21BARBARA-master768

Moradores de uma favela assistem aos fogos de artifício da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Créditos: Mario Tama / Getty Images

The New York Times
21 de agosto de 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

RIO DE JANEIRO — Pensei em começar esta coluna elogiando o povo amigável e de mente aberta do Brasil, a beleza natural da nossa paisagem e o deleite supremo que são os biscoitos Globo. Mas talvez o sarcasmo não seja a melhor resposta para aqueles que me culpam por apenas escrever coisas ruins sobre o meu país, arruinando a imagem de nossa amada terra do samba e da caipirinha.

Dizem que sou exageradamente crítica a respeito dos nossos problemas. Acham que nunca se deve “lavar a roupa suja em público”, e que seria melhor dizer apenas coisas positivas sobre o Brasil.

Depois que escrevi um artigo criticando inúmeros aspectos da preparação para a Olimpíada, fui soterrada por ultraje patriótico. No Twitter, o prefeito do Rio de Janeiro deu a entender que eu estava com inveja porque moro em São Paulo e os jogos estão sendo realizados no Rio. Um jornalista sugeriu que eu estava torcendo contra a Olimpíada e contra a cidade-sede. Um artista me mandou um e-mail dizendo que eu só estava escrevendo o que os americanos queriam ler – em outras palavras, que eu estava sendo subserviente aos propósitos escusos da mídia estrangeira. Um usuário do Twitter me chamou de “insuportável, pedante, exagerada e até maliciosamente pessimista”.

Há uma percepção por aqui de que só os estrangeiros estão criticando a Rio 2016, e de que eles estão fazendo isso porque estão torcendo contra o sucesso do nosso país. Parece que tudo se tornou uma questão de esporte: ou você está conosco ou está contra nós. Este mês, quando um artigo no The New York Times criticou a tradição culinária do Rio e desdenhou o biscoito Globo como sendo “basicamente um Funyun gigante”, os brasileiros estiveram prestes a pedir o rompimento das relações diplomáticas.

Então houve o incidente do “roubo” dos quatro atletas americanos, que tornou a atmosfera ainda mais carregada. A história se espalhou rapidamente como uma espécie de advertência sobre a criminalidade no Rio, mas se voltou contra si mesma conforme o público descobriu, aos poucos, que vários pontos da história de Ryan Lochte foram inventados. O episódio ainda precisa ser esclarecido, mas já provocou protestos indignados contra o tratamento injusto da mídia e o preconceito contra os países do Sul.

Disseram que eu “previ” que a Rio 2016 seria uma catástrofe. Logo após a cerimônia de abertura, que foi elogiada internacionalmente, sugeriram que eu devia estar preocupada com o meu prognóstico. Mas não sou uma clarividente: afirmei que a Olimpíada já era uma calamidade pública para muitos cidadãos, sobretudo os afetados pelas remoções, pela brutalidade policial e pela reestruturação antidemocrática de uma cidade desigual e segregada. Uma bela cerimônia de abertura e dezesseis dias de competições esportivas sem nenhum cataclismo não contam como um triunfo quando há duas questões que permanecem sem resposta: sucesso para quem? E a que custo?

Como forma de rejeitar as críticas, os brasileiros às vezes recorrem a um princípio chamado “complexo de vira-latas”, uma metáfora criada pelo escritor Nelson Rodrigues para designar a inferioridade com a qual nos colocamos, voluntariamente, em face do resto do mundo. “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, escreveu Rodrigues, acrescentando que não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. Sou acusada de “complexo de vira-latas” toda vez que escrevo sobre desigualdade, déficit habitacional, racismo, misoginia e brutalidade policial no Brasil.

Por outro lado, os defensores do patriotismo brasileiro ignoram o complexo de vira-latas e caem direto numa megalomania cega. Eles repudiam qualquer tipo de crítica e agem como se fossem torcedores de futebol, berrando “chupa!” a quem ousar dizer qualquer coisa que não seja um estereótipo de otimismo ou alegria.

O resultado é o seguinte: os brasileiros vaiam todos os atletas que não são brasileiros, vaiamos os jornalistas estrangeiros e vaiamos a nós mesmos, só pelo barulho. Ainda assim, muitos de nós estão apenas interessados em fazer uma boa impressão nos mesmos estrangeiros que parecemos desprezar; desejamos que o país fique bonito na foto, a despeito do custo para aqueles que moram aqui. Cada matéria positiva sobre a Olimpíada na imprensa internacional é como uma medalha de ouro.

Para mim, isso é um complexo mais sério: quando você faz de tudo para impressionar as visitas e tenta disfarçar os problemas, em vez de consertá-los.

