Duas bandeiras que não deram certo

Posted: 1st setembro 2014 by Vanessa Barbara in Sem categoria

International New York Times
28 de agosto de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil – De acordo com a CNN, não há introvertidos no Brasil. “É uma cultura animada que pode fazê-lo sair da sua concha, ajudá-lo a relaxar e ter os melhores dias da sua vida”, diz um artigo sobre turismo no Brasil, que também destaca nossas conversas barulhentas, buzinas escandalosas e “carros de som que berram propagandas pela vizinhança com a ajuda de dezesseis amplificadores”.

Como qualquer tentativa de reduzir uma cultura inteira em poucos tópicos, trata-se de um retrato preguiçoso e estereotipado do Brasil. Mas existe alguma verdade nele. Aqui, como em outras partes do mundo, os extrovertidos fazem tanto barulho que ninguém mais tem a chance de ser ouvido.

Em O poder dos quietos, a escritora americana Susan Cain afirma que a introversão “é, hoje, um traço de personalidade de segunda classe, classificada em algum lugar entre uma decepção e uma patologia”, enquanto a extroversão “tornou-se um padrão opressivo que a maioria de nós acha que deve seguir”. Os extrovertidos estabelecem suas regras e nos forçam a segui-las; dessa forma, todos os brasileiros têm de ser empolgados e sociáveis, beijando estranhos o tanto quanto possível e dançando forró como se não houvesse amanhã.

Isso é especialmente contraditório quando se aplica à minha carreira. Se você, como eu, escolheu ser um escritor, isso provavelmente quer dizer que gosta de ficar sozinho e se expressar por escrito. É claro que não implica necessariamente que você é um ermitão, mas significa, sem dúvida, que a socialização deveria ser opcional. Não uma parte indissociável da sua carreira.

Ano após ano, escuto exatamente o contrário. Então me deixe ser clara a esse respeito: dar palestras, participar de eventos literários e promover livros em turnês não é o meu trabalho. Meu trabalho é sentar e escrever. Todo o resto pode ser benéfico para a minha “imagem pública” ou a venda dos meus livros, mas não é obrigatório. (Pergunte a J.D. Salinger, Harper Lee, Thomas Pynchon, Marcel Proust e Gustave Flaubert.)

E ainda assim, a internet está repleta de dicas de networking, alertando que “talento literário e ideias originais não são o suficiente para garantir o sucesso nessa área. Você também precisa de habilidades de marketing matadoras”. Outros falam das “demandas promocionais de uma carreira literária bem-sucedida”.

Mesmo Susan Cain, a mais ferrenha advogada da causa introvertida, teve de convencer seu editor de que era suficientemente pseudoextrovertida para promover O poder dos quietos. Ela se sujeitou a um ano de aulas de oratória antes de sair em turnê para promover o livro e de apresentar uma palestra no TED. Na obra, ela menciona um sentimento bastante comum entre os introvertidos: no caminho para apresentar um seminário, ela se viu “rezando por um desastre – uma enchente ou talvez um pequeno terremoto –, qualquer coisa que me impeça de passar por aquilo”.

Sei do que ela está falando. Às vezes digo a mim mesma que posso morrer antes do meu próximo compromisso de falar em público, e isso é um pensamento reconfortante.

Eu sempre fui tímida. Nunca gostei de festas barulhentas com crianças demais. Na hora do recreio, preferia ler e escutar música. Desde a pré-escola, me disseram que isso era um problema e que eu precisava mudar. No ensino médio, uma orientadora educacional me disse que eu nunca teria sucesso na vida se não olhasse as pessoas nos olhos. (Ela era claramente um alien mutante que pretendia se alimentar da minha alma, e eu não ia cair nessa.) Uma vez estava jogando vôlei e ela me tirou da quadra para me dar uma advertência por escrito, dizendo que, se a minha conduta antissocial continuasse, eu seria suspensa por dois dias. Aparentemente, participar de esportes coletivos não contava.

