A protest against proposed changes to labor and pension laws in São Paulo, Brazil, on Monday. Credit: Nacho Doce/Reuters

The New York Times
July 12, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

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SÃO PAULO, Brazil — Until recently, I thought that being a writer was the most pitiful profession ever, especially in Brazil. Nobody reads our books, and we can easily spend an entire life just railing against the same things again and again. In general, we Brazilian writers have no impact at all. A bunch of local capybaras that are also believed to tell fortunes garner more respect than we do.

But then I found another job that is even more heartbreaking: the United Nations special rapporteur. The rapporteurs are independent experts working unpaid on behalf of the United Nations to monitor countries, governments and policies. They are usually appointed with three-year mandates. And they are completely ignored.

My brave, dear friends: I understand your pain. Every time I do research into a serious local matter related to, say, education, the environment, police brutality, racism or women’s rights, I find a stern, accurate, fact-filled statement from a special rapporteur condemning the situation. Again and again.

Almost two years ago, for example, Juan E. Méndez, an Argentine human rights lawyer who had been appointed special rapporteur on torture and other cruel, inhuman or degrading treatment or punishment, urged Brazilian authorities to immediately address prison overcrowding, as well as implement measures against torture. After visiting many of Brazil’s prisons and jails, Mr. Méndez collected credible testimonies on torture and ill-treatment by the police. He recommended that Brazilian authorities urgently provide custody hearings for all detainees within 48 hours of arrest and redesign those hearings to encourage victims to speak up and to allow for effective documentation of torture or ill-treatment.

But who would listen to an Argentine, right? In the year since he issued his report, Brazilian prisons have reported more than one violent death per day. The incarcerated population has grown regularly since the special rapporteur’s report, and in the first 15 days of 2017, more than 130 inmates were killed during clashes between rival gangs.

In 2016, Victoria Tauli-Corpuz, an activist from the Philippines who had been appointed the United Nation’s special rapporteur on the rights of indigenous people, visited Brazil to identify the issues facing the native population and to follow up on recommendations made by the previous special rapporteur. She documented not only “a disturbing absence of progress in the implementation of his recommendations” but also a serious regression in the protection of indigenous peoples’ rights. Later, Ms. Tauli-Corpuz also highlighted the fact that immediately after her mission, many of the communities she had visited registered an increase of attacks.

So these special rapporteurs are not only ignored but apparently also challenged. “I deplore that despite my prior alerts, state and federal authorities have failed to take prompt measures to prevent violence against indigenous peoples,” Ms. Tauli-Corpuz said when another preventable death occurred just three months after her initial report.

The same thing has happened with a constitutional amendment establishing a cap on the growth of public spending. The Senate boastfully approved the amendment just days after the release of a condemnatory report by Philip Alston, a United Nations special rapporteur on extreme poverty and human rights. In Mr. Alston’s opinion, the law, which imposes a 20-year cap on federal spending, would “lock in inadequate and rapidly dwindling expenditure on health care, education and social security, thus putting an entire generation at risk of social protection standards well below those currently in place.” The government’s answer? Whatever.

But the rapporteurs shouldn’t feel singled out. It’s not personal, you know. The Brazilian government’s ability to ignore its critics is universal. According to a Datafolha survey, 60 percent of Brazilians opposed the expenditure cap before it was approved anyway. More than seven in 10 Brazilians reject plans for pension reform, and nonetheless a pension-reform law is on the verge of being passed. One legislator said that popular protests — of which there have been many — were not going to change their votes.

President Michel Temer himself has declared that the “modernization of national legislation” will continue and that any “broad, sincere debate” should be held at the appropriate arena: the Congress. So there’s no use in protesting in the streets, organizing strikes, asking for direct presidential elections — or being a United Nations-appointed expert, for that matter. Nobody besides businessmen or crooked politicians will do.

Mr. Temer’s approval rating has recently dropped to 7 percent. Last month, Brazil’s prosecutor general officially charged him with corruption. Other charges of bribery and obstruction of justice are being prepared. “They want to stop the country, stop the Congress,” Mr. Temer has said, arguing that those accusations are an attack on the presidency itself. “I won’t let that diminish my mood,” he added. A clairvoyant capybara would make for a more democratic leader.

So all the solidarity of Brazilian people goes to the intrepid United Nations special rapporteurs. Let’s keep working together on being neglected. As Érico Veríssimo, a Brazilian novelist, said, the least writers can do is hold up our lamps and bring some light to atrocities and injustice. And “if we do not have a light bulb, let’s light our candle stumps or, as a last resort, repeatedly strike some matches as a sign that we did not desert our post.”

A filipina Victoria Tauli-Corpuz, relatora especial das Nações Unidas para os direitos dos povos indígenas em 2016. Reprodução Facebook.

The New York Times
12 de julho de 2017

por Vanessa Barbara

Trad. George El Khouri Andolfato

Escritores são ignorados. Observadores de direitos humanos são repelidos. Será que alguém é capaz de induzir o governo do Brasil a corrigir seu rumo?

Até recentemente, eu achava que ser escritor era a profissão mais lamentável de todas, especialmente no Brasil. Ninguém lê nossos livros e podemos facilmente passar toda a vida protestando contra as mesmas coisas repetidas vezes. Em geral, nós, escritores brasileiros, não temos impacto nenhum. Um bando de capivaras locais, que acredita-se serem capazes de prever a sorte, são mais respeitadas que nós.

