The International New York Times
30 de outubro de 2014

Por Vanessa Barbara

São Paulo, Brasil – Foi uma eleição bastante típica no Brasil. Jesus e Osama bin Laden concorreram ao cargo de deputado, bem como Barack Obama, Bob Marley, Papai Noel e o Battman (com dois Ts). O autointitulado “Cara de Hamburguer” infelizmente não foi eleito, tampouco uma candidata de nome “Deputada”. (Quando os resultados foram divulgados, ela não obteve nenhum voto – nem o dela mesma.) Mas um famoso palhaço chamado Tiririca obteve seu segundo mandato na Câmara, depois de estrelar uma campanha de TV bem excêntrica.

No ano que vem, 35% dos nossos deputados estaduais serão milionários.

Em São Paulo, que está se provando um lugar mais conservador do que o resto do país, o número de deputados federais da Bancada da Bala vai crescer 30%. São em geral ex-policiais militares com uma postura de direita e um discurso beligerante; eles defendem a redução da maioridade penal (atualmente de 18 anos), o aumento da repressão da polícia e são contrários a quaisquer leis de desarmamento. Seus lemas são: “Bandido bom é bandido morto” e “Direitos humanos para humanos direitos”.

O segundo deputado estadual mais eleito no meu estado é um ex-policial evangélico que recentemente publicou seu próprio gibi. Em 32 páginas, ele descreve “duas ocorrências policiais inéditas”. Numa delas, um anjo aparentemente vem em seu auxílio durante uma perseguição a dois fugitivos. (Na vida real, porém, três suspeitos foram mortos pela polícia.) Após as eleições, ele defendeu o separatismo dos estados mais ricos daqueles mais pobres que “preferem a esmola do que o trabalho”.

São assim, portanto, as eleições no Brasil: pessoas esquisitas, memes divertidos, forte influência da religião e múltiplas reviravoltas. Cinquenta e três dias antes do primeiro turno, Eduardo Campos, um dos três principais candidatos a Presidência, faleceu num acidente aéreo. Seu substituto, representando o Partido Socialista Brasileiro (um partido de centro-esquerda) foi Marina Silva, uma ambientalista evangélica que subitamente atraiu uma grande quantidade de votos. As pesquisas foram à loucura com sua ascensão. Todos pensaram que ela terminaria numa disputa com a atual presidenta Dilma Rousseff – ou mesmo que ela ganharia as eleições.

No fim das contas, todos estavam errados. O que tivemos no segundo turno foi a velha briga entre o Partido dos Trabalhadores (PT), de orientação centro-esquerda a esquerda, e o centrista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), exatamente como vinha acontecendo desde 2002.

O segundo turno foi absolutamente selvagem. Dilma, do PT, e seu adversário, Aécio Neves, trocaram insultos e acusações. Na sexta-feira passada, Aécio disse que a presente campanha entraria para a história como “a mais sórdida das campanhas eleitorais do nosso sistema democrático”. Em um único debate, ele acusou Dilma de ser mentirosa 36 vezes, enquanto ela retribuiu o insulto 32 vezes. Aécio declarou que o governo atual era um “mar de lama”. Dilma chamou Aécio de “abominável”. Numa propaganda na TV, ela declarou que o rival tem “mostrado dificuldade em respeitar as mulheres”. Também o acusou de contratar para o governo uma irmã, um tio, três primos e três primas.

Na semana passada, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-Presidente do Brasil e um dos membros mais proeminentes do PT, declarou que Aécio estava atacando seu partido “como os nazistas no tempo da 2ª Guerra Mundial”, ao passo que Aécio comparou João Santana, marqueteiro de Dilma, a Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler.

Por três semanas, as pessoas brigaram nas ruas e na internet. Após os debates, gritavam obscenidades pela janela. Amizades foram rompidas; casais se separaram. No Twitter, uma mulher sugeriu aos amigos que combinassem alguma coisa para o Natal, já que praticamente não possuía mais família.

Três dias antes do segundo turno, a revista semanal Veja publicou com antecedência uma nova edição. Baseando-se no testemunho de um doleiro, a publicação alegou que a presidenta e seu predecessor estavam cientes de um caso de corrupção na Petrobras. No mesmo dia, a Suprema Corte rejeitou um pedido do PT para banir a circulação de Veja, mas proibiu que a revista fizesse publicidade da edição, considerada propaganda ilegal. Dilma também ganhou direito de resposta. De acordo com ela, a revista cometeu um ato de “terrorismo eleitoral”. Enquanto isso, a sede de Veja foi grafitada com as palavras “Veja mente” e “lixo midiático”.

