Conto: A vizinha de baixo

Posted: 19th setembro 2016 by Vanessa Barbara in Ficção
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realidade alternativa ilustra

Kleber Sales

Revista Superinteressante
Julho/2016

por Vanessa Barbara

A princípio, era apenas levemente incômodo e um tanto engraçado. Quer dizer, não era como se tivéssemos um vizinho com uma suástica na piscina, nem como se morássemos no andar de baixo de um estúdio de sapateado. Não tínhamos nenhum baterista nas redondezas, nem um ponto de tráfico, nem um dono de papagaio. Nada de gente andando com salto alto de madrugada ou jogando Call Of Duty no volume 44.

Outro dia li sobre um vizinho que perseguia seus desafetos com uma serra elétrica, passava o dia xingando em voz alta e chegou a golpear um outro vizinho – paraplégico – com um peixe. Ele foi preso 34 vezes. Nós não tínhamos nada disso. Éramos jovens, recém-casados e felizes proprietários do apartamento 103, que compramos com a ajuda dos nossos pais e de uma poupança conjunta, e para onde nos mudamos assim que a pintura ficou pronta. Era um imóvel de “72 metros quadrados de área útil, dois dormitórios espaçosos com armários embutidos, banheiro social com box de acrílico, sala ampla, cozinha, área de serviço, uma vaga, nada para fazer, ótima localização”. É bem provável que tenhamos nos decidido a comprar esse apartamento em específico por causa da descrição “nada para fazer”, o que era, aliás, uma das nossas atividades prediletas. Nós também não sapateávamos, não tínhamos animais de estimação, não dávamos festas barulhentas, não tínhamos filhos; gostávamos, enfim, de passar os fins de semana montando quebra-cabeças e tomando chá. Conversávamos em voz baixa e não tínhamos o costume de convidar amigos para jantar.

Por isso achamos estranho quando a vizinha do 93, uma professora aposentada, começou a reclamar do nosso barulho. Na primeira vez, foi numa noite chuvosa de domingo – eu já dormia no quarto enquanto, na sala, Alan estava lendo uma coletânea de contos de horror. A vizinha interfonou para se queixar do rangido da cama que não a deixava dormir, um barulho irritante que já durava quase meia hora, e ele respondeu que a reclamação não fazia sentido, pois estávamos no mais absoluto silêncio e, até onde ele sabia, eu não era sonâmbula. Ela desligou, incrédula.

Levantei para saber o que havia ocorrido, e acabei perdendo o sono. Naquela época ainda éramos felizes.

Na segunda vez, a vizinha interfonou para pedir que parássemos com “essa loucura de ficar batendo prego na parede”. Estávamos jantando na cozinha, quase sem conversar, e Alan mais uma vez informou a vizinha de que não havia um único martelo no apartamento. Ela resmungou um pouco, soltou um suspiro sentido e desligou.

Como eu disse, era apenas levemente incômodo e um tanto engraçado. Não era como ter um vizinho assassino que esconde o corpo da mulher no jardim – ao estilo de Lars Thorwald, de Janela Indiscreta – ou um casal de satânicos cujo único objetivo seria nos fazer parir o Anticristo em troca de êxito profissional – como Minnie e Roman Castevet em O bebê de Rosemary. Tratava-se apenas de uma vizinha excêntrica com alucinações auditivas, que ouvia camas rangendo e pregos sendo vigorosamente afixados à parede. Naquelas primeiras semanas, achamos graça nas reclamações e ficamos apostando sobre o que viria em seguida, quase que torcendo para que o interfone tocasse e fosse a vizinha de baixo com algum aparte ilusório. A reclamação do prego inclusive nos fez pensar em nossas paredes lisas, tediosas, e decidimos que já era hora de pregar alguns quadros com fotos nossas. (Compramos um martelo.)

A reclamação seguinte envolveu um aspirador de pó excessivamente barulhento, numa manhã de sábado em que estávamos lendo o jornal e cortando as unhas do pé (Alan e eu, respectivamente), e, mais tarde, no mesmo dia, móveis imaginários sendo arrastados com escândalo. Essa queixa foi registrada por um Alan sonolento que teve de se levantar para atender o interfone – eu não estava em casa e ele já se deitara fazia um tempo.

“Como assim, ‘qual barulho’?”, ela repetia, quase gritando. “Estou ouvindo vocês arrastando o sofá para o outro lado da sala, isso não é hora de arrastar o sofá”, exclamou, enquanto Alan tentava convencê-la de que ninguém estava fazendo nada àquela hora da noite, que o prédio estava em silêncio, que eu tinha ido dormir fora, que ela estava ouvindo coisas. No dia seguinte, quando foi me contar o que havia ocorrido, ele observou que até seria uma boa ideia empurrar o sofá para o lado direito da sala, assim poderíamos encaixar no espaço vago um pedestal de mármore com anjinhos esculpidos que a mãe dele nos dera de presente de casamento e ainda estava encaixotado por puro lobby da oposição (eu). Assim fizemos. O ruído dos móveis sendo arrastados ecoou pelo prédio, mas a vizinha não interfonou para reclamar, talvez porque já o tivesse feito.

A história toda ficou ainda mais estranha quando, dias depois, ela interfonou pedindo que desligássemos o ar-condicionado – e nós percebemos que realmente seria interessante se tivéssemos um ar-condicionado, pois o clima ali andava muito sufocante. Encomendamos o aparelho logo em seguida, que foi instalado na janela bem acima do apartamento dela. Ficamos depois imaginando que ela podia ser uma vizinha com poderes paranormais que se antecipava aos nossos gostos e necessidades, e ficamos na expectativa das próximas chamadas.

Certa vez, ela serviu de juíza (involuntária) para uma de nossas brigas mais acirradas: na mudança, eu desistira de trazer um enorme aquário de peixes, que ficou na casa dos meus pais, pois Alan dizia que não havia espaço no apartamento. Mas, conforme o tempo passava, comecei a ter saudade dos meus acarás e a insistir para que trouxéssemos o aquário, instalando-o na área de serviço, onde não incomodaria tanto assim – era só botar a secadora num suporte alto e montar uma bancada junto à janela. Um dia, a vizinha interfonou perguntando se tínhamos um aquário em casa, pois ela ouvia todas as noites o barulho do filtro de água em funcionamento, o que era realmente incômodo para uma senhora de idade com problemas de insônia. Fui eu que atendi o interfone naquele dia, e foi com grande alegria que ouvi a reclamação. Nem me dignei a responder, bati o fone no gancho e anunciei, exultante: “Vamos trazer o aquário!”. Alan assentiu, como se fosse um desígnio do destino. (O aquário não mitigou a minha melancolia.)

Ela também pediu que abaixássemos o som de algo que parecia “Bamboleo”, dos Gipsy Kings, em looping, que é realmente uma música contagiante e que decidimos escutar com mais frequência para ver se o clima lá em casa ficava menos pesado, e reclamou dos latidos do nosso cachorro inexistente – que demorou poucos dias para de fato existir, e materializou-se na forma de um filhote de labrador adotado em uma feirinha perto de casa. Gipsy Kings e o cachorro foram breves alegrias matrimoniais que não demoraram a se extinguir, como tudo lá em casa, e os dias foram ficando cada vez mais tristes, e os toques do interfone mais enervantes.

Ainda assim, não era como se tivéssemos problemas de verdade com os vizinhos – nada como a história de um certo Michael Carroll, que construiu uma pista de corrida para carros no próprio quintal e passava as madrugadas promovendo rachas de automóveis, com direito a batidas e incêndios ocasionais. Ou como Paula Bolli, que despejou no jardim 30 metros cúbicos de esterco fresco de cavalo para adubar as plantas, atraindo fedor e ratos para as propriedades vizinhas. (O esterco nem estava sendo utilizado como adubo, pois a quantidade era tanta que Bolli não conseguia mais enxergar o solo. Em todo caso, ninguém sabia se aquilo poderia ser considerado ilegal sob qualquer ponto de vista.)

Em suma, o nosso caso não era extremo, apenas envolvia uma vizinha idosa com problemas insólitos de audição. E um jovem casal em crise de relacionamento.

Dia após dia, semana após semana, ela reclamava de tudo, menos do choro de um bebê – e foi por esse motivo, acima de tudo, que a vizinha logo começou a pedir que parássemos de brigar. Repetidas vezes. Ainda assim, passei a correr para atender os toques do interfone na expectativa de que logo viesse uma boa notícia, mas nada: só passos nervosos, portas batendo e brigas que se arrastavam pela madrugada, todos minuciosamente previstos pela vizinha de baixo com algumas horas de antecedência.

Foi quando entendemos uma coisa: não era que ela estivesse se antecipando às nossas necessidades, era como se não tivéssemos chance. Ela previa o futuro – ou melhor: ouvia o futuro. Depois que nos demos conta disso, ainda tentamos resistir, mas tudo o que ela dizia se tornava real; tentativas de reconciliação terminavam em crises de choro, jantares românticos viravam brigas com pratos sendo arremessados, conversas em voz baixa eram concluídas aos gritos, então paramos de tentar.

Não era como se tivéssemos um vizinho que ria alto demais, que acordava cedo para bater vitamina no liquidificador, ou que nunca segurava o elevador quando estávamos cheios de sacolas.

Então, certo dia, ela interfonou apavorada perguntando o que foi aquele barulho horrível, se alguém havia se machucado, se queríamos que ela chamasse a polícia, e eu decidi que, se alguém ali fosse sair vivo, que fosse eu. 

Ilustração - realidade alternativa

Kleber Sales

O Estado de São Paulo – Caderno 2
12 de setembro de 2016

por Vanessa Barbara

Hoje é dia de escrever crônica bizarra, de estourar os caracteres, de errar na concordância, usar gíria e dar a louca, hoje é dia de maldade. Hoje é segunda-feira. Dia de comprar briga no jornal, de usar palavra comprida só para zoar a diagramação, de perder a compostura em fonte com serifa, de travar o LibreOffice e reiniciar o computador no botão.

Hoje é dia de fazer mesóclise logo no início do texto, de apavorar no dicionário de sinônimo, usar “sequer” sem a partícula de negação, separar sujeito de predicado, confundir adjetivo com advérbio, exagerar no ponto e vírgula, abraçar a privada e vomitar crase enquanto a polícia bate na sua porta de madrugada com um dicionário prático de regência nominal. Hoje é dia de usar trema.

Hoje é dia de escrever crônica sobre a infância, de falar sobre falta de assunto, de compor um parágrafo muito brega, de errar feio na metáfora, de fazer menção a um filme que ninguém viu e de achar graça em besteira. Dia de relembrar um episódio muito louco que aconteceu com você no passado e então descobrir que não foi com você, foi com o Sting nos anos 70 e estava num livro que você revisou. Hoje é dia de bagunçar o cabelo de um jornal centenário, de comprometer a reputação falando de assunto polêmico, de ser processada em todas as instâncias na Comarca de Belo Horizonte e emoldurar cartinha malcriada de leitor perguntando se você comeu cocô.