Mas encontrei outro emprego ainda mais doloroso: o de relator especial das Nações Unidas. Os relatores são peritos independentes que trabalham de forma não remunerada em nome das Nações Unidas no monitoramento de países, governos e políticas. Eles costumam ser nomeados para mandatos de três anos. E são completamente ignorados.

Meus caros e corajosos amigos: eu entendo sua dor. Toda vez que pesquiso sobre um grave assunto local relacionado a, digamos, educação, meio ambiente, brutalidade policial, racismo ou direitos da mulher, encontro uma declaração séria, precisa, repleta de fatos de um relator especial condenando a situação. Várias e várias vezes.

Há quase dois anos, por exemplo, Juan E. Méndez, um advogado de direitos humanos argentino que foi nomeado relator especial para tortura e outros tratamentos e punições cruéis, desumanas ou degradantes, pediu às autoridades brasileiras que tratassem imediatamente da superlotação das prisões, assim como implantassem medidas contra a tortura.

Após visitar muitos dos presídios e cadeias do Brasil, Méndez coletou depoimentos críveis sobre tortura e maus-tratos pela polícia. Ele recomendou que as autoridades brasileiras providenciassem urgentemente audiências de custódia para todos os detidos em até 48 horas após a detenção e remodelassem essas audiências visando encorajar as vítimas a falarem e permitir documentação eficaz da tortura e maus-tratos.

Mas quem daria ouvidos a um argentino, não é? No ano que se passou desde a divulgação de seu relatório, as prisões brasileiras relataram mais de uma morte violenta por dia. A população carcerária tem aumentado regularmente desde o informe do relator, e nos primeiros 15 dias de 2017, mais de 130 presos foram mortos durante brigas entre gangues rivais.

Em 2016, Victoria Tauli-Corpuz, uma ativista das Filipinas que foi nomeada relatora especial das Nações Unidas para os direitos dos povos indígenas, visitou o Brasil para identificar as questões enfrentadas pela população nativa e acompanhar as recomendações feitas pelo relator especial anterior.

Ela documentou não apenas “uma ausência perturbadora de progresso na implantação das recomendações dele”, como também uma séria regressão na proteção dos direitos dos povos indígenas. Posteriormente, Tauli-Corpuz também acentuou o fato de que, imediatamente após sua missão, muitas das comunidades que ela visitou registraram um aumento de ataques.

11.jan.2014 – Juan Ernesto Méndez, relator especial sobre tortura da ONU. Foto: Martial Trezzini/Keystone/AP

Logo, esses relatores especiais não são apenas ignorados, mas aparentemente também desafiados. “É deplorável o fato de que, apesar de meus alertas anteriores, as autoridades estaduais e federais tenham fracassado em adotar medidas imediatas para prevenir a violência contra os povos indígenas”, disse Tauli-Corpuz, quando outra morte que poderia ter sido evitada ocorreu três meses após seu relatório inicial.

A mesma coisa aconteceu com a emenda constitucional estabelecendo um teto no aumento dos gastos públicos. O Senado aprovou orgulhosamente a emenda poucos dias após a divulgação de um relatório condenatório escrito por Philip Alston, um relator especial das Nações Unidas para pobreza extrema e direitos humanos.

No parecer de Alston, a lei, que impõe um teto de 20 anos aos gastos federais, “congelará os gastos em níveis inadequados e rapidamente decrescentes na saúde, educação e previdência, colocando, portanto, toda uma geração futura em risco de receber uma proteção social muito abaixo dos níveis atuais”. A resposta do governo? Tanto faz.

Mas os relatores não deveriam se sentir discriminados. Não se trata de algo pessoal. A habilidade do governo brasileiro de ignorar seus críticos é universal. Segundo uma pesquisa Datafolha, 60% dos brasileiros rejeitam os planos para reforma da Previdência, mas, mesmo assim, a lei está prestes a ser aprovada. Um legislador disse que os protestos populares – que não foram poucos – não mudarão seus votos.

O próprio presidente Michel Temer declarou que a “modernização da legislação nacional” continuará e que qualquer “debate amplo, sincero” deve ser realizado na arena apropriada: o Congresso. Assim, de nada vale protestar nas ruas, organizar greves, pedir por eleições presidenciais diretas, ou mesmo ser um especialista nomeado pelas Nações Unidas. Ninguém é capaz de fazer diferença, exceto empresários e políticos corruptos.

O índice de aprovação de Temer caiu recentemente para 7%. No mês passado, o procurador-geral da República o denunciou oficialmente por corrupção. Outras acusações de recebimento de propina e obstrução da Justiça estão sendo preparadas. “Querem parar o país, parar o Congresso”, disse Temer, argumentando que as acusações são um ataque à própria Presidência. Ele acrescentou que não permitiria que isso abalasse seu humor. Uma capivara clarividente daria um líder mais democrático.

Assim, toda a solidariedade do povo brasileiro aos intrépidos relatores especiais das Nações Unidas. Vamos continuar trabalhando juntos em nosso ofício de sermos ignorados. Como disse Érico Veríssimo, “o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, trazer luz sobre a realidade de seu mundo”. E “se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto”.

The New York Times
30 de maio de 2017

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

Trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves / UOL Notícias

Em 30 de abril, um grupo de fazendeiros armados com rifles e machados atacou um assentamento de cerca de 400 famílias da tribo gamela, no Estado do Maranhão, no nordeste do Brasil. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, um grupo de defesa dos direitos indígenas, 22 índios ficaram feridos, inclusive três crianças. Muitos receberam tiros nas costas ou tiveram os punhos decepados.