Tive a minha vingança ao escrever uma graphic novel inspirada nela, cujo enredo envolve inocentes máquinas de Goldberg.

É provável que eu sempre tenha sido assim. De acordo com uma pesquisa efetuada por Jeremy Kagan, então um psicólogo de Harvard, o temperamento humano é detectável muito cedo e possivelmente herdado. Dessa forma, a introversão é melhor descrita como uma espécie de alta sensibilidade. Segundo a pesquisa, bebês que chutavam e choravam diante de estímulos externos – ou que, em outras palavras, eram altamente sensíveis a eles – tinham mais chances de se tornar adultos introvertidos. Os bebês menos reativos, que precisavam de mais estímulos para se interessar e se envolver, tinham inclinação a se tornar extrovertidos. É a “longa sombra do temperamento”, como Kagan intitulou seu livro de 2004, escrito em parceria com Nancy Snidman.

A introversão não é uma doença nem uma falha de caráter que precisa ser curada ou disfarçada. Apesar de ainda não olhar as pessoas nos olhos, consegui viver e trabalhar como bem entendi. Apenas presumia que as demandas sociais para interagir e socializar a qualquer custo eram inconvenientes que eu devia encarar como fatos da vida. 

Até que, no mês passado, após aceitar fazer palestras na Feira Literária de Gotemburgo e me ver desejando ardentemente quebrar uma perna ou romper uma ou duas artérias cerebrais, percebi uma coisa: eu nunca diria a um extrovertido o que ele deve fazer com sua vida. Nunca diria: “Você precisa socializar menos. Vá para casa e fique lá por alguns dias, leia uns livros e passe algum tempo de qualidade consigo mesmo. Apenas pare de interagir o tempo inteiro”.

Sei que isso seria absurdo. Então por que os extrovertidos se sentem tão livres para impor seus valores aos outros?


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 28 de agosto de 2014. Tradução da autora.

International New York Times
August 28th, 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — According to CNN, there are no introverts in Brazil. “It’s a vivacious culture that can bring you out of your shell, help you unwind and have the best time of your life,” reads an article about visiting Brazil, which also highlights our country’s loud conversations, blaring car horns and “sound trucks blasting advertisements through the neighborhood from 16 speakers.”

This is, of course, like any attempt to reduce a whole culture to a few lines, a stereotypical and lazy portrait of us. But there’s some truth in it. Here, as in other parts of the world, extroverts make so much noise that nobody else has the chance to be heard.

In “Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking,” the American writer Susan Cain says that introversion “is now a second-class personality trait, somewhere between a disappointment and a pathology,” while extroversion is “turned into an oppressive standard to which most of us feel we must conform.” Extroverts have set up their rules and asked us to follow; therefore all Brazilians must be vivacious and friendly, kissing strangers as much as possible and dancing forró like there’s no tomorrow.

This is especially contradictory when applied to my career. If you’ve chosen to be a writer, as I have, it probably means you enjoy being alone and expressing yourself in writing. Of course it doesn’t necessarily imply that you are a hermit, but it means, for sure, that socializing should be optional. Not an integral part of your career.

But I’m told exactly the opposite, year after year. So let’s be clear about this: Giving lectures, engaging in literary events and going on book tours are not my job. My job is sitting on a chair and writing. All the rest may be beneficial to my “public image” or my books’ sales, but it’s not obligatory. (Ask J.D. Salinger, Harper Lee, Thomas Pynchon, Marcel Proust or Gustave Flaubert.)

And yet the Internet is full of networking tips, warning that “good writing skills and original ideas aren’t enough to make you a success in this business. You need kick-ass marketing skills, too.” Others talk about the “promotional demands of a successful writing career.”

Even Ms. Cain, the ultimate advocate for introverts, had to convince her publisher that she was pseudo-extrovert enough to promote “Quiet.” She endured a year of public-speaking classes before going on her book tour and giving a lecture at a TED conference. In her book, she mentions a very common feeling among introverts: While driving to present a seminar, she found herself “praying for calamity — a flood or a small earthquake, maybe — anything so I don’t have to go through with this.”

