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O Estado de São Paulo – Caderno 2
8 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

A ideia desta crônica era escrever sobre o MC Bin Laden, expoente do funk paulistano nascido em Vila Progresso, na zona leste, e que tem causado comoção com um videoclipe filmado na laje, de nome “Tá Tranquilo, Tá Favorável (Part 2)”. Só que um leitor mais ríspido poderia parar de ler por aqui e fazer o comentário: “… Lixo cultural. Esse tipo de porcaria musical é a prova de que a civilização se encontra em iminente derrocada, conforme comprovado semana após semana por esta adiposa cronista.”

Pensei em descrever como é engraçado quando, no clipe, MC Bin Laden sai teatralmente de dentro de uma caixa d’água, juntando-se a um rapaz de moletom, outro com um braço pra fora da camiseta e mais figuras notáveis, e começa a cantar: “Tá tranquilo, tá favorável” com a ajuda de uma percussão unicamente vocal. Ao mesmo tempo, eles dançam ritmos desencontrados e fazem um passinho assaz incongruente. (Alguns leitores não acharão graça nenhuma, aproveitando para observar que Heitor Villa-Lobos jamais filmaria um clipe na laje.)

Caso todas as fibras do meu ser não estivessem trabalhando para me demover dessa ideia de crônica, eu diria também que há pouco saiu uma versão axé do vídeo, tão surreal quanto a outra, com destaque para um camarada que batuca num cano de plástico com uma minivassoura, enquanto – vocês estão preparados? – enquanto ostenta um tênis branco amarrado em torno do pescoço. (“Tanta coisa importante neste mundo e ela escrevendo sobre isso.”)

Eu sei: é Carnaval e muitos de nós resolveram abrir mão do sentido. Mas isso também já é demais. Então talvez seja melhor nem mencionar uma foto de MC Bin Laden posando tranquila e favoravelmente ao lado da estátua de Drummond, e o comentário de um amigo meu: “Esse cara é um gênio. Quer dizer, os dois são. É preciso reconhecer que Drummond também fez coisas fantásticas.”

É Carnaval, e o quanto já me diverti com essa besteira nos últimos dias só perde para um vídeo do YouTube com o título: “Hoje é segunda-feira? Não, é sábado!”.

Nele, quatro crianças com bermudas de cores diferentes dançam loucamente ao som de um forró em velocidade ultrarrápida. Um deles planta bananeira e quase cai em um buraco. O vídeo tem pouco mais de meio minuto, mas tem a duração filosófica de toda uma vida. Aos onze segundos, o mesmo menino (de bermuda azul) tira um cachorro para dançar – e o animal reage de forma extasiada. Tanto que, logo depois, quando ele larga o cão, este parece se ressentir do abandono e tenta a todo custo ser tirado de novo para o baile.

Nos segundos finais, o menino de bermuda verde passa dançando com uma cuia sobre a cabeça, sem nenhum motivo plausível.

Mesmo para quem odeia samba, acha o funk deplorável, o axé um gênero sem valor e o forró a prova viva da mediocridade humana, a ideia de dançar com um cachorro tem lá os seus atrativos.

Talvez porque hoje seja segunda-feira, mas pareça mais ser sábado.

A arte de lamber o nariz

Posted: 7th fevereiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
1 de fevereiro de 2016

por Vanessa Barbara

Quando somos crianças, é muito fácil saber o que a sociedade exige de nós enquanto seres humanos. Os atributos básicos que uma pessoa precisa ter para se destacar na vida são claros, específicos e até sensatos – por exemplo: tem aquele menino que consegue encostar a língua no nariz. Desde seu ingresso na escola, ele tem o respeito absoluto de todo o corpo discente, ao qual não se furta de fazer exibições periódicas de sua extraordinária habilidade. Seu objetivo a longo prazo é treinar até conseguir encostar a língua no olho, no que encontra o entusiástico apoio dos colegas.

Tem sempre alguém que ganha notoriedade por projetar espessas quantidades de suco salivar a grandes distâncias. O menino que cospe longe é ladeado em fama pelo menino que consegue cuspir de lado, por outro que sopra bolhinhas de saliva e por aquele que acerta praticamente todos os arremessos de amendoins na boca. Eles são temidos e reverenciados como se fossem membros de uma liga de super-heróis, verdadeiras celebridades da nossa infância que só não ganharam bustos comemorativos porque é muito difícil esculpir rostos humanos em massinha.