Pouco depois do ataque, o Ministério da Justiça anunciou em seu site na web que iria investigar “o incidente entre pequenos agricultores e supostos indígenas”. (Minutos depois a palavra “supostos” foi retirada.)

Isto não deveria causar surpresa. Foi o terceiro ataque relatado contra o povo gamela em três anos e faz parte de uma tendência de atos violentos contra indígenas brasileiros. Toda semana parece trazer a notícia de uma nova atrocidade cometida contra povos indígenas em alguma parte remota do país. Mas nada mais parece chocar a sociedade brasileira. Nem mesmo quando, algumas semanas atrás, uma criança de 1 ano da tribo Manchineri levou um tiro na cabeça.

Esses ataques fazem parte de um padrão mais amplo de abusos, marginalização e negligência. Desde 2007, 833 índios foram assassinados e 351 cometeram suicídio, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena –índices muito superiores à média nacional. Entre as crianças, o índice de mortalidade é duas vezes mais alto que no restante da população brasileira.

Segundo o Censo, restam cerca de 900 mil indígenas da população original, estimada entre 3 milhões e 5 milhões, que habitavam o país quando os colonizadores portugueses chegaram em 1500. Doenças importadas da Europa dizimaram milhões deles durante o primeiro século de contato. Mais tarde, os indígenas foram escravizados nas plantações.

Mas o genocídio não terminou aí. Durante o século passado, dezenas de milhares de indígenas foram vítimas de estupro, tortura e assassinato em massa, cometidos com a ajuda de um órgão governamental, o Serviço de Proteção ao Índio. Algumas tribos foram completamente eliminadas. Hoje, somente 12,5% da terra brasileira continuam em posse dos povos indígenas.

A história dos guarani-kaiowás, do Estado de Mato Grosso do Sul (oeste do Brasil), é típica dos problemas enfrentados pelos grupos indígenas. Os guarani-kaiowás foram expulsos de suas terras ancestrais no final dos anos 1940, quando o governo concedeu títulos de propriedade aos fazendeiros e pecuaristas da região. Então eles se mudaram para reservas superlotadas e acampamentos à beira de estradas.

A situação da tribo parecia prestes a melhorar em 1988, quando o Brasil aprovou uma nova Constituição que reconhecia os direitos dos povos indígenas às terras que ocupavam tradicionalmente. O governo deveria demarcar esses territórios em cinco anos após a aprovação da Constituição. Demorou mais do que se esperava: a identificação e demarcação das terras dos guarani-kaiowás começou em 1999 e foi concluída em 2005.

Eles voltaram ao seu território –mas só brevemente. Meses depois, seguindo uma petição de fazendeiros locais, um juiz federal suspendeu o decreto que teria demarcado oficialmente suas terras. Mais uma vez a tribo foi expulsa.

Em agosto de 2015, alguns guarani-kaiowás decidiram reocupar parte de seu território. Acamparam em terras de propriedade dos fazendeiros, que tinham outros planos. Segundo relatos, eles contrataram milícias armadas para tentar expulsar a tribo. Semião Vilhalva, um líder tribal, foi morto a tiros.

Houve relatos de tortura, violação e rapto de crianças. Menos de um ano depois, outro ataque matou um líder guarani-kaiowá e nove pessoas foram feridas a tiros. Cinco fazendeiros locais foram detidos por participação no ataque, mas foram liberados após alguns meses.

Os indígenas que não são mortos ou sequestrados enfrentam outro desafio: ser apagados. Como muitos deles foram empurrados para os subúrbios das cidades e obrigados a adotar novos hábitos (como usar jeans, motocicleta e telefone celular), eles também enfrentam o estigma de serem chamados de “falsos índios”. Pouco antes do ataque no Maranhão no mês passado, um congressista chamou publicamente as vítimas de “pseudoindígenas”.

Depois do assassinato de Vilhalva, o líder tribal guarani-kaiowá, o representante de direitos humanos da ONU na América do Sul, Amerigo Incalaterra, pediu que o governo protegesse os direitos dos povos indígenas, incluindo seu direito à terra. O governo do Brasil adiou a demarcação das terras tribais e permitiu que indígenas sofressem violência por causa de conflitos com proprietários de terras, segundo ele.

Incalaterra pediu que as autoridades “detivessem a expulsão das comunidades guarani-kaiowás e concluíssem com urgência o processo de demarcação de suas terras”.

Isso parece cada vez menos provável. Aproximadamente a metade do Congresso brasileiro está ligado aos proprietários rurais. O governo do presidente Michel Temer está tão emaranhado com o lobby rural que recentemente nomeou Osmar Serraglio, um proeminente membro do grupo do agronegócio, para ministro da Justiça.

Temer também indicou um general militar como chefe interino da Fundação Nacional do Índio, apesar de vigorosos protestos das comunidades nativas. No início de maio, uma comissão parlamentar de inquérito criada e formada por membros da bancada rural emitiu um relatório condenando as atividades de “supostos” povos indígenas, uma dúzia de antropólogos, alguns advogados do Estado e membros de organizações de direitos indígenas, inclusive o Conselho Indigenista Missionário.

A menos que haja uma reação pública em defesa dos povos indígenas do Brasil, eles continuarão morrendo –expulsos de suas terras, oficialmente silenciados, assassinados, destruídos pela desnutrição e a doença–, e o genocídio estará completo. 