É disso que estou falando: uma boa e típica eleição. Na véspera do pleito, as pesquisas apontavam um empate técnico. No domingo, as pessoas deixaram suas casas para votar – já que o ato é obrigatório – e para tirar selfies diante da cabine eleitoral. Alguém decidiu botar fogo numa urna eletrônica; outro colou uma das teclas a fim de obstruir os votos contrários.

Por fim, no domingo à noite, Dilma Rousseff foi reeleita por uma margem estreita: 51,6% contra 48,6%.

Essa coisa de democracia é muito cansativa.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 31 de outubro de 2014. Tradução da autora.

The International New York Times
Oct 31, 2014

by Vanessa Barbara

São Paulo, Brazil — It was a typical election in Brazil. Jesus and Osama bin Laden were running for Congress, as well as Barack Obama, Bob Marley, Santa Claus and Battman (with two Ts). The self-styled “Hamburger Face” unfortunately wasn’t elected, nor was a candidate just called Congresswoman. (When the results were released, it turned out she didn’t get a single vote — not even her own.) But a famous clown named Tiririca won a second term in the House, after starring in a kitschy TV campaign.

Next year, 35 percent of our members of Congress will be millionaires.

In São Paulo, which is proving to be more conservative than most of Brazil, the number of legislators in the so-called Bullet Caucus will increase by 30 percent. They are usually former military police officers, with a right-wing posture and a belligerent discourse; they stand for lowering the age at which teenagers can be tried as adults (currently 18); for increasing police repression; and against gun control. Their mottos are: “the only good thief is a dead thief” and “human rights are for right humans.”

The second-most-voted-for congressman in my state was an evangelical Christian ex-cop who recently produced his own comic book. In 32 pages, he describes “two brand-new police cases.” In one, an angel supposedly helped him during a chase so he could catch two fugitives. (In real life, however, three suspects were killed by the police.) After the elections, he urged independence for the wealthiest states from the poorest ones that “preferred charity over work.”

So this is what a normal election looks like in Brazil: strange people, funny memes, a strong influence of religion and lots of turnarounds. Fifty-three days before the first round, Eduardo Campos, one of the three leading candidates for the presidency, died in a plane crash. His replacement, representing the Brazilian Socialist Party (a center-left party), was Marina Silva, an evangelical Christian and environmentalist who suddenly attracted a huge amount of votes. The polls went crazy with her ascension. Everybody thought she was going to last into a runoff with the incumbent, PresidentDilma Rousseff — or even win the election.

In the end, they were wrong. What we had in the last round was the same old fight between the Workers Party, a center-left to left-wing party, and the centrist Brazilian Social Democracy Party, just as we’ve seen since 2002.

The second round was absolutely barbaric. Ms. Rousseff, of the Workers Party, and her challenger, Aécio Neves, exchanged insults and accusations. Last Friday, Mr. Neves said that the current campaign would go down in history “as the most sordid of our democratic system.” In a single debate, he accused her 36 times of being a liar, while she did the same 32 times. He claimed that Ms. Rousseff’s government was a “sea of mud.” She called Mr. Neves “abominable.” In a television ad, she implied that Mr. Neves “has some difficulties showing respect to women.” She has also accused him of hiring his sister, an uncle and six cousins.

Last week, Luiz Inácio Lula da Silva, the previous president and one of the most prominent members of the Workers Party, declared that Mr. Neves was attacking his party “like the Nazis did in World War II,” while Mr. Neves compared João Santana, Ms. Rousseff’s campaign strategist, to Hitler’s propaganda minister, Joseph Goebbels.

For three whole weeks, people fought in the streets and on the Internet. After the debates, they yelled obscenities out of windows. Friendships were broken; couples have split. On Twitter, a woman suggested to her followers that they should all plan something for Christmas, since she didn’t have much of a family left.

Three days before the final round, the weekly newsmagazine Veja released its new edition early. The publication claimed that the president and her predecessor were aware of a corruption case within the oil corporation Petrobras. The accusation was based on plea bargain testimony from a black-market money dealer. On the same day, Brazil’s Superior Electoral Court denied a Workers Party request to ban the circulation of Veja, but prohibited publicity of this issue, deeming it unlawful propaganda. Ms. Rousseff was also given the right to reply. According to her, the magazine committed an act of “electoral terrorism.” Meanwhile, Veja’s headquarters were graffitied with the words “Veja lies” and “Journalistic garbage.”

So this is what I mean: a nice, standard election. On the eve of voting day, polls showed the candidates tied. On Sunday, people left their houses to vote — since it’s mandatory — and to take selfies in front of the voting machine. Somebody decided to set fire to a machine; another glued one key of a machine in order to obstruct opposite votes.

Finally, on Sunday night, Dilma Rousseff was re-elected by a narrow margin: 51.6 percent to 48.3 percent.