Uma das primeiras provações que encontramos na vida acontece ao entrar numa escola nova e ser indagado por um colega: “Você consegue erguer uma sobrancelha só? E dobrar a língua? Você consegue abanar as orelhas? Mexer o couro cabeludo? Afinal, você sabe fazer qualquer coisa de interessante?”

Eu nunca consegui. Não era capaz de mover os dedinhos de forma independente, nem de lamber o cotovelo. Conheci crianças que dobravam o indicador de forma anormal, que conseguiam inflar a barriga como se estivessem grávidas e mexiam a ponta do nariz feito coelhos. Houve uma vez um menino que soprava ar pelos olhos. (É possível que você não o tenha conhecido, mas só ouvido falar dele, como uma narrativa folclórica passada de geração em geração.)

Mas afinal, o que aconteceu com esses mitos da nossa infância? O que foi feito deles? Fico imaginando essas figuras épicas adentrando um escritório no primeiro dia de trabalho e tentando impressionar os colegas tocando “House of The Rising Sun” com as axilas. Ou respondendo a perguntas de uma entrevista de emprego com a voz do Pato Donald, só para causar boa figura.

Tive uma amiga que conseguia arrotar frases inteiras. Ela entoava versos do Hino Nacional com arrotos, e por isso foi a menina mais popular da turma até mais ou menos os 12 anos. Então as regras mudaram. Da noite para o dia, ter o cabelo liso, um moletom de marca ou, atualmente, um Samsung Galaxy S6 Edge tornou-se mais importante do que ser capaz de lamber o dedão do pé. De repente minha amiga não era mais tão popular assim. E esses nossos verdadeiros mitos da infância se perderam no vestibular, em cursos de gerenciamento financeiro e departamentos de marketing.

Nos coquetéis da firma e nas conversas de bebedouro, ninguém se lembra de que um dia foram heróis.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
25 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Numa tarde de verão de 1985, Penny Beerntsen foi violentada sexualmente. Anos depois ela relataria que, ao ser imobilizada pelo agressor, pensara em duas coisas: primeiro, que precisava manter a calma; segundo, que tinha de prestar muita atenção no rosto dele para poder identificá-lo mais tarde.

Penny sobreviveu e, do hospital, descreveu o criminoso à polícia, que já tinha um suspeito em mente. O delegado mostrou à vítima nove retratos. Ela apontou para a imagem de Steven Avery, de 23 anos, que foi detido no mesmo dia.

Penny também identificou Avery em um reconhecimento presencial na delegacia e durante o julgamento, no qual disse ter “absoluta certeza” de que ele era seu agressor. Ele foi condenado a 32 anos de prisão.

Naquela época, o exame de DNA ainda não era comum na prática forense. Onze anos depois, em 1996, Avery entrou com um pedido de novo julgamento a partir do reexame das provas, mas o juiz negou. Após cinco anos, nova apelação. Penny sentia raiva de ver o caso ser repetidamente aberto – até que, em 2003, o exame de DNA provou que Avery era inocente. Ele já tinha passado dezoito anos na prisão.

A história é contada no livro Being Wrong: Adventures in the Margin of Error, de Kathryn Schulz, que fala sobre como resistimos em admitir nossos erros e como eles podem servir para nosso aprendizado. O capítulo de Penny conta o que ela sentiu ao perceber que havia reconhecido o homem errado – e pior, ao saber que seu verdadeiro agressor, Gregory Allen, tinha estuprado pelo menos oito mulheres no período em que permaneceu solto.

“Eu pensava nessas mulheres o tempo todo, e em como essas vidas mudaram por causa de um erro que eu cometi”, afirmou Penny. Mais tarde, ficou provado que o erro não foi só dela, mas também da polícia, que praticamente induziu sua escolha e certificou-se de suprimir suas dúvidas iniciais. Eles também se negaram a investigar outro potencial suspeito, que era justamente Gregory Allen.

Diz Kathryn Schulz que simplificar histórias e ignorar detalhes contraditórios pode nos induzir ao erro, e que a aceitação da complexidade é bem-vinda. Mas e quando o caso se complica sempre mais?

Em 2007, após quatro anos em liberdade, Steven Avery foi preso e condenado, desta vez pelo assassinato de uma fotógrafa. Penny agora tinha de lidar com um terceiro elemento de culpa: para ela, a raiva acumulada após quase duas décadas de prisão injusta podia ter sido um dos catalisadores do crime.

