The New York Times
30 de maio de 2017

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

Trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves / UOL Notícias

Em 30 de abril, um grupo de fazendeiros armados com rifles e machados atacou um assentamento de cerca de 400 famílias da tribo gamela, no Estado do Maranhão, no nordeste do Brasil. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, um grupo de defesa dos direitos indígenas, 22 índios ficaram feridos, inclusive três crianças. Muitos receberam tiros nas costas ou tiveram os punhos decepados.

Pouco depois do ataque, o Ministério da Justiça anunciou em seu site na web que iria investigar “o incidente entre pequenos agricultores e supostos indígenas”. (Minutos depois a palavra “supostos” foi retirada.)

Isto não deveria causar surpresa. Foi o terceiro ataque relatado contra o povo gamela em três anos e faz parte de uma tendência de atos violentos contra indígenas brasileiros. Toda semana parece trazer a notícia de uma nova atrocidade cometida contra povos indígenas em alguma parte remota do país. Mas nada mais parece chocar a sociedade brasileira. Nem mesmo quando, algumas semanas atrás, uma criança de 1 ano da tribo Manchineri levou um tiro na cabeça.

Esses ataques fazem parte de um padrão mais amplo de abusos, marginalização e negligência. Desde 2007, 833 índios foram assassinados e 351 cometeram suicídio, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena –índices muito superiores à média nacional. Entre as crianças, o índice de mortalidade é duas vezes mais alto que no restante da população brasileira.

Segundo o Censo, restam cerca de 900 mil indígenas da população original, estimada entre 3 milhões e 5 milhões, que habitavam o país quando os colonizadores portugueses chegaram em 1500. Doenças importadas da Europa dizimaram milhões deles durante o primeiro século de contato. Mais tarde, os indígenas foram escravizados nas plantações.

Mas o genocídio não terminou aí. Durante o século passado, dezenas de milhares de indígenas foram vítimas de estupro, tortura e assassinato em massa, cometidos com a ajuda de um órgão governamental, o Serviço de Proteção ao Índio. Algumas tribos foram completamente eliminadas. Hoje, somente 12,5% da terra brasileira continuam em posse dos povos indígenas.

A história dos guarani-kaiowás, do Estado de Mato Grosso do Sul (oeste do Brasil), é típica dos problemas enfrentados pelos grupos indígenas. Os guarani-kaiowás foram expulsos de suas terras ancestrais no final dos anos 1940, quando o governo concedeu títulos de propriedade aos fazendeiros e pecuaristas da região. Então eles se mudaram para reservas superlotadas e acampamentos à beira de estradas.

A situação da tribo parecia prestes a melhorar em 1988, quando o Brasil aprovou uma nova Constituição que reconhecia os direitos dos povos indígenas às terras que ocupavam tradicionalmente. O governo deveria demarcar esses territórios em cinco anos após a aprovação da Constituição. Demorou mais do que se esperava: a identificação e demarcação das terras dos guarani-kaiowás começou em 1999 e foi concluída em 2005.

Eles voltaram ao seu território –mas só brevemente. Meses depois, seguindo uma petição de fazendeiros locais, um juiz federal suspendeu o decreto que teria demarcado oficialmente suas terras. Mais uma vez a tribo foi expulsa.

Em agosto de 2015, alguns guarani-kaiowás decidiram reocupar parte de seu território. Acamparam em terras de propriedade dos fazendeiros, que tinham outros planos. Segundo relatos, eles contrataram milícias armadas para tentar expulsar a tribo. Semião Vilhalva, um líder tribal, foi morto a tiros.

Houve relatos de tortura, violação e rapto de crianças. Menos de um ano depois, outro ataque matou um líder guarani-kaiowá e nove pessoas foram feridas a tiros. Cinco fazendeiros locais foram detidos por participação no ataque, mas foram liberados após alguns meses.

Os indígenas que não são mortos ou sequestrados enfrentam outro desafio: ser apagados. Como muitos deles foram empurrados para os subúrbios das cidades e obrigados a adotar novos hábitos (como usar jeans, motocicleta e telefone celular), eles também enfrentam o estigma de serem chamados de “falsos índios”. Pouco antes do ataque no Maranhão no mês passado, um congressista chamou publicamente as vítimas de “pseudoindígenas”.

Depois do assassinato de Vilhalva, o líder tribal guarani-kaiowá, o representante de direitos humanos da ONU na América do Sul, Amerigo Incalaterra, pediu que o governo protegesse os direitos dos povos indígenas, incluindo seu direito à terra. O governo do Brasil adiou a demarcação das terras tribais e permitiu que indígenas sofressem violência por causa de conflitos com proprietários de terras, segundo ele.

Incalaterra pediu que as autoridades “detivessem a expulsão das comunidades guarani-kaiowás e concluíssem com urgência o processo de demarcação de suas terras”.