I know what she means. I sometimes tell myself that I may die before my next public speaking appointment, and this is a soothing thought.

I’ve always been shy. I never enjoyed attending loud parties with too many children. During class breaks, I preferred reading and listening to music. Since kindergarten, I’ve been told that this was a problem and that I needed to change. In high school, I was told by a counselor that I would never succeed in life unless I looked people in the eye. (She was clearly a mutant alien who wanted to feed on my soul, and I wasn’t falling for it.) Once I was playing volleyball and she took me aside just to give me a harsh written warning, saying that if my “antisocial” behavior continued, I’d be suspended for two days. I suppose being able to play team sports didn’t count.

I got my revenge when I wrote a graphic novel, inspired by her, whose plot employed some innocent Rube Goldberg machines.

It’s likely that I’ve always been this way. According to research by Jerome Kagan, then a Harvard psychologist, people’s temperament is detectable very early in life and is likely to be partly inherited. In this sense, introversion is best understood as a kind of hypersensitivity. Babies who kicked and screamed more in the face of outside stimulation — those who, in other words, were highly sensitive to it — were likely to grow up to be introverts, he found. Less reactive babies, who needed more stimulation to get them interested and involved, had a bias toward becoming extroverts. This is “the long shadow of temperament,” as he titled his 2004 book, written with Nancy Snidman.

Introversion is not an illness, a social flaw that demands to be cured or concealed. Despite still not looking people in the eye, I’ve managed to live and work as I please. I’ve just assumed that society’s demands for mingling and socializing at all costs were annoyances that I must regard as facts of life.

But last month, after scheduling some lectures for the Goteborg Book Fair in Sweden and finding myself strongly wishing to break a leg or rupture a cerebral artery or two, I had a realization: I would never tell an extrovert what he should do with his life. I would never say: “You need to socialize less. Go home and stay there for a few days, read some books and spend some quality time with yourself. Just stop interacting all the time.”

I know this would be absurd. So why do extroverts feel so free to impose their values on others?


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

Alerta de saúde pública

Posted: 25th agosto 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S.Paulo – Caderno 2
25 de agosto de 2014

por Vanessa Barbara

Há vinte anos, sofro de uma afecção curiosa, uma moléstia pouco estudada que se caracteriza por uma intensa coceira nas mãos ao avistar um objeto redondo (Em casos mais graves, pode se manifestar diante de objetos ovais, cilíndricos e até mesmo quadrados, circunstância na qual se recomenda a internação imediata).

Apesar de ausente dos manuais médicos, a doença faz, todos os dias, centenas de vítimas: são pobres infelizes que vagam com o olhar perdido em torno de quadras de vôlei, ávidos por uma oportunidade de entrar em campo e participar de duas ou três jogadas, mesmo que à custa de roubar a bola alheia e perder o ponto.

Não importam a falta de habilidade, a baixa estatura ou a comorbidade com outras patologias; o vício pelo esporte arrasta consigo hordas de inocentes em busca de alívio temporário, ainda que estes acabem invariavelmente em clínicas de ortopedia, onde também buscam a alegria do tratamento com uma bola medicinal.

De fato, é possível identificar qual a etiologia e a natureza da afecção ortopédica do sujeito apenas olhando para seu estilo de jogo: se ele salta para atacar e se esborracha no chão, pode apostar que tem um problema nos joelhos. Se ele salta para bloquear e, quando cai, leva a mão às costas, é hérnia lombar. Se ele não tem força para atacar e começa subitamente a usar o braço esquerdo, se torcendo inteiro para golpear a bola, é bursite. Levantadores de longa data podem agir de forma a acusar uma retificação cervical grave.