Mesmo sendo acusada de estar em conluio com o adversário, acho que devemos falar sobre o muro construído no caminho do aeroporto internacional para cobrir a vista das favelas. Temos de exigir que todos os gastos envolvidos na preparação da Olimpíada sejam divulgados e devidamente contabilizados, algo que ainda está longe de acontecer. Não podemos esquecer as milhares de famílias removidas para dar lugar a construções olímpicas, incluindo a Vila dos Atletas, que será eventualmente convertida em um condomínio de luxo. Devemos continuar exigindo mais infraestrutura em transporte público e linhas que vão além das rotas cênicas e centrais conectando as arenas da competição.

Após a cerimônia final, quando os últimos fogos de artifício forem lançados e todos os jornalistas estrangeiros tiverem voltado para casa, um estado falido do Rio será deixado para recolher os cacos. E nem o patriotismo ou o amor aos esportes vai nos autorizar a ignorar a nossa realidade.


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês na página SR8 do The New York Times do dia 21 de agosto de 2016, com o título: I Love Brazil, Not the Olympics. Tradução da autora.

21BARBARA-master768

People in a nearby favela watched fireworks exploding during the opening ceremonies of the Rio 2016 Olympic Games. Credit Mario Tama/Getty Image

The New York Times
August 21st, 2016

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

RIO DE JANEIRO — I thought of beginning this column by praising Brazil’s friendly and open-minded people, the natural beauty of our landscape and the supreme delight that are Globo biscuits. But perhaps sarcasm isn’t the best response to those who blame me for writing only bad things about my country, ruining the image of our beloved land of samba and caipirinhas.

People tell me I’ve been overly critical about our problems. They claim you should “never wash your dirty linen in public,” and that it would be better just to say positive things about Brazil.

After I wrote a recent article criticizing many aspects of the preparation for the Olympics, I was overwhelmed by patriotic outrage. On Twitter, the mayor of Rio de Janeiro implied that I was jealous because I live in São Paulo and the Games are being held in Rio. A journalist suggested I was rooting against the Olympics and the host city. An artist sent me an email to say I was just writing what Americans wanted to read — in other words, that I was being subservient to the suspicious purposes of the foreign media. One Twitter user deemed me “intolerable, arrogant, far-fetched and maliciously pessimistic.”

There is a perception here that only foreigners are criticizing Rio 2016, and that they are doing so because they are rooting against our country’s success. It seems everything has become a matter of sports: you are either with us or against us. This month, when an article in The New York Times criticized Rio’s culinary tradition and mocked Globo biscuits as “basically an oversize Funyun,” Brazilians’ were close to demanding the rupture of diplomatic relations.

Then there was the “robbery” incident with the four American swimmers, which made the atmosphere even more charged. The story was quickly spread as a cautionary tale about crime in Rio, but turned on itself as it gradually emerged that many points in Ryan Lochte’s account had been fabricated. The episode still needs to be clarified, but it has already provoked outcries against unfair treatment in the media and prejudice against the Global South.

Some have said I’ve “predicted” that Rio 2016 would be a catastrophe. Soon after the opening ceremony, which was praised internationally, people implied I should start worrying about my prognosis. But I’m no fortuneteller: I asserted that the Olympics were already a public calamity for many citizens, especially for those affected by the evictions, by police brutality and by the anti-democratic shakedown of an unequal and segregated city. A beautiful opening ceremony and 16 days of sports competitions without any cataclysm don’t count as a triumph when there are two questions that remain unanswered: Success for whom? And at what cost?

As a way of dismissing the criticism, Brazilians sometimes resort to a principle called complexo de vira-latas, or mutt complex, a metaphor created by the writer Nelson Rodrigues to portray the inferiority in which we voluntarily place ourselves in front of the rest of the world. “The Brazilian is a Narcissus inside out who spits in his own image,” Mr. Rodrigues wrote, noting that we usually don’t find personal or historical pretexts for a high self-esteem. I’m accused of having a mutt complex every time I write about Brazil’s inequality, housing deficit, racism, misogyny and police brutality.

On the other hand, it seems Brazil’s patriotic advocates ignore the mutt complex and go straight to a blind megalomania. They repudiate any criticism, yelling, “In your face!” like angry soccer fans at those who dare to say anything that isn’t stereotypically optimistic or joyful.

The result is the following: Brazilians boo every athlete who’s not Brazilian, we boo the foreign journalists and we boo ourselves, just for the noise. Yet, many of us are interested only in making a good impression on the same foreigners we seem to despise; we want the country to look pretty on camera, despite the cost for those who live here. Every positive article about the Olympics in the international press is like a gold medal.

For me, this is a more serious complex: the one where you will do anything just to impress the visitors and try to disguise problems, instead of fixing them.