Isso parece cada vez menos provável. Aproximadamente a metade do Congresso brasileiro está ligado aos proprietários rurais. O governo do presidente Michel Temer está tão emaranhado com o lobby rural que recentemente nomeou Osmar Serraglio, um proeminente membro do grupo do agronegócio, para ministro da Justiça.

Temer também indicou um general militar como chefe interino da Fundação Nacional do Índio, apesar de vigorosos protestos das comunidades nativas. No início de maio, uma comissão parlamentar de inquérito criada e formada por membros da bancada rural emitiu um relatório condenando as atividades de “supostos” povos indígenas, uma dúzia de antropólogos, alguns advogados do Estado e membros de organizações de direitos indígenas, inclusive o Conselho Indigenista Missionário.

A menos que haja uma reação pública em defesa dos povos indígenas do Brasil, eles continuarão morrendo –expulsos de suas terras, oficialmente silenciados, assassinados, destruídos pela desnutrição e a doença–, e o genocídio estará completo. 


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves/ UOL Notícias

The New York Times
May 30th, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Leer en español

 

Jose Ribamar from Brazil’s indigenous Gamela tribe is pictured next to his daughter at a hospital after he was injured in a dispute over land in northern Brazil, in São Luis, Maranhão state, Brazil. Credit: Lunae Parracho/Reuters

 

SÃO PAULO, BRAZIL — On April 30, a group of ranchers armed with rifles and machetes attacked a settlement of about 400 families from the Gamela tribe, in the state of Maranhão, in northeastern Brazil. According to the Indigenous Missionary Council, an advocacy group, 22 Indians were wounded, including three children. Many were shot in the back or had their wrists chopped.

Soon after the attack, the Ministry of Justice announced on its website that it would investigate “the incident between small farmers and alleged indigenous people.” (Minutes later, the word “alleged” was removed.)

This shouldn’t have come as a surprise. It was the third reported attack on Gamela people in three years and part of a trend of assaults against indigenous Brazilians. Every week seems to bring reports of a new atrocity committed against indigenous people in some remote part of the country. But nothing seems to shock our society anymore. Not even when, a few weeks ago, a 1-year-old from the Manchineri tribe was shot in the head.

These attacks are part of a larger pattern of abuse, marginalization and neglect. Since 2007, 833 Indians have been murdered and 351 have committed suicide, according to the Special Secretariat for Indigenous Health — rates far above the national average. Among children, the mortality rate is two times higher than in the rest of the Brazilian population.

According to the census, there are around 900,000 Indians left from the original estimated three to five million who inhabited the country when the Portuguese settlers arrived in 1500. Diseases imported from Europe wiped out millions during the first century of contact. Later the Indians were enslaved on plantations. But the genocide didn’t end then. Over the past century, tens of thousands of indigenous people have been victims of rape, torture and mass murder, perpetrated with the help of a governmental agency, the Indian Protection Service. Some tribes were completely eliminated. Today, only 12.5 percent of Brazilian land remains in the possession of indigenous people.

The story of the Guarani-Kaiowa, from the western state of Mato Grosso do Sul, is typical of the trials indigenous groups face. The Guarani-Kaiowa were first expelled from their ancestral lands in the late 1940s, when the government granted farmers and ranchers titles to the area. They then moved to overcrowded reservations and roadside camps.

The tribe’s situation seemed poised to improve in 1988, when Brazil adopted a new Constitution that recognized the rights of indigenous people to the lands they traditionally occupied. The government was supposed to demarcate those territories within five years of the Constitution’s enactment. It took longer than expected: The identification and demarcation of the Guarani-Kaiowa’s land started in 1999 and was completed in 2005. They returned to their territory — but only briefly. Months later, following a petition by local ranchers, a federal judge suspended the decree that would have officially demarcated their land. Once again, the tribe was evicted.

In August 2015, some of the Guarani-Kaiowa decided to reoccupy part of their territory. They camped on land owned by ranchers. The landholders had other plans: According to reports, they hired armed militias to try to drive the tribe out. Semião Vilhalva, a tribal leader, was shot and killed. There were accounts of torture, rape and child abduction. Less than a year later, another attack killed a Guarani-Kaiowa leader and nine people were shot. Five local farmers were detained for taking part in the raid but were released after a few months.

The indigenous people who aren’t killed or abducted face another challenge: being erased. Since many of them have been pushed to the outskirts of cities and towns, and forced to adopt new habits (like wearing jeans, riding motorcycles and using cellphones), they also have to face the stigma of being called “fake Indians.” Soon before the attack in Maranhão last month, a congressman publicly called the victims “pseudo-indigenous people.”

After the murder of Mr. Vilhalva, the Guarani-Kaiowa tribal leader, the United Nations human rights representative for South America, Amerigo Incalaterra, urged the government to protect the rights of indigenous people, including their right to land. Brazil’s government had delayed demarcating tribal land and allowed indigenous people to suffer violence because of conflicts with landowners, he said. Mr. Incalaterra called on the authorities “to stop evictions of Guarani-Kaiowa communities and to urgently complete the process of demarcation of their lands.”