Nada disso é motivo para abandonar o vício; pelo contrário, apenas serve para alimentá-lo. É por isso que os Sescs estão lotados de gente no banco do “próximo”, e por isso há quem acorde cedo e atravesse a cidade para bater uma bolinha inocente que pode se estender até a hora do almoço. Lembro nitidamente de partidas com gente semimorta se arrastando tarde afora, até bem depois de escurecer; lembro de uma vez em que acabou a luz na quadra e nós tentamos continuar a jogar. É com certa vergonha que me recordo de uma proposta coletiva feita ao porteiro do Macabi, que, exausto, implorou que fôssemos embora – se ele nos deixasse jogar só mais um pouquinho ganharia uma carona pra casa, veja só a cara desses infelizes, tenha piedade dessas almas adictas.

O anúncio de “último saque” é o cigarro derradeiro de um condenado à morte, e é por isso que nos arremessamos ao chão e defendemos o ponto final como se a nossa vida dependesse disso. Aliás, fazemos isso com todos os pontos, mesmo quando não está valendo nada e o nosso adversário é um trio de crianças de dez anos. “Café com leite” não existe. E o detalhe de estarmos jogando há vinte anos sem evoluir é praticamente irrelevante.

Consta que, um dia, existiram clínicas de tratamento para o vício, mas alguém teve a ideia de esticar um barbante entre dois postes e a coisa facilmente desandou. 

A vida. Cada vez mais impraticável.

Posted: 21st agosto 2014 by Vanessa Barbara in Sem categoria

O Estado de S.Paulo – Caderno 2
18 de agosto de 2014

por Vanessa Barbara

Sofro de depressão há dez anos. É como estar deitado num colchão d’água e ir afundando, afundando, até não poder mais enxergar o próprio nariz. Há fases boas e fases piores, mas na maior parte do tempo a sensação é a de viver em cima desse colchão: um bocado mais difícil do que caminhar em terra firme, mas possível. E você acaba adquirindo uma técnica própria, um estilo. “É como tentar manter o equilíbrio enquanto dança com um bode”, definiu o jornalista Andrew Solomon, autor de O demônio do meio-dia, um clássico sobre o tema.

Quem tem depressão vive tentando esconder um segredo, como se os outros é que fossem sensíveis demais para absorver a notícia; é difícil falar sobre isso e mais difícil ainda assumir a doença, o que apenas faz reforçá-la.

Em seu recente epílogo à edição brasileira, Solomon afirma que o preconceito em torno da doença mental é uma das batalhas dos direitos civis da nossa geração, sendo associada a fraqueza moral, preguiça e frescura. Também o pesquisador Jonathan Rottenberg, em The Depths, afirma: “As pessoas ainda se sentem inclinadas a sussurrar quando se fala de depressão”.

Solomon confessa que, hoje em dia, acha fácil discorrer sobre o assunto – desde que seja com o verbo no passado. Quando está bem, é capaz de se expor e entrar em detalhes, mas, no meio de uma crise, tudo se torna subitamente vergonhoso. “Percebo o absurdo dessa reação. Este livro foi publicado em 25 idiomas; seria difícil ser ainda mais público a respeito da depressão do que fui. E, contudo, quando tenho de cancelar um plano por causa da minha saúde mental, invento um rosário de doenças somáticas, desculpando-me com casos míticos de gripe ou tornozelos torcidos fictícios.”

Seis semanas mais tarde, ele pode admitir para as pessoas a quem mentiu que estava tendo uma crise, mas, naquele momento em específico, parece impossível ser honesto. “Em parte, isso se deve ao fato implícito de que você tem que estar num estado de espírito vigoroso para se livrar do estigma da depressão.”

Além de injusto, é algo bem ilógico. E pode levar a um ciclo de disparates bastante conhecido pelos deprimidos: se você diz que não está bem e não vai poder fazer determinada coisa, podem chamá-lo de preguiçoso e falar que você só arruma desculpas, então você passa realmente a arrumar desculpas para não ferir a “sensibilidade” dos outros, como se uma otite ou uma pedra no rim fossem mais reais do que uma crise brava de depressão.