Even if I’m accused of being in league with our adversaries, I think we should talk about the wall that was built alongside the road from Rio’s international airport to cover the view of the favelas. We have to demand that all costs involved in the Olympics’ preparation are divulged and duly accounted for, which is still far from happening. We cannot forget the thousands of families evicted to make way for Olympic venues, including the Olympic Village, which will be eventually converted to high-end condominiums. We must keep asking for more transportation infrastructure, for lines that extend beyond the scenic, central routes connecting the Olympic venues.

After the final ceremonies, when the last fireworks have been launched and all the foreign journalists have returned home, a bankrupt state of Rio will be left to pick up the pieces. And neither patriotism nor the love of sports will entitle us to overlook our reality.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
15 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

– Na semana passada, no trem lotado, entrou um soldado pra falar de terrorismo – disse a motorista de ônibus para uma passageira.

A conversa foi ouvida por um amigo a menos de uma semana da Olimpíada.

– O que ele disse? – perguntou a interlocutora.

– Falou que se a gente visse alguém com aparência estranha ou alguma bolsa largada sem dono no chão, era para avisar os policiais que estão nas estações – respondeu.

A amiga falou de sua preocupação com atentados durante o evento e a motorista continuou:

– Pois é. Mas teve um cara que gritou: “Porra, meu amigo, aqui dentro a gente não tem espaço nem pra respirar, quanto mais para olhar pro chão ou ver se tem alguém estranho. Avisa pra esses terroristas botarem a bomba no ramal Santa Cruz, porque no Japeri já tá foda sem bomba”.

**

Uma das coisas mais legais do Rio são os vendedores ambulantes dos trens e ônibus, que infelizmente estão mais raros durante os Jogos. Alguns fazem pole dancing nos balaústres para ajudar a vender seus produtos, que vão de lâmpadas de boate até rádios AM/FM em formato da porquinha Peppa. Quem embarca no trem sem ter almoçado não precisa se preocupar, pois lá dentro há uma vasta oferta de paçoca, pipoca, batata, polvilho, “pele” (Baconzitos), água, cerveja e bala.

Um dos vendedores repetiu uma frase que achei tão bonita, mas tão bonita, que será talvez o título do meu próximo romance. Ele abriu caminho entre os passageiros segurando um gancho cheio de doces, enquanto anunciava:

– Cinquenta é o tijolão da bananada.

**

Homem em situação de rua para defensor público federal, a respeito da higienização promovida pela prefeitura durante a Olimpíada: “Eu me sinto como o filho deficiente que vai ter uma festa em casa e os pais correm para esconder”.

**

Na feirinha noturna, no canteiro central da avenida Atlântica, dois sujeitos conversavam sobre aparelhos de exames de hospitais. Um deles deu o seu parecer:

– A única coisa que dá pra fazer com essas máquinas é vender para o exterior. Para consertar aqui tem que levar em técnicos autorizados, e aí eles descobrem fácil que é roubado.

**

No portão do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma mulher em situação de rua pedia esmola. Era uma tarde gelada de sexta-feira, e a temperatura caía mais e mais. De repente, depois de receber a dica de algum passante, mudou o discurso. Em vez de “moço, tem um trocado?”, ela passou a perguntar:

– Moço, tem bolo de fruta?

Tomada pela expectativa, começou a se concentrar nos estudantes que saíam. E repetia, firme:

– Eu sei que tá tendo bolo de fruta aí dentro. Você sabe em que sala tá tendo bolo de fruta? Me traz aí um pedaço.

Anoiteceu, e nada de aparecer o acepipe. Eu já estava indo embora quando ouvi pela última vez:

– Gente, me dá um pedaço de bolo de fruta, pelo amor de Deus.

Os trolls da Pátria

Posted: 12th agosto 2016 by Vanessa Barbara in Crônicas, O Estado de São Paulo, Rio 2016
Tags: , ,

O Estado de São Paulo – Especial Olimpíada
12 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

Em todas as partidas de vôlei do Brasil, a história se repete: o adversário se posiciona para o saque e ouve uma retumbante vaia. Às vezes, um torcedor grita “vai errar” e entra em êxtase caso a bola realmente fique na rede, como se berrar da arquibancada fosse um tocante mérito esportivo. “Chupa!” é outro grito comum, e muitos se congratulam pelo que me parece um espírito de porco patriótico.

Ensandecida, a torcida do time da casa é capaz de comemorar caso o atleta em questão tropece nos próprios cadarços, tenha um ataque nervoso ou porventura sofra de morte súbita. Considera válido exercer “pressão” para desequilibrar o rival. É uma forma de enxergar o papel da torcida na competição esportiva, e há quem defenda o apupo patriótico com fervor.