This whole democracy thing is very exhausting.


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

A version of this op-ed appears in print on October 31, 2014, in The International New York Times.

Ressaca pós-eleições

Posted: 28th outubro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
27 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

A menos que todas as urnas do país deem tela azul ou o Brasil entre em guerra com o Butão, por algum motivo que me escapa,  no momento em que esta coluna for publicada já teremos o resultado das eleições presidenciais.

Logo pela manhã, os eleitores do candidato vencedor irão tirar sarro dos rivais junto à máquina de café da firma. Serão propagadas piadinhas infinitas a respeito do adversário; haverá quem falte no trabalho alegando motivo de doença. Os campeões irão proferir discursos insuportáveis e elencar as grandes obras que seu candidato há de empreender nos anos vindouros, prevendo pujança, progresso e a erradicação de todo o mal sobre a Terra. Muitos sairão às ruas com orgulhosos adesivos colados ao peito. Outros vão gritar: “Eu já sabia!” e dizer que, desta vez, o povo votou com consciência.

(Lembro da minha vizinha baixando o vidro do carro, vibrando e gritando: “Agora é Collor!” com genuína alegria.)

Do lado contrário, vão dizer que a maioria é ignorante e não sabe votar. Haverá birra e indignação nas redes sociais, onde irá pairar o mesmo clima das noites de quarta-feira em que o Corinthians perde de goleada.

Com o passar do tempo, porém, os ânimos se acalmarão e restará o vago revanchismo de quem deseja que as coisas deem errado só para ter razão.

Pensando no vazio deixado pelo fim das eleições e na necessidade constante de bloquear maus amigos nas redes sociais, sugiro a imediata adoção de novos e acirrados bipartidarismos. A única condição é que haja intransigência e que o outro seja tachado de “burro”, “mal-intencionado” ou simplesmente “errado”. Exemplos:

Destros vs. Canhotos: Destros são conservadores e intolerantes às minorias. Canhotos são criativos e liberais.

Gatos vs. Cachorros: Felinos são dissimulados, ariscos e interesseiros. Cães são sinceros e heroicos.

Tesourinha vs. Trim: Refere-se sobretudo à habilidade do indivíduo para cortar as unhas da mão dominante. Falta destreza (e honestidade moral) aos adeptos do cortador.

Agrião vs. Rúcula: Quem é pró-rúcula defende a manutenção de privilégios herdados, a especulação imobiliária e a pochete.

Ninjas vs. Samurais: Ninjas são vândalos e desordeiros. Samurais têm honra e lutam por ideais.

Tucuruvi vs. Jabaquara: É inegável que os habitantes da zona norte exalam uma sofisticação muito difícil de suplantar.

Balzac vs. Flaubert: Sempre declarar devoção a quem perde o sono em busca da palavra justa, em detrimento da produção febril e do enriquecimento fácil.

Coxinha vs. Empadinha: Os tempos não andam propícios para quem é do primeiro time – e com razão.

Praia vs. Campo: Praia é coisa de coxinha que gosta de rúcula e mora no Jabaquara.

Repassem.

Certeza absoluta

Posted: 20th outubro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo – Caderno 2
20 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Em época de eleições, não somos apenas vítimas de spams e posts inflamados de terceiros alegando que o Aécio tem caspa ou que a Dilma comeu um pombo, mas, o que é ainda pior, somos vítimas de nossos próprios vieses cognitivos. Que são até mais difíceis de combater, pois são involuntários e quase instintivos.

Segundo a psicologia, viés cognitivo é um padrão de desvio do julgamento que nos leva a tomar decisões ou interpretar evidências de forma distorcida, sem perceber.

De acordo com o viés de grupo, por exemplo, podemos escolher um partido ou candidato e nos comportar feito hooligans perante a torcida oposta. Praticamos a indignação seletiva, perdoando ou justificando as faltas de nosso time e condenando prontamente o outro lado. Tudo o que nossos amigos fazem é bom, e tudo o que os adversários aprontam é automaticamente desprezível.

Também estamos sujeitos ao viés de confirmação, que é a propensão a buscar, priorizar e acatar informações que comprovem nossas opiniões preexistentes, ao mesmo tempo que rejeitamos tudo o que as contradiga. Através dessa lógica seletiva, tentamos nos defender de indícios que possam abalar os alicerces de nossas certezas.

É o que acontece quando procuramos no jornal apenas as notícias que estejam de acordo com o que pensamos, seja a redução da maioridade penal ou a criminalização da pochete.

