessoas. São as corporações que machucam as pessoas”, declarou um BB entrevistado pelo autor.

O filósofo suíço Nicolas Tavaglione defende que, ao atacar propriedades públicas e privadas, os adeptos da tática black bloc forçam as elites a admitir o que valorizam mais, os bens materiais ou a vida humana e a liberdade. “O protesto nos coloca diante de uma escolha social tão velha quanto a Europa: liberdade ou segurança. Por levantarem essa questão, os BB são os melhores filósofos políticos da atualidade”, afirma.

Contudo, o assunto não costuma ser discutido de forma séria pela imprensa ou pelos acadêmicos. Em vez disso, os BBs são associados de forma indiscriminada à anarquia e à irracionalidade destruidora. A imprensa os retrata como jovens sem convicções políticas que se deixam levar e acabam se envolvendo em manifestações “mais para queimar e quebrar do que para protestar ou contestar”. Nega-se o caráter político de suas ações diretas, que são relegadas para fora do campo e da racionalidade políticos. [1]

Desde o policial e o vereador até o comunista, passando pelo ideólogo capitalista, pelo “bom manifestante”, pelo porta-voz das forças progressistas e pelo editor de jornal, todos compartilham os mesmos sentimentos e chegam às mesmas conclusões. “Câncer”, “idiotas”, “bandidos irracionais”, “anarquistas”, “vagabundos”, “desprovidos de crenças políticas”, “ingênuos”, “massa de manobra”, “covardes”… Para Dupuis-Déri,

palavras como essas têm efeitos políticos muito reais, pois privam uma ação coletiva de toda a credibilidade, reduzindo-a à expressão única de uma violência supostamente brutal e irracional da juventude.

Perspectivas aparentemente pautadas no senso comum pedem que os manifestantes “rompam relações com os vândalos infiltrados”, pois estes tirariam todo o crédito dos protestos. A mídia repete isso ao infinito, argumentando que, por causa dos BBs, a maior parte da cobertura fala das vitrines quebradas, o que acaba desviando e ofuscando as questões que os manifestantes estão tentando suscitar. A despeito disso, ninguém discute que questões são essas. “As palhaçadas deles roubaram a cena de milhares de manifestantes pacíficos que podiam ter coisas sérias a dizer sobre a divisão cada vez maior entre ricos e pobres”, disse um repórter do Los Angeles Times, ignorando completamente o teor de tais “coisas sérias”. Dupuis-Déri retruca com firmeza: “A verdade é que a mídia não está disposta a falar dessas questões. E ninguém está disposto a levar a sério as preocupações dos manifestantes pacíficos”. [2]

Para o autor, existe uma ironia na postura assumida por esses profissionais de mídia: eles poderiam muito bem escolher não cobrir o vandalismo, mas se concentrar nas “verdadeiras questões”, caso estas realmente importassem para eles, em vez de censurar os “vândalos” por desviarem a atenção da mídia (inclusive a deles próprios).

O fato é que, na cobertura da grande imprensa, mesmo manifestações pacíficas são reduzidas a algumas poucas imagens anedóticas, usando adjetivos como “amigável” para salientar o aspecto inócuo desses eventos. São raras as vezes em que o significado político de manifestações, violentas ou não, é levado a sério pelos principais meios de comunicação. Para o autor, não há dúvida de que os jornalistas adoram cobrir o espetáculo proporcionado pelos BBs e dão mais destaque a uma manifestação violenta do que a uma passeata calma e “amigável”. [3]

Ainda no campo das críticas, Dupuis-Déri examina a postura de uma certa elite progressista ou esquerdista, que considera apenas o próprio trabalho como sendo verdadeiramente importante e prioritário; portanto seria melhor que os radicais ficassem calados, seguissem as regras e se comportassem. Muitos deles acusam a tática black bloc de ser antidemocrática. Dupuis-Déri pondera que os pressupostos por trás dessas críticas “vêm de uma visão dominante segundo a qual um movimento social deve ser unificado e avançar em uma única direção determinada por líderes esclarecidos confortavelmente instalados na chefia de organizações que são, em tese, responsáveis, democráticas e representativas da sociedade civil como um todo”.

Tais críticas derivam de uma concepção diferente de democracia – fundamentalmente representativa. Para essas pessoas, alguém deve falar por todo um movimento, do qual se excluem os elementos que desviam dos padrões. Os BBs seriam considerados produtos de um desvio cultural combinado a uma patologia psicológica. Seriam como um refugo para os líderes de grupos institucionalizados que, ao se dissociarem dos “vândalos”, desejam projetar uma imagem calma, respeitável e homogênea de um movimento capaz de falar com uma única voz: a da sua elite.