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves/ UOL Notícias

The New York Times
May 30th, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Leer en español

 

Jose Ribamar from Brazil’s indigenous Gamela tribe is pictured next to his daughter at a hospital after he was injured in a dispute over land in northern Brazil, in São Luis, Maranhão state, Brazil. Credit: Lunae Parracho/Reuters

 

SÃO PAULO, BRAZIL — On April 30, a group of ranchers armed with rifles and machetes attacked a settlement of about 400 families from the Gamela tribe, in the state of Maranhão, in northeastern Brazil. According to the Indigenous Missionary Council, an advocacy group, 22 Indians were wounded, including three children. Many were shot in the back or had their wrists chopped.

Soon after the attack, the Ministry of Justice announced on its website that it would investigate “the incident between small farmers and alleged indigenous people.” (Minutes later, the word “alleged” was removed.)

This shouldn’t have come as a surprise. It was the third reported attack on Gamela people in three years and part of a trend of assaults against indigenous Brazilians. Every week seems to bring reports of a new atrocity committed against indigenous people in some remote part of the country. But nothing seems to shock our society anymore. Not even when, a few weeks ago, a 1-year-old from the Manchineri tribe was shot in the head.

These attacks are part of a larger pattern of abuse, marginalization and neglect. Since 2007, 833 Indians have been murdered and 351 have committed suicide, according to the Special Secretariat for Indigenous Health — rates far above the national average. Among children, the mortality rate is two times higher than in the rest of the Brazilian population.

According to the census, there are around 900,000 Indians left from the original estimated three to five million who inhabited the country when the Portuguese settlers arrived in 1500. Diseases imported from Europe wiped out millions during the first century of contact. Later the Indians were enslaved on plantations. But the genocide didn’t end then. Over the past century, tens of thousands of indigenous people have been victims of rape, torture and mass murder, perpetrated with the help of a governmental agency, the Indian Protection Service. Some tribes were completely eliminated. Today, only 12.5 percent of Brazilian land remains in the possession of indigenous people.

The story of the Guarani-Kaiowa, from the western state of Mato Grosso do Sul, is typical of the trials indigenous groups face. The Guarani-Kaiowa were first expelled from their ancestral lands in the late 1940s, when the government granted farmers and ranchers titles to the area. They then moved to overcrowded reservations and roadside camps.

The tribe’s situation seemed poised to improve in 1988, when Brazil adopted a new Constitution that recognized the rights of indigenous people to the lands they traditionally occupied. The government was supposed to demarcate those territories within five years of the Constitution’s enactment. It took longer than expected: The identification and demarcation of the Guarani-Kaiowa’s land started in 1999 and was completed in 2005. They returned to their territory — but only briefly. Months later, following a petition by local ranchers, a federal judge suspended the decree that would have officially demarcated their land. Once again, the tribe was evicted.

In August 2015, some of the Guarani-Kaiowa decided to reoccupy part of their territory. They camped on land owned by ranchers. The landholders had other plans: According to reports, they hired armed militias to try to drive the tribe out. Semião Vilhalva, a tribal leader, was shot and killed. There were accounts of torture, rape and child abduction. Less than a year later, another attack killed a Guarani-Kaiowa leader and nine people were shot. Five local farmers were detained for taking part in the raid but were released after a few months.

The indigenous people who aren’t killed or abducted face another challenge: being erased. Since many of them have been pushed to the outskirts of cities and towns, and forced to adopt new habits (like wearing jeans, riding motorcycles and using cellphones), they also have to face the stigma of being called “fake Indians.” Soon before the attack in Maranhão last month, a congressman publicly called the victims “pseudo-indigenous people.”

After the murder of Mr. Vilhalva, the Guarani-Kaiowa tribal leader, the United Nations human rights representative for South America, Amerigo Incalaterra, urged the government to protect the rights of indigenous people, including their right to land. Brazil’s government had delayed demarcating tribal land and allowed indigenous people to suffer violence because of conflicts with landowners, he said. Mr. Incalaterra called on the authorities “to stop evictions of Guarani-Kaiowa communities and to urgently complete the process of demarcation of their lands.”

That seems less and less likely. Around half of Brazil’s Congress is linked to the rural caucus. The government of President Michel Temer is so entangled with the rural lobby that he has just named Osmar Serraglio, a prominent member of the agribusiness caucus, as minister of justice. Mr. Temer also appointed a military general as the interim head of the National Indian Foundation, despite vigorous protests from the native communities. At the beginning of this month, a parliamentary commission created and formed by members of the rural caucus issued a report condemning the activities of “alleged” indigenous people, a dozen anthropologists, a few state’s attorneys and members of indigenous rights organizations, including the Indigenous Missionary Council.

Unless there is a public outcry in defense of Brazil’s indigenous people, they will continue to die — cut off from their lands, officially silenced, murdered, ravaged by malnutrition and disease — and the genocide will be complete.

 


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on May 30, 2017, in The International New York Times.

Los ataques contra los indígenas de Brasil (traducción)

Posted: 31st maio 2017 by Vanessa Barbara in Traduções

The New York Times
May 30th, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Read in English

Jose Ribamar de la tribu gamela en el hospital junto a su hija. Fue herido en una disputa por tierras en São Luis, en Maranhao, al norte de Brasil. CreditLunae Parracho/Reuters

SÃO PAULO — El 30 de abril, un grupo de rancheros armados con rifles y machetes atacó un asentamiento de cerca de 400 familias de la tribu gamela, en el estado de Maranhão, en el noreste de Brasil. De acuerdo con el Consejo Indigenista Misionero, un grupo de activistas, veintidós indígenas resultaron heridos, entre ellos tres niños. A muchos les dispararon por la espalda o les cortaron las muñecas.