Outro viés perigoso é a chamada “racionalização pós-compra”, um mecanismo de valorização posterior de escolhas já feitas. Trata-se de uma forma subconsciente de justificar nossas decisões – sejam carros de luxo ou votos passados – e satisfazer nosso desejo psicológico de consistência, evitando assim dissonâncias cognitivas.

Também tendemos a interpretar dados ambíguos de modo a favorecer nossas ideias. De acordo com Leonard Mlodinow, autor de “O andar do bêbado”, estamos mais preocupados em encontrar e confirmar padrões do que em diminuir nosso índice de conclusões falhas.

Pior: cada vez mais, a internet tem reforçado nossos vieses cognitivos. Filtros e algoritmos de pesquisa priorizam os resultados que queremos ver, e não necessariamente o que precisamos ver. (A esse respeito, ver vídeo do ativista Eli Pariser em www.ted.com.) Também há filtros nas redes sociais, onde, além disso, excluímos os opostos e nos cercamos de nossos pares.  

Não procuramos mais informação, mas confirmação, rejeitando tudo aquilo que é desconfortável, desafiador e antagônico. Queremos continuar confortáveis com nossas visões de mundo, então buscamos dados que as sustentem. Em vez de provar que certas hipóteses estão erradas, passamos o tempo tentando provar que estão certas; porém, como ensina a ciência, só nos aproximamos da verdade quando buscamos o maior número possível de evidências contrárias.

Em resumo: é preciso ter mais isenção e menos cera no ouvido. (E isso vale também para quem menospreza a opção de votar nulo.)

O Estado de S. Paulo – Caderno 2
13 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Na primeira vez em que vi as luas de Júpiter, estava sozinha com meu binóculo na laje de casa. Montei um tripé, apontei para o planeta e, quando o foco enfim se estabilizou, vi quatro pontos luminosos ao redor. Quase engasguei ao me dar conta do que era. Fiquei olhando para os lados, abanando os braços e repetindo: “As luas! As luas!”, mas não havia ninguém por perto. (Ou talvez tenham todos se escondido.)

Nos últimos anos, obcecada por efemérides celestes e questões de natureza intergaláctica, passei incontáveis horas esquadrinhando o céu em busca de coisas interessantes, e em geral só encontrando minúsculos cocôs cósmicos identificados como HIP 104428. (Confesso que costumo focalizar a região onde se encontra Eta Carinae, na esperança de vê-la explodir de forma gloriosamente pirotécnica, talvez em nosso derradeiro segundo sobre a Terra.)

O fácil acesso a imagens de alta resolução feitas por satélites pouco contribui para a nossa persistência nas noites mais frias. Mesmo em observações com telescópios profissionais, é de bom-tom alertar os novatos sobre a decepção que fatalmente terão, caso estejam esperando anéis em tecnicolor ou estrelas binárias dançando em espirais brilhantes ao som de Tchaikovsky.

O mundo real é bem mais opaco. A olho nu, é possível enxergar cinco planetas, mas, na melhor das hipóteses, todos se parecem com estrelas comuns. Podemos captar as cores de diferentes objetos celestes, mas o que chamamos de “supergigantes vermelhas” não passam de manchas tênues no céu.

Quem acompanhou a passagem do cometa Halley em 1986 sabe o quão distante foi a experiência de uma “cauda de luz varrendo a superfície terrestre”, como se noticiou em 1910.

Pior: há vezes em que não conseguimos sequer vislumbrar borrões. É notória a triste sina de Guillaume Le Gentil, que, em 1771, tentou acompanhar o trânsito de Vênus e falhou por culpa das péssimas condições climáticas. O astrônomo abandonou tudo na Europa e empreendeu uma viagem até a Índia, onde quase que certamente testemunharia a efeméride. Dedicou onze anos à missão, foi dado como morto, perdeu a esposa e não viu nada.

Guardadas as devidas proporções, eu mesma me esforcei para ver o fenômeno na França, em 2011, sem resultados. (Estava nublado.) Também passei noites em claro, à beira da hipotermia, olhando para o horizonte gélido da Islândia, e o que vi em quase todas as ocasiões foi uma aurora boreal semelhante a nacos de nuvens encardidas. Só na última quarta-feira é que finalmente testemunhei labaredas de luz verde dançando entre as estrelas – e foi como ganhar na loteria.

São raros e breves os momentos de glória, mesmo para quem é paciente e está vestindo luvas de esqui. No resto das vezes, convém contar apenas com uma mente imaginativa e o hábito de cultivar reações exageradamente lunáticas diante de coisas que mais ninguém vê.

Sim, eu falo sueco

Posted: 7th outubro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S. Paulo
6 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

As luvas de inverno estavam em promoção naquela loja em Estocolmo. Pergunto ao vendedor, em inglês, se eles têm daquele modelo em um tamanho menor.