That seems less and less likely. Around half of Brazil’s Congress is linked to the rural caucus. The government of President Michel Temer is so entangled with the rural lobby that he has just named Osmar Serraglio, a prominent member of the agribusiness caucus, as minister of justice. Mr. Temer also appointed a military general as the interim head of the National Indian Foundation, despite vigorous protests from the native communities. At the beginning of this month, a parliamentary commission created and formed by members of the rural caucus issued a report condemning the activities of “alleged” indigenous people, a dozen anthropologists, a few state’s attorneys and members of indigenous rights organizations, including the Indigenous Missionary Council.

Unless there is a public outcry in defense of Brazil’s indigenous people, they will continue to die — cut off from their lands, officially silenced, murdered, ravaged by malnutrition and disease — and the genocide will be complete.

 


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on May 30, 2017, in The International New York Times.

Los ataques contra los indígenas de Brasil (traducción)

Posted: 31st maio 2017 by Vanessa Barbara in Traduções

The New York Times
May 30th, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Read in English

Jose Ribamar de la tribu gamela en el hospital junto a su hija. Fue herido en una disputa por tierras en São Luis, en Maranhao, al norte de Brasil. CreditLunae Parracho/Reuters

SÃO PAULO — El 30 de abril, un grupo de rancheros armados con rifles y machetes atacó un asentamiento de cerca de 400 familias de la tribu gamela, en el estado de Maranhão, en el noreste de Brasil. De acuerdo con el Consejo Indigenista Misionero, un grupo de activistas, veintidós indígenas resultaron heridos, entre ellos tres niños. A muchos les dispararon por la espalda o les cortaron las muñecas.

Poco después del ataque, el Ministerio de Justicia anunció en su página web que investigaría “el incidente entre pequeños campesinos y presuntas personas indígenas” (tras unos cuantos minutos se eliminó la palabra “presuntas”).

Esto era de esperarse. Fue el tercer ataque registrado contra el pueblo gamela en tres años y parte de una ola de asaltos contra indígenas brasileños. Todas las semanas parece haber reportes de una nueva atrocidad cometida en contra de los indígenas en algún paraje remoto de Brasil. Sin embargo, ya nada parece impactar a la sociedad brasileña. Ni siquiera cuando, hace unas semanas, le dispararon en la cabeza a un bebé de un año de la tribu manchineri.

Esos ataques son parte de un patrón más amplio de abuso, marginación y falta de atención. Desde 2007, han sido asesinados 833 indígenas y 351 se han suicidado, de acuerdo con la Secretaría Especial de Salud Indígena; estas tasas son mucho más altas que el promedio nacional. Entre los niños, la tasa de mortalidad es dos veces mayor que en el resto de la población.

Según el censo, en la actualidad hay 900.000 indígenas de los entre tres y cinco millones que habitaban el país cuando llegaron los conquistadores portugueses en 1500. Las enfermedades traídas de Europa arrasaron con millones durante el primer siglo de contacto. Más tarde, se les esclavizó en plantaciones. No obstante, ahí no terminó el genocidio.

Durante el siglo pasado, decenas de miles de indígenas fueron víctimas de violaciones, tortura y asesinatos en masa, perpetrados con ayuda de una agencia gubernamental, el desaparecido Servicio de Protección al Indio. Algunas tribus fueron completamente eliminadas. Actualmente, solo el 12,5 por ciento de la tierra en Brasil sigue en manos de los indígenas.

La historia de los guaraní-kaiowá, del estado occidental de Mato Grosso del Sur, es típica de los obstáculos que enfrentan los grupos indígenas. Primero, se les expulsó de sus tierras ancestrales a finales de la década de 1940, cuando el gobierno otorgó títulos de propiedad en esa zona a campesinos y rancheros. Luego, fueron enviados a reservas sobrepobladas y a campamentos a las orillas de las carreteras.

Parecía que la situación de la tribu mejoraría en 1988, cuando Brasil adoptó una nueva constitución que reconocía los derechos de los indígenas a las tierras que tradicionalmente hubieran ocupado. Se suponía que el gobierno demarcaría esos territorios en los cinco años siguientes a la entrada en vigor de la Constitución. Llevó más tiempo del esperado: la identificación y demarcación de las tierras de los guaraní-kaiowá comenzó en 1999 y terminó en 2005. Regresaron a su territorio, pero solo durante un periodo corto. Meses después, tras una demanda por parte de los rancheros locales, un juez federal suspendió el decreto con el que sus tierras quedaban demarcadas. La tribu, de nuevo, fue desalojada.

En agosto de 2015, algunos guaraní-kaiowá decidieron volver a ocupar parte de su territorio. Acamparon en tierras ahora propiedad de los rancheros. Los terratenientes tenían otros planes: de acuerdo con los reportes, contrataron milicias armadas para que sacaran a la tribu. A Semião Vilhalva, el jefe de la tribu, le dispararon y lo mataron. Hay recuentos de tortura, violaciones y secuestro de niños. Menos de un año después, en otro ataque, mataron a otro jefe guaraní-kaiowá y les dispararon a nueve personas. Arrestaron a cinco granjeros locales por participar en el asalto, pero se les dejó en libertad tras unos cuantos meses.