Eu jamais vou entender essa necessidade de diminuir a performance do outro para poder ganhar – é como se a torcida achasse aceitável fazer de tudo para atrapalhar o desempenho alheio, como se não confiasse na habilidade do próprio time ou como se vencer fosse um objetivo a ser atingido a qualquer custo. (Penso na lógica dos torcedores que dizem que o importante é ganhar, mesmo com um gol roubado.)

Peço perdão pelo kantismo ferrenho, mas toda vez que a torcida brasileira vaia o adversário – e numa Olimpíada na qual somos os anfitriões –, um dos anéis olímpicos desbota de vergonha. Vaiar o rival simplesmente pela sua presença é tropeçar no espírito esportivo e mostrar que não estamos interessados em competir de forma limpa, encarando um adversário em sua melhor forma e talvez até perdendo para ele. Queremos humilhação, “chupa gringo” e ufanismo. Queremos é rebaixar os argentinos, inclusive na hora do hino.

Esta semana, em Copacabana, durante uma partida de vôlei de praia do Brasil contra a República Tcheca, o locutor pediu pelo menos duas vezes que o público não vaiasse as adversárias, mas foi em vão. Certos torcedores, feito crianças mimadas, redobraram os apupos. Uma moça ao meu lado comentou: “Não tem jeito, o pessoal vaia mesmo. Mas é bom, porque aí eles ficam nervosos e erram”. Penso em Michael Phelps sendo recebido com tomates e Usain Bolt se protegendo de uma chuva de latas de cerveja. Para alguns, o mais importante não é presenciar um jogo bonito, mas dar um espetáculo de humilhação sonora.

“Eu jogo há dez anos e nunca vivi isso”, declarou à imprensa uma das jogadoras tchecas. “Vocês chamam isso de patriotismo? Acho que não é nada pessoal contra nós, eles só não sabem o limite entre o que é apropriado para o momento e o que não é. Querem apoiar tanto o time deles que não percebem que também somos seres humanos”, declarou.

A vaia brasileira não ocorre apenas nos esportes coletivos, mas em modalidades como natação, ginástica, esgrima e até no tênis de mesa. Segundo o Portal Uol, o sérvio Aleksandar Karakasevic fez uma reclamação formal à federação internacional da modalidade. Alegou que os apupos estavam atrapalhando sua concentração no saque, e que tênis de mesa não era futebol. A resposta de um dos dirigentes: “Não estamos jogando dentro de uma igreja”.

O hábito de vaiar o oponente não é exclusividade nossa, tendo sido registrado também na Olimpíada de Pequim, quando a imprensa local chegou a pedir que os chineses respeitassem os atletas visitantes. Mas, segundo a BBC, os Jogos do Rio estão particularmente barulhentos. Esta semana, vários órgãos internacionais como a Reuters e a CNN fizeram matérias a respeito. Para a revista Time, os brasileiros estão tentando perturbar os oponentes feito “garotos universitários vaiando um arremesso de basquete” porque estão desesperados por medalhas. Alguns jornais citam a lamentável vaia que o tenista alemão Dustin Brown levou ao cair e torcer o tornozelo durante uma partida contra um brasileiro.

Estranho comportamento para um anfitrião que, até agora, fez o que podia e o que não podia para agradar as visitas.

Spoilers da abertura

Posted: 12th agosto 2016 by Vanessa Barbara in Crônicas, O Estado de São Paulo, Rio 2016
Tags: , , ,

O Estado de São Paulo – Especial Olimpíada
5 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

De que forma épica a pira olímpica será acesa hoje à noite? Quem será o escolhido para executar o ato: Pelé ou Torben Grael? Haverá revoada de pombos brancos? Alguém vai conseguir infiltrar uma faixa de protesto no estádio? Até agora, mesmo após o vazamento de fotos do ensaio geral, ninguém sabe exatamente como será a abertura da Olimpíada e se haverá comparações com uma quermesse de pré-escola, como aconteceu na Copa do Mundo. Mas algumas coisas são garantidas.

A cerimônia terá quase quatro horas de duração e será vista na televisão por 3 bilhões de pessoas. Gilberto Gil, Elza Soares e Anitta são atrações musicais confirmadas, e entre as canções estão “Garota de Ipanema”, “Aquarela do Brasil” e “País Tropical”. O tema é a formação da sociedade brasileira, e esperam-se enormes blocos festivos de voluntários fantasiados de indígenas, europeus e africanos, e quem sabe uma ala só de gente vestida de samambaia representando as belezas tropicais. Gisele Bündchen e Regina Casé não irão faltar, bem como uma réplica do 14-Bis. Haverá o tradicional desfile das delegações e inúmeras menções ao brasileiro como um povo alegre e hospitaleiro. Talvez aconteça uma mesóclise de Temer. Segundo os organizadores, o evento será uma “experiência sensorial” para o público.