Os BBs, por sua vez, veem um movimento social como algo heterogêneo, e defendem que a multidão não pode ser representada sem que seu desejo seja excessivamente simplificado pela elite que a representa. Em outras palavras, que a delegação de autoridade destrói os princípios de igualdade e liberdade, sendo indesejável se comparada ao pluralismo e à autonomia de escolha.

Em troca de recriminar os BB publicamente, os porta-vozes de movimentos progressistas esperam ser recompensados politicamente. O que pode suscitar a questão: que tipo de relação política estaria sendo instaurada quando a elite progressista pede permissão às autoridades para se manifestar, discute a rota da passeata com eles e supervisiona seus manifestantes com um conjunto de líderes? Outra questão: sempre se faz referência a grupos não controlados. Mas por quem? Pela polícia? Ou pelos organizadores e porta-vozes do movimento?

Existe a ideia de que tudo ficaria bem se os manifestantes agissem de maneira dócil e controlada. Ao que os BBs retrucam: “Não estamos aqui tentando aterrorizar o público. Nós somos o público”.

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Durante boa parte do livro, Dupuis-Déri ressalta que é perfeitamente possível considerar a ideologia anarquista desinteressante e preferir o liberalismo, ou o pacifismo a qualquer forma de vandalismo. É possível discordar de análises e motivações políticas dos black blocs, mas a discordância não pode servir de desculpa para se recusar a examinar seriamente as ideias e a lógica dos adeptos da tática.

Dizer que eles são jovens meramente apolíticos e irracionais é, na melhor das hipóteses, preguiça intelectual e, na pior, uma mentira política.

 O autor se põe a desconstruir certas ideias preconcebidas com relação aos exemplos de Mahatma Gandhi e Martin Luther King. “A história oficial atribui grande sabedoria política e moral a esses famosos defensores da ação direta não violenta. Com frequência, descreve-se que eles venceram apenas através de práticas não violentas. No entanto, tanto um quanto o outro faziam parte de movimentos amplos que incluíam atores políticos que recorriam à força e conduziam ataques armados contra a polícia e contra as Forças Armadas. Será que teriam triunfado sozinhos sem a violência de seus aliados?”, questiona.

Para ele, a história oficial dos Estados liberais modernos está repleta de ações diretas violentas, conduzidas por pessoas que hoje são aclamadas como heróis da liberdade, da igualdade e da justiça. Dá como exemplos a Festa do Chá de Boston e a Queda da Bastilha. Na queda do Muro de Berlim, destruído por jovens com martelos e marretas, “nenhum jornalista ocidental tentou minimizar a importância política desses atos violentos representando os homens e mulheres que os realizaram como jovens arruaceiros ou bandidos bêbados em busca de emoção”, observa. Ele também usa como exemplo as lendárias suffragettes, que lutaram pelo voto feminino no início do século. Uma de suas líderes, Emmeline Pankhurst, declarou que “o argumento de uma vidraça quebrada é o mais valioso na política moderna”.

Teóricos anarquistas como Emma Goldman e Peter Kropotkin mudaram de posição diversas vezes, mas sempre frisaram que a violência anarquista é muito menos letal que a do Estado. O autor parece concordar, lembrando que “as únicas pessoas que já chegaram a dar a ordem de lançar bombas atômicas em cidades eram liberais”.

Para a antropóloga Sian Sullivan, citada no livro, o uso da força e a destruição de propriedade estariam ligados à raiva contra um sistema desigual e explorador. Ele neutralizaria com eficácia algumas reações mais comuns, porém inócuas, ao sistema: primeiro, a apatia social, a passividade e o isolamento voluntário; segundo, a conclusão a priori de que a não violência é racional e eficiente, ao passo que a força militante é irracional e ineficaz.

Nesta época de pensamento único, o pluralismo de ideias apresentado por Dupuis-Déri é notável. Ele advoga pelo respeito à diversidade de táticas, citando o depoimento de um anônimo: “Sei muito bem que não tenho todas as respostas sobre o tema da escolha entre violência e não violência, então não vou impedir as pessoas de fazer o que elas querem; não quero esse tipo de poder”. Outro pondera: “Normalmente acho que quebrar janelas e lutar contra policiais é contraprodutivo, mas os participantes dos BB são meus companheiros e aliados nessa luta, e precisamos de espaço nesse movimento para a raiva, a impaciência e o fervor militante”.

Dupuis-Déri fala sobre um certo éthos da tática BB, que é de solidariedade e cuidado coletivo. E conta que existe, sim, uma atmosfera ética permeando as redes anarquistas, a exemplo do que ocorreu em 1978 em Boston, durante um protesto antinuclear. “Frente a frente com o poder quase infinito de uma usina nuclear e a força repressora da polícia com a missão de protegê-la, militantes passaram horas debatendo se o uso de alicates para abrir a cerca constituiria ou não um ato de violência. Os defensores de outras ideologias não costumam ter reservas contra o uso de equipamentos muito mais destrutivos do que alicates”, ironiza.