Ele responde que não e, na sequência, engata uma longa explanação – só que em sueco. Eu permaneço parada, olhando e chacoalhando a cabeça em profunda consideração.

Neurônio número 1: Ok, estamos entendendo o que ele está falando?
Neurônio número 2: Não há indícios para sustentar essa hipótese.
Neurônio número 3: No entanto, ele continua a falar.
Neurônio número 4: Que língua mais engraçada. Acho que entendi “couve-flor”.
Neurônio número 5: (Tentando dar sentido a uma suposta menção a “couve-flor” na conversa.)
Neurônio número 6: Não. Não estou entendendo nada.
Neurônio número 7: Então por que ninguém ainda não o interrompeu?

*

Estando na Suécia ou na República Checa, existe um breve momento em que você julga compreender o conteúdo de uma conversação em língua estrangeira – dessas mais excêntricas, sem raízes comuns com o português ou o inglês –, mas em geral é só o cérebro alucinando ou captando alguns gestos e entonações mais reconhecíveis. Depois de uns dias sozinho num país de língua esquisita, existe a curiosa sensação de que, a qualquer momento, uma chave de tradução será acionada e tudo se tornará compreensível. (Como o peixe-babel de Douglas Adams ou a Tardis de “Doctor Who”.)

Às vezes o visitante, ciente dos obstáculos de comunicação, tenta sanar o problema falando a sua própria língua, só que mui-to-de-va-gar. Ou mais alto. Conheci um italiano e uma brasileira que resolviam suas pendências cada um em seu próprio idioma, às vezes falando ao mesmo tempo, numa interação digna de Chewbacca e Han Solo.

Em Gotemburgo, uma brasileira conversava tranquilamente com seus conterrâneos quando foi apresentada a um editor escandinavo. Sob os olhares espantados dos presentes, ela engatou uma conversa com o editor, que foi avidamente acompanhada pelos silenciosos membros do convescote. Ao final do colóquio, ela simplesmente se vira e afirma, como se estivesse pedindo desculpas:

“Sim, eu falo sueco.”

Para alguns, isso é normal. Para a maioria, dominar um idioma obscuro não pertence ao reino do possível, sendo nulas as possibilidades de engatar uma conversação normal com um nativo sem fatalmente dizer coisas como: “Preciso de um colírio para os ouvidos”.

Eu, de minha parte, costumo começar uma frase em francês, continuá-la em espanhol e terminar tudo com um inglês de dar pena. Minha técnica básica de comunicação em língua estrangeira é a de inspirar piedade – seguida pelo método de apontar coisas e imitar patos.

Os chineses naturalmente se divertem muito.

Eu e minha avó contra o deputado (tradução)

Posted: 2nd outubro 2014 by Vanessa Barbara in Traduções
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The International New York Times
3 de outubro de 2014

por Vanessa Barbara

Doze anos atrás, ajudei a cassar um deputado. Pelo menos temporariamente.

A história teve início em 7 de setembro de 2002, dia da Independência do Brasil. Naquele feriado, minha avó de 68 anos me contou sobre o curso de informática que estava fazendo. Era gratuito, ela disse, e a professora era boa, mas algo estava muito errado.

O curso era patrocinado por um candidato a deputado estadual. Seu nome estava impresso em todas as páginas da apostila, ao lado do número que deveria ser pressionado nas urnas eletrônicas, e havia também uma grande foto dele sorrindo. Minha avó me mostrou o texto padrão para os exercícios de digitação: era uma breve biografia do parlamentar, um resumo de suas principais realizações e feitos mais nobres. Ela sabia tudo de cor e ficava repetindo mecanicamente – dava para ver que estava zangada.

Além disso, ela teve de apresentar o título de eleitor para se inscrever no curso. “Isso não é ilegal?”, ela me perguntou.

Na época, eu era estudante de jornalismo e queria mudar o mundo, então decidi investigar. Ela me convidou para a cerimônia de formatura, alguns dias mais tarde, e fui ao local com meu gravador e a câmera fotográfica. Gravei o discurso de formatura, no qual a professora pedia aos dez ou mais alunos que votassem em seu benfeitor, “pra ele continuar fazendo esse trabalho bonito que ele faz”. O candidato não estava lá, mas seu assessor aconselhou que os alunos “fizessem o que devia ser feito”, observando que uma das maneiras de valorizar o curso era “através do voto”. O presente de formatura era uma camiseta de propaganda política.

Enviei todas as provas para o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, uma ONG recém-criada que contava com o apoio de organizações como a Ordem dos Advogados do Brasil. O grupo entrou com um processo contra o candidato por compra de votos, e o caso foi para o Tribunal Regional Eleitoral.