É dia de escrever de economia no caderno de cultura, de servir a interesses escusos, de fazer o jogo da direita, de incorrer em calúnia, injúria, difamação, de incorrer em todo tipo de contravenção contra o acordo ortográfico e perder o MTb por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal. Hoje é dia de usar Arial Black tamanho 18 cor fúcsia e enviar arquivo com terminação .odt só pela farra, dia de mandar indireta para a revisora e de mudar de assunto no meio do texto só para ver se tem alguém lendo.

Hoje é dia de escrever imitando o Rubem Braga, dia de comer sujeira de umbigo para ver se dá inspiração, dia de sair na rua e arrumar confusão só para ter assunto, depois voltar para casa com umas manchas roxas e uma ordem de restrição, ou um vídeo que você não se lembra de ter gravado, ou uma tartaruga a mais no aquário, hoje é dia de loucura.

É dia de escrever crônica bizarra e figurar ao mesmo tempo nas seções Errata, Horóscopo, São Paulo Reclama, Fórum dos Leitores e Obituário. É dia de ser citada nominalmente em um escândalo de proporções diplomáticas e alegar que tem um álibi. Dia de acionar a Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB e passar a noite na porta da delegacia comendo azeitona e pegando Pokémon, enquanto coleta informações desencontradas e aguarda o Suplicy chegar.

Hoje é segunda-feira. Dia de maldade.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
5 de setembro de 2016

por Vanessa Barbara

Na semana passada, falei dos fotógrafos Alex Silveira e Sérgio Silva, que perderam a visão após serem atingidos por balas de borracha disparadas pela Polícia Militar em manifestações. Segundo decisões judiciais, ambos foram considerados culpados pela violência sofrida.

Na quarta-feira passada, tivemos mais uma ocorrência: a estudante Deborah Fabri, de 19 anos, foi atingida durante um protesto contra o governo Temer – não se sabe ainda se por bala de borracha ou por estilhaço de bomba. O Hospital de Olhos Paulista confirmou a perfuração do olho esquerdo. Ainda que Deborah ainda tenha uma mínima percepção luminosa, os prognósticos não são animadores.

Portanto agora temos em São Paulo, na conta do Estado, quatro pessoas que perderam a visão: duas atingidas por bala de borracha e duas por estilhaços de bomba. (O quarto da lista é Vitor Araújo, que ficou cego do olho direito e teve que passar por cirurgia de reconstrução facial após ser ferido por estilhaço de bomba de efeito moral durante uma manifestação em setembro de 2013. Ele também tinha 19 anos na época.)

Coincidência ou não, dois dos atingidos tinham 19 anos, dois eram fotógrafos. Dois também foram os fotógrafos detidos na manifestação da última quarta-feira, William Oliveira e Vinícius Gomes. Ambos foram agredidos por policiais e depois encaminhados ao pronto-socorro; um deles levou cinco pontos na cabeça, e outro teve sua câmera completamente destruída. Eles foram acusados de atirar pedras contra a tropa e ficaram ilegalmente detidos até as 5 da manhã, quando foi feito um registro de ocorrência em que eles constam como vítimas e testemunhas. Segundo os fotógrafos, nenhum dos agentes agressores trazia identificação na farda. Um amigo jornalista estava presente na cena e alega que a agressão ocorreu porque os fotógrafos estavam registrando um tombo dos policiais. Os cartões de memória das câmeras foram apagados.

Segundo a Folha de S. Paulo, foram sete os feridos na quarta-feira passada, entre eles quatro fotógrafos. Na quinta-feira, mais um desses profissionais entrou para a estatística ao ser atingido por uma bala de borracha na boca. Ele perdeu dois dentes.

Durante as manifestações, é normal ver policiais ordenando que os jornalistas parem de filmar. Dizem que não deram autorização e que tais gravações lesionam seu direito de imagem, ainda que qualquer cidadão tenha o direito de registrar a ação de agentes públicos no exercício de sua função. De acordo com o artigo 220 da Constituição, o direito à manifestação do pensamento, criação, expressão e informação não deve sofrer restrições, ainda que posteriormente possam ser invocados outros incisos do artigo 5o (como direito de resposta e indenização por danos morais).

Não é o que tem acontecido nas ruas de São Paulo. Aqui atualmente é proibido enxergar.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
29 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

No dia 13 de junho de 2013, o fotógrafo Sérgio Andrade da Silva perdeu um olho. Ele cobria uma manifestação do Movimento Passe Livre na esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia quando foi atingido no rosto por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar. Seguiu a pé, sangrando, para o Hospital Nove de Julho, de onde foi transferido para o Hospital de Olhos Paulista. Os médicos não conseguiram recuperar sua visão, que foi comprometida no momento do impacto.

Passados três anos, o juiz responsável pelo caso, da 10a. Vara da Fazenda Pública, julgou improcedente o pedido de indenização por danos morais e materiais. Na sua interpretação, Sérgio seria o único culpado pela violência sofrida. Segundo o juiz, ao se posicionar entre os manifestantes e a polícia, o fotógrafo “colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer”.

Algumas informações relevantes: em entrevista para o jornalista Tadeu Breda, autor do livro Memória Ocular (ed. Elefante), o fotógrafo declarou: “Tenho um metro e oitenta de altura. Para me atingir no olho, ainda que não tenha mirado em mim, o policial estava com a arma apontada para a cabeça das pessoas. Isso é inaceitável. Ele atirou para machucar”. As queixas de Sérgio são corroboradas pela fabricante da munição, Condor Tecnologias Não-Letais, que disse em nota para o jornalista que “as balas de borracha devem ser preferencialmente disparadas da cintura para baixo, nunca contra a cabeça e o pescoço. Os manuais de instrução e todos os treinamentos dão essa orientação, que é universal”. Além disso, segundo um manual da Escola Superior de Sargentos da PMSP, “o disparo de elastômero deve ser dirigido contra um oponente certo e determinado, que esteja oferecendo resistência ativa”.

Naquele mesmo dia, a repórter da TV Folha Giuliana Vallone também foi atingida no rosto por um projétil disparado pela PM, mas sua visão foi preservada, provavelmente porque o impacto foi amortecido pelos óculos de grau. Segundo depoimento da jornalista, o policial mirou nela e atirou, ainda que estivesse identificada com um crachá de imprensa. Na época, o secretário de Segurança declarou: “Eu me solidarizo e lamento o episódio. Quero dizer que vamos apurar o ocorrido. Se ficar comprovado, vai haver responsabilização”.

Naquele dia, a corporação admitiu o uso de 506 balas de elastômero e 938 bombas de gás lacrimogêneo.

Há dois anos, o Tribunal de Justiça de São Paulo já havia chegado a uma decisão semelhante no caso do fotógrafo Alex Silveira, do Agora São Paulo, atingido no olho em um protesto em 2000. Silveira ganhou em primeira instância, mas o Estado recorreu e a decisão foi alterada.

A culpa agora é do jornalista, que errou na hora de escolher a profissão.

O autor de Moby Dick achou as ilhas desoladoras. No local, encontrou apenas a vida réptil: "Nenhuma voz, nenhum mugido, nenhum uivo são ouvidos; o principal ruído de vida aqui é um silvo." Foto: VANESSA BARBARA_2016

O autor de Moby Dick achou as ilhas desoladoras. No local, encontrou apenas a vida réptil: “Nenhuma voz, nenhum mugido, nenhum uivo são ouvidos; o principal ruído de vida aqui é um silvo.” Foto: VANESSA BARBARA_2016

Notas de uma tumultuada expedição a Galápagos

Revista Piauí – edição 119 
Agosto de 2016

por Vanessa Barbara (texto, fotos e vídeo)

Certa vez, durante uma expedição de campo, Charles Darwin avistou dois besouros raros e os segurou, um em cada mão. “Depois vi um terceiro, também raro, que eu não ousaria perder, de forma que logo botei na boca o que estava na mão direita. Ele expeliu um fluido extremamente ácido que queimou minha língua e precisei cuspi-lo; perdi-o, assim como ao terceiro exemplar.” Em outra ocasião, uma vespa pousou em seu rosto e encostou a tromba num de seus olhos, aparentemente para sorver a umidade. Segundo a sra. Darwin, “ele se levantou muito silencioso do sofá e ficou olhando para si mesmo no espelho até a vespa se mover”.

Foi com esse espírito de meter besouros na boca e observar vespas passeando no próprio globo ocular – e inspirada por outros pioneiros como o escritor Herman Melville – que fiz as malas para uma expedição de dez dias em Galápagos, um conjunto de ilhas vulcânicas no oceano Pacífico, a cerca de 900 quilômetros da costa do Equador.

Museu vivo da biodiversidade e da evolução, o arquipélago possui inúmeras espécies endêmicas, ou seja, encontradas apenas nessa parte do mundo, como tartarugas-gigantes, iguanas híbridas, lagartos-de-lava e pinguins tropicais. Sendo as ilhas isoladas e destituídas de predadores significativos, os animais se caracterizam pela docilidade e interação com os seres humanos, já observadas por vários exploradores.

Nos dias em que estive no arquipélago, tomei uma cusparada de um leão-marinho, colidi no mar com uma tartaruga, encarei a morte diante de um quelônio gigantesco, fui esnobada por um pinguim e nadei com tubarões. Em Galápagos, animais cruzam seu caminho, metem o focinho na sua cara ou continuam a cuidar de seus afazeres como se nada estivesse acontecendo, “tão mansos e desprevenidos que nem sequer entendiam o que significavam pedras atiradas em sua direção”, conforme registrou Darwin em seu diário A Viagem do Beagle, no qual relata os cinco anos passados a bordo da embarcação.[1]

Antes dele, em 1825, o capitão da Marinha lorde Byron (primo do poeta) afirmou que as ilhas Galápagos eram povoadas pelas “criaturas vivas mais feias” que ele já tinha visto. “É como uma nova criação; pássaros e bestas não desviam do nosso caminho; pelicanos e leões-marinhos nos encaram como se não tivéssemos direito de interromper sua solidão; pequenos pássaros são tão mansos que sobem em nossos pés; tudo isso em meio a vulcões ardendo por todos os lados.”

Este é um diário da minha modesta, porém tumultuada, expedição.

 

5 DE MAIO DE 2016, QUINTA-FEIRA_Na hora do almoço, meu marido e eu saímos de São Paulo rumo à Cidade do Panamá. Um dos inconvenientes de visitar Galápagos é chegar lá – nada que se possa comparar aos meses de enjoo que Darwin sentiu a bordo do Beagle, mas ainda assim trata-se de um périplo cansativo em bancos de aeroportos e corredores espremidos da classe econômica.