Poco después del ataque, el Ministerio de Justicia anunció en su página web que investigaría “el incidente entre pequeños campesinos y presuntas personas indígenas” (tras unos cuantos minutos se eliminó la palabra “presuntas”).

Esto era de esperarse. Fue el tercer ataque registrado contra el pueblo gamela en tres años y parte de una ola de asaltos contra indígenas brasileños. Todas las semanas parece haber reportes de una nueva atrocidad cometida en contra de los indígenas en algún paraje remoto de Brasil. Sin embargo, ya nada parece impactar a la sociedad brasileña. Ni siquiera cuando, hace unas semanas, le dispararon en la cabeza a un bebé de un año de la tribu manchineri.

Esos ataques son parte de un patrón más amplio de abuso, marginación y falta de atención. Desde 2007, han sido asesinados 833 indígenas y 351 se han suicidado, de acuerdo con la Secretaría Especial de Salud Indígena; estas tasas son mucho más altas que el promedio nacional. Entre los niños, la tasa de mortalidad es dos veces mayor que en el resto de la población.

Según el censo, en la actualidad hay 900.000 indígenas de los entre tres y cinco millones que habitaban el país cuando llegaron los conquistadores portugueses en 1500. Las enfermedades traídas de Europa arrasaron con millones durante el primer siglo de contacto. Más tarde, se les esclavizó en plantaciones. No obstante, ahí no terminó el genocidio.

Durante el siglo pasado, decenas de miles de indígenas fueron víctimas de violaciones, tortura y asesinatos en masa, perpetrados con ayuda de una agencia gubernamental, el desaparecido Servicio de Protección al Indio. Algunas tribus fueron completamente eliminadas. Actualmente, solo el 12,5 por ciento de la tierra en Brasil sigue en manos de los indígenas.

La historia de los guaraní-kaiowá, del estado occidental de Mato Grosso del Sur, es típica de los obstáculos que enfrentan los grupos indígenas. Primero, se les expulsó de sus tierras ancestrales a finales de la década de 1940, cuando el gobierno otorgó títulos de propiedad en esa zona a campesinos y rancheros. Luego, fueron enviados a reservas sobrepobladas y a campamentos a las orillas de las carreteras.

Parecía que la situación de la tribu mejoraría en 1988, cuando Brasil adoptó una nueva constitución que reconocía los derechos de los indígenas a las tierras que tradicionalmente hubieran ocupado. Se suponía que el gobierno demarcaría esos territorios en los cinco años siguientes a la entrada en vigor de la Constitución. Llevó más tiempo del esperado: la identificación y demarcación de las tierras de los guaraní-kaiowá comenzó en 1999 y terminó en 2005. Regresaron a su territorio, pero solo durante un periodo corto. Meses después, tras una demanda por parte de los rancheros locales, un juez federal suspendió el decreto con el que sus tierras quedaban demarcadas. La tribu, de nuevo, fue desalojada.

En agosto de 2015, algunos guaraní-kaiowá decidieron volver a ocupar parte de su territorio. Acamparon en tierras ahora propiedad de los rancheros. Los terratenientes tenían otros planes: de acuerdo con los reportes, contrataron milicias armadas para que sacaran a la tribu. A Semião Vilhalva, el jefe de la tribu, le dispararon y lo mataron. Hay recuentos de tortura, violaciones y secuestro de niños. Menos de un año después, en otro ataque, mataron a otro jefe guaraní-kaiowá y les dispararon a nueve personas. Arrestaron a cinco granjeros locales por participar en el asalto, pero se les dejó en libertad tras unos cuantos meses.

Los indígenas que no son asesinados o secuestrados enfrentan otro reto: que se les borre. Puesto que muchos de ellos se han visto forzados a irse a las afueras de las ciudades y los pueblos, donde adoptan nuevas costumbres (como usar pantalones de mezclilla, andar en motocicleta y tener teléfonos celulares), deben hacer frente al estigma de ser llamados “indígenas falsos”. Poco antes del ataque de este mes en Maranhão, un senador se refirió públicamente a las familias gamelas como “seudoindígenas”.

Después del asesinato del jefe de la tribu guaraní-kaiowá, Vilhalva, el representante en Sudamérica del Alto Comisionado de la ONU para los Derechos Humanos, Amerigo Incalcaterra, urgió al gobierno a proteger los derechos de los indígenas, incluyendo su derecho a la tierra. El gobierno brasileño retrasó la demarcación de las tierras indígenas y permitió que los pueblos indígenas sufrieran la violencia debida a los conflictos con los terratenientes, señaló. Incalcaterra convocó a las autoridades “a detener los desalojos de las comunidades guaraní-kaiowá y finalizar de manera urgente el proceso de demarcación de sus tierras”.

Eso parece cada vez menos probable. Cerca de la mitad del Congreso de Brasil tiene vínculos con cabilderos rurales. El gobierno del presidente Michel Temer es tan cercano que acaba de nombrar a Osmar Serraglio, un miembro destacado del grupo de la agroindustria, como ministro de Justicia. Temer también designó a un general del ejército como jefe interino de la Fundación Nacional del Indio, a pesar de las vigorosas protestas por parte de las comunidades originarias.