Então, em mais um desdobramento de um caso já rocambolesco, o Netflix acaba de estrear uma série documental que lança dúvidas sobre a culpa de Avery no homicídio. Em Making a Murderer, defende-se categoricamente que essa acusação foi forjada.

De todas as vítimas dessa história, a que mais me chama a atenção é Penny, que nunca imaginou que, depois de se livrar de seu agressor, passaria outros trinta anos lutando contra a própria consciência.

O homem do prato

Posted: 23rd janeiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
23 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Sempre que vou a um concerto, tenho pena do homem do prato. O sujeito fica sentado com cara de paisagem durante uns vinte minutos; aí se levanta, ajeitando o fraque, e apanha do suporte um par de pratos de metal. Se posiciona. Espera mais um pouco. Finalmente, ergue o instrumento e, com ar solene, produz um “PIM” agudo. Volta a se sentar. Segue nova espera, durante a qual ele mantém um semblante imutável e um tanto tristonho.

Na Sinfonia nº 7 de Bruckner, com duração de mais de uma hora, o cara do prato toca apenas uma nota. Ela surge no segundo movimento, lá pelos 35 minutos, quando também ocorre a única participação do tocador de triângulo – para azar deste, pois seu pitoresco instrumento acaba sendo abafado pela pratada. Depois disso, ambos os músicos se sentam e passam o resto da sinfonia acompanhando a partitura com ar vazio.

Outra peça de uma nota só para o sofrido tocador de címbalos é a Sinfonia nº 9 de Dvorák, na qual o som do prato é tão fraco que mais parece um espirro. Ainda assim, conta-se que, em certa apresentação, o músico se distraiu e perdeu a vez, e que o maestro Hans Richter nunca lhe perdoaria. Anos depois, quando foi conduzir novamente a peça, Richter chegou a perguntar ao primeiro violino: “Aquele tocador de pratos, ele já está morto?”.

Como se não bastasse, discute-se a melhor forma de tocar essa nota única: com um golpe seco? Ou um zischen? E quanto à extensão: deve haver contato prolongado entre os pratos? E mezzo forte é mesmo a dinâmica apropriada?

Ou seja, um tocador de pratos não pode sofrer de ansiedade antecipatória, nem de perfeccionismo. Além de escolher o peso e o tamanho do prato, o músico precisa optar pela técnica da batida: pode deixar o som ressoar até sumir ou abafá-lo logo após o choque. Há também variações de ângulo e de força.

O bater dos pratos pode ser questão de vida ou morte, como sabem aqueles que assistiram ao filme O Homem que Sabia Demais, de Alfred Hitchcock. Também é um ofício que deve ser difícil de praticar, conforme mostrado num episódio de I Love Lucy no qual um percussionista tenta ensaiar sua parte na suíte O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Ele dá alguns golpes no tímpano, aguarda em silêncio por uns segundos, bate os pratos menores, espera mais um pouco. Virando a página da partitura, antecipa mentalmente a entrada dos instrumentos de sopro, depois dá a pratada final. (E não fica satisfeito com o resultado.)

Por outro lado, na Sinfonia nº 4 de Tchaikovsky, o tocador de pratos espera pacientemente até o quarto movimento, quando então pode enfiar o pé na jaca: a partitura prevê exatas 193 pratadas, algumas muito rápidas e outras em total desacordo com o resto da orquestra. É uma das peças mais difíceis para o profissional do ramo.

Com isso em mente, deixo aqui a minha mensagem ao homem do prato: sua hora vai chegar, e será retumbante. Aguenta aí.

História ou spoiler?

Posted: 16th janeiro 2016 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
16 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Em dezembro, estreou nos cinemas Star Wars: O Despertar da Força, o título mais recente da clássica franquia que conta com fãs devotos e toneladas de bonequinhos temáticos. Antes mesmo do lançamento, o filme já tinha arrecadado 100 milhões de dólares em ingressos antecipados, o que obrigou os mais atrasados a uma perigosa e indesejável espera.

Nas semanas que se seguiram, a principal preocupação de muita gente na vida era a de evitar spoilers (revelação de fatos importantes da trama). A angústia era palpável; afinal, em qualquer fila de supermercado se podia entreouvir que o verdadeiro vilão da saga era o Chewbacca, ou que Tatooine era o planeta Terra, ou que Han Solo deixou crescer o bigode. Houve quem abandonasse as redes sociais, faltasse ao trabalho, estocasse mantimentos e renunciasse a todo tipo de convívio até que enfim conseguisse assistir ao filme. (Então essas pessoas retornaram à vida e começaram imediatamente a espalhar spoilers.)