É claro que eu já tenho as minhas apostas. Por exemplo: acho que a pira olímpica será acesa por meio de um complexo mecanismo de bueiros explosivos. Ou que o gari do Carnaval irá arremessar uma vassoura incendiária de um canto do campo, como se fosse um dardo. Ou mesmo que alguém totalmente inesperado será eleito como o portador da tocha nos metros finais da corrida – penso em personalidades como Yago Pikachu, do Vasco, ou então Maguila ou Roberto Pupo Moreno. Pela primeira vez haverá duas piras olímpicas, uma no Maracanã e outra no centro, e ninguém sabe como a segunda será acesa. Eu aposto, de novo, em bueiros explosivos.

Não tenho nenhuma dúvida de que Vanusa será escolhida para entoar o Hino Nacional, em vez de Caetano Veloso ou Paulinho da Viola. Já meu amigo, o entendido Márcio Garoni, discorda da previsão e acredita que subirá ao palco ninguém menos que MC Bin Laden ft Wesley Safadão ft MC Carol para mandar um medley de Hino Nacional + “Tá Tranquilo, Tá Favorável” + “Aquele 1%” + “Não Foi Cabral”. O público irá ao delírio, sobretudo quando as luzes se apagarem. De repente, surgem os primeiros acordes de “Baile de Favela”.

Será o ponto alto da noite: no gramado, entra em campo o maior Trenzinho Carreta Furacão do planeta, uma movimentação épica que contará com 3 mil bonecos do Fofão fazendo parkour, oitocentos Capitães América só no quadradinho de oito e mais uns seiscentos Popeyes sambando. (A ideia é do Victor Txe, do canal de YouTube Saruê, ressalvando que ainda é pouca a muvuca.) Com olho clínico para esse tipo de cerimônia, Garoni acredita que o momento inesquecível poderia acontecer logo após o desfile das delegações, quando a organização destacaria um representante de cada nacionalidade e colocaria todos pra fazer o passinho do romano. “Iraniano com americano, judeu com muçulmano, petralha com golpista, vamos reunificar o mundo num grande baile funk, com a bênção do Mr. Catra”, afirma, sonhador.

Enquanto me preparo para assistir à cerimônia, penso em outra possibilidade. No momento representativo da formação da sociedade brasileira, um grupo de indígenas vai entrar em campo. Serão integrantes de dezessete etnias da Aldeia Maracanã que resolveram ocupar o estádio enquanto suas terras ancestrais não forem homologadas. Na sequência, a Tropa de Choque da Polícia Militar, chamada para fazer a reintegração de posse, irá soltar bombas de gás lacrimogêneo, enquanto no telão surge a palavra #PAS. (O internetês é obrigatório.)

Acho que é isso que os organizadores chamam de “experiência sensorial”.

Um novo esporte olímpico

Posted: 12th agosto 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
Tags: ,

O Estado de São Paulo – Caderno 2
8 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

Às onze da noite, numa rua próxima ao Central Park, populares abandonam seus carros e saem correndo. Uma multidão com o celular na mão segue na mesma direção. A comoção é visível. Alguém explica: um Vaporeon apareceu no meio do parque e a turba estava tentando capturá-lo. Há inúmeros outros vídeos no YouTube de pessoas hipnotizadas nas ruas, com os smartphones em riste, e do cantor Justin Bieber tentando pegar um Gyarados à meia-noite em frente à loja da Apple.

Se essas informações já não te convenceram a desistir dessa crônica, meus parabéns pela persistência. A boa notícia é que provavelmente em pouco tempo a febre do Pokémon Go vai passar. A má notícia é que talvez seja substituída por algo mais tolo ainda, por exemplo: um aplicativo que calcula o quão alto você consegue jogar seu telefone no ar, ou outro que simula um grampeador, ou ainda um que manda a mensagem “Yo” para seus contatos. (Todos eles existem.)

Para os que estão por fora, o Pokémon Go é um aplicativo de realidade aumentada para smartphones que faz o jogador sair por aí procurando, capturando e treinando criaturas Pokémon (tipo o Vaporeon, o Gyarados e o Pikachu) que aparecem na tela do aparelho como se estivessem no mundo real. O jogo usa o GPS e a câmera, e obriga o usuário a se deslocar fisicamente em busca de novas aquisições.

Na quarta-feira, após quase um mês de espera, o aplicativo foi lançado no Brasil. Como jornalista ciente dos meus deveres de informar o público, baixei na hora e comecei a experimentar. O problema: eu estava na zona rural de Juiz de Fora, onde mal chega o sinal de GPS, e só o que pude capturar foram grilos. Ou melhor: joguei a minha Pokebola no quintal e peguei um Squirtle, que fazia parte do pacote de boas-vindas, mas não havia mais nenhuma criatura no raio de vários quilômetros. Depois de um tempo, frustrada e tomada pelo desespero jornalístico, usei um incenso especial para atraí-los, e foi quando consegui um Magmar, um Meowth e um Rhyhorn de 116 quilos.