É mesmo necessário estar num estado de espírito vigoroso para enfrentar a falta de compreensão alheia.

P.s.: A propósito, recomendo “gripe” para os meninos e “cólica” para as meninas, pois são desculpas com excelente aceitação social. 

Valei-me, Zé da Cândida

Posted: 13th agosto 2014 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de S. Paulo – Caderno 2
11 de agosto de 2014

por Vanessa Barbara

Encarregaram-me da missão de apresentar este novo espaço ao leitor, um terreno onde semanalmente serão cultivadas as mais viçosas crônicas para a apreciação do atilado visitante, seja este um regrado assinante do jornal ou uma alma curiosa em busca de distração; ocorre que sistematicamente me vejo suplantada em qualidade, estilo e retórica por uma figura bastante conhecida nas áreas residenciais da Zona Norte e em outros subúrbios: o Zé da Cândida.

Trata-se de um senhor que dirige pelas ruas um carro de produtos de limpeza com um alto-falante acoplado, através do qual uma gravação anuncia garbosamente “mercadorias da mais alta qualidade pelos menores preços. Aqui tem de tudo: tem cândida, Ajax, cloro, tem desinfetante com oito fragrâncias… Aqui tem tudo a preços de arrasar”, ele repete.

Gostaria de poder dizer, tal qual o Zé da Cândida, que “ninguém pode fazer concorrência à qualidade e aos preços que estamos oferecendo em nossos produtos”.

Mas estaria mentindo.

A verdade é que a minha Kombi de mercadorias pretende fornecer ao leitor um sortimento generoso de advérbios de modo, hipérboles, epístrofes e anacolutos, enquanto a dele “tem sabão dínamo, tem amaciante, tem removedor, sabão de coco, tem limpa-pedras, sabão em pó, álcool perfumado, pasta de brilho também; aqui tem xampu para carros, tem inseticida: acabe com as formigas de sua casa, aqui nós temos de tudo”, exclama. “Estamos oferecendo vassouras de piaçava, vassouras de pelo, vassouras caipiras, rodos, panos de chão, flanelas, e muito mais”.

Donde é possível afirmar que já saio em desvantagem com relação ao Zé da Cândida, que além de tudo é modesto: outro dia me informou que o texto da propaganda não é realmente dele. A fita cassete com a gravação original tem quase dez anos e foi concebida por um locutor anônimo, que gozava de grande popularidade entre os vendedores itinerantes da capital e do interior, mas faleceu há alguns anos.

Sua obra, porém, continua reverberando pelas ruas – coisa que poucos de nós, cronistas, podemos garantir com relação aos nossos textos.

Imortal, sua voz firme segue ecoando pelos quarteirões: “À senhora que é dona de casa, responsável pela economia do lar: não é sempre que passa na sua rua e para pertinho de sua casa um carro lotadinho de produtos de limpeza da mais alta qualidade. Mas venha logo! Nós não podemos ficar muito tempo, outras freguesias estão nos esperando.”

E termina, tal qual um Demóstenes dos desinfetantes: “Mesmo que a senhora não precise de nada, compre para guardar.”

Rogo, portanto, ao senhor ou à senhora que é responsável pela ilustração do lar: dê uma olhada nestas crônicas que passarão na sua rua, pertinho de sua casa. Mesmo que não precise de nada, leia para guardar.

Aqui teremos de tudo.

Agosto de 2014

Aí você está numa festa em Paraty e conhece um amigo de um amigo que foi a Zagreb, na Croácia, e visitou o Museum of Broken Relationships (Museu dos Relacionamentos Malogrados). 

E ele te informa casualmente que o seu buquê de casamento entrou para o acervo do museu, junto com um texto bastante informativo das patéticas circunstâncias pelas quais o objeto virou uma peça digna de apreciação pública.

E você fica impossível de feliz. E quer compartilhar essa descoberta com todo mundo que você conhece e também com os desconhecidos, motivo pelo qual este post é mais público do que as fotos do bebê George.