Não há voos diretos entre o Brasil e o Equador, portanto as opções são via Cidade do Panamá, Lima ou Bogotá. Fomos pelo Panamá, mas tendo por destino Guayaquil, onde resolvemos passar a noite. Desembarcamos no mesmo horário de um voo proveniente de Miami, o que diz tudo quanto à eternidade que levamos para transpor a imigração e a alfândega, enquanto animados equatorianos tentavam passar com suas três malas gigantes e uma tevê de led na fila nada a declarar.[2]

As paredes do quarto do hotel, um Holiday Inn inaugurado há menos de três anos, haviam rachado consideravelmente após um terremoto de magnitude 7,8 ocorrido dezenove dias antes, com epicentro a mais de 300 quilômetros da cidade. Avisos nos corredores comunicavam que, apesar dos danos visíveis, a estrutura do edifício não havia sido comprometida. Dezenas de casas foram totalmente destruídas e outras centenas tiveram danos parciais. Uma ponte ruiu. Em todo o país, a tragédia deixou mais de 600 mortos, 6 mil feridos e pelo menos 26 mil desabrigados. Nas semanas que se seguiram, o Equador sofreria inúmeros rebotes, alguns de magnitudes de até 6,8, mas desta vez com danos bem menores.

Aproveitamos o fim da noite para concluir a bibliografia sobre Galápagos, para onde partiríamos na manhã seguinte. Em seu diário, Darwin chamou a região de “pequeno mundo à parte” e se disse espantado “com o número de seus seres nativos e com sua variedade limitada”. Por serem ilhas vulcânicas que nunca estiveram anexadas ao continente, as terras foram sendo povoadas por espécies que chegaram muito tempo atrás, via aérea ou marítima. É por isso que o arquipélago foi tão importante para a teoria da evolução: ao observar a gradação e a diversidade de estruturas num pequeno e intimamente relacionado grupo de animais – digamos, os tentilhões –, ficou cada vez mais claro para Darwin que só podiam ter vindo de um mesmo ancestral. Nas ilhas, as espécies se modificam e se adaptam de acordo com as condições de sobrevivência no local – os bicos dos tentilhões, por exemplo, ora eram mais longos e pontudos (para comer sementes de cactos), ora mais curtos e robustos (para quebrar nozes).

A distância do arquipélago ao continente serviu para consolidar essas mudanças evolutivas e manter as espécies razoavelmente isoladas de novos e constantes fluxos migratórios. Especula-se que mamíferos de grande porte e outros predadores terrestres jamais sobreviveriam a tão longa viagem, portanto as espécies que conseguiram aportar a Galápagos, sobretudo de aves e répteis, puderam se desenvolver sem maiores sustos predatórios. Da mesma forma, a distância entre as ilhas propiciou leves, porém perceptíveis, variações regionais.

Logo após deixar Galápagos, ele escreveu: “Vendo cada monte coroado com sua cratera e os limites da maioria dos rios de lava ainda distintos, somos levados a crer que, num determinado período, geologicamente recente, o oceano estava espalhado por aqui. Assim, tanto no espaço como no tempo, parecemos nos aproximar desse grande fato – o mistério dos mistérios –, a primeira aparição de novos seres na Terra.”

 

6 DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Antes de embarcar para Galápagos, ainda no aeroporto, o viajante deve pagar 20 dólares[3] por um cartão de trânsito. Para agilizar o processo, é possível fazer um pré-registro no site do governo. Depois, o expedicionário segue para o controle de bagagens, no qual uma máquina de raio X inspeciona sua mala em busca de plantas, sementes, frutas, verduras, terra e produtos de origem animal. Na chegada à ilha, o turista já quita a taxa de entrada do Parque Nacional Galápagos (100 dólares), em dinheiro. No ano passado, 224 mil pessoas visitaram o arquipélago.

O aeroporto principal fica na ilha Baltra, também chamada South Seymour,[4] onde não existe nada além do terminal. Os viajantes tomam um ônibus para o píer, de onde saem balsas que em dez minutos (e por 80 centavos) cruzam o canal de Itabaca até a ilha Santa Cruz. Uma vez do outro lado, é preciso pegar um ônibus até o terminal rodoviário ou seguir de táxi até o centro (Puerto Ayora), um trajeto de quarenta minutos. Fomos de táxi até o hotel, a meio caminho entre o canal e o centro, na chamada “parte alta” da ilha.

A chegada a Galápagos causa impacto. “Nada poderia ser menos convidativo do que esse primeiro relance”, conta Darwin em seu diário, referindo-se à ilha San Cristóbal (Chatham), uma observação que também se aplica às demais ilhas do arquipélago. “Um campo rachado de lava negra basáltica, lançado sobre ondulações pedregosas e repleto de grandes fissuras, estava recoberto por arbustos mirrados e queimados de sol, mostrando poucos sinais de vida. A superfície seca e crestada, aquecida pelo sol do meio-dia, deixava o ar abafado, opressivo como em um forno.” O solo de Galápagos parece marciano, com rochas por toda parte, um ou outro cacto quebrando a paisagem e algumas árvores pequenas e quase sem folhas resistindo ao mormaço. “Descobri o inferno na Terra”, exclamou em 1535 o bispo do Panamá, Tomás de Berlanga, acrescentando: “É como se Deus tivesse feito chover rochas.” Já a paisagem na parte alta é outra, com vegetação tropical e densas florestas de uma árvore endêmica ameaçada, a Scalesia pedunculata.

O hotel, pequeno, ficava a doze minutos de carro do Centro. Logo de cara fomos recebidos por uma tartaruga-gigante-de-galápagos (Chelonoidis nigra)[5] que passeava junto à varanda. Ela e suas colegas vivem nas dependências da propriedade, que se orgulha de ser a primeira produtora de tortoise friendly coffee do mundo, ou seja, uma plantação sustentável de café planejada para não atrapalhar as rotas de migração das tartarugas-gigantes. O animal passou e foi cuidar de seus afazeres. Pouco depois, enquanto esperávamos um táxi, revimos esse mesmo exemplar, doravante referido como Afonso, e pudemos apreciá-lo mais de perto. Tratava-se de uma criatura de cerca de 1 metro de comprimento, com um par de olhos quase humanos, 130 quilos e 60 anos de idade.[6]

O passeio da tarde não fugiu do tema: na Estación Científica Charles Darwin, vimos dezenas de tartarugas-gigantes se alimentando preguiçosamente e dormindo com as patas traseiras espichadas ao sol. Elas possuem o pescoço bastante alongado em comparação ao de Afonso, o que nos fez acreditar que fossem subespécies distintas – provavelmente nosso vizinho de quarto pertence à Chelonoidis nigra porteri, ao passo que algumas das residentes na estação são da subespécie Chelonoidis nigra hoodensis. O novo ambiente fez com que esses jabutis desenvolvessem membros longos, pescoços compridos e aberturas arqueadas na carapaça. Apenas dez de quinze subespécies de tartarugas-gigantes sobrevivem, uma por ilha (Santa Cruz, San Cristóbal, Santiago, Pinzón e Española), e uma para cada um dos principais vulcões da ilha Isabela (Wolf, Darwin, Alcedo, Sierra Negra e Cerro Azul). Uma décima primeira subespécie foi extinta em 2012, com a morte do Solitário George,[7] o último exemplar de sua estirpe.

Ainda no centro de pesquisa, vimos duas subespécies de iguanas terrestres endêmicas (uma delas é a Conolophus pallidus), que me inspiraram uma observação da qual Darwin sentiria orgulho: a iguana terrestre parece um cachorro disfarçado de iguana numa fantasia de péssima qualidade. No caminho para a Playa de la Estación, vizinha ao centro de pesquisa, topamos com uma iguana marinha (Amblyrhynchus cristatus) botando ovos no meio da estrada, nas proximidades de uma bandeirinha que sinalizava um ninho já existente.

Quando o dia já estava terminando e parecia não trazer mais novidades, fomos até o mercado de peixes de Puerto Ayora, onde assistimos a um bando de pelicanos-pardos (Pelecanus occidentalis) e leões-marinhos (Zalophus wollebaeki) implorando aos pescadores por um petisco, totalmente alheios ao agrupamento de turistas eslavos ao redor deles. Foi meu primeiro contato com um leão-marinho subindo uma escada.

Mais tarde, deparamos com outro desses animais cochilando num banco perto do píer, uma cena que se repetiria à exaustão ao longo da viagem. Em Galápagos, é normal topar com leões-marinhos dormindo de pança para o alto em qualquer tipo de superfície disponível: em cima de botes, escadas, penhascos ou espalhados pelo cais. Um deles estava descansando numa rocha tão remota e improvável que só pode ter sido levado para lá durante a maré alta. Desta vez, quando chegamos perto, o animal cuspiu na nossa cara, sem motivo aparente.[8] Pouco depois ele se levantou ao ouvir o chamado de um colega que estava nas cercanias; desceu do banco, deu um bocejo, espirrou e saltou para a água, nadando rumo ao que parecia um ótimo rolê.

 

7 DE MAIO, SÁBADO_Às oito da manhã, embarcamos no Invicta II rumo à ilha Floreana (Charles), uma das mais impressionantes de todo o arquipélago. Após uma viagem de duas horas, encontramos mais uma paisagem árida de arbustos mirrados e dezenas de leões-marinhos dormindo. Subimos numa chiva – ônibus de transporte rural – rumo à parte alta da ilha, onde a vegetação foi se adensando, o clima ficou mais ameno e dezenas de tartarugas-gigantes vieram nos cumprimentar.

O local se chama Asilo de la Paz e é onde se localiza uma das poucas fontes de água doce de Galápagos, que abastece a população local até hoje, além da engenhosa Cueva de los Piratas, antigo reduto construído na pedra por piratas espanhóis. Nessa área ocorreu um dos casos mais bizarros da história do arquipélago.

Em 1929, o médico alemão Friedrich Ritter abandonou a família e a carreira para viver em Floreana com a amante e ex-paciente Dore Strauch, que sofria de esclerose múltipla. Ambos ocuparam uma área no oeste da ilha, onde estabeleceram plantações e criaram pequenos animais. Três anos depois, em setembro de 1932, vieram novos colonos, também alemães: o casal Heinz e Margret Wittmer, junto com o filho Harry, de 14 anos, do primeiro casamento de Heinz. A família se instalou nas cavernas dos piratas, e em poucos meses Margret, que estava grávida, teve um bebê. Em outubro, chegaram mais moradores: a autointitulada baronesa austríaca Eloise de Wagner-Bousquet com seus dois jovens amantes alemães, Rudolf Lorenz e Robert Philippson, além de um trabalhador equatoriano, Manuel Valdivieso. A ideia do trio era abrir um hotel de luxo.

Em pouco tempo a baronesa proclamou-se imperatriz do local, confiscou presentes enviados pelos turistas e espalhou notícias sensacionalistas pela imprensa internacional, até que conseguiu do governador um pedaço de terra muito maior do que o das outras duas famílias. Tempos depois, o empregado equatoriano fugiu e Lorenz começou a apanhar da amante, que agora preferia Philippson.