A principios de mayo, una comisión parlamentaria creada y conformada por miembros del cabildo rural emitió un informe en el que condena las actividades de “presuntos” indígenas, así como de una decena de antropólogos, unos cuantos fiscales y miembros de organizaciones de derechos indígenas, incluyendo al Consejo Indigenista Misionero.

A menos que haya un clamor público en defensa de los indígenas de Brasil, continuarán muriendo —aislados de sus tierras, oficialmente silenciados, asesinados, devastados por la desnutrición y las enfermedades— y así se concluirá su genocidio.

Cratera Estúdio

Revista Serafina – Folha de S. Paulo
7 de maio de 2017

por Vanessa Barbara

Já disse por aqui que ser “toda errada” demonstra um senso elevado de sofisticação e cosmopolitismo, além de fornecer alegria às pessoas direitas. Neste texto, vou abordar a importância histórica da falta absoluta de discernimento para o progresso da humanidade.

Penso em Alexander Fleming, que saiu de férias e esqueceu suas culturas de estafilococos empilhadas num canto do laboratório. Ao voltar, reparou que uma delas havia sido contaminada por um bolor e que, em torno dela, não havia mais bactérias. “Que engraçado”, comentou. Foi assim que descobriu o “suco de mofo”, ou seja, a penicilina: porque era meio avoado.

Teve também o químico russo Constantin Fahlberg, que passou o dia examinando amostras de alcatrão de carvão e se esqueceu de lavar as mãos. Na hora da janta, notou que seu pãozinho estava doce, assim como (estranhamente) o guardanapo, então voltou ao laboratório e descobriu a sacarina. Entrou para a história da ciência por falta de asseio pessoal.

O marca-passo foi inventado após o uso de um resistor errado, e o vidro blindado, depois que um cientista deixou cair um pote no chão. O velcro, o picolé, o post-it e o micro-ondas também têm origem em trapalhadas.

Donde se conclui que ser distraído, porcalhão e estabanado não é sempre ruim.

Mais que isso: pode ser revolucionário. Um dos muitos célebres “errados” da história foi Homer Plessy, que, em 1896, foi condenado na Suprema Corte norte-americana por ter se sentado no lugar errado do trem. Ele embarcou no vagão exclusivo para brancos, sendo que possuía ascendência negra.

Décadas depois, Rosa Parks até que “acertou” qual era o banco reservado para negros no ônibus, mas errou ao se recusar a ceder lugar a um passageiro branco. Sua falta de reverência à ordem estabelecida deu início ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, ainda que, à época, a atitude fosse considerada uma tremenda falta de educação. Parks foi chamada de “encrenqueira”, “agitadora” e “pessoa de baixo calibre”.

Outro desajustado que fez história foi Mahatma Gandhi, que, além de ser desdentado e vegetariano, resolveu produzir as próprias roupas e o próprio sal. Foi chamado de “encrenqueiro” e “com potencial limitado”.

Convenhamos: o velho Mohandas jamais se sairia bem numa entrevista de emprego ou num jantar na embaixada. Provavelmente usaria o garfo de peixes para lidar com os legumes.

Já o escritor Liev Tolstói limpava a casa, lavrava o campo e produzia suas vestimentas. Acabou fugindo da família – de hábitos luxuosos – só para poder levar uma vida mais simples. (Consta que passaria o maior vexame no coquetel de lançamento de “Guerra e Paz”.)

Todos eles de alguma forma não se adequavam, e talvez por isso acabaram conduzindo grandes progressos: sua falta de jeito lhes dava uma outra perspectiva.

E as suffragettes? Foram tachadas de “histéricas”, “grosseiras” e “pouco femininas”. Fica a sugestão.

Carta de recomendação

Posted: 8th maio 2017 by Vanessa Barbara in Sem categoria

Tourists with a pink dolphin in the Amazon River in Brazil.
Credit: Flavio Varricchio/Brazil Photos, via LightRocket, via Getty Images

The New York Times
April 21, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing opinion writer

MANAUS, Brazil — The “encontro das águas” (meeting of waters) between the dark Negro River and the light-brown Solimões River is impressive. No wonder it’s one of the main tourist attractions near the city of Manaus, capital of the state of Amazonas. For several miles, the two gigantic rivers flow side by side without mixing because of their difference in water composition, flow rate and density. (You can feel the variation of temperature by putting your hand in the water as the boat crosses the visually distinct line.) When the Negro and the Solimões finally merge, they form the Amazon, the world’s largest river by discharge of water and one of the longest.

When I recently went on a boat tour in the Janauari Ecological Reserve, near the meeting of waters, the boatman asked if I would also like to visit a family of ribeirinhos (riverside dwellers) who have a caiman, a sloth and a snake. “You can take selfies with the animals, and later give them some gratification,” he told me, euphemistically suggesting tips for the people who keep the animals. I vociferously declined.

We resumed our navigation on the small motorboat through cool, peaceful igarapés (forest streams) leading to dazzling igapós (swampy, flooded forests). It seemed as if a dam had ruptured somewhere and the place was about to be submerged. Trees as high as buildings were half drowned by the river. The boatman became less talkative, as if I’d offended him by refusing his last offer. I enjoyed the scenery; there was no need to hug illegally domesticated sloths.