Nesse meio-tempo, ele foi eleito.

Quando minha avó e eu fomos finalmente chamadas para servir de testemunhas de acusação, anos depois, parte da família ficou com medo. Alguns ainda se lembravam de como era testemunhar na época da ditadura militar, apenas trinta anos atrás: inútil, perigoso e potencialmente letal. Outros insistiam em dizer que isso não era da nossa conta.

Mesmo assim, testemunhamos – diante do próprio candidato e de uma fileira extensa de advogados de defesa. Eles me perguntaram uma série de coisas como: “Quantas pessoas estavam presentes?” e “Depois de quanto tempo você soube?”, como se eu fosse abrir uma planilha e responder: “Trezentos e quinze, senhor; oito dias, nove horas e dezessete minutos. Horário de Brasília”.

O candidato foi inocentado por questões processuais, mas o caso foi para o Tribunal Superior Eleitoral, onde ele foi, por fim, condenado.

Poderia ser uma história de sucesso sobre duas improváveis heroínas cumprindo seu dever cívico, mas isso seria muito óbvio. Como o caso demorou mais de três anos para ser julgado, o deputado perdeu apenas o último ano de mandato. Nenhuma outra penalidade foi aplicada. Então, em 2006, ele se candidatou e foi eleito para mais quatro anos na Câmara. De acordo com a nossa legislação, continuava perfeitamente elegível.

Cinco anos atrás, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral liderou uma enorme campanha que levou à aprovação da lei da Ficha Limpa, que torna inelegíveis por oito anos os candidatos previamente condenados por decisão de órgão colegiado. Seria o caso do nosso deputado cassado, que continuava na política, mas ele de alguma forma encontrou uma forma de escapar à lei. Em 2010, perdeu as eleições, mas, como primeiro suplente do partido, substituiu outro deputado e assim cumpriu seu sétimo mandato, no qual criou gloriosamente o Dia Estadual do Ovo. (Que tramitou em regime de urgência.)

Hoje ele concorre novamente a deputado estadual.

Isso resume o atual desencanto dos brasileiros com a política, e também o cinismo da minha avó sobre o assunto. Hoje com 80 anos, ela decidiu que não irá mais votar. (No Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos de 18 a 70 anos.)

Nossa história recente aponta para decepções parecidas. Em 1989, o Brasil teve suas primeiras eleições diretas para presidente desde a época da ditadura militar. Dois anos depois, o presidente eleito foi obrigado a renunciar após acusações de corrupção. Fizemos uma nova Constituição em 1988, e era muito boa. Mas muitos dizem que “não pegou”. Em 2002, elegemos nosso primeiro presidente de esquerda oriundo da classe operária, e que mais tarde foi reeleito. Então parte do governo mostrou-se envolvida num esquema de corrupção, em 2005.

Agora estamos prestes a votar de novo para presidente, no próximo dia 5 de outubro, mas desta vez não há grandes expectativas.

A noção de leis aprovadas que simplesmente “não pegam” e de políticos desonestos que continuam a ganhar eleições a despeito de todas as evidências contrárias alimenta a nossa desilusão coletiva. As coisas parecem acontecer (ou não) a despeito dos nossos esforços, de formas que não conseguimos compreender. Ano passado, milhões de pessoas foram às ruas protestar contra a má qualidade dos serviços públicos, mas pouca coisa mudou – se é que isso chegou a ocorrer. Ano após ano, nossos políticos apenas criam mais Dias do Ovo e aumentam os próprios salários.

Hoje a maioria dos brasileiros acredita que nossa democracia representativa está apodrecida. Sentem que nada vai mudar, não importa o que façam. Temo que isso seja verdade.

Mas eles desistiram até de tentar.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 3 de outubro de 2014. Tradução da autora.

Grandma and Me vs. The Congressman

Posted: 2nd outubro 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The International New York Times
October 3, 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — Twelve years ago, I helped oust a congressman. At least temporarily.

The story began on Sept. 7, 2002, Brazil’s Independence Day. On that holiday, my 68-year-old grandmother told me about her new computer training lessons. They were free, she said, and the teacher was good, but something was very wrong.

A candidate who was running for Congress the following month had sponsored the course. His name was printed on every page of the course brochure, along with his candidate number (which voters would press in the voting machines), and there was a huge photograph of him smiling. My grandma showed me the sample text for typing exercises: It was a short biography of the politician, a summary of his main accomplishments and noblest deeds. She already knew everything by heart, and she kept repeating it robotically — you could see that she was angry.

Also, she had had to present her voter registration card in order to enroll in the course. “Isn’t that illegal?” she asked me.