Veio um período de seca e as coisas pioraram ainda mais, até que em março de 1934 a baronesa e Philippson desapareceram sem deixar rastros. Lorenz é considerado até hoje o principal suspeito do crime, que talvez tenha sido acobertado por Heinz. Os corpos nunca foram encontrados. Quatro meses depois, numa sexta-feira 13, o barco que levava Lorenz de Santa Cruz a San Cristóbal naufragou. Seu corpo mumificado foi encontrado numa praia da ilha Marchena (Bindloe), totalmente fora da rota entre as duas ilhas. O naufrágio tampouco foi bem explicado – provavelmente o barco ficou à deriva e acabou sendo levado pelas correntes.

Em novembro, Ritter, que era vegetariano, morreu por intoxicação alimentar após comer frango estragado. As suspeitas logo recaíram em Dore Strauch, que abandonou a ilha em dezembro e voltou à Alemanha. Os sumiços e mortes de Floreana nunca foram elucidados.

Mas nada disso é mencionado durante o passeio ao Asilo de la Paz, um insólito curral onde vivem cerca de 100 tartarugas-gigantes em torno de piscinas rasas de concreto. Muitas delas tinham o casco muito alto e redondo, em forma de domo, como capacetes de soldados, e os semblantes simpáticos de velhinhas indo às compras. Pudemos assistir a alguns machos brigando, procurando medir qual era o pescoço mais comprido, e um pobre jabuti tentando copular com grande esforço, porém sem sucesso, enquanto soltava um som gutural vindo da Pré-História.

Em seu diário, Darwin relata ter encontrado duas tartarugas-gigantes de cerca de 90 quilos cada: “Uma estava comendo um pedaço de cacto e, quando me aproximei, olhou bem para mim e foi embora lentamente; a outra soltou um silvo profundo e encolheu a cabeça.” Trata-se de um movimento comum desses animais ao se sentirem ameaçados. Darwin se divertia em assustá-los só para vê-los soltar um silvo alto, encolher as patas e a cabeça, e desabar no chão como se estivessem mortos. “Esses enormes répteis, cercados pela lava negra, pelos arbustos secos e pelos enormes cactos, me pareceram animais antediluvianos.”

Ao desembarcar na ilha San Cristóbal, o cientista se perguntou que tipo de criatura podia viajar de forma tão metódica ao longo de trilhas tão bem demarcadas. Aos poucos, notou que as tartarugas-gigantes gostam de beber muita água e de chafurdar na lama. Como as nascentes em geral ficam no centro das ilhas, a uma altura considerável, e os animais vivem nas partes mais baixas, eles são obrigados a viajar longas distâncias (perfaziam até doze quilômetros em dois ou três dias) para matar a sede.

Na época de Darwin, havia 200 ou 300 habitantes em Floreana – sobretudo negros banidos por crimes políticos do Equador – que subsistiam da carne de tartaruga, o que reduziu em muito o número desses animais. Hoje a ilha possui 100 habitantes e cerca de 100 tartarugas-gigantes, ou seja, um jabuti per capita, um dos índices de desenvolvimento mais atraentes que já vi.

Antes de partir, fizemos um mergulho de snorkel nas geladas águas de Playa Negra e vimos dezenas de tartarugas-verdes (Chelonia mydas). Lindas, sérias e gulosas, disputavam com peixinhos pretos as algas do fundo do mar. Muitas tinham musgo no casco, algumas traziam anilhas de identificação nas patas traseiras e a maior delas media duas ou três vezes o meu tamanho. Enquanto eu a observava, fui levada por uma onda e acabei colidindo com outra tartaruga enorme – nenhuma de nós pediu desculpas.

8 DE MAIO, DOMINGO_Embarcamos no Queen Karen para um passeio à ilha Plaza Sur (South Plaza). E aconteceu algo verdadeiramente notável – peço desculpas aos senhores que sentem nojinho, mas mergulhar menstruada ao lado de tubarões-tigre é digno de honrarias. Duvido que Darwin tenha passado por isso.[9]

Não há evidências científicas de que os tubarões sejam particularmente atraídos por sangue de menstruação, ainda que sintam o odor, da mesma forma que percebem urina e suor. Seres humanos não constam entre suas presas preferidas, e é mais fácil ser atacado por um cão nas ruas do Mandaqui ou tropeçar dentro de um ônibus em carreira desabalada pela avenida Zumkeller do que ser mordido por um deles. De fato, o guia garantiu que não havia perigo em mergulhar, bastava se fingir de morto e não fazer nenhum movimento brusco. Ainda assim, quando se está a poucos metros de um tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), uma das espécies mais perigosas do mundo, e quando se percebe pelo canto da máscara que há mais alguns da mesma laia nadando de forma suspeita a seu redor, é difícil não lembrar de Robert Shaw sendo mastigado por um enorme tubarão-branco, que também comeu boa parte do barco no filme do Spielberg, além de uma mocinha e um pobre pescador que não ganhou o suficiente pela figuração.

Apenas continuei respirando em silêncio, imóvel, e esperei que o resto do grupo não me deixasse lá para morrer. Por sorte, os animais não se interessaram pelo material e se afastaram, me deixando livre para implorar ao guia que não fosse mais procurar tubarões. Ele não me ouviu e ainda vimos de perto exemplares do tubarão galha-branca oceânico (Carcharhinus longimanus), abundante no arquipélago.

Naquela mesma noite, descobri no Lonely Planet que nos últimos anos houve alguns ataques de tubarão em Galápagos, inclusive um incidente registrado num canal próximo às ilhas Plaza, em 2004. Era exatamente onde estávamos. Não sei dizer se houve sangue menstrual envolvido no episódio, mas, na dúvida, resolvi que espalharia que por pouco não morri e que os tubarões até chegaram a se preparar para dar o bote, mas fui salva por um bando de tartarugas-verdes.

Depois do almoço saímos para explorar Plaza Sur, empreitada pouco extraordinária, já que a ilha tem uma área de 0,13 quilômetro e altitude máxima de 23 metros. Trata-se de um pedaço de rocha repleto de cactos (Opuntia echios echios), pedras esbranquiçadas, tufos avermelhados de grama, arbustos esturricados e uma tonelada de leões-marinhos dedicando-se a sua atividade preferida: dormir. Também vimos dezenas de iguanas terrestres (Conolophus subcristatus) abrigando-se na sombra e iguanas marinhas (Amblyrhynchus cristatus) relaxando em rochas próximas ao mar.

As espécies marinhas são menores, escuras e vivem ao sol. “São criaturas horrendas, de uma cor preta suja, estúpidas e lerdas em seus movimentos”, descreveu Darwin. Na água, elas nadam com rapidez e desenvoltura, executando um movimento serpenteante do corpo e da cauda que as faz parecer pequenos e vorazes Godzillas. Possuem glândulas que filtram o excesso de sal ingerido, mais tarde expelido por espirros súbitos – vê-se a meleca branca endurecida no rosto delas. Suas garras compridas se adaptaram para a escalação da superfície rochosa de lava.

Já as iguanas terrestres são mais claras, e os machos podem apresentar uma cor amarela muito viva nas costas. “Como seus irmãos marinhos, são animais feios”, escreveu Darwin, acrescentando que, vistos de baixo, possuem uma “aparência particularmente estúpida.” Barriga, patas dianteiras e cabeça (exceto a coroa, em geral branca) são de um laranja sujo e amarelado; as costas, vermelho-amarronzadas. Quando não se sentem ameaçados, caminham sem pressa se arrastando pelo chão. O cientista inglês passou um longo tempo observando uma iguana terrestre cavando uma toca até que metade de seu corpo estivesse enterrado, então ele se aproximou e a levantou pela cauda. O animal “ficou imensamente espantado, e logo ergueu a cabeça para ver qual era o problema; então ficou olhando para mim como se quisesse dizer: ‘Por que você puxou a minha cauda?’”

No topo de um cacto, tivemos um vislumbre de um dos poucos exemplares de iguana híbrida que existem no mundo – cruzamento de iguana marinha macho e iguana terrestre fêmea, duas espécies que coabitam a ilha Plaza Sur. O réptil, negro com o pescoço esbranquiçado e algumas faixas claras pelo corpo, almoçava as folhas mais altas do cacto. Em 2003, contabilizaram-se apenas vinte desses animais.

Também visitamos um canto onde leões-marinhos machos se recuperavam após perder território. O local, com forte cheiro de urina e fezes, abrigava animais que se alimentavam e descansavam para depois voltar ao outro lado da ilha e tentar retomar a liderança. Ouvimos o chamado de jovens leões-marinhos exigindo a presença de suas mães, e acompanhamos uma fêmea amamentando à sombra de um cacto. São animais muito parecidos com cachorros, em aparência e estado de espírito – alguns passam o dia brincando na água, outros se mostram extremamente curiosos. Há relatos de seres humanos mordidos por leões-marinhos, inclusive em Galápagos.[10]

Por último, conhecemos os escandalosos caranguejos-vermelhos-de-galápagos ou aratus-vermelhos (Grapsus grapsus), e a imponente fragata ou tesourão (Fregata magnificens), que tem o bico curvo para roubar o que outras aves caçaram, daí seu apelido de pirata-do-mar. Simpatizei particularmente com a gaivota-de-cauda-bifurcada (Creagrus furcatus), que chama a atenção pelos olhos e patas vermelhas, sendo a única gaivota do mundo com hábitos noturnos. Ela possui nas costas manchas brancas que, parecidas com guano, ajudam na camuflagem. São animais que se disfarçam de cocô.

 

9 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_Hoje decidimos dormir até tarde e visitar a praia de Tortuga Bay, a 2,5 quilômetros de caminhada de Puerto Ayora. No caminho, vimos exemplares de sabiás-de-galápagos (Mimus parvulus), aves neuróticas que andam em bando, com um ar de quem esqueceu a chave de casa. Já os famosos tentilhões (em inglês, finches, e em espanhol, pinzones) também estão por toda parte.

A comida criolla não é muito diferente da nossa. Uma entrada típica é o encebollado de pescado (sopa de peixe com cebola), a que se segue um prato de arroz com menestra (feijão ou lentilha) acompanhado de encocado de pescado (peixe grelhado com leite de coco), ceviches, tortillas ou bolón de verde (uma bola feita de massa de banana-da-terra verde assada ou frita, misturada com carne ou queijo). Como acompanhamento, patacones (fatias de banana fritas, prensadas e fritas novamente). De sobremesa, bolo de banana, torta de chocolate e café. Há muito churrasquinho de rua. Em Puerto Ayora, vimos uma moça defumando carnes com a ajuda de um enorme e antigo secador de cabelo.

À noite, enquanto tomava sorvete, sofri um ataque vil de um lagarto-de-lava (Microlophus sp), que subiu pela minha perna, me encarou e deu um salto quando me levantei, assustada. A estranha criatura media cerca de 5 centímetros. A morte está à espreita o tempo todo em Galápagos.