Los indígenas que no son asesinados o secuestrados enfrentan otro reto: que se les borre. Puesto que muchos de ellos se han visto forzados a irse a las afueras de las ciudades y los pueblos, donde adoptan nuevas costumbres (como usar pantalones de mezclilla, andar en motocicleta y tener teléfonos celulares), deben hacer frente al estigma de ser llamados “indígenas falsos”. Poco antes del ataque de este mes en Maranhão, un senador se refirió públicamente a las familias gamelas como “seudoindígenas”.

Después del asesinato del jefe de la tribu guaraní-kaiowá, Vilhalva, el representante en Sudamérica del Alto Comisionado de la ONU para los Derechos Humanos, Amerigo Incalcaterra, urgió al gobierno a proteger los derechos de los indígenas, incluyendo su derecho a la tierra. El gobierno brasileño retrasó la demarcación de las tierras indígenas y permitió que los pueblos indígenas sufrieran la violencia debida a los conflictos con los terratenientes, señaló. Incalcaterra convocó a las autoridades “a detener los desalojos de las comunidades guaraní-kaiowá y finalizar de manera urgente el proceso de demarcación de sus tierras”.

Eso parece cada vez menos probable. Cerca de la mitad del Congreso de Brasil tiene vínculos con cabilderos rurales. El gobierno del presidente Michel Temer es tan cercano que acaba de nombrar a Osmar Serraglio, un miembro destacado del grupo de la agroindustria, como ministro de Justicia. Temer también designó a un general del ejército como jefe interino de la Fundación Nacional del Indio, a pesar de las vigorosas protestas por parte de las comunidades originarias.

A principios de mayo, una comisión parlamentaria creada y conformada por miembros del cabildo rural emitió un informe en el que condena las actividades de “presuntos” indígenas, así como de una decena de antropólogos, unos cuantos fiscales y miembros de organizaciones de derechos indígenas, incluyendo al Consejo Indigenista Misionero.

A menos que haya un clamor público en defensa de los indígenas de Brasil, continuarán muriendo —aislados de sus tierras, oficialmente silenciados, asesinados, devastados por la desnutrición y las enfermedades— y así se concluirá su genocidio.

Cratera Estúdio

Revista Serafina – Folha de S. Paulo
7 de maio de 2017

por Vanessa Barbara

Já disse por aqui que ser “toda errada” demonstra um senso elevado de sofisticação e cosmopolitismo, além de fornecer alegria às pessoas direitas. Neste texto, vou abordar a importância histórica da falta absoluta de discernimento para o progresso da humanidade.

Penso em Alexander Fleming, que saiu de férias e esqueceu suas culturas de estafilococos empilhadas num canto do laboratório. Ao voltar, reparou que uma delas havia sido contaminada por um bolor e que, em torno dela, não havia mais bactérias. “Que engraçado”, comentou. Foi assim que descobriu o “suco de mofo”, ou seja, a penicilina: porque era meio avoado.

Teve também o químico russo Constantin Fahlberg, que passou o dia examinando amostras de alcatrão de carvão e se esqueceu de lavar as mãos. Na hora da janta, notou que seu pãozinho estava doce, assim como (estranhamente) o guardanapo, então voltou ao laboratório e descobriu a sacarina. Entrou para a história da ciência por falta de asseio pessoal.

O marca-passo foi inventado após o uso de um resistor errado, e o vidro blindado, depois que um cientista deixou cair um pote no chão. O velcro, o picolé, o post-it e o micro-ondas também têm origem em trapalhadas.

Donde se conclui que ser distraído, porcalhão e estabanado não é sempre ruim.

Mais que isso: pode ser revolucionário. Um dos muitos célebres “errados” da história foi Homer Plessy, que, em 1896, foi condenado na Suprema Corte norte-americana por ter se sentado no lugar errado do trem. Ele embarcou no vagão exclusivo para brancos, sendo que possuía ascendência negra.

Décadas depois, Rosa Parks até que “acertou” qual era o banco reservado para negros no ônibus, mas errou ao se recusar a ceder lugar a um passageiro branco. Sua falta de reverência à ordem estabelecida deu início ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, ainda que, à época, a atitude fosse considerada uma tremenda falta de educação. Parks foi chamada de “encrenqueira”, “agitadora” e “pessoa de baixo calibre”.

Outro desajustado que fez história foi Mahatma Gandhi, que, além de ser desdentado e vegetariano, resolveu produzir as próprias roupas e o próprio sal. Foi chamado de “encrenqueiro” e “com potencial limitado”.

Convenhamos: o velho Mohandas jamais se sairia bem numa entrevista de emprego ou num jantar na embaixada. Provavelmente usaria o garfo de peixes para lidar com os legumes.