Todo mundo já teve a experiência de ler ou ouvir algo que prejudicou a apreciação de um filme, livro ou série. Às vezes, o estraga-prazer não tinha má intenção, mas o resultado é sempre catastrófico. Daí vem a dúvida: depois de quanto tempo uma revelação deixa de ser spoiler?

Por exemplo: ainda é spoiler quando falamos sobre a mãe em Psicose (1960)? E sobre o final de O Planeta dos Macacos (1968)? E sobre certo personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa? Ainda faz sentido que os atores peçam sigilo quanto ao desfecho da peça A Ratoeira, que estreou em 1952? E se eu revelar o que acontece com a baleia em Moby Dick, de Melville?

Assisti à série Twin Peaks com décadas de atraso e, enquanto estava no meio, morria de medo de ler spoilers sobre o assassino de Laura Palmer. Às vezes basta uma espiada para arruinar tudo. O IMDb (Internet Movie Database), por exemplo, mostra abertamente em quantos episódios cada ator aparece, do que dá para inferir com razoável precisão se seu personagem favorito morre e quando isso acontece.

Há poucas semanas, terminei Guerra e Paz, de Tolstói, e fiquei na dúvida se podia revelar aos amigos que Napoleão perdeu em 1812. (Peço desculpas aos leitores desavisados.) Não resisti e escrevi, sem fôlego, um típico spoiler de rede social: O NAPOLEÃO PERDEU, GENTE! BAFÃO, e fui duramente repreendida pelos mais ortodoxos.

O spoiler de fatos históricos é uma questão delicada, sobretudo para quem tem memória curta: outro dia revi Os Eleitos (1983) e fiquei na expectativa de saber qual dos astronautas americanos teria sido mandado ao espaço primeiro; na série The Americans, fiquei surpresa ao saber que Ronald Reagan sofreu um atentado.

Tenho uma amiga que quase foi linchada virtualmente após mencionar num fórum da série The Tudors que Ana Bolena tinha sido decapitada.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
9 de janeiro de 2016

por Marcos Barbará

Em função das acusações proferidas pela sra. Vanessa Barbara na coluna “O meu irmão”, publicada em 21/12/2015, o sr. Marcos Barbará (o irmão) conquistou direito de resposta que aqui será executado, para fins de restabelecimento da verdade.

Outrossim, a autora do agravo aproveita para retratar-se publicamente e reiterar que contra Marcos não pesa qualquer fato desabonador de sua conduta, além de refutar insinuações de que sua caixa craniana tenha o formato de um melão.

Segue o direito de resposta, previsto pelo artigo 5º, inciso V da Constituição Federal, e regulamentado pela lei 13.188/2015.

*

Prezados,

Qualquer ser humano de razoável bom senso sabe que o irmão mais velho tem direitos imutáveis e assegurados desde o Direito Romano (hermanus velhus est). São precedências incontestáveis, como o direito de sentar no melhor lugar do sofá, de obter o pedaço maior do sorvete e de ser o primeiro a ler o gibi.

Também é de conhecimento público que uma diferença de dois anos de idade entre irmãos é equivalente a onze eras geológicas entre adultos, pela total falta de sintonia de gostos e vontades, como se um fosse aborígene da Idade do Bronze e o outro um executivo nova-iorquino, ou um jovem construtor de pirâmides do antigo Egito ante um psiquiatra aposentado de Hong Kong.

Dito isso, cabe concluir que a pior coisa de ser um menino de onze anos com uma irmã mais nova é, exatamente, ter uma irmã mais nova. Todo e qualquer fato ocorrido no lar passa a ser, automaticamente, culpa sua. Vaso quebrado, brinquedo perdido, boneca enforcada, o veredito é sempre contra o pobre irmão mais velho. Mesmo naqueles casos em que há um álibi e prova clara de inocência, o irmão mais velho é culpado por não ter tomado conta da referida ultimogênita.

Mesmo diante dessa dificuldade e em prol da paz familiar, sempre fui virtuoso e honesto. Entre minhas qualidades fraternais destaco a justiça (dividia uma barra de chocolate utilizando uma trena industrial com precisão de 0,001mm), a generosidade (todo resto de comida que caía no chão ia para a irmã mais nova) e a sinceridade (diariamente comunicava para a irmã mais nova o quanto ela era inútil).