 

10 DE MAIO, TERÇA-FEIRA_No Centro, pegamos um táxi aquático (80 centavos) para el otro lado, onde encontramos algumas das paisagens mais bonitas da ilha Santa Cruz. Após cerca de quinze minutos de trilha, cruzando por lagoas de água salgada e uma floresta de cactos, chegamos a Las Grietas – uma faixa de água cor de esmeralda ladeada por dois paredões de rocha vulcânica, com 10 metros de profundidade, 7 de largura e 100 de comprimento. A água é gelada, cristalina e um pouco salgada. A paisagem é impressionante.

Depois fomos até a Playa de los Alemanes, onde também é possível nadar no raso e fazer snorkel com arraias e peixes. Passamos algumas horas lendo e observando passarinhos. Os mais intelectuais pousavam bem ao nosso lado e ficavam tentando espiar a capa dos livros. Outros vinham em dupla e piavam baixinho para não incomodar. Quando a fome bateu, voltamos. Cabe aqui observar que na praça principal do vilarejo foi erigida uma estátua em homenagem às tartarugas-gigantes (que eu também tive vontade de trazer comigo).

Uma das curiosidades do Equador é que a alvorada e o crepúsculo são muito rápidos, já que o sol nasce e se põe quase que de forma perpendicular ao horizonte, levando poucos minutos para executar o trabalho completo de surgir ou sumir. Assim que escurece, quase sempre é possível se dedicar à observação do céu. Podem-se identificar, ao mesmo tempo e no mesmo firmamento, as constelações Ursa Major (típica do hemisfério Norte) e Crux (o Cruzeiro do Sul, típica do hemisfério Sul), cada qual em seu canto da abóbada. Se passássemos uma noite completa observando o céu, veríamos uma quantidade obscena de constelações, sem distinção de estações do ano.

 

11 DE MAIO, QUARTA_Embarcamos logo cedo no Contagious para as ilhas Pinzón (Duncan). Como a água estava gelada, em torno de 20 graus, aluguei um traje de mergulho, que se revelou inútil para me aquecer.

Em nosso ponto de mergulho, a Bahía Pingüino, observamos uma porção de arraias, as chamadas stingrays (Myliobatoidei sp.), além de uma espécie enorme de cavalo-marinho-do-pacífico (Hippocampus ingens) e uma tartaruga-verde. E finalmente ficamos cara a cara com um aristocrático pinguim-de-galápagos (Spheniscus mendiculus), única espécie ao norte da linha do Equador, que sobrevive graças às temperaturas das correntes de Humboldt (vinda da Antártida por meio da costa do Chile e do Peru, é uma água rica em nutrientes, com temperatura média de 15 graus) e de Cromwell (que escoa do oeste para o leste, vinda do oceano Pacífico, com águas bastante profundas a uma temperatura média de 13 graus). Ambas se encontram na região da plataforma submarina do arquipélago, provocando a ressurgência de águas profundas, mais frias e carregadas de nutrientes, que alimentam o ecossistema de Galápagos.

As ilhas estão numa posição privilegiada, justamente na intersecção entre pelo menos três grandes correntes oceânicas. Se levarmos em conta essa mistura de correntes ao sol equatorial que reina na superfície, podemos entender a biodiversidade única das ilhas, fora da água ou dentro dela. Também se explica o clima relativamente temperado do arquipélago, a despeito de sua localização equatorial.

A cada quatro ou sete anos, porém, ocorre o fenômeno El Niño, quando os ventos sopram com menos força e não conseguem impulsionar a corrente de Humboldt, resultando em estagnação das águas quentes da corrente do Panamá. Sem os nutrientes necessários, a cadeia alimentar é quebrada em um ponto crítico, o equilíbrio ambiental se perde e inúmeros animais marinhos morrem de fome. Entre as décadas de 80 e 90, o El Niño provocou a redução dramática da população de biguás-de-galápagos (Phalacrocorax harrisi), pássaros endêmicos que têm asas mas não voam, além de lobos-marinhos, iguanas e pinguins-de-galápagos. O fenômeno também dizimou quase inteiramente os recifes de corais, e costuma provocar alterações inesperadas na proporção de gênero das tartarugas-gigantes. Por outro lado, chove muito e a vegetação se desenvolve com vigor, a ponto de aumentar de forma drástica a população de flamingos (Phoenicopterus ruber) e tentilhões.

Depois do mergulho, almoçamos no barco e demos uma volta pelas ilhas Daphne, onde os biólogos Peter e Rosemary Grant passaram quase quatro décadas estudando o comportamento dos tentilhões, um trabalho que resultou no livro The Beak of the Finch [O Bico do Tentilhão], de Jonathan Weiner, ganhador do prêmio Pulitzer de não ficção de 1995. Além dessas aves, é possível observar uma variedade de espécies, como pelicanos-pardos, fragatas, andorinhas-do-sul (Progne modesta) e rabos-de-palha-de-bico-vermelho (Phaethon aethereus). O guia nos explicou que em Daphne os cactos são mais baixos porque não há predadores como tartarugas e iguanas.

De volta ao hotel, fui dar uma volta pela plantação de café com Rusty, o cachorro da propriedade, um vira-lata gordo e carinhoso, quando de repente me deparei com a morte. Na trilha de terra batida, vinha em nossa direção uma tartaruga-gigante de aproximadamente 150 quilos e cerca de 120 anos de idade. Ela parou no meio do caminho e deixou seu pesado plastrão cair por terra. Decidi esperá-la. Naquele fim de tarde, passei vinte minutos sentada no chão, imóvel, olhando para o tartarugão – doravante chamado Alfredo –, até ele criar coragem e vir até mim. A criatura dinossáurica se aproximou com a respiração muito pesada, à la Darth Vader, cheirou meu dedão, me encarou bem e eu quase fiz xixi na calça. Ele arrancaria facilmente minha mão, bem como boa parte do meu rosto, se quisesse. Não quis. Pensei em dinossauros comendo jipes e decapitando executivos na privada.

É estranho confessar que morri de medo de um quelônio que não tem nenhum histórico de ataques a seres humanos – a despeito de um vídeo sangrento no YouTube (Dangerous Tortoise Attack) e da famosa perseguição ao repórter da National Geographic, Paul Rose, que interrompeu um acasalamento nas ilhas Seychelles e pagou o preço pela petulância.[11] Ainda assim, estar a centímetros de uma criatura ancestral muito séria cuja cabeça é quase do tamanho da sua – e que de repente vai esticando o pescoço e fica mais alta que você sentada no chão – produz uma mistura de terror e arrebatamento, ainda mais quando o quelônio traz um raminho seco no canto da boca, claro sinal do que restou de sua última presa. Nesse ínterim, Rusty já tinha ido embora e eu nem podia oferecê-lo em sacrifício em meu lugar.

Ficamos ambos ressabiados, Alfredo e eu, até que ele enfim decidiu conti-nuar seu caminho rumo a um aprazível lago de lama. Enquanto passava por mim, usou o casco para me empurrar ainda mais para a beirada da trilha.

 

12 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_Hoje fizemos um passeio a Los Gemelos, duas crateras largas e profundas na parte alta da ilha, forradas de vegetação e cercadas por uma selva quase tropical de árvores de guayabillo (Psidium galapageium) e Scalesia pedunculata. As árvores, por sua vez, estão cobertas de uma planta hepática cor de café que muitos confundem com musgo, aBryopteris liebmaniana. Um passarinho vermelho chamado de príncipe (Pyrocephalus rubinus) pode ser encontrado nessa região, bem como o papa-moscas-de-galápagos (Myiarchus magnirostris) e a coruja-dos-banhados (Asio flammeus). Oito espécies de tentilhões vivem na área, incluindo os tentilhões-pica-paus (Camarhynchus pallidus), que usam um graveto como ferramenta para cavar e apanhar larvas e pequenos insetos.

Em sua visita, Darwin surpreendeu-se com a ínfima quantidade de insetos. Queixou-se de não ter conseguido apanhar nenhum mais robusto ou de cores vivas – as flores e os pássaros também costumam apresentar coloração mais pálida e discreta. Fui picada por pernilongos pouquíssimas vezes, e só tive problemas com formigas durante as sessões de observação do céu.

Depois de conhecer as crateras, fomos passear pelo rancho El Chato, uma reserva onde vivem centenas de tartarugas-gigantes, algumas tomando banho em poças de lama e outras secando ao sol seus cascos encardidos. Estima-se que, durante os séculos XVII a XIX, cerca de 100 mil tartarugas-gigantes foram exterminadas em Galápagos, restando apenas uns 15 mil exemplares. Os sobreviventes levam uma vida sem complicações, alimentando-se de grama, folhas, cactos e frutas, e cochilando cerca de dezesseis horas por dia. Seu metabolismo lento e o grande espaço para armazenamento de água no corpo lhes permite sobreviver por mais de seis meses sem comer ou beber. Elas podem pesar até 400 quilos e vivem em média 100 anos, mas há registros de indivíduos que alcançaram os 170. Têm as patas curtas e gordas de elefantes e um pescoço bastante enrugado. Imaginar uma dessas boiando ao longo dos mil quilômetros de oceano que separam o arquipélago do continente é perturbador.

A origem do nome Galápagos está ligada ao formato da carapaça de alguns desses jabutis, que se assemelha à sela espanhola, ou galápago. Os animais que possuem esse tipo de cobertura são os que vivem em regiões mais secas, como as do Asilo de la Paz, na ilha Floreana – eles têm uma nítida concavidade na parte dianteira da carapaça que lhes permite espichar o pescoço para alcançar os cactos e outras plantas mais altas. Já os que habitam regiões mais úmidas, como as tartarugas do rancho El Chato, apresentam a carapaça redonda em forma de domo, o que as impossibilita de esticar o pescoço. Alimentam-se apenas de grama, mas também estão menos vulneráveis aos ataques de predadores, pois conseguem se encolher por completo dentro do casco.

Após o jantar em Puerto Ayora, encontramos inúmeros papéis colados nos postes do Centro, anunciando que alguém perdera um cachorro de pelúcia – um perrito de peluche llamado Guauguau, de gran valor sentimental.

 

13 DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Deixamos a ilha Santa Cruz e pegamos a lancha pública Neptuno 1 até a ilha Isabela, a maior e mais jovem de todo o arquipélago. O que era para ser um percurso de duas horas se arrastou por quatro horas e meia: no caminho o barco bateu num tubarão, o motor pifou e precisamos ser resgatados por outra embarcação.

A ilha Isabela (Albermarle) tem 120 quilômetros de extensão e é maior do que todas as outras juntas. Apesar da dimensão, menos de 2 mil pessoas vivem na área, quase todas no vilarejo de Puerto Villamil, no sul. Formada pela junção de seis vulcões, Isabela foi descrita por Darwin como uma ilha coberta por rios de lava negra que, tendo escorrido pelas bordas de enormes caldeiras ou jorrado por orifícios menores de suas paredes, passaram a cobrir quilômetros de costa.