Já o escritor Liev Tolstói limpava a casa, lavrava o campo e produzia suas vestimentas. Acabou fugindo da família – de hábitos luxuosos – só para poder levar uma vida mais simples. (Consta que passaria o maior vexame no coquetel de lançamento de “Guerra e Paz”.)

Todos eles de alguma forma não se adequavam, e talvez por isso acabaram conduzindo grandes progressos: sua falta de jeito lhes dava uma outra perspectiva.

E as suffragettes? Foram tachadas de “histéricas”, “grosseiras” e “pouco femininas”. Fica a sugestão.

Tourists with a pink dolphin in the Amazon River in Brazil.
Credit: Flavio Varricchio/Brazil Photos, via LightRocket, via Getty Images

The New York Times
April 21, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing opinion writer

MANAUS, Brazil — The “encontro das águas” (meeting of waters) between the dark Negro River and the light-brown Solimões River is impressive. No wonder it’s one of the main tourist attractions near the city of Manaus, capital of the state of Amazonas. For several miles, the two gigantic rivers flow side by side without mixing because of their difference in water composition, flow rate and density. (You can feel the variation of temperature by putting your hand in the water as the boat crosses the visually distinct line.) When the Negro and the Solimões finally merge, they form the Amazon, the world’s largest river by discharge of water and one of the longest.

When I recently went on a boat tour in the Janauari Ecological Reserve, near the meeting of waters, the boatman asked if I would also like to visit a family of ribeirinhos (riverside dwellers) who have a caiman, a sloth and a snake. “You can take selfies with the animals, and later give them some gratification,” he told me, euphemistically suggesting tips for the people who keep the animals. I vociferously declined.

We resumed our navigation on the small motorboat through cool, peaceful igarapés (forest streams) leading to dazzling igapós (swampy, flooded forests). It seemed as if a dam had ruptured somewhere and the place was about to be submerged. Trees as high as buildings were half drowned by the river. The boatman became less talkative, as if I’d offended him by refusing his last offer. I enjoyed the scenery; there was no need to hug illegally domesticated sloths.

Brazil still has a long way to go in the field of ecotourism. While in some places, as on the island of Fernando de Noronha, in the northeast, the rules concerning wildlife preservation are strict, in others there is less attention to long-term conservation and the ecological and social impact of tourism, often leading to the pure and simple exploitation of animals, as well as local people and their cultures.

One of the most profitable tourist activities in the Amazon is swimming alongside pink dolphins or feeding them from a flutuantea private floating deck, often situated within a national park. Tourists regularly ride, restrain and harass the dolphins. Some even lift them out of the water for photographs. (Sometimes this is done with the encouragement of a tour guide.) There are accounts of people being accidentally bitten, and on one occasion, a man retaliated by punching the dolphin.

A few years ago, a commission of federal agencies and research institutes issued local guidelines for the activity — including the amount of food to be offered and the requirement that only tour guides could feed the dolphins — but few people adhere to them. According to the owner of one flutuante, tourists must only avoid touching the dolphin’s blowhole. (Please!)

There’s no federal legislation prohibiting feeding and touching the dolphins. As a result, their behavior has already changed: Many now survive on the frozen fish provided by tourism groups. They’re also conditioned to stay close to the flutuantes and to humans. According to researchers, aggression is now common among the dolphins.

Another popular activity in the Brazilian Amazon is caiman-spotting. In the evening, groups of people cruise the riverbanks, seeking out the huge nocturnal lizards that resemble crocodiles. It wouldn’t be disruptive if so many guides didn’t make a point of jumping in the water to grab the caimans and hold them up for photos.

Amazon tour operators also offer recreational fishing of piranha, the omnivorous fish with sharp teeth and a ferocious reputation, and fake fishing of pirarucu, an ancient, giant fish that is at risk of extinction. The latter takes place in enclosed water tanks. In some ways, it’s better because the pirarucus aren’t injured by hooks, only mildly harassed by tourists trying to lift them out of the water.

Alter do Chao has grown in popularity with Brazilian and foreign tourists in recent years, earning itself the nickname the “Caribbean of the Amazon,” leading some to worry about over development, and its environmental impact on the fragile ecosystem. Credit: Bryan Denton for The New York Times

All of these activities take advantage of a lack of clear laws governing ecotourism and the use of natural resources. Tour operators promote packages by using questionable environmentalist phrases. One advertises “ecological fishing”; another promises to have the federal environmental agency’s authorization to take tourists swimming with dolphins. That’s enough for most people visiting the Amazon — even if it’s not true. The local people who keep wild animals as pets to lure tourists often claim that they release the animals at night and recapture them in the morning.