Brazil still has a long way to go in the field of ecotourism. While in some places, as on the island of Fernando de Noronha, in the northeast, the rules concerning wildlife preservation are strict, in others there is less attention to long-term conservation and the ecological and social impact of tourism, often leading to the pure and simple exploitation of animals, as well as local people and their cultures.

One of the most profitable tourist activities in the Amazon is swimming alongside pink dolphins or feeding them from a flutuantea private floating deck, often situated within a national park. Tourists regularly ride, restrain and harass the dolphins. Some even lift them out of the water for photographs. (Sometimes this is done with the encouragement of a tour guide.) There are accounts of people being accidentally bitten, and on one occasion, a man retaliated by punching the dolphin.

A few years ago, a commission of federal agencies and research institutes issued local guidelines for the activity — including the amount of food to be offered and the requirement that only tour guides could feed the dolphins — but few people adhere to them. According to the owner of one flutuante, tourists must only avoid touching the dolphin’s blowhole. (Please!)

There’s no federal legislation prohibiting feeding and touching the dolphins. As a result, their behavior has already changed: Many now survive on the frozen fish provided by tourism groups. They’re also conditioned to stay close to the flutuantes and to humans. According to researchers, aggression is now common among the dolphins.

Another popular activity in the Brazilian Amazon is caiman-spotting. In the evening, groups of people cruise the riverbanks, seeking out the huge nocturnal lizards that resemble crocodiles. It wouldn’t be disruptive if so many guides didn’t make a point of jumping in the water to grab the caimans and hold them up for photos.

Amazon tour operators also offer recreational fishing of piranha, the omnivorous fish with sharp teeth and a ferocious reputation, and fake fishing of pirarucu, an ancient, giant fish that is at risk of extinction. The latter takes place in enclosed water tanks. In some ways, it’s better because the pirarucus aren’t injured by hooks, only mildly harassed by tourists trying to lift them out of the water.

Alter do Chao has grown in popularity with Brazilian and foreign tourists in recent years, earning itself the nickname the “Caribbean of the Amazon,” leading some to worry about over development, and its environmental impact on the fragile ecosystem. Credit: Bryan Denton for The New York Times

All of these activities take advantage of a lack of clear laws governing ecotourism and the use of natural resources. Tour operators promote packages by using questionable environmentalist phrases. One advertises “ecological fishing”; another promises to have the federal environmental agency’s authorization to take tourists swimming with dolphins. That’s enough for most people visiting the Amazon — even if it’s not true. The local people who keep wild animals as pets to lure tourists often claim that they release the animals at night and recapture them in the morning.

Animals are not the only ones being abused. Another popular activity in Manaus is a visit to an indigenous community formed by five ethnic groups (Dessana, Tukana, Tuyuca, Wanana and Tatuia), which some tour operators deceitfully describe as a “tribe.” Since the beginning of the last century, the indigenous people, who are perhaps Brazil’s most marginalized and impoverished population, have migrated (or been expelled) from their original lands. (And I’m talking only about the small remnant left after the genocides that started with the arrival of the Portuguese.) They stage traditional music and dance performances for the guests of expensive jungle lodges.

Indigenous people are often forced by their employers to meet tourists’ stereotypes: the romantic, noble savage with slightly frightening rituals and no refrigerator. But that’s not the worst part. Indigenous people didn’t know that some of their bosses have traditional practices of their own: For five years, 34 Tariano people worked for a jungle lodge in exchange for only leftover food and a collective paycheck of $30 per performance. Others are not even paid and instead rely on selling handicrafts and jewelry to the visitors. There is no industry-standard agreement on the fair share of revenues for indigenous groups, and again, no federal regulation. It seems nothing will change until indigenous people themselves have the means to control all aspects of the experience they offer to tourists — and also reap the profits.

On the other hand, many jungle lodges and tour operators are becoming more aware of these issues. Environmentally conscious tourists are also pushing for changes. The sustainable Uakari Lodge in the Mamirauá Reserve, for example, is run by members of the local community. So maybe there is some progress.

In another jungle lodge called Anavilhanas, better attuned to an environmental conscience, I’ve enjoyed the most jaw-dropping tour of my trip: a simple kayak expedition through igarapés and igapós, stopping here and there to watch birds, monkeys and spiders at a distance. In the Amazon, there’s no need to do more than that.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on April 21, 2017, on Page A11 of the National edition with the headline: Don’t punch the dolphins.

Chique é ser toda errada

Posted: 9th abril 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo

Folha de S. Paulo – Revista Serafina
26 de março de 2017

por Vanessa Barbara

Eu roubo pedaços de bolo que as pessoas deixam na mesa, depois que elas vão embora e antes que os garçons venham recolher os pratos. Eu empurro a comida com a faca e arremesso sem querer tomatinhos desgovernados no comensal ao lado. Uma vez eu estava com fome no aeroporto de Estocolmo e só tinha dinheiro para comprar um salgado; complementei a refeição tomando o smoothie de uma moça desconhecida que talvez só tivesse feito uma pausa para ir ao banheiro.

Ouvi dizer que está na moda ser meio torto, uma pessoa pouco ou nada elegante que se destaca pela capacidade sobre-humana de passar vexame. Sou internacionalmente reconhecida como aquela que acionou o alarme de emergência em um sofisticado hotel londrino porque achou que fosse a cordinha da descarga. Funcionários quase arrombaram a porta para me resgatar do que quer que sejam as emergências dos super-ricos: Um ataque de nojo ao perceber que tem um cabelo na pia? Descobrir de repente que a sola do seu Louboutin é lilás? Até hoje eu hesito antes de dar a descarga em banheiros de estabelecimentos de estirpe.