À tarde visitamos Las Tintoreras, um agrupamento de pequenas ilhas próximas a Puerto Villamil. Trata-se de uma exuberante baía com mar tranquilo de cor turquesa, conectada a uma fenda de água rasa e cristalina frequentada por dezenas de tubarões galha-branca. Num mergulho de snorkel, vimos leões-marinhos, arraias e estrelas-do-mar de várias cores. Inúmeros pinguins tomavam sol sobre as rochas – todos de cabeça erguida, como se fossem bons demais para aquele ambientezinho desagradável. Posso jurar que um deles me esnobou quando passei.

Também observamos de perto os famosos patolas-de-pés-azuis (Sula nebouxii), uma ave pelecaniforme de aparência cômica cuja dancinha de acasalamento envolve a abertura das asas longas e a exibição de suas patas azuis. A coloração vem de pigmentos carotenoides presentes na dieta de peixes, antioxidantes que têm papel importante no sistema imunológico. Patas azuis, portanto, indicam boa saúde e imunidade alta, uma característica perpetuada pela seleção sexual. Por isso os machos exibem tão enfaticamente seus pés para as fêmeas, levantando-os um após o outro.

Nosso hotel, que ficava de frente para uma travessia de iguanas e para a Playa de Isabela, tinha um quarto nababesco e um banheiro enorme. Devido ao racionamento de água na ilha, chuveiros e torneiras possuíam um sistema de autodesligamento após sete segundos de uso – para exercer sua higiene pessoal, o hóspede precisava ficar pressionando sem parar o botão com o cotovelo. Não era permitido aparentar pobreza e pendurar roupas molhadas na varanda. Isso sempre me aborrece.

 

14 DE MAIO, SÁBADO_Em nosso penúltimo dia, fizemos uma caminhada de 16 quilômetros, ida e volta, até o vulcão Sierra Negra, que se eleva à altitude de 1 124 metro e tem uma das maiores crateras do mundo, e ao vulcão Chico, seu vizinho mais modesto. Caminhar por cinco horas debaixo do sol equatoriano do meio-dia não teria sido tão exaustivo se o meu tênis não tivesse partido ao meio (os dois pés) devido à temperatura do solo, o que me obrigou a percorrer pelo menos a metade do caminho calçando um par de Havaianas. Em minha defesa, o tênis do guia também se despedaçou e foi preciso improvisar uma gambiarra com um barbante. Havia muitas rochas difíceis de escalar de chinelos, mas ainda assim não caí nenhuma vez, feito bastante digno para a minha pessoa. Fiquei com terra grudada até os joelhos, como se estivesse de meia marrom.

A paisagem que vimos durante o trajeto através de um campo meio marciano de lavas e rochas foi muito bem descrita pelo escritor Herman Melville, que visitou Galápagos em 1841. Referindo-se ao arquipélago em geral, ele pediu ao leitor que vislumbrasse pilhas de cinzas largadas aqui e ali num terreno baldio de subúrbio. “Imagine algumas delas como montanhas e o terreno baldio como o oceano, e você terá uma boa ideia do aspecto geral das Encantadas.[12] É mais um grupo de vulcões extintos do que de ilhas, com uma aparência do que o mundo seria após um incêndio criminoso”, escreveu.

O autor de Moby Dick achou as ilhas desoladoras. No local, encontrou apenas a vida réptil, o que para ele era sinal de tristeza e, para mim, de alegria histérica. “Nenhuma voz, nenhum mugido, nenhum uivo são ouvidos; o principal ruído de vida aqui é um silvo.” Em suma, ele não parece ter se divertido; talvez tenha levado uma cusparada de leão-marinho ou algum pinguim o tenha esnobado, o que é sempre um golpe para a autoestima de um escritor.

Após um passeio exaustivo, e com os pés cheios de bolhas, tomamos um banho demorado com o cotovelo no botão do chuveiro, almoçamos e fomos até o Centro de Crianza de Tortugas Gigantes Arnaldo Tupiza-Chamaidan, onde vivem 853 jabutis, sendo 4 recém-nascidos e 768 juvenis, divididos por idade. Em Isabela se encontram cinco das dez subespécies de tartaruga-gigante existentes no mundo, e o centro de criação procura reproduzi-las em cativeiro, proteger os ovos em estufas e liberar os animais na natureza quando estão prontos, por volta dos 6 anos. Li que eles possuem pistas de treinamento para que os animais aprendam a escalar pedras em sua marcha rumo às nascentes de água. No centro de criação, as jovens tartarugas-gigantes se alimentam três vezes por semana de nutritivas folhas de taioba (Xanthosoma sagittifolium) e capeba (Pothomorphe peltata), além de vespas coletadas no local.

Visitamos um dos currais claramente reservado a jabutis encrenqueiros: um indivíduo tentava puxar briga com todos, mordendo seus cascos, tentando abocanhar seus rostos, dando cabeçadas e tentando virá-los de ponta-cabeça. Às vezes um colega revidava, quando então testemunhávamos um sumô quelônio que durava alguns minutos e só terminava quando um dos animais estava prestes a capotar – então o perdedor desistia e voltava para seus negócios particulares. Às vezes ambos ficavam se medindo, totalmente recolhidos, e depois partiam para o ataque, dando coices e batendo os cascos ruidosamente. Eu poderia passar o resto da vida observando tartarugas-gigantes, o que, aliás, foi o que fiz até escurecer, emendando com um picolé de coco.

À noite, jantamos e assistimos a uma partida de futebol entre dois times locais, que se deu num insólito campinho iluminado, de formato quadrado, com arquibancadas abarrotadas de espectadores. Detalhe: um locutor narrava a partida num microfone.

 

15 DE MAIO, DOMINGO_Em nosso último dia em Galápagos, pegamos o barco Diana i até Los Tuneles, onde os fluxos de lava produziram formações geológicas em forma de arcos e túneis que se erguem sobre uma água azul, rasa e cristalina.

Caminhamos sobre os arcos de lava, observamos patolas-de-pés-azuis e atobás-de-nazca (Sula granti), e fizemos o último mergulho com leões-marinhos brincalhões. Mais tartarugas, mais estrelas-do-mar e uns peixes meio inchados com cara de mafiosos – e acabou. A viagem havia chegado ao fim, só nos restava acordar às quatro e meia da manhã do dia seguinte para pegar uma lancha pública, um táxi, um ferry, um ônibus, três aviões, outro ônibus, um metrô e um táxi até nossa casa.

Durante o caminho de volta, fiquei pensando na paixão de Charles Darwin pela observação de animais e na obsessão com que se dedicou às ciências naturais, transformando suas atividades diárias em conhecimento científico. Darwin as chamava de “observações triviais”, e disse a um amigo ser “um verdadeiro milionário em pequenos fatos estranhos e curiosos”. Por toda a casa havia indícios de seus experimentos; ele chegou inclusive a construir uma estufa e um pombal nos limites da propriedade.

O cientista se dedicou por muito tempo ao estudo das cracas, crustáceos marinhos que se fixam a substratos rochosos e também ao fundo de embarcações, e que ele chamava de “pequenos amigos”. A família achava tudo tão natural que, ao visitar a casa de outra criança, um dos filhos de Darwin perguntou ao menino: “Onde seu pai trabalha com as cracas dele?”

Ao contrário do que se imagina, o naturalista não desenvolveu a teoria da evolução imediatamente após voltar de Galápagos, em 1836, mas quase duas décadas depois, com a ajuda de observações, experimentos e leituras. Estava convencido de que a grandiosa história da natureza poderia ser explicada pelo acúmulo de pequenas coisas. Gostava de passar horas prestando atenção em alguma criatura, por menor que fosse e por mais desinteressantes que parecessem seus movimentos; o objeto de estudo podia parecer insignificante, mas os princípios que o fundamentavam eram o credo primário de sua vida científica – “pequenos atos e seus efeitos acumulados”. Pouco a pouco, foi refinando essa sua teoria de que o mundo natural resultava de repetidas ações pequenas e cumulativas.

A paixão de Darwin pelos animais não terminou após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. Mais tarde, esforçou-se para estabelecer que não havia “diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em suas faculdades mentais”. Em A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (1872), ele provou isso com uma série de observações engenhosas sobre o comportamento animal, “desde cavalos que conheciam o caminho para casa, até formigas que defendiam sua propriedade, chimpanzés que usavam perucas como implementos, pássaros-jardineiros que admiravam a beleza de seus ninhos, e gatos que sonhavam com coelhos”, conforme conta a historiadora da ciência Janet Browne, em sua excelente biografia sobre Darwin. Os amigos e a família também se interessavam pelo tópico e forneciam ao cientista histórias curiosas sobre expressões animais. “O dr. James Paget conhecia um terrier que franzia a testa quando estava concentrado. Lady Lubbock descreveu as caras inteligentes apresentadas por seu cão pug. Jonathan Kreft, zelador de museu da Austrália, contou a ele sobre macacos tendo ataques de mau humor como uma criança, enquanto Alois Humbert viu um beija-flor ser persistentemente enganado por papel de parede florido”, escreve Browne.

Por algum motivo, os bichos tiveram um papel fundamental na vida e nos pensamentos de Darwin, que nos últimos anos de vida “apreciava sempre mais a companhia das minhocas. Passou um bom tempo pensando nelas durante os anos de 1880 e 1881”.

Há quem diga que ele tenha morrido no ano seguinte só para ficar mais próximo delas.


Notas de rodapé

[1] Cabe dizer que, ao contrário desta autora, Darwin não respeitava as diretrizes do futuro   Nacional Galápagos: montou numa tartaruga-gigante (“Era muito difícil manter o equilíbrio”), praticou o bullying com uma iguana terrestre e confessou que gostava de assado de quelônio e sopa de jovens tartarugas.

[2] Cabe deixar aqui registrado, para deleite das inimigas, que nosso primeiro contato com humanos hispanófonos foi um sonoro Buonasera! – boa noite, em italiano – que soltamos no guichê de imigração do Equador.

[3] A moeda oficial do Equador é o dólar americano; seus principais times de futebol são o Emelec, o Barcelona de Guayaquil, o Nacional e o LDU; o país foi o primeiro do mundo a declarar, em 2008, que a natureza tem direitos previstos pela Constituição.

[4] Aqui é preciso fazer uma observação sobre os nomes das ilhas que compõem o arquipélago de Galápagos, cujo nome oficial é Archipiélago de Colón. São cerca de dezoito ilhas maiores, sendo que todas possuem duas denominações, uma em espanhol e outra em inglês. Santa Cruz, a mais populosa (com 12 mil habitantes), é chamada de Indefatigable – em homenagem a um navio britânico. Este diário registra os nomes em espanhol, que são os mais populares, seguidos da designação em inglês na primeira ocorrência.

[5]  Geralmente no Brasil usa-se o termo “jabuti” para designar quelônios terrestres, ao passo que “cágados” são os quelônios de água doce e “tartarugas”, os quelônios marinhos. Neste diário, o termo “tartarugas-gigantes” foi adotado para designar esses jabutis em específico.