 O cenário era bem diferente na capital do Rio de Janeiro, onde uma porção de criaturas virtuais flanava pelas ruas em meio a turistas estrangeiros, e onde a cada esquina era possível encontrar Pokéstops. Os Pokéstops são pontos fixos – como monumentos, igrejas, hotéis – onde o jogador pode ganhar itens para a caçada.

Todo o propósito de capturar Pokémons é colocá-los para brigar uns com os outros, em batalhas que acontecem em ginásios espalhados pela cidade. Perdi uma infinidade de lutas, mas ganhei uma ou outra e, por questão de segundos, quase consegui tomar posse do ginásio do Copacabana Palace, onde entrei com a cara, a coragem e uns Pokémons desnutridos. Lá derrotei um Machoke musculoso usando um Hitmonlee parecido com uma minhoca. Depois entoei o Hino Nacional e tirei selfies com os meus esquisitos atletas.

Aparentemente temos um novo esporte olímpico.

fufarinha 27:out:96

Boia B2 em Mongaguá – 27 de outubro de 1996 – Equipe Acauã de Fufarinha: Vanessa, Vivian, Gabi e Lucimeire, Luciana (juíza)

O Estado de São Paulo – Caderno olímpico
29 de julho de 2016

por Vanessa Barbara

Estamos a uma semana da Olimpíada, e posso dizer que sei como estão se sentindo os atletas. No momento, a ansiedade é tão palpável que é possível cortá-la com uma faca e distribuí-la aos bocados entre as delegações que já estão no Rio de Janeiro.

Não é para me gabar, mas tenho vasta experiência em competições esportivas, ainda que não exatamente de nível internacional. Em meados da década de 80, abrilhantei várias edições dos Jogos de Integração do Mandaqui, que contaram com patrióticos hasteamentos de bandeira, juramentos solenes dos atletas e uma banda marcial completa. Posso ou não ter concorrido na modalidade barra-manteiga, mas sinceramente não me lembro de muita coisa. A competição foi apelidada de “Jogos de Entregação”, talvez em menção ao rigor com que os atletas se entregavam ao embate.

Aos 11 anos, já na década de 90, levei para casa a medalha de bronze no salto em distância na Olimpíada do meu colégio, o que meio que mitigou a derrota monumental do meu time nas eliminatórias do basquete (a gente não sabia bater a bola e sair andando, o que, acredito, é um drama por que já passaram todos os atletas olímpicos). Mais tarde, meu grupo bandeirante ganhou o terceiro lugar geral em uma competição realizada em Mongaguá e que contava com modalidades notáveis, tais como: futebol de sabão, vôlei de lençol, cabo de guerra, escultura humana e fufarinha. Éramos imbatíveis neste último esporte, que consistia em soprar uma bolinha de pingue-pongue em direção ao gol numa mesa coberta de farinha, estando ambas as equipes equipadas com óculos de natação. (Há fotos.)

Na adolescência, deixei de lado meu talento poliesportivo e me concentrei nos treinos de vôlei. Lembro de uma partida da Olimpíada dos Colégios Vicentinos na qual me escalaram para uma categoria superior à minha – eu era mirim e joguei com as meninas do infantil –, não por ser habilidosa, mas por absoluta falta de levantadoras. Na ocasião, liderei a equipe numa derrota que ficou inscrita nos anais do esporte brasileiro. O mesmo ocorreu quando fui inventar de jogar futsal e, na estreia, meu time perdeu de 16 a 1.

Trata-se, portanto, de um currículo desportivo de vulto, o que me qualifica para escrever neste espaço às sextas-feiras.

Torcendo contra. A Rio 2016 será a minha segunda Olimpíada como jornalista. Admito: há quatro anos, em Londres, fui responsável pela derrota da seleção brasileira de vôlei masculino na final contra a Rússia. É que eu estava na arquibancada do Earls Court quando o Brasil se viu a um ponto da medalha de ouro. Em pleno match point, quando o time ganhava de dois sets a zero e a torcida já comemorava, virei para o lado e exclamei: “Que droga, já vai acabar. Podiam pelo menos perder um set para o jogo durar mais, porque o ingresso foi caro”.

Então os deuses da superstição esportiva atenderam ao meu pedido e o Brasil perdeu dois match points. Tomado pela inspiração divina, o técnico russo escalou o central Dmitriy Muserskiy, de 2,18 metros, para a posição de oposto, confundindo os nossos jogadores, que perderam o set por 29 a 27. Depois foi ladeira abaixo: os russos fecharam mais um set e ganharam o tie break. Meu ingresso ficou subitamente caro demais, e me arrependo até hoje da zica emitida.