Mais informações sobre o museu: http://www.hortifruti.org/2012/06/24/o-museu-amor-malogrado

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Um buquê de casamento feito de papel
24 de maio de 2006 – 23 de maio de 2011
São Paulo, Brasil

Sou escritora e me casei com meu editor favorito. Este buquê de tiras de papel foi confeccionado por uma das duas testemunhas (e padrinhos) do nosso casamento, que também é editor.

O relacionamento terminou na véspera do nosso 5o. aniversário, quando descobri que ele estava me traindo e descrevendo em detalhes o ocorrido para um grupo de outros escritores, que o apoiavam.

Um deles era o meu melhor amigo Emilio, que escreveu um romance comigo.

Acho que é isso o que significa machucar-se com um corte de papel.

 

 

As inacessíveis moradias brasileiras (tradução)

Posted: 1st agosto 2014 by Vanessa Barbara in Traduções

International New York Times
30 de julho de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil – Moro no Mandaqui, um bairro localizado a onze quilômetros do centro. A estação de metrô mais próxima fica a quatro quilômetros de distância, ou cerca de 30 minutos de ônibus, já que estes são lentos e escassos. Não é o melhor lugar para se viver sem ter um carro. Ainda assim, o preço médio por metro quadrado recentemente aumentou para R$ 6.085. Imóveis em áreas mais nobres da cidade podem custar até R$ 11.179.

Nos últimos seis anos, o valor dos imóveis em São Paulo aumentou 208%, e o preço do aluguel cresceu em 97,5% na área metropolitana. De acordo com o site Numbeo, que compila dados fornecidos pelos usuários, um apartamento de 90 metros quadrados por aqui custa o equivalente a dezesseis anos de uma renda familiar padrão. A título de comparação, esse índice preço-renda é de oito em Nova York, 6,9 em Berlim e apenas três em Chicago. No Brasil, uma família que ganha um salário mínimo (R$ 724) consegue apenas bancar o aluguel de um barraco de três cômodos na Favela Paraisópolis (R$ 620), mas não sobra praticamente nada para viver.

Hoje o Brasil sofre de um déficit habitacional extremo. De acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, uma em cada três famílias vive em residências inadequadas. O país tem um déficit de 5,8 milhões de habitações, 90% concentrado nas classes mais baixas (famílias que ganham menos de três salários mínimos). Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro, 442.710 famílias em São Paulo gastam 30% ou mais de seus salários com o aluguel. Essas famílias correm o risco de se juntar a 44.699 outras que vivem em habitações precárias e 83.011 nas quais pelo menos três membros da família se espremem no mesmo cômodo – uma solução de adensamento excessivo que tenta suprir uma situação sem saída.

Cada vez mais, os pobres são expulsos da cidade e forçados a viver em subúrbios distantes. Cada vez mais esses subúrbios também os expulsam. Em Capão Redondo, a 23 quilômetros do centro, o preço médio do imóvel aumentou 312% nos últimos cinco anos.

Não surpreende que sejamos o país das favelas, dos cortiços urbanos erguidos por cidadãos desesperados utilizando materiais de baixa qualidade como papelão e latão. Elas surgem em áreas sem infraestrutura ou saneamento básico, às vezes vulneráveis a deslizamentos, enchentes e incêndios.

No início de 2009, o governo reconheceu o problema e lançou um programa chamado Minha Casa, Minha Vida. A parceria público-privada almejava reduzir esse déficit facilitando o crédito imobiliário e financiando construções.

Mas, desde o início, o projeto favoreceu famílias que ganhavam mais do que três salários mínimos. Em 2012, após a primeira e a segunda fases do programa, apenas 40 a 45% de todos os contratos foram efetivamente destinados às famílias mais pobres. O projeto parecia ter mais o objetivo de impulsionar a economia do que de ajudar os mais desfavorecidos. Muitos críticos também reclamaram da qualidade das casas de 32 metros quadrados destinadas aos mais pobres, construídas em áreas remotas sem infraestrutura adequada.