Animals are not the only ones being abused. Another popular activity in Manaus is a visit to an indigenous community formed by five ethnic groups (Dessana, Tukana, Tuyuca, Wanana and Tatuia), which some tour operators deceitfully describe as a “tribe.” Since the beginning of the last century, the indigenous people, who are perhaps Brazil’s most marginalized and impoverished population, have migrated (or been expelled) from their original lands. (And I’m talking only about the small remnant left after the genocides that started with the arrival of the Portuguese.) They stage traditional music and dance performances for the guests of expensive jungle lodges.

Indigenous people are often forced by their employers to meet tourists’ stereotypes: the romantic, noble savage with slightly frightening rituals and no refrigerator. But that’s not the worst part. Indigenous people didn’t know that some of their bosses have traditional practices of their own: For five years, 34 Tariano people worked for a jungle lodge in exchange for only leftover food and a collective paycheck of $30 per performance. Others are not even paid and instead rely on selling handicrafts and jewelry to the visitors. There is no industry-standard agreement on the fair share of revenues for indigenous groups, and again, no federal regulation. It seems nothing will change until indigenous people themselves have the means to control all aspects of the experience they offer to tourists — and also reap the profits.

On the other hand, many jungle lodges and tour operators are becoming more aware of these issues. Environmentally conscious tourists are also pushing for changes. The sustainable Uakari Lodge in the Mamirauá Reserve, for example, is run by members of the local community. So maybe there is some progress.

In another jungle lodge called Anavilhanas, better attuned to an environmental conscience, I’ve enjoyed the most jaw-dropping tour of my trip: a simple kayak expedition through igarapés and igapós, stopping here and there to watch birds, monkeys and spiders at a distance. In the Amazon, there’s no need to do more than that.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on April 21, 2017, on Page A11 of the National edition with the headline: Don’t punch the dolphins.

Chique é ser toda errada

Posted: 9th abril 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo

Folha de S. Paulo – Revista Serafina
26 de março de 2017

por Vanessa Barbara

Eu roubo pedaços de bolo que as pessoas deixam na mesa, depois que elas vão embora e antes que os garçons venham recolher os pratos. Eu empurro a comida com a faca e arremesso sem querer tomatinhos desgovernados no comensal ao lado. Uma vez eu estava com fome no aeroporto de Estocolmo e só tinha dinheiro para comprar um salgado; complementei a refeição tomando o smoothie de uma moça desconhecida que talvez só tivesse feito uma pausa para ir ao banheiro.

Ouvi dizer que está na moda ser meio torto, uma pessoa pouco ou nada elegante que se destaca pela capacidade sobre-humana de passar vexame. Sou internacionalmente reconhecida como aquela que acionou o alarme de emergência em um sofisticado hotel londrino porque achou que fosse a cordinha da descarga. Funcionários quase arrombaram a porta para me resgatar do que quer que sejam as emergências dos super-ricos: Um ataque de nojo ao perceber que tem um cabelo na pia? Descobrir de repente que a sola do seu Louboutin é lilás? Até hoje eu hesito antes de dar a descarga em banheiros de estabelecimentos de estirpe.

Anotem aí: agora também é chique pegar coisas do lixo – está de testemunha aqui ao meu lado um organizador vertical de papéis em acrílico de alta qualidade, encontrado numa caçamba no Mandaqui – e posso ou não estar exagerando ao afirmar que a minha mãe uma vez experimentou um par de sandálias que estava largado na esquina. (Não era do tamanho certo.) Também já levei para casa uma maca de resgate do Corpo de Bombeiros. Não perguntem.

Outra grande tendência para 2017 é desequilibrar-se em situações variadas, com destaque para perder o aprumo no ônibus e cair no colo de um estranho. A falta absoluta de um senso de localização é essencial para indivíduos que queiram brilhar nessa área; convém um dia fazer como esta colunista e se perder dentro da estação Paraíso do metrô, tentando encontrar a saída que dá para o outro lado da rua e caindo sempre no mesmo lugar. Várias vezes. Várias. Mesmo. E sempre fazer questão de alardear seus feitos para amigos e parentes, gabando-se de suas habilidades invejáveis de não conseguir se ajustar ao mundo das pessoas dignas. 

Eu particularmente já apoiei um copo de bebida numa obra de arte, pensando que era só um móvel rebuscado, e perguntei a um intelectual que trabalhava no IMS (Instituto Moreira Salles) como estava a rotina no IML (Instituto Médico-Legal). A resposta foi: “De fato as coisas lá estão meio mortas”. Já confundi Chico Mendes com Chico Xavier e RuPaul com Ron Paul, e fui flagrada afirmando que cobras eram anfíbios.

É disso que estou falando: alto nível.

Porque o segredo é manter a pose e fingir que foi calculado, como naqueles momentos em que você tenta abrir a janela do ônibus, não consegue e finge que estava só se espreguiçando. Ou quando você está de pé e o motorista freia, aí você sai tropeçando e lacrando muito pelo corredor como se estivesse apresentando um número de sapateado.

Conselho de profissional: tudo fica requintado se você faz jazz hands no final.