I was a journalism student at the time, and I wanted to change the world, so I decided to investigate. She invited me to her graduation, later that week, and I went to the building with my tape recorder and a camera. I recorded the graduation speech, in which the teacher asked the 10 or so students to vote for their benefactor, so he could “keep on doing his beautiful work.” The candidate himself wasn’t there, but one of his political advisers told the students that one way to show appreciation for the course was “by the vote.” The graduation gift was a campaign T-shirt.

I submitted all the evidence to the Movement Against Electoral Corruption, a newly formed nonprofit group that had the support of organizations such as the Brazilian Bar Association. The group formally accused the candidate of buying votes, and the case went to the regional electoral court.

In the meantime, he was elected.

When my grandma and I were finally called as witnesses for the prosecution a few years later, part of our family was afraid. Some of them still remembered what it was like to be a witness during the military dictatorship, only 30 years ago: worthless, dangerous and potentially lethal. Others told us to mind our own business.

Nonetheless, we testified, in front of the candidate himself and a handful of his defense lawyers. They asked me for details such as, “How many people were present at the graduation?” and “How many days did you wait to present the evidence?” as if I could open an Excel spreadsheet and answer, “Three hundred and fifteen, sir; eight days, nine hours and 17 minutes, Brazilian local time.”

The candidate was acquitted on procedural grounds, but the case went to the superior electoral court. There he was finally convicted.

It could be a success story about two improbable heroines fulfilling their civic duties, but that would be too easy. Since the trial proceedings took more than three years, the congressman was deprived of his seat only in the last year of his tenure. No other penalties were applied. Then, in 2006, he was elected for another term of four years. According to our law, he was still eligible.

Five years ago, the Movement Against Electoral Corruption led a huge campaign that persuaded the president to approve the long-awaited Clean Record Act, which stipulates that politicians who are convicted of a crime cannot apply for public jobs for eight years. That should have been the case for our convicted candidate, who was still in politics, but somehow he found a way to bypass the law. He lost the election but, as a substitute for the party, replaced another congressman who had to step down and thus fulfilled his seventh term, in which he gloriously created a holiday called the State Egg Day. (This was classified as an “urgent matter.”)

He’s currently running for Congress again.

That sums up Brazilians’ political disenchantment nowadays, and also my grandmother’s cynicism on the subject. Now 80, she’s decided never to vote again. (In Brazil, voting is mandatory for citizens between 18 and 70.)

Our recent political history shows similar disappointments. In 1989, Brazil held its first direct presidential election since the military dictatorship. Two years later, the president was forced to resign over accusations of flagrant corruption. We had a new Constitution in 1988, a nice one. But some say “it didn’t stick.” In 2002 we elected our first left-wing president from the working class, who was later re-elected. Things were finally looking better. Then it turned out part of the government was involved in a case of vote-buying in 2005.

Now we’re about to vote for president again, on Oct. 5, but there are no great expectations.

This notion of approved laws that simply “don’t stick” and of dishonest politicians who continue to win elections despite all evidence against them fuels our collective disillusion. Things seem to happen (or don’t) despite our best efforts, in ways we cannot grasp. Last year, millions protested in the streets against the poor quality of public services, but little, if anything, has changed. Year by year, our politicians just create more Egg Days and raise their own salaries.

Today most Brazilians believe that our representative democracy is rotten. And they feel that, whatever they do, nothing is going to change. I’m afraid that they’re right.

But they don’t even try anymore.


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

Vexames internacionais

Posted: 29th setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo – Caderno 2
29 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Conhecer um país estranho é como voltar a ter cinco anos: você não vai entender se é pra puxar ou empurrar, vai tomar bronca o dia todo, comer areia e envergonhar os adultos. (Na dúvida, convém não encostar nas coisas.)

No meu primeiro dia em Londres, logrei êxito em acionar um alarme de emergência no banheiro de um hotel chique. Pensei que aquela cordinha vermelha servisse para acionar a descarga, e foi com gosto que a puxei – talvez mais de uma vez, feito um sino.

Vi que alguma coisa estava errada quando a descarga não funcionou e ouvi um apito estridente que não parou enquanto não puxei de novo a cordinha – seguiu-se um burburinho de ingleses desesperados lá fora, perguntando se estava tudo bem. Encontrei a cordinha certa e saí do banheiro sem olhar nos olhos de ninguém.

Em Paris já pedi cuscuz achando que se tratava do cuscuz à paulista. Quando veio aquela farofa e o cozido de carnes, argumentei reiteradamente ao garçom que aquele não era o prato que eu tinha pedido. Como uma boa criança de cinco anos, almocei só as batatas-fritas.

Há quem confunda Roterdã com Amsterdã e desça na cidade errada, ou, como um casal australiano durante a Copa do Mundo, vá para El Salvador em vez de Salvador, na Bahia.