Anotem aí: agora também é chique pegar coisas do lixo – está de testemunha aqui ao meu lado um organizador vertical de papéis em acrílico de alta qualidade, encontrado numa caçamba no Mandaqui – e posso ou não estar exagerando ao afirmar que a minha mãe uma vez experimentou um par de sandálias que estava largado na esquina. (Não era do tamanho certo.) Também já levei para casa uma maca de resgate do Corpo de Bombeiros. Não perguntem.

Outra grande tendência para 2017 é desequilibrar-se em situações variadas, com destaque para perder o aprumo no ônibus e cair no colo de um estranho. A falta absoluta de um senso de localização é essencial para indivíduos que queiram brilhar nessa área; convém um dia fazer como esta colunista e se perder dentro da estação Paraíso do metrô, tentando encontrar a saída que dá para o outro lado da rua e caindo sempre no mesmo lugar. Várias vezes. Várias. Mesmo. E sempre fazer questão de alardear seus feitos para amigos e parentes, gabando-se de suas habilidades invejáveis de não conseguir se ajustar ao mundo das pessoas dignas. 

Eu particularmente já apoiei um copo de bebida numa obra de arte, pensando que era só um móvel rebuscado, e perguntei a um intelectual que trabalhava no IMS (Instituto Moreira Salles) como estava a rotina no IML (Instituto Médico-Legal). A resposta foi: “De fato as coisas lá estão meio mortas”. Já confundi Chico Mendes com Chico Xavier e RuPaul com Ron Paul, e fui flagrada afirmando que cobras eram anfíbios.

É disso que estou falando: alto nível.

Porque o segredo é manter a pose e fingir que foi calculado, como naqueles momentos em que você tenta abrir a janela do ônibus, não consegue e finge que estava só se espreguiçando. Ou quando você está de pé e o motorista freia, aí você sai tropeçando e lacrando muito pelo corredor como se estivesse apresentando um número de sapateado.

Conselho de profissional: tudo fica requintado se você faz jazz hands no final.

Um brinde ao “não”

Posted: 27th março 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Site Bayer Jovens
15 de março de 2017

por Vanessa Barbara

Em Wanju, na Coreia do Sul, uma mulher de 69 anos de idade passou mais de cinco anos tentando tirar a carteira de motorista. Ela comparecia quase todos os dias ao local do teste escrito, que ficava numa cidade distante, e falhava estrondosamente. Apesar da descrença de seus professores, continuava tendo aulas, estudando e repetindo a prova. Tentava memorizar as questões e as respostas, mesmo que não entendesse bem o sentido.

Finalmente, após 949 tentativas, Cha Sa-soon passou no teste. Mais dez míseras investidas no exame prático e ela enfim tirou a carta, para delírio dos funcionários e de todo o país, que já acompanhavam atentamente a saga. “Eu queria a carteira de motorista para poder levar os meus netos ao zoológico”, explicou. Além disso, ter um carro facilitaria em seu trabalho com a venda de legumes.

Há um ditado coreano que diz: “Nocauteado quatro vezes, levantou-se cinco”. Por mais paradoxal que seja, receber um “não” categórico pode ser positivo, pois nos obriga a seguir caminhos inesperados e nos fortalece de uma forma que os sucessos não são capazes de fazer.

Uma tonelada de escritores famosos coleciona por esporte cartas de rejeição de editoras – Harry Potter foi desdenhado várias vezes antes de ser publicado. Esnobado por 14 casas editoriais, o lendário poeta E. E. Cummings teve de pedir dinheiro emprestado à mãe para publicar seu primeiro livro, que ele intitulou No, Thanks (Não, Obrigado) e dedicou nominalmente às editoras que o menosprezaram.

Mas é claro que uma história de fracasso pode apenas ser uma história de fracasso, sem nenhum tipo de redenção apoteótica por trás – pelo menos não aparentemente. A recompensa vem apenas aos poucos, com o tempo, quando olhamos para trás e notamos que as coisas até que se encaixam.

Minha primeira grande rejeição foi quando não passei no vestibular da Fuvest, depois de uma vida inteira de notas altas. Achei que ali meu destino já estivesse selado, ainda mais porque acabei optando por uma faculdade particular que não estava à altura das minhas pretensões ao Pulitzer. Não ganhei a bolsa de iniciação científica que eu queria, mas ganhei outra. Quando já estava resignada a trabalhar para sempre como revisora de um site de fofocas, tive oportunidades aqui e ali e, no fim das contas, fui parar em lugares incríveis.

Recebi incontáveis cartas de recusa do meu primeiro livro, que acabou ganhando o Prêmio Jabuti de Reportagem. Não passei no teste de proficiência em inglês da faculdade e hoje escrevo para o New York Times. Fui preterida e demitida de empregos uma porção de vezes, e me senti bastante fracassada outras tantas.

Talvez, se eu tivesse passado naquele vestibular, seria agora prepotente e preguiçosa. Em lugar disso, fui seguindo com esforço todos os caminhos que se abriram.

E afinal, quem se importa se Cha Sa-soon não é a melhor motorista do continente asiático e se jamais irá competir na Fórmula 1? Pelo menos agora ela vai poder levar os netos ao zoológico. E vender seus legumes.