Um brinde ao “não”

Posted: 27th março 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Site Bayer Jovens
15 de março de 2017

por Vanessa Barbara

Em Wanju, na Coreia do Sul, uma mulher de 69 anos de idade passou mais de cinco anos tentando tirar a carteira de motorista. Ela comparecia quase todos os dias ao local do teste escrito, que ficava numa cidade distante, e falhava estrondosamente. Apesar da descrença de seus professores, continuava tendo aulas, estudando e repetindo a prova. Tentava memorizar as questões e as respostas, mesmo que não entendesse bem o sentido.

Finalmente, após 949 tentativas, Cha Sa-soon passou no teste. Mais dez míseras investidas no exame prático e ela enfim tirou a carta, para delírio dos funcionários e de todo o país, que já acompanhavam atentamente a saga. “Eu queria a carteira de motorista para poder levar os meus netos ao zoológico”, explicou. Além disso, ter um carro facilitaria em seu trabalho com a venda de legumes.

Há um ditado coreano que diz: “Nocauteado quatro vezes, levantou-se cinco”. Por mais paradoxal que seja, receber um “não” categórico pode ser positivo, pois nos obriga a seguir caminhos inesperados e nos fortalece de uma forma que os sucessos não são capazes de fazer.

Uma tonelada de escritores famosos coleciona por esporte cartas de rejeição de editoras – Harry Potter foi desdenhado várias vezes antes de ser publicado. Esnobado por 14 casas editoriais, o lendário poeta E. E. Cummings teve de pedir dinheiro emprestado à mãe para publicar seu primeiro livro, que ele intitulou No, Thanks (Não, Obrigado) e dedicou nominalmente às editoras que o menosprezaram.

Mas é claro que uma história de fracasso pode apenas ser uma história de fracasso, sem nenhum tipo de redenção apoteótica por trás – pelo menos não aparentemente. A recompensa vem apenas aos poucos, com o tempo, quando olhamos para trás e notamos que as coisas até que se encaixam.

Minha primeira grande rejeição foi quando não passei no vestibular da Fuvest, depois de uma vida inteira de notas altas. Achei que ali meu destino já estivesse selado, ainda mais porque acabei optando por uma faculdade particular que não estava à altura das minhas pretensões ao Pulitzer. Não ganhei a bolsa de iniciação científica que eu queria, mas ganhei outra. Quando já estava resignada a trabalhar para sempre como revisora de um site de fofocas, tive oportunidades aqui e ali e, no fim das contas, fui parar em lugares incríveis.

Recebi incontáveis cartas de recusa do meu primeiro livro, que acabou ganhando o Prêmio Jabuti de Reportagem. Não passei no teste de proficiência em inglês da faculdade e hoje escrevo para o New York Times. Fui preterida e demitida de empregos uma porção de vezes, e me senti bastante fracassada outras tantas.

Talvez, se eu tivesse passado naquele vestibular, seria agora prepotente e preguiçosa. Em lugar disso, fui seguindo com esforço todos os caminhos que se abriram.

E afinal, quem se importa se Cha Sa-soon não é a melhor motorista do continente asiático e se jamais irá competir na Fórmula 1? Pelo menos agora ela vai poder levar os netos ao zoológico. E vender seus legumes.

Vagas para texugo

Posted: 25th março 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas

Caderno Cultura – O Extra – Fernandópolis
25 de março de 2017

Il Brasile paga il conto delle olimpiadi

Posted: 12th março 2017 by Vanessa Barbara in Traduções

Internazionale n. 1193
24 febbraio 2017

¿Los brasileños cancelarán el carnaval?

Posted: 12th março 2017 by Vanessa Barbara in Traduções

Una mujer con su bebé afuera del Maracanã. Credit: Dado Galdieri para The New York Times

The New York Times
21 de febrero de 2017

por Vanessa Barbara
Contributing opinion writer

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SÃO PAULO, Brasil — Por lo menos 70 pueblos o ciudades en ocho estados de Brasil han cancelado las festividades del carnaval este año porque están sufriendo la peor recesión del país en la historia reciente.

El alcalde de Taquari, en Rio Grande do Sul, ha decidido usar el dinero que se habría destinado a las celebraciones para acortar las filas de espera en los hospitales públicos, además de financiar un proyecto para niños con necesidades especiales. El año pasado, la ciudad de Guaraí, en Tocantins, canceló las celebraciones de fin de año para renovar dos escuelas públicas mientras que en Porto Ferreira, un pequeño pueblo del estado de São Paulo, la asamblea local votó a favor de cancelar el carnaval y utilizar el dinero para comprar una nueva ambulancia.

Esta no es una fábula moralista acerca de malgastar desmesuradamente los fondos públicos y el deber de ayudar a los niños pobres en vez de celebrar con un disfraz de bebé gigante. Pero sí me parece extraordinario que en medio de la recesión nacional, la región que parece estar en peor estado es Río de Janeiro, donde el año pasado se llevaron a cabo las olimpiadas con bombo y platillo y donde hubo un aumento invaluable de turistas, según el gobierno.