Desta vez, os Jogos mal começaram e já fui acusada de “torcer contra”, por causa de um artigo que publiquei no The New York Times falando sobre os problemas na organização do megaevento.

Se fazer jornalismo é torcer contra, contem comigo na arquibancada pelas próximas semanas. Continuarei torcendo contra o Brasil até não sobrarem mais críticas a serem apontadas, quando então ganharemos cinquenta medalhas de ouro, o Rio se tornará uma cidade menos desigual e só me restará aplaudir de pé com aquele bate-bate inflável do patrocinador.

Ainda assim, tomarei um suco de maracujá para conter a ansiedade.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
1 de agosto de 2016

por Vanessa Barbara

Há um mês, publiquei um apanhado com os melhores comentários hostis dirigidos a esta cronista. Embora uma porção de leitores tenha escrito para oferecer um ombro amigo, houve aqueles que se sentiram subitamente inspirados e renovaram seus votos de repúdio, abastecendo a autora de material para mais uma crônica. (Suspeito inclusive que algumas das observações mais maldosas sejam só uma forma de colaborar.)

Muitos são criativos e possuem um estilo erudito de ofender. Um dos melhores, que acabou ficando fora do texto anterior, é um comentário a uma crônica sobre gripe: “Cara colunista, pior do que uma gripe é o tédio que emana de suas colunas”.

Outro falou em “borrachinhas”, um termo misterioso cujo significado desconheço, e redigiu um texto pós-moderno com vírgulas ousadas em locais revolucionários: “Então você é uma daquelas, de média qualificação que, submete-se a escrever ‘borrachinhas’ para o New York Times. Não é mesmo?? Filha. Aproveite o seu tempo e, contribua qualitativamente, com o seu trabalhinho. ok?”

Alguns se referiram a mim como “jornalista”, entre aspas. Outros pediram a minha demissão “para o bem do Brasil”. E há sempre alguém que chuta o balde, como aquele que cravou, a respeito de um texto sobre rolezinhos: “Vamos ver o dia que algum parente dessa ilustre jornalista for vítima desses vagabundos que infestam nossa cidade”.

O fluxo de impropérios só tem se multiplicado.

Por isso fui procurar como artistas e pensadores consagrados reagiam às críticas da turma. Aprendi que o filósofo David Hume jamais respondia a ninguém, e o mesmo fazia o escritor Truman Capote, que considerava a réplica uma forma de rebaixar-se. “É preciso endurecer-se contra as opiniões”, aconselha o autor de A Sangue Frio. Em seu diário, Susan Sontag concordou com a premissa: “Ler críticas bloqueia os dutos por onde se tem novas ideias: colesterol cultural”.

Aldous Huxley não só se abstinha de responder como não lia nada a seu respeito. Já Toni Morrison faz questão de acompanhar tudo.

Após admitir que se sentia péssimo ao ler apreciações negativas, Kurt Vonnegut disse que achava absurdas as pessoas que destilam ódio contra um romance. “É como alguém que veste uma armadura completa para atacar um sundae.”

Thomas Mann observou que nossa receptividade a elogios não tem nenhuma relação com nossa vulnerabilidade ao abuso rancoroso; não importa quão idiota seja esse abuso ou o quão motivado seja por rancores pessoais, ele nos atinge mais que os elogios. “Isso é muito tolo, já que os inimigos são companheiros inevitáveis de qualquer vida robusta, a própria prova de sua força.”

O cineasta Jean Cocteau foi além: disse que é preciso ouvir cuidadosamente às primeiras ressalvas ao nosso trabalho e notar qual foi o elemento que os críticos não aprovaram. “Pode ser a única coisa na sua obra que é original e que vale a pena.”

O Estado de São Paulo – Caderno 2
25 de julho de 2016

por Vanessa Barbara

Na terça-feira passada, a professora de história Joyce Fernandes (que também é rapper e atende por Preta-Rara) compartilhou nas redes sociais alguns relatos de humilhação que sofreu enquanto era empregada doméstica em Santos. Imediatamente ela começou a receber uma enxurrada de depoimentos no celular, motivo pelo qual decidiu criar uma página no Facebook: “Eu, Empregada Doméstica”, que foi ao ar no dia seguinte. Foram mais de 40 mil curtidas em menos de 24 horas. E as colaborações têm se multiplicado.

São relatos de trabalhadoras obrigadas a limpar janelas com cotonete, que têm uma banana descontada de seus salários e que precisam conviver com patrões abusivos andando de cueca pela casa, enquanto as chamam de vagabundas. Os exemplos mais comuns são os de patroas que dizem que as consideram “praticamente da família”, mas as fazem comer na mesa da cozinha ou lhes designam pratos e talheres diferentes. Ou não a consideram boa o suficiente para beber água mineral.