Dupuis-Déri considera que uma tática mais direta pode trazer benefícios, tais como: incentivar mudanças culturais em vez de apenas políticas ou econômicas; definir a direção das mudanças em vez de instaurar meros objetivos específicos; reclamar o espaço público; modificar a ênfase das questões no debate público; definir uma “ameaça crível” às autoridades instituídas. “Fundamental para o projeto de uma nova sociedade é criar novas maneiras de ser, interagir e se organizar uns com os outros”, ele completa.

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Apenas após conhecer as origens da tática black bloc, suas motivações políticas e seu modo de atuação é que podemos avaliar com seriedade – e sem histeria – os pontos negativos e positivos desse modo de ação, além de seus efeitos nas mobilizações sociais. Só assim se tornará possível compreender o impacto político da demonização a que os BB são cotidianamente expostos – e perceber como as críticas mais irrefletidas estimulam a repressão policial.

Um exemplo disso está nos estudos do sociólogo canadense Patrick Rafail, que, analisando protestos ocorridos em seu país, afirmou que o que os manifestantes fazem ou deixam de fazer não é o fator principal para a brutalidade da polícia durante um evento. O que determina a truculência é quem seriam os manifestantes aos olhos da polícia.

Dupuis-Déri explica que, ao longo dos anos, conseguiu-se construir publicamente a imagem do “anarquista criminoso” como uma ameaça à segurança e à ordem, como se este fosse um prototerrorista. A mídia ajuda a ampliar essa percepção, influenciando diretamente na intensidade da repressão. Isso serviria inclusive para justificar as operações “preventivas” da polícia contra os ativistas, que podem atingir um grau de criminalização absolutamente desproporcional às ações dos BBs.

A título de exemplo, ele menciona a famigerada mesa sobre a qual a polícia dispõe, para o deleite da imprensa, uma variedade de equipamentos apreendidos com os manifestantes. “Qualquer um pode notar que os objetos em exibição são em sua maioria inócuos: grampeadores e tesouras (para fazer cartazes), chocalhos, panelas, potes e baquetas (para tocar música), pedaços de pau para erguer cartazes e bandeiras, alto-falantes e garrafas de água.” Segundo ele, a polícia se esforça para ampliar a ameaça representada pelos manifestantes em geral e pelos BB em particular. Ela comparece a protestos munida com capacetes, escudos, uniformes à prova de chamas, balas de borracha, bombas de fumaça, gás lacrimogêneo, espadas e armas de fogo, e não raro apoiada por cães, cavalos, viaturas blindadas, helicópteros. Exagera essa ameaça para justificar a repressão e as prisões em massa.

Ou seja: ao repetir o mantra de que os “vândalos” não passam de jovens irracionais que entram na luta por puro desejo de quebrar tudo, os jornalistas e porta-vozes de organizações, mesmo de esquerda, não fazem mais do que incitar a histeria pública e alimentar a demanda de maior violência policial. Da mesma forma, ao procurar se dissociar dos “baderneiros” a todo custo e negar-lhes qualquer relevância política, os líderes dos movimentos progressistas criam um vácuo político em torno desses “jovens vândalos” e reforçam sua identificação social como elementos marginais, fora dos padrões. Dessa forma, os policiais pressupõem que estão livres para agir como bem entenderem, e, com frequência, são levados pelo entusiasmo da repressão, atacando BBs não violentos ou brutalizando e prendendo um grande número de manifestantes pacíficos.

Isso não vai acabar enquanto não houver mais análises sérias e aprofundadas da tática black bloc, que não se limitem a repetir a mesma ladainha: “vândalos”, “bandidos” e “baderneiros”.

Vândalos


Notas

[1] Segundo Dupuis-Déri, as poucas críticas que estimam o valor ideológico de ações diretas usam critérios alheios a tais gestos, comparando-os, por exemplo, a tratados de filosofia política e social. Para muitos de seus adeptos, a tática black bloc possibilita que eles expressem uma visão de mundo e uma rejeição radical ao sistema político e econômico, mas nem por isso são ingênuos a ponto de achar que essa ação possa desenvolver uma teoria geral da sociedade e da globalização capitalista.

[2] Ele também acha inacreditável que meia dúzia de black blocs tenham o poder de, quebrando algumas vidraças, desviar a atenção dos políticos de questões importantes sobre política.

[3] Para o autor, a postura dos jornalistas em relação à violência depende muito de quem a emprega. Eles costumam ser bem tolerantes quando a violência é usada por forças policiais ou por manifestantes “cultos” de países estrangeiros. Mas condenam a violência dos “outros” e a expressam com rótulos pejorativos: extremistas, irracionais, bandidos, vândalos, sem quase nenhuma referência a suas motivações políticas.