[6] Estimativas rigorosamente científicas da autora.

[7] A comoção se faz sentir até hoje. Em Puerto Ayora, inúmeras camisetas estão à venda nas lojinhas e há pichações nos muros: “Não mais solitário.”

[8] Provavelmente porque costuma desprezar pessoas como eu, que os confundem com focas. A principal diferença entre ambos é que os leões-marinhos têm orelhas e se deslocam melhor em terra, ou seja, conseguem escalar as coisas e, portanto, subir escadas.

[9] Toma essa, grande explorador.

[10] Não confundam o leão-marinho-de-galápagos (Zalophus wollebaeki) com o lobo-marinho-de-galápagos (Arctocephalus galapagoensis). Ainda que ambos sejam morfologicamente parecidos, o segundo é em geral menor, tem a cabeça grande, olhos protuberantes para caçar à noite, nadadeiras dianteiras largas e uma cobertura felpuda. Em inglês, os lobos-marinhos são chamados de sea lions, ao passo que os leões-marinhos são denominados Galápagos fur seals, ainda que não sejam focas. (Lembrando que focas não têm orelhas nem conseguem se deslocar bem em terra.) Ainda no campo das comparações com outros animais, em alemão as focas são chamadas de Seehund, ou cachorros-do-mar, o que faz todo o sentido.

[11] Para os que têm estômago forte, sugerimos também os vídeos Dangerous Killer Tortoise Attack (ataque a um bonequinho) e Deadly Tortoise Attack (ataque a um sapato).

[12] Melville explica que as ilhas Galápagos foram apelidadas pelos espanhóis de Encantadas por causa das correntes oceânicas que às vezes impediam os barcos de atracar no local, como se as próprias ilhas estivessem se distanciando.


EXTRAS

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Vídeo

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VANESSA BARBARA

Vanessa Barbara é jornalista e escritora, colunista do
International New York Times e do Estado de S.Paulo

 

O Estado de São Paulo – Caderno 2
22 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

Em 1883, ou seja, há mais de um século, Machado de Assis publicou uma crônica com regras de convivência aos passageiros de bondes. Para o escritor, o transporte público não podia ser deixado ao puro capricho dos usuários, sob pena de ninguém dar lugar às senhoras e ainda lhes tossir à cara, ou mesmo roçar as ventas dos vizinhos ao abrir um vultoso jornal. Tomo a liberdade aqui de parafraseá-lo e propor uma versão atualizada para uso em ônibus, microônibus e metrô.

Art. 1 – Fica vedado o pole dancing nos balaústres. Sabe-se que, nos dias mais quentes, a temperatura do metal é agradável ao contato com a pele, mas a pretensão da refrescância não é justificativa para escorar-se no pilar e monopolizar seu uso. Ademais, o balaústre nunca te deu tamanha intimidade.

Art. 2 – A cada qual segundo sua altura. Passageiros com mais de 1,65 metro devem obrigatoriamente se segurar nas traves no topo do veículo. Como aos baixinhos é negada tal possibilidade, a menos que aproveitem a jornada para praticar ginástica artística, cabe-lhes um espaço cativo no balaústre vertical, que com sorte não estará sendo lascivamente abraçado por um passageiro (ver art. 1).

Art. 3 – É proibido estacionar junto às portas. Qualquer cidadão com o mínimo de decência sabe que o supracitado perímetro é reservado aos que irão descer na próxima parada. Se esse não é o seu caso e a turba o empurrou para a região, faça o favor de descer com as massas e depois subir assim que todos os passageiros interessados já tiverem sido expelidos.

Art. 4 – Espere o povo sair para depois entrar. Eu inclusive tatuei isso no meu antebraço.

Art. 5 – Quando sentado, é de bom-tom oferecer-se para segurar bolsas e mochilas de pessoas que estão de pé – mas certifique-se de segurá-las no colo com decoro, como se fossem bombas, a fim de que não te acusem de bisbilhotice. Não é o caso de indagar: “Meu Deus! O que você tem aqui dentro, uma bola de boliche?”

Art. 6 – Dentro do coletivo, mochilas devem ser levadas à frente do corpo ou então arrastadas/chutadas pelo chão, o que é também uma forma de garantir a limpeza do veículo.

Art. 7 – Cabem duas ou três pessoas de pé no espaço livre entre o banco solitário próximo à catraca e o mural de avisos da SPTrans. Se você não pretende seguir essa regra, afaste-se do local e deixe que profissionais assumam.

Art. 8 – Homens: sentar-se com as pernas muito abertas só é uma opção se você estiver disposto a ter suas partes íntimas chutadas por feministas, e com razão. Depois não digam que não avisei.

Art. 9 – Recomenda-se vivamente que os passageiros amarrem o cabelo, cocem o nariz e tirem as blusas de frio antes de adentrar o veículo, pois lá dentro não haverá espaço para abrir os braços sem ser indiciado por lesão corporal.

Art. 10 – R$ 3,80 é roubo.

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Moradores de uma favela assistem aos fogos de artifício da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Créditos: Mario Tama / Getty Images

The New York Times
21 de agosto de 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

RIO DE JANEIRO — Pensei em começar esta coluna elogiando o povo amigável e de mente aberta do Brasil, a beleza natural da nossa paisagem e o deleite supremo que são os biscoitos Globo. Mas talvez o sarcasmo não seja a melhor resposta para aqueles que me culpam por apenas escrever coisas ruins sobre o meu país, arruinando a imagem de nossa amada terra do samba e da caipirinha.

Dizem que sou exageradamente crítica a respeito dos nossos problemas. Acham que nunca se deve “lavar a roupa suja em público”, e que seria melhor dizer apenas coisas positivas sobre o Brasil.

Depois que escrevi um artigo criticando inúmeros aspectos da preparação para a Olimpíada, fui soterrada por ultraje patriótico. No Twitter, o prefeito do Rio de Janeiro deu a entender que eu estava com inveja porque moro em São Paulo e os jogos estão sendo realizados no Rio. Um jornalista sugeriu que eu estava torcendo contra a Olimpíada e contra a cidade-sede. Um artista me mandou um e-mail dizendo que eu só estava escrevendo o que os americanos queriam ler – em outras palavras, que eu estava sendo subserviente aos propósitos escusos da mídia estrangeira. Um usuário do Twitter me chamou de “insuportável, pedante, exagerada e até maliciosamente pessimista”.

Há uma percepção por aqui de que só os estrangeiros estão criticando a Rio 2016, e de que eles estão fazendo isso porque estão torcendo contra o sucesso do nosso país. Parece que tudo se tornou uma questão de esporte: ou você está conosco ou está contra nós. Este mês, quando um artigo no The New York Times criticou a tradição culinária do Rio e desdenhou o biscoito Globo como sendo “basicamente um Funyun gigante”, os brasileiros estiveram prestes a pedir o rompimento das relações diplomáticas.

Então houve o incidente do “roubo” dos quatro atletas americanos, que tornou a atmosfera ainda mais carregada. A história se espalhou rapidamente como uma espécie de advertência sobre a criminalidade no Rio, mas se voltou contra si mesma conforme o público descobriu, aos poucos, que vários pontos da história de Ryan Lochte foram inventados. O episódio ainda precisa ser esclarecido, mas já provocou protestos indignados contra o tratamento injusto da mídia e o preconceito contra os países do Sul.

Disseram que eu “previ” que a Rio 2016 seria uma catástrofe. Logo após a cerimônia de abertura, que foi elogiada internacionalmente, sugeriram que eu devia estar preocupada com o meu prognóstico. Mas não sou uma clarividente: afirmei que a Olimpíada já era uma calamidade pública para muitos cidadãos, sobretudo os afetados pelas remoções, pela brutalidade policial e pela reestruturação antidemocrática de uma cidade desigual e segregada. Uma bela cerimônia de abertura e dezesseis dias de competições esportivas sem nenhum cataclismo não contam como um triunfo quando há duas questões que permanecem sem resposta: sucesso para quem? E a que custo?

Como forma de rejeitar as críticas, os brasileiros às vezes recorrem a um princípio chamado “complexo de vira-latas”, uma metáfora criada pelo escritor Nelson Rodrigues para designar a inferioridade com a qual nos colocamos, voluntariamente, em face do resto do mundo. “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, escreveu Rodrigues, acrescentando que não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. Sou acusada de “complexo de vira-latas” toda vez que escrevo sobre desigualdade, déficit habitacional, racismo, misoginia e brutalidade policial no Brasil.

Por outro lado, os defensores do patriotismo brasileiro ignoram o complexo de vira-latas e caem direto numa megalomania cega. Eles repudiam qualquer tipo de crítica e agem como se fossem torcedores de futebol, berrando “chupa!” a quem ousar dizer qualquer coisa que não seja um estereótipo de otimismo ou alegria.

O resultado é o seguinte: os brasileiros vaiam todos os atletas que não são brasileiros, vaiamos os jornalistas estrangeiros e vaiamos a nós mesmos, só pelo barulho. Ainda assim, muitos de nós estão apenas interessados em fazer uma boa impressão nos mesmos estrangeiros que parecemos desprezar; desejamos que o país fique bonito na foto, a despeito do custo para aqueles que moram aqui. Cada matéria positiva sobre a Olimpíada na imprensa internacional é como uma medalha de ouro.

Para mim, isso é um complexo mais sério: quando você faz de tudo para impressionar as visitas e tenta disfarçar os problemas, em vez de consertá-los.

Mesmo sendo acusada de estar em conluio com o adversário, acho que devemos falar sobre o muro construído no caminho do aeroporto internacional para cobrir a vista das favelas. Temos de exigir que todos os gastos envolvidos na preparação da Olimpíada sejam divulgados e devidamente contabilizados, algo que ainda está longe de acontecer. Não podemos esquecer as milhares de famílias removidas para dar lugar a construções olímpicas, incluindo a Vila dos Atletas, que será eventualmente convertida em um condomínio de luxo. Devemos continuar exigindo mais infraestrutura em transporte público e linhas que vão além das rotas cênicas e centrais conectando as arenas da competição.

Após a cerimônia final, quando os últimos fogos de artifício forem lançados e todos os jornalistas estrangeiros tiverem voltado para casa, um estado falido do Rio será deixado para recolher os cacos. E nem o patriotismo ou o amor aos esportes vai nos autorizar a ignorar a nossa realidade.


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês na página SR8 do The New York Times do dia 21 de agosto de 2016, com o título: I Love Brazil, Not the Olympics. Tradução da autora.

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People in a nearby favela watched fireworks exploding during the opening ceremonies of the Rio 2016 Olympic Games. Credit Mario Tama/Getty Image

The New York Times
August 21st, 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

RIO DE JANEIRO — I thought of beginning this column by praising Brazil’s friendly and open-minded people, the natural beauty of our landscape and the supreme delight that are Globo biscuits. But perhaps sarcasm isn’t the best response to those who blame me for writing only bad things about my country, ruining the image of our beloved land of samba and caipirinhas.