Portanto, graças a minha paciência e bondade, conseguimos superar a infância e adolescência vivos, o que já é uma vitória. Também informo aos interessados que infelizmente a legislação brasileira ainda não permite a separação fraternal (exceto para siameses), então ainda sou obrigado a chamar a referida colunista de “irmã”.

Aproveito para deixar uma mensagem de esperança a vocês, irmãos e irmãs mais velhos. Sejam fortes e valentes! Não existe triunfo sem perda, não há vitória sem sofrimento, não há liberdade sem sacrifício. Voem como uma borboleta e ferroem como uma abelha!

Obs.: Quanto ao caso da boneca enforcada, meus advogados me orientaram a não comentar sobre isso.

O Estado de São Paulo – Caderno 2
2 de janeiro de 2016

por Vanessa Barbara

Nunca é tarde para começar a aprender coisas diferentes, ainda mais com um ano novo à espreita, mas é também necessário reconhecer a derrota quando ela se apresenta em toda a sua glória. Segue uma lista provisória de Coisas Que Nunca Vou Saber Fazer Direito, Ainda Que Continue Tentando. São elas:

1. Nadar. Aos cinco anos, entrei para uma escola de natação, mas me recusava a enfiar o rosto na água (não me parecia um comportamento razoável). Imbuída das melhores intenções pedagógicas, a professora resolveu que me daria um caldo à força. O trauma se faz presente até hoje, ainda que eu saiba o suficiente para não morrer afogada e ficar boiando de costas, à espera de um helicóptero de resgate.

Aos 25 anos, me inscrevi em aulas de natação numa escola mandaquiense com piscina de 12,5 metros de comprimento, numa turma vespertina que vinha logo após o horário infantil. Tanto a minha falta de fôlego quanto a ausência generalizada de coordenação – e o fato de eu ficar para trás ao apostar corrida com um senhor de 65 anos – me convenceram enfim de que nunca serei capaz de realizar a travessia do Canal da Mancha.

2. Falar francês. E inglês. E, para todos os efeitos, me comunicar com fluência aceitável em português. Certas pessoas simplesmente não possuem os dons mais elementares de oratória e estão fadadas a passar vergonha nas mais diversas situações sociais. É tempo de reconhecer essa realidade e pressionar pela volta dos embates epistolares.

3. Dirigir. Jamais vou entender por que diabos botaram o breque no meio, tão perto do acelerador. Me recuso a compactuar com tamanho disparate.

4. Fazer contas de cabeça. Depois que saí da escola, dediquei-me com afinco a apagar da lembrança todo conhecimento matemático e capacidade de abstração que me permitiam resolver contas de cabeça com mais de dois dígitos. Cabe dizer que ainda sei fazer regra de três, mas só no papel.

5. Sapatear. Sempre me vejo obrigada a estudar exaustivamente as sequências de passos durante a semana, com vistas a fazer apenas má figura no horário de aula. Contudo, quando descobri que o sapateado está praticamente extinto da Broadway, perdi um pouco o estímulo para buscar o estrelato.

6. A curva para a direita ao andar de bicicleta. Não tenho problemas em fazer conversões à esquerda, mas a situação piora de forma exponencial quando se trata do lado oposto, sobretudo se é necessário fazer uma volta de 180 ou 360 graus. Crianças pequenas choram por solidariedade quando me veem levar tombos nos parques.

7. Reconhecer estrelas. Sempre que preciso impressionar alguém com minha sabedoria quase indígena de reconhecimento de objetos celestes, a maldita Arcturus some da abóbada e sou obrigada a apontar as Três Marias.

8. A regra do hífen. Minha revisora pediu que eu incluísse este item, que achei contra-producente.

O meu irmão

Posted: 26th dezembro 2015 by Vanessa Barbara in Caderno 2, Crônicas, O Estado de São Paulo
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O Estado de São Paulo – Caderno 2
21 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara

Meu irmão sempre foi o meu nêmesis. Desde cedo, competíamos em tudo: em quem ia tomar banho primeiro, em quem ganhava a maior bola de sorvete, quem era o filho preferido, quem estalava mais alto os dedos, quem mexia o Nescau da forma mais irritante.