Embora o governo tenha prometido corrigir essas deficiências no terceiro estágio do programa, qualquer tipo de reforma irá fatalmente tropeçar na influência do setor imobiliário e empreiteiro. De acordo com o site de jornalismo investigativo Publica, de 2002 a 2012 as quatro maiores empreiteiras do Brasil doaram R$ 479 milhões para campanhas políticas de todos os partidos. Nas últimas eleições municipais em São Paulo, segundo a ONG Repórter Brasil, empresas ligadas ao setor de construção civil e do ramo imobiliário foram responsáveis por 57% de todas as doações de campanha. Essas empresas têm grande interesse em sustentar o velho modelo de urbanização marcado pela segregação e pela desigualdade.

Uma das organizações mais fortes que tenta lidar com esse assunto é o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que alia táticas de negociação ao confronto direto com o governo em questões habitacionais. O grupo conta com 50 mil famílias no país inteiro e 20 mil só em São Paulo, onde, numa quinta-feira chuvosa pouco antes da Copa do Mundo, conseguiu reunir 15 mil pessoas num protesto contra as remoções e os gastos excessivos do evento da FIFA.

A organização defende a ocupação de áreas abandonadas ou mantidas vazias pelas grandes empresas (algumas delas falidas); a resistência às remoções forçadas; e a expropriação de habitações por “necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social”, conforme previsto na nossa Constituição. Seus líderes também citam a Constituição quando dizem que “a propriedade atenderá a sua função social”, e que a ordem econômica “tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”.

Por muitos anos, o MTST enfrentou a oposição feroz do público e da mídia. Mas, nos últimos meses, angariou vitórias importantes. Um mês antes da Copa, mais de 2 mil famílias ocuparam uma área abandonada havia anos, próxima ao estádio Itaquera, somando-se a outras oito ocupações em São Paulo. (A maior delas, Nova Palestina, tem aproximadamente 8 mil famílias acampadas desde novembro.) Em questão de semanas, os ativistas de Itaquera conseguiram convencer o governo a construir habitações populares no local, como extensão do programa Minha Casa, Minha Vida. 

O MTST também conquistou mudanças no próprio programa: persuadiu o governo a destinar uma parcela maior de contratos de financiamento habitacional a organizações sociais, em vez de mantê-los quase que inteiramente nas mãos das construtoras, garantindo maior autonomia e, talvez, casas melhores em regiões mais centrais. O MTST também entrou no debate sobre o recém-aprovado Plano Diretor de São Paulo, que irá implementar mais mecanismos de controle da especulação imobiliária, previstos originalmente no Estatuto das Cidades, e irá duplicar o número de Zonas Especiais de Interesse Social na cidade.

Para o grupo, ter uma moradia adequada é um direito humano que não deveria ser ditado unicamente pela lógica de mercado. O argumento é convincente, sobretudo quando se analisam os números: há mais de 6 milhões de habitações vazias no Brasil – mais do que o suficiente para sanar o nosso déficit.


Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 30 de julho de 2014. Tradução da autora.

Brazil’s Unaffordable Homes

Posted: 30th julho 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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July 30, 2014
International New York Times

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — I live in Mandaqui, a district six miles from downtown. The nearest subway station is roughly two miles away, or about 30 minutes by bus, since they’re slow and scarce. It’s not the best place to live if you don’t have a car. Even so, the average price per square foot here recently soared to $250. Real estate in prime areas of the city can now cost as much as $465 per square foot.

In the last six years, housing prices in São Paulo have increased by 208 percent, and the cost of rent has increased 97.5 percent in the metro area. According to the website Numbeo, which compiles user-generated data, a 970-square-foot apartment here costs the equivalent of 16 years of an average family’s total income. By comparison, this cost-to-income ratio is eight in New York, 6.9 in Berlin and only three in Chicago. Someone making the minimum wage in Brazil ($325 a month) can afford to rent only a three-room shack in the crime-ridden Favela Paraisópolis ($280), leaving him practically nothing left over to live on.