Em um dos exemplos, uma empregada doméstica de 76 anos que trabalhava num prédio de luxo teve de subir vários andares de escada porque o elevador de serviço havia quebrado e as empregadas não podiam usar o social.

Em outro, o filho de uma doméstica diz que, aos 6 anos, ia junto com a mãe para o trabalho, mas que, na hora das refeições, a patroa dava comida às escondidas para o filho – só para eles não pedirem também. “Certa vez eles deixaram uma caixa de bombom em cima da mesa de manhã e no final do dia contaram quantos bombons tinha na caixa na nossa frente para ver se tínhamos comido algum”, relata.

Uma moça chamada Aryane (e que é chamada pela patroa de Arene) conta que a dona da casa pediu que preparasse duas lasanhas para ela e as filhas almoçarem. Terminada a refeição, ela pediu: “Guarde o que sobrou na geladeira. Se for almoçar tem salsicha e ovo.”

Ou seja: em sua condição de serviçal, Aryane só merecia salsicha e ovo. E água da torneira. E elevador de serviço.

Para a criadora da página, o importante é acabar com a naturalização dos abusos que as domésticas enfrentam. Num dos posts, ela transcreve o que ouviu de uma patroa: “Você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres e se possível coma antes de nós na mesa da cozinha”. E acrescentou: “Não é por nada, tá, filha? Só para a gente manter a ordem da casa”.

Segundo Joyce, em entrevista para a BBC Brasil, a profissão de empregada doméstica deveria acabar, pois se trata de um resquício da escravidão. “Mas enquanto isso não acontece, temos de lutar por um tratamento mais humano e igualitário. Não queremos ser da família. Também não queremos desrespeitar hierarquia. Queremos apenas um tratamento justo”, diz.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
18 de julho de 2016

por Vanessa Barbara

Há um ano, o jornalista americano Ta-Nehisi Coates lançou Entre o mundo e eu, que logo obteve o respeito da crítica e alcançou o primeiro lugar na lista de mais vendidos do The New York Times. Tempos depois, o livro continua atual, sobretudo após a onda recente de protestos nos Estados Unidos e a intensificação do debate sobre conflitos raciais.

É um livro curtinho e impressionante, que dá vontade de deglutir com o Kindle e tudo. Coates escreve uma carta ao filho adolescente falando como os corpos dos negros são descartáveis, sobretudo por obra dos departamentos policiais. “Não interessa se a destruição resulta de uma reação excessiva infeliz. Não interessa se teve origem num mal-entendido. Não interessa se advém de uma política estúpida”, ele escreve. “Venda cigarros sem a autorização devida, e o seu corpo pode ser destruído. Leve a mal que alguém tente cercá-lo, e o seu corpo pode ser destruído. Vire em direção a uma escadaria escura, e o seu corpo pode ser destruído. Os destruidores raramente serão responsabilizados. Em muitos casos, receberão pensões. E a destruição é meramente a forma superlativa de um domínio cujas prerrogativas incluem revistas, detenções, espancamentos e humilhações.”

O texto é pesado, bem escrito e lírico, mas sem sentimentalismo. O autor fala de desigualdade social e da sensação de crescer nesse ambiente. “As ruas transformam cada dia comum em uma série de questões capciosas, e cada resposta incorreta traz consigo o risco de um espancamento, um tiro ou uma gravidez”, diz.

Coates nasceu em Baltimore, uma das cidades americanas com os maiores índices de desigualdade social, racial e econômica. Ele conta que, por lá, justificam-se as prisões e os guetos, bem como a destruição do corpo dos negros, como sendo um inconveniente a se pagar pela preservação da ordem. O escritor fala do assassinato de um amigo de faculdade, Prince Carmen Jones Jr., cujo jipe foi confundido por oficiais à paisana com o de um homem procurado por roubar uma arma da polícia. O oficial sacou o revólver e diz que se identificou, mas sem mostrar o distintivo, o que fez Jones correr de volta para o carro, pensando se tratar de um assalto. Quando ele deu partida, o policial atirou 16 vezes.

Para quem não vive essa realidade, Coates passa uma impressão vívida de sufocamento, um desejo irresistível de se libertar e fugir em alta velocidade. Ele conta como, aos poucos, passou a enxergar a discordância, a discussão e o caos, talvez até mesmo o medo, como uma espécie de poder. “O desconforto corrosivo e a vertigem intelectual não era um alarme. Era um farol”, escreve.

Segundo um crítico da revista Slate, o livro é “uma carta de amor escrita num momento de emergência moral que Coates expõe com a precisão de uma autópsia e a força de um exorcismo”.