Quando eu era bebê, ele tentou furar meus olhos, numa suposta tentativa científica de “descobrir o mecanismo que faz a bolinha mexer”. Além disso, ele já simulou o enforcamento de uma das minhas bonecas no banheiro, ao passo que eu me esforçava por azucriná-lo de todas as formas previstas no Código Civil. (O enforcamento da boneca foi um episódio memorável: lembro que havia sangue de ketchup nas paredes e que as minhas amigas choraram sem parar, passando a recusar os convites subsequentes para participar das festas do pijama lá em casa.)

O fato de eu considerá-lo um herói, conforme registrado em uma redação da primeira série, apenas contribuía para que ele se irritasse ainda mais. E redobrasse o empenho.

Nos idos de 1998, quando a internet era discada e a plebe só podia conectar após a meia-noite (porque de madrugada só contava um pulso), cumpríamos um rodízio muito severo no computador da casa. O primeiro horário era da meia-noite à uma. Então o indivíduo ia dormir, o outro empurrava o móvel de rodinhas e cumpria o turno da uma da madrugada até quanto aguentasse. O problema era que estudávamos de manhã e tínhamos que acordar às seis.

Ainda que, estranhamente, o revezamento de internet não tenha trazido prejuízos ao nosso desempenho acadêmico, danificou muito a nossa já belicosa convivência – lembro de estourar meu turno em dois minutos e ser presenteada com o desligamento compulsório do computador da tomada.

Naturalmente, minha mãe colocava os dois de castigo, ainda que a culpa fosse sempre dele.

Outro objeto de disputa era o banco da frente de um Fiat Fiorino onde meu pai nos levava para a escola, pois quem se sentasse ali podia controlar o rádio, ao passo que o outro ficava jogado na caçamba do furgão, sacolejando junto com equipamentos frigoríficos e cilindros de gás refrigerante. Nesse caso também seguíamos um rodízio, com o agravante de que às vezes o passageiro da frente escolhia uma rádio estranha só para irritar. “Você nunca gostou de sertanejo!”, eu gritava. “É o meu gênero preferido”, ele respondia, aumentando o volume. (Isso quando ele não deixava na estática entre duas estações.)

Crescer não serviu de nada para mudar esse quadro. Até hoje, é como uma corrida armamentista: o Marcos publicou primeiro um livro, então eu tive que escrever mais sete. Ele foi para o Chile e comprou uma televisão, eu arrumei uns gatos e fui a um show de heavy metal. Ele teve um filho, eu adotei duas tartarugas. Eu peguei dengue, ele pegou pneumonia. Ele vai ter outro filho, eu aluguei um apartamento.

E que fique aqui registrado que foi ele quem começou.

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A escola em Bento Rodrigues, no Brasil, que foi destruída após o rompimento de uma barragem. Ricardo Moraes/Reuters

The New York Times
17 de dezembro de 2015

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brasil — Pouco depois das quatro da tarde do dia 5 de novembro, o marido da diretora entrou correndo na Escola Municipal Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, e gritou que a barragem havia se rompido. Professores e funcionários levaram os cerca de 50 alunos até ônibus e carros. Alguns seguiram a pé. Minutos depois, enquanto subiam o morro, os membros da caravana viram uma onda de lama de dez metros engolindo a escola.

A massa acobreada cobriu mais do que a escola: destruiu o vilarejo inteiro. Ao menos 16 pessoas morreram, incluindo duas crianças. Três pessoas ainda estão desaparecidas e 631 ficaram desabrigadas.

A barragem servia para armazenar água e resíduos de uma mina de minério de ferro próxima ao local. Não possuía sistema de alarme, um bom plano de contingência ou rotas de evacuação. De acordo com os moradores, ninguém foi avisado da ruptura. “Se a barragem tivesse rompido à noite, todos teriam morrido”, disse Duarte Júnior, prefeito de Mariana.

A estrutura era operada pela Samarco, uma joint venture entre duas multinacionais da mineração: a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton. Mais de um mês depois da tragédia, ainda não se sabe quanto tempo vai levar para o ecossistema – e a economia – se recuperar. E mais duas barragens da região correm risco de rompimento.

Após inundar Bento Rodrigues, a onda de aproximadamente 60 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos minerais, um volume equivalente a 25 mil piscinas olímpicas, chegou até o rio Doce. O rio, que passa por 228 municípios, é essencial para a economia da região, e agora está tomado pela lama. Inúmeras empresas foram obrigadas a suspender suas operações; os pescadores estão entre os mais afetados. Em Governador Valadares, cidade de 300 mil habitantes, o suprimento de água teve de ser cortado por uma semana.