Brazil is experiencing a severe housing shortage. According to the Inter-American Development Bank, one in three families lives in inadequate housing. The country has an estimated shortage of 5.8 million units, of which 90 percent is concentrated on lower-income families. According to research by the João Pinheiro Foundation, 442,710 households in São Paulo spend 30 percent or more of their income on rent. These families are in danger of joining 44,699 other households living in precarious conditions and 83,011 in which more than three family members are squeezed into the same bedroom — an overcrowding solution to a dead-end situation.

More and more, the poor are pushed away from the city and forced to live in the far suburbs. And more and more, those suburbs also expel them. In Capão Redondo, 14 miles from downtown, the average housing price increased 312 percent in the last five years.

It’s no wonder we’re the country of favelas, urban slums built by desperate people using poor materials such as cardboard and tin. They pop up in areas without basic infrastructure or sanitation, and are sometimes vulnerable to landslides, floods and fires.

In early 2009, the government took note and began a program called Minha Casa, Minha Vida (My House, My Life). The public-private partnership aimed to reduce this deficit by facilitating credit and financing construction.

But from the beginning, it favored families that earned three times the minimum wage or more. As of 2012, after the first and second stages of the program, only 40 to 45 percent of all contracts were assigned to the poorest families. The program appeared to be more about improving the economy than helping the poor. Many critics also complained about the quality of the 344-square-foot houses destined for the poorest, which were built in remote areas without adequate infrastructure.

Although the government has promised to correct those deficiencies in the third stage of the program, any reforms will most likely be hobbled by the influence of the housing industry. According to the investigative news website Publica, from 2002 to 2012 Brazil’s four biggest construction companies donated $215 million to the political campaigns of all major parties. In the last municipal elections in São Paulo, construction and real estate companies were responsible for 57 percent of donations. These companies have deep interests in sustaining the old urbanization model marked by segregation and inequality.

One of the strongest groups fighting these issues is Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto — the Homeless Workers Movement — which combines negotiation with the government and direct confrontation on housing issues. The group has 50,000 families enrolled as members nationwide and 20,000 in São Paulo, where, on a rainy Thursday just before the World Cup, it led 15,000 people in a protest against evictions and overspending on the event.

The organization also advocates the occupation of abandoned buildings or areas that are kept vacant by real estate companies (some of them bankrupt); the resistance of forced evictions; and the government expropriation of housing for, as written in our Constitution, “public necessity.” Its leaders also quote our Constitution when saying that “property shall observe its social function,” and that the economic order is “intended to ensure everyone a life with dignity, in accordance with the dictates of social justice.”

For many years, the Homeless Workers Movement has endured fierce opposition from the public and the news media. But in the last few months, it has amassed some important victories. A month before the World Cup, more than 2,000 families squatted in an area that had been abandoned for years, near the Itaquera stadium, one of nine occupations in São Paulo. (The biggest of them, Nova Palestina, has had roughly 8,000 families camped out since November.) In a matter of weeks, the protesters near Itaquera got the government to agree to build low-income housing on the site as an extension of the My House, My Life program.

The movement has also effected some changes in the program itself: It has persuaded the government to assign a greater share of the contracts to nonprofit organizations instead of private contractors, which could mean more autonomy and better houses in better neighborhoods. It has also stepped into the debate around the recently approved São Paulo City Plan, which will increase the regulation of land speculation and duplicate the number of Special Zones of Social Interest — areas devoted to low-income housing — in the city.

The group claims that adequate housing is a human right and shouldn’t be ruled by market logic alone. That argument is convincing, especially when you look at the numbers: There are more than six million vacant housing units in Brazil — more than enough to cover our shortage.


A version of this op-ed appears in print on July 31, 2014, in The International New York Times.