Ahora tanto la ciudad como el estado de Río están en problemas. El nuevo alcalde está proyectando un déficit de casi mil millones de dólares este año, y se espera que el presupuesto estatal tenga un déficit de más de 6 mil millones de dólares. El estado también debe 10 mil millones de dólares en préstamos garantizados por el gobierno federal.

Hace casi dos años, el gobierno estatal comenzó a retrasar el pago de los salarios de los servidores públicos, así como los cheques de las pensiones. Actualmente los servidores públicos, como los profesores de la Universidad Estatal de Río de Janeiro, están recibiendo parte de su sueldo de diciembre, sin expectativa alguna de que les llegue un bono de fin de año. Hay muchos reportes de empleados estatales que no tienen el dinero suficiente para pagar la renta o comprar alimentos. Los hospitales estatales ya tienen tiempo sin poder comprar equipos o suministros ni pagar salarios. El presupuesto de educación también ha sufrido recortes. Incluso los oficiales de policía y bomberos han amenazado con irse a huelga a causa de la tardanza en los pagos.

El desastre presupuestal en Río podría atribuirse a muchos factores, como la caída en los precios del petróleo, la expansión de la nómina del gobierno y la recesión general, pero no hay duda de que los gastos imprudentes por el mundial de fútbol y las olimpiadas contribuyeron al problema. La ciudad de Río tendrá que pagar las deudas que ha acumulado durante años mientras se ocupa del mantenimiento de los estadios que construyó.

Como resultado, el gobernador de Río busca aprobar más de veinte medidas de austeridad. Parece haber decidido que la población también se unió a la fiesta y ahora quiere dividir el costo de las cervezas. Las medidas incluyen reducciones de salarios y obligaciones de seguro social más altas para servidores públicos, así como incrementos en los impuestos, un aumento al costo del transporte público y el fin de muchos programas sociales como subsidios de renta para indigentes. El estado también ha señalado que venderá el departamento de suministro público de agua y saneamiento a inversionistas privados.

Mientras tanto, sigue otorgando significativas exenciones fiscales a empresas de telefonía y otros negocios. De acuerdo con un informe de la Agência Pública, una agencia brasileña de periodismo de investigación, 50 empresas recibieron exenciones fiscales entre 2007 y 2010. Estas incluyen a marcas de joyería de lujo así como salones de belleza y de masajes. Otras son tiendas en línea que apenas generan empleos. Existen las sospechas de que estas empresas han dado grandes donaciones a campañas políticas. La Procuraduría Federal está investigando si algunas de las exenciones fiscales que se otorgaron a empresas de joyería están relacionadas con el lavado de dinero.

Desde luego, los cariocas están saliendo a manifestarse en las calles y la policía los recibe con los amables gestos de siempre. En diciembre, oficiales de policía entraron a una iglesia cerca del edificio legislativo estatal y dispararon balas de goma a manifestantes desde una ventana (a los oficiales tampoco les han pagado). A principios de febrero, incendiaron un autobús y lo detonaron en el centro de la ciudad. El mismo día, un oficial de la policía civil le disparó a la policía antidisturbios durante una protesta. Los trabajadores sanitarios están en huelga. Hay más manifestaciones programadas para las próximas semanas. La semana pasada 9000 soldados del ejército fueron desplegados para patrullar las calles de Río, donde podrían quedarse hasta marzo.

Además del revuelo en las calles, hace unos meses dos exgobernadores del estado de Río fueron arrestados bajo cargos de corrupción y fraude electoral. Anthony Garotinho es sospechoso de intentar amañar las votaciones y Sergio Cabral, cuyo mandato terminó en 2014, es acusado de exigir 64 millones de dólares en sobornos a cambio de contratos de infraestructura para el mundial y otros proyectos.

Tan solo seis meses después del mega evento, el Parque Olímpico de Río de Janeiro parece un pueblo fantasma; los visitantes dicen que la piscina está llena de lodo. El Maracaná está dañado y abandonado por completo. El Parque Olímpico de Deodoro está cerrado, a pesar de que la piscina y las instalaciones debían estar abiertas al público. La bahía de Guanabara, donde se organizaron eventos acuáticos, aún está contaminada. La euforia de las olimpiadas definitivamente se acabó, mientras las pensiones y los salarios siguen sin llegar y los oficiales de policía pelean entre sí en las calles.

Pero los turistas no tienen de qué preocuparse: todavía está garantizado el Carnaval de Río.

Corrección: Una versión anterior de esta columna incluía información no actualizada sobre las ciudades brasileñas que estaban pensando en cancelar el carnaval. Este año, se estima que casi 70 ciudades brasileñas han decidido no participar en las festividades del carnaval, la referencia de 48 ciudades era para el 2016. El artículo también tenía información errónea sobre el año en el que la ciudad de Porto Ferreira optó por comprar una ambulancia en vez de incurrir en costos del carnaval, fue en 2016 y no este año.