People tell me I’ve been overly critical about our problems. They claim you should “never wash your dirty linen in public,” and that it would be better just to say positive things about Brazil.

After I wrote a recent article criticizing many aspects of the preparation for the Olympics, I was overwhelmed by patriotic outrage. On Twitter, the mayor of Rio de Janeiro implied that I was jealous because I live in São Paulo and the Games are being held in Rio. A journalist suggested I was rooting against the Olympics and the host city. An artist sent me an email to say I was just writing what Americans wanted to read — in other words, that I was being subservient to the suspicious purposes of the foreign media. One Twitter user deemed me “intolerable, arrogant, far-fetched and maliciously pessimistic.”

There is a perception here that only foreigners are criticizing Rio 2016, and that they are doing so because they are rooting against our country’s success. It seems everything has become a matter of sports: you are either with us or against us. This month, when an article in The New York Times criticized Rio’s culinary tradition and mocked Globo biscuits as “basically an oversize Funyun,” Brazilians’ were close to demanding the rupture of diplomatic relations.

Then there was the “robbery” incident with the four American swimmers, which made the atmosphere even more charged. The story was quickly spread as a cautionary tale about crime in Rio, but turned on itself as it gradually emerged that many points in Ryan Lochte’s account had been fabricated. The episode still needs to be clarified, but it has already provoked outcries against unfair treatment in the media and prejudice against the Global South.

Some have said I’ve “predicted” that Rio 2016 would be a catastrophe. Soon after the opening ceremony, which was praised internationally, people implied I should start worrying about my prognosis. But I’m no fortuneteller: I asserted that the Olympics were already a public calamity for many citizens, especially for those affected by the evictions, by police brutality and by the anti-democratic shakedown of an unequal and segregated city. A beautiful opening ceremony and 16 days of sports competitions without any cataclysm don’t count as a triumph when there are two questions that remain unanswered: Success for whom? And at what cost?

As a way of dismissing the criticism, Brazilians sometimes resort to a principle called complexo de vira-latas, or mutt complex, a metaphor created by the writer Nelson Rodrigues to portray the inferiority in which we voluntarily place ourselves in front of the rest of the world. “The Brazilian is a Narcissus inside out who spits in his own image,” Mr. Rodrigues wrote, noting that we usually don’t find personal or historical pretexts for a high self-esteem. I’m accused of having a mutt complex every time I write about Brazil’s inequality, housing deficit, racism, misogyny and police brutality.

On the other hand, it seems Brazil’s patriotic advocates ignore the mutt complex and go straight to a blind megalomania. They repudiate any criticism, yelling, “In your face!” like angry soccer fans at those who dare to say anything that isn’t stereotypically optimistic or joyful.

The result is the following: Brazilians boo every athlete who’s not Brazilian, we boo the foreign journalists and we boo ourselves, just for the noise. Yet, many of us are interested only in making a good impression on the same foreigners we seem to despise; we want the country to look pretty on camera, despite the cost for those who live here. Every positive article about the Olympics in the international press is like a gold medal.

For me, this is a more serious complex: the one where you will do anything just to impress the visitors and try to disguise problems, instead of fixing them.

Even if I’m accused of being in league with our adversaries, I think we should talk about the wall that was built alongside the road from Rio’s international airport to cover the view of the favelas. We have to demand that all costs involved in the Olympics’ preparation are divulged and duly accounted for, which is still far from happening. We cannot forget the thousands of families evicted to make way for Olympic venues, including the Olympic Village, which will be eventually converted to high-end condominiums. We must keep asking for more transportation infrastructure, for lines that extend beyond the scenic, central routes connecting the Olympic venues.

After the final ceremonies, when the last fireworks have been launched and all the foreign journalists have returned home, a bankrupt state of Rio will be left to pick up the pieces. And neither patriotism nor the love of sports will entitle us to overlook our reality.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
15 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

– Na semana passada, no trem lotado, entrou um soldado pra falar de terrorismo – disse a motorista de ônibus para uma passageira.

A conversa foi ouvida por um amigo a menos de uma semana da Olimpíada.

– O que ele disse? – perguntou a interlocutora.

– Falou que se a gente visse alguém com aparência estranha ou alguma bolsa largada sem dono no chão, era para avisar os policiais que estão nas estações – respondeu.

A amiga falou de sua preocupação com atentados durante o evento e a motorista continuou:

– Pois é. Mas teve um cara que gritou: “Porra, meu amigo, aqui dentro a gente não tem espaço nem pra respirar, quanto mais para olhar pro chão ou ver se tem alguém estranho. Avisa pra esses terroristas botarem a bomba no ramal Santa Cruz, porque no Japeri já tá foda sem bomba”.

**

Uma das coisas mais legais do Rio são os vendedores ambulantes dos trens e ônibus, que infelizmente estão mais raros durante os Jogos. Alguns fazem pole dancing nos balaústres para ajudar a vender seus produtos, que vão de lâmpadas de boate até rádios AM/FM em formato da porquinha Peppa. Quem embarca no trem sem ter almoçado não precisa se preocupar, pois lá dentro há uma vasta oferta de paçoca, pipoca, batata, polvilho, “pele” (Baconzitos), água, cerveja e bala.

Um dos vendedores repetiu uma frase que achei tão bonita, mas tão bonita, que será talvez o título do meu próximo romance. Ele abriu caminho entre os passageiros segurando um gancho cheio de doces, enquanto anunciava:

– Cinquenta é o tijolão da bananada.

**

Homem em situação de rua para defensor público federal, a respeito da higienização promovida pela prefeitura durante a Olimpíada: “Eu me sinto como o filho deficiente que vai ter uma festa em casa e os pais correm para esconder”.

**

Na feirinha noturna, no canteiro central da avenida Atlântica, dois sujeitos conversavam sobre aparelhos de exames de hospitais. Um deles deu o seu parecer:

– A única coisa que dá pra fazer com essas máquinas é vender para o exterior. Para consertar aqui tem que levar em técnicos autorizados, e aí eles descobrem fácil que é roubado.

**

No portão do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma mulher em situação de rua pedia esmola. Era uma tarde gelada de sexta-feira, e a temperatura caía mais e mais. De repente, depois de receber a dica de algum passante, mudou o discurso. Em vez de “moço, tem um trocado?”, ela passou a perguntar:

– Moço, tem bolo de fruta?

Tomada pela expectativa, começou a se concentrar nos estudantes que saíam. E repetia, firme:

– Eu sei que tá tendo bolo de fruta aí dentro. Você sabe em que sala tá tendo bolo de fruta? Me traz aí um pedaço.

Anoiteceu, e nada de aparecer o acepipe. Eu já estava indo embora quando ouvi pela última vez:

– Gente, me dá um pedaço de bolo de fruta, pelo amor de Deus.

Os trolls da Pátria

Posted: 12th agosto 2016 by Vanessa Barbara in Crônicas, O Estado de São Paulo, Rio 2016
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O Estado de São Paulo – Especial Olimpíada
12 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

Em todas as partidas de vôlei do Brasil, a história se repete: o adversário se posiciona para o saque e ouve uma retumbante vaia. Às vezes, um torcedor grita “vai errar” e entra em êxtase caso a bola realmente fique na rede, como se berrar da arquibancada fosse um tocante mérito esportivo. “Chupa!” é outro grito comum, e muitos se congratulam pelo que me parece um espírito de porco patriótico.

Ensandecida, a torcida do time da casa é capaz de comemorar caso o atleta em questão tropece nos próprios cadarços, tenha um ataque nervoso ou porventura sofra de morte súbita. Considera válido exercer “pressão” para desequilibrar o rival. É uma forma de enxergar o papel da torcida na competição esportiva, e há quem defenda o apupo patriótico com fervor.

Eu jamais vou entender essa necessidade de diminuir a performance do outro para poder ganhar – é como se a torcida achasse aceitável fazer de tudo para atrapalhar o desempenho alheio, como se não confiasse na habilidade do próprio time ou como se vencer fosse um objetivo a ser atingido a qualquer custo. (Penso na lógica dos torcedores que dizem que o importante é ganhar, mesmo com um gol roubado.)

Peço perdão pelo kantismo ferrenho, mas toda vez que a torcida brasileira vaia o adversário – e numa Olimpíada na qual somos os anfitriões –, um dos anéis olímpicos desbota de vergonha. Vaiar o rival simplesmente pela sua presença é tropeçar no espírito esportivo e mostrar que não estamos interessados em competir de forma limpa, encarando um adversário em sua melhor forma e talvez até perdendo para ele. Queremos humilhação, “chupa gringo” e ufanismo. Queremos é rebaixar os argentinos, inclusive na hora do hino.

Esta semana, em Copacabana, durante uma partida de vôlei de praia do Brasil contra a República Tcheca, o locutor pediu pelo menos duas vezes que o público não vaiasse as adversárias, mas foi em vão. Certos torcedores, feito crianças mimadas, redobraram os apupos. Uma moça ao meu lado comentou: “Não tem jeito, o pessoal vaia mesmo. Mas é bom, porque aí eles ficam nervosos e erram”. Penso em Michael Phelps sendo recebido com tomates e Usain Bolt se protegendo de uma chuva de latas de cerveja. Para alguns, o mais importante não é presenciar um jogo bonito, mas dar um espetáculo de humilhação sonora.

“Eu jogo há dez anos e nunca vivi isso”, declarou à imprensa uma das jogadoras tchecas. “Vocês chamam isso de patriotismo? Acho que não é nada pessoal contra nós, eles só não sabem o limite entre o que é apropriado para o momento e o que não é. Querem apoiar tanto o time deles que não percebem que também somos seres humanos”, declarou.

A vaia brasileira não ocorre apenas nos esportes coletivos, mas em modalidades como natação, ginástica, esgrima e até no tênis de mesa. Segundo o Portal Uol, o sérvio Aleksandar Karakasevic fez uma reclamação formal à federação internacional da modalidade. Alegou que os apupos estavam atrapalhando sua concentração no saque, e que tênis de mesa não era futebol. A resposta de um dos dirigentes: “Não estamos jogando dentro de uma igreja”.

O hábito de vaiar o oponente não é exclusividade nossa, tendo sido registrado também na Olimpíada de Pequim, quando a imprensa local chegou a pedir que os chineses respeitassem os atletas visitantes. Mas, segundo a BBC, os Jogos do Rio estão particularmente barulhentos. Esta semana, vários órgãos internacionais como a Reuters e a CNN fizeram matérias a respeito. Para a revista Time, os brasileiros estão tentando perturbar os oponentes feito “garotos universitários vaiando um arremesso de basquete” porque estão desesperados por medalhas. Alguns jornais citam a lamentável vaia que o tenista alemão Dustin Brown levou ao cair e torcer o tornozelo durante uma partida contra um brasileiro.

Estranho comportamento para um anfitrião que, até agora, fez o que podia e o que não podia para agradar as visitas.