Experimente deixar suas roupas numa lavanderia familiar em Xangai e você nunca mais vai se sentir seguro de si – ou de que seus moletons irão um dia voltar. Tente pedir serviço de quarto num hotel em Macau, ou frango agridoce num restaurante em Hainan. Experimente entabular qualquer tipo de comunicação com os taxistas em Pequim – incluindo aí o seu destino – sem ter tudo anotado em chinês. Até hoje não sei o que queria um sujeito que me abordou na rua em Macau perguntando se eu conhecia alguma indústria aeronáutica naquela região – talvez fosse um código para alguma coisa ilícita. Tipo durians.

Jamais peça durians para comer em Cingapura – eles têm cheiro, gosto e textura de chulé. Não sem razão, o porte de durian no metrô é ilegal.

Na China, dizer “não” para um vendedor equivale a pechinchar vigorosamente por um produto, sendo necessários aproximadamente cinco “nãos” para que ele corte o preço pela metade e finalmente desista. Não me perguntem como efetivamente dizer “não”.

Dos ingleses e alemães você sempre vai tomar um esculacho, ainda que não tenha culpa de nada. As autoridades inglesas são eternas professorinhas de coque com uma régua na mão; se você pisar dois centímetros para fora de uma faixa obrigatória, elas vêm te passar uma descompostura de fazer aflorar a rosácea do primeiro-ministro. Os franceses retribuirão as gentilezas se você tentar falar no idioma deles, mas continuarão bufando a respeito de tudo. Os suecos são muito simpáticos e costumam elogiar quem traz a própria sacola.

Já os chineses riem muito, normalmente de você.

Um conto do 1756

Posted: 23rd setembro 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
22 de setembro de 2014

por Vanessa Barbara

Juro que aconteceu, mas não foi comigo. Quem me contou foi um cidadão de boa índole, e por sinal muito cioso dos detalhes, no qual os senhores leitores podem confiar. (Ok, confesso: foi a minha mãe.)

Um senhor subiu no ônibus quase vazio, lá pela altura do Imperatriz, com um volume qualquer enrolado numa blusa, e sentou num dos bancos da frente. O ônibus seguiu caminho, feliz e balouçante, até parar num engarrafamento a quinhentos metros dali.

Ninguém pareceu se abalar com o trânsito saturado de automóveis, algo bastante normal por aquelas bandas. Apenas aguardavam com a paciência de sempre, olhando pelo vidro e pensando na vida.

Foi quando um segundo elemento, tresloucado e esbaforido, trajado com elegância, materializou-se na calçada da direita. Falava ao celular e gesticulava para o senhor que estava sentado à janela, mas não deu para entender o que estava se passando. De dentro do ônibus, este apenas fazia “não” com o dedo, entre zombeteiro e seguro. “Não, não”, ele repetia, mudo.

O ônibus finalmente arrancou e virou uma rua, a galope. A cena já teria se esvaído da mente dos passageiros, catalogada na classe de “incidentes urbanos a esclarecer”, quando o camarada com a blusa na mão levantou-se de súbito e gritou para que o motorista parasse no ponto – como se a vida de sua blusa dependesse disso.

Julgando prudente obedecer ao passageiro, talvez detectando um certo nível de urgência naquela situação, o condutor estancou e o senhor da blusa desceu pela porta da frente. Saiu correndo.

Atônito, o motorista nem fechou a porta e continuou preso no tráfego – até que, surpresa!, o homem elegantemente trajado tornou a se materializar na calçada ao lado do ônibus, tal qual um justiceiro de faroeste. Houve quem cogitasse uma aparição sobrenatural.

Desta vez ele carregava um notebook. Da calçada, ainda ofegante, explicou ao motorista que havia sido assaltado no escritório, e que tinha visto o bandido subir no 1756. Munido de um furor reparatório, partiu ao encalço do meliante, talvez correndo e tomando táxis sucessivamente, até que conseguiu reconhecer o ladrão na janela e este se apavorou, descendo do coletivo em disparada.

Após curta perseguição, o homem conseguiu agarrá-lo na rua e recuperou o computador roubado.

Tudo isso o cobrador recontou aos passageiros mais distraídos, em meio a comentários gerais. O coletivo arrancou mais uma vez. Dobrou a esquina da avenida Cruzeiro do Sul e, nesse meio tempo, até chegar ao ponto final, o motorista ainda conseguiu entreter a plateia com uma peripécia de sua lavra, segundo a qual fora certa vez assaltado e, quando o infrator deu as costas, tascou uma ratoeira extragrande recém-comprada na cabeça do infeliz.

Nada mais emocionante do que um bom congestionamento.