As empresas envolvidas insistem em afirmar que a lama não apresenta perigo à saúde humana. Mas dois especialistas em meio-ambiente da Organização das Nações Unidas afirmaram que ela continha “altos níveis de metais pesados tóxicos e outros produtos químicos tóxicos”. Um relatório do Instituto de Gestão das Águas de Minas Gerais encontrou níveis de arsênio mais de dez vezes acima do limite legal. Outras amostras coletadas em pontos diferentes ao longo do rio continham níveis elevados de mercúrio, ferro, alumínio e manganês.

De acordo com o Ibama, agência federal de proteção ao meio ambiente, o rio Doce é o habitat de 80 espécies, das quais 11 estão ameaçadas de extinção e 12 são endêmicas, ou seja, não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. “A mortalidade instantânea é apenas um dos impactos aos organismos aquáticos causados pelo desastre”, ressaltou um relatório do Ibama, que fazia menção sobretudo aos danos causados ao ecossistema. Enquanto isso, a Samarco contratou pescadores locais para coletar e enterrar peixes mortos.

A rota marrom da lama pelos rios brasileiros é visível em imagens de satélite da NASA. Dezesseis dias após o rompimento da barragem, a lama alcançou o oceano Atlântico, a mais de 650 km de distância. Também se espalhou pela Reserva Biológica de Comboios, na costa do Espírito Santo, uma área de desova de tartarugas-cabeçudas e tartarugas-de-couro, estas últimas ameaçadas de extinção.

“As providências tomadas pelo governo brasileiro, a Vale e a BHP para prevenir danos foram claramente insuficientes”, afirmaram os relatores da ONU em um pronunciamento recente, no qual consideraram inaceitável a demora de três semanas para a divulgação de informações sobre a toxicidade da água. “As empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposição a metais pesados e substâncias tóxicas”, disseram.

A causa exata do rompimento ainda não foi determinada. Um executivo da Samarco sugeriu que tremores sísmicos na região da mina podem ter causado o desastre, mas promotores públicos suspeitam de negligência da empresa. O governo brasileiro também tem sido criticado por falhar em monitorar a estrutura. Sabe-se que o Departamento Nacional de Produção Mineral tem apenas quatro funcionários para fiscalizar as 735 barragens de todo o estado de Minas Gerais.

Em seu discurso na conferência do clima em Paris, no final de novembro, a presidente Dilma Rousseff declarou que “a ação irresponsável de umas empresas provocou o maior desastre ambiental na história do Brasil”. Alegou que o governo já estava “punindo severamente” os responsáveis pela tragédia.

A Samarco concordou em pagar R$ 1 bilhão para bancar os esforços iniciais de recuperação ambiental, e ofereceu um salário mínimo mensal para as 115 famílias diretamente afetadas pela tragédia. A companhia também foi multada em R$ 250 milhões por poluir o rio Doce e prejudicar o abastecimento de água de toda a região, com 30% de desconto se o pagamento for feito dentro de 20 dias. Em 30 de novembro, o governo entrou com uma ação pública pedindo indenização de R$ 20 bilhões ao longo de uma década.

Mas os brasileiros têm bons motivos para permanecerem céticos. De acordo com estatísticas oficiais, menos de 3% das multas ambientais foram pagas nos últimos cinco anos. Muitos suspeitam que a Vale e a BHP ficarão impunes e que o desastre não se prestará nem a aperfeiçoar a regulamentação do setor de mineração.

Se a história servir como parâmetro, eles podem estar certos. Quando a barragem se rompeu, no mês passado, dezenas de pescadores da região aguardavam o dinheiro da indenização – pelo dano causado pela construção da hidrelétrica de Aimorés, dez anos atrás. A companhia responsável pela operação da usina é chamada Aliança Energia. É outra joint venture da Vale.


Vanessa Barbara é cronista do jornal O Estado de São Paulo, editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês no The New York Times do dia 17 de dezembro de 2015. Tradução da autora.

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The school in Bento Rodrigues, Brazil, that was destroyed by mud from a collapsed dam. Credit Ricardo Moraes/Reuters

The New York Times
Dec. 17, 2015

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — JUST after 4 p.m. on Nov. 5, the principal’s husband ran into the school in the village of Bento Rodrigues, in southeastern Brazil, yelling that the nearby dam had burst and everybody needed to get out of the schoolhouse. Teachers and employees herded about 50 children into buses and cars. Some followed on foot. Minutes later, as the caravan made its way uphill, they saw a 32-foot-tall wave of mud sweeping over their school.

The copper-colored sludge wiped out more than just the school. It destroyed the entire village. At least 16 people have died, including two children. Three people are still missing and 631 lost their homes.

The dam had been used to store water and mineral waste from a nearby iron-ore mine. It had no alarm system and no good emergency plan or designated evacuation routes. According to the villagers, nobody was warned about the breach. “If the dam had collapsed at night, everyone would have died,” said Duarte Júnior, the mayor of the city that includes Bento Rodrigues.

The dam was operated by Samarco, a joint venture between two multinational mining companies: Brazil’s Vale and the Anglo-Australian BHP Billiton. More than a month after the dam collapsed, it is unclear how long it will take for the ecosystem — and the economy — to recover. And two more dams in the area are at risk of collapsing.

After flooding the village, the wave of approximately 2.2 billion cubic feet of mud and mineral residue, enough to fill about 25,000 Olympic-size swimming pools, made its way to the Doce River. The river, which passes through 228 municipalities, is crucial to the region’s economic life. The mineral-waste sludge has devastated the area. Several companies had to suspend operations. Local fishermen are among the most severely affected. The water supply for Governador Valadares, a city of 300,000 people, had to be cut off for a week.

The companies involved insist that the muck poses no threat to human health. But two United Nations environmental experts declared that the mud contained “high levels of toxic heavy metals and other toxic chemicals.” A report from the Institute for Water Management, a government agency in the state of Minas Gerais, found that the water’s arsenic levels were 10 times above the legal limit. Other samples collected at different points along the river contained high levels of mercury, iron, aluminum and manganese.

According to Ibama, Brazil’s environmental protection agency, the Doce River is home to 80 fish species, of which 11 are endangered and 12 are found nowhere else in the world. “The instant death of the aquatic organisms is just one of the many impacts of the disaster,” said an Ibama report highlighting the damage to the ecosystem. Meanwhile, Samarco hired local fishermen to collect dead fish from the river’s banks and bury them.

The mud’s brown route across Brazil’s waterways is visible in NASA satellite images. Sixteen days after the dam broke, the tide reached the Atlantic Ocean, more than 400 miles downstream. It also spread into the Comboios Biological Reserve on the coast, a spawning area for loggerhead sea turtles and critically endangered leatherback sea turtles.

“The steps taken by the Brazilian government, Vale and BHP Billiton to prevent harm were clearly insufficient,” the United Nations environmental experts said in a statement, adding that it was unacceptable that it took three weeks for information about the water’s toxicity to surface. “The government and companies should be doing everything within their power to prevent further harm, including exposure to heavy metals and other toxic chemicals,” they said.

The exact cause of the breach has not yet been determined. Samarco’s chief executive officer suggested that a seismic tremor near the mine may have caused it, but public prosecutors suspect negligence by the company. Brazil’s press is criticizing the federal government in Brasília for failing to monitor the dam. The National Department of Mineral Production employed only four people in the whole state of Minas Gerais to inspect 735 dams.

Speaking at the climate conference in Paris on Nov. 30, President Dilma Rousseff said that “the irresponsible action of one company recently caused the biggest environmental disaster in the history of Brazil.” She claimed that the government was “severely punishing” those responsible for this tragedy.

Samarco has agreed to pay $262 million to fund initial cleanup efforts, and has granted monthly support of $204 to 115 families directly affected by the tragedy. The company has also been fined $66 million for polluting the Doce River and damaging freshwater supplies, with a 30 percent discount if the payment is made within 20 days. On Nov. 30, the government filed a civil suit demanding $5.2 billion over a decade.

But Brazilians have good reason to be skeptical. According to government statistics, environmental lawbreakers in Brazil paid less than 3 percent of fines levied against them over the past five years. Many people suspect that Vale and BHP will go unpunished and that safety regulations for the mining industry won’t be updated in light of the disaster.

If history is a guide, they may be right. When the dam broke last month, dozens of fishermen in the same area were already waiting for compensation — for the damage caused by the construction of the Aimorés hydroelectric power plant 10 years ago. The company responsible for the plant’s operation is called Aliança Energia. It’s another joint venture by Vale.


Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo, the editor of the literary website A Hortaliça and a contributing opinion writer.

A version of this op-ed appears in print on December 17, 2015, on page A39 of the New York edition with the headline: Brazil’s Toxic Sludge.