Menos medo e mais forró

Posted: 21st maio 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
20 de maio de 2013

por Vanessa Barbara

Quem não se dispôs a tirar os glúteos do sofá para participar de alguma atração da Virada Cultural ficou com a impressão de que, durante a madrugada, São Paulo entrou em estado de sítio: dezenas de arrastões, assaltos e violência nas ruas do Centro.

Os paulistanos intimidados perderam muita coisa. A começar pela melhor atração da Virada este ano: uma banda de heavy metal tocando freneticamente na sacada de um apartamento no largo do Arouche, nos intervalos dos shows oficiais. Inúmeras senhoras que aguardavam a entrada de Sidney Magal acabaram batendo cabeça e bamboleando ao som do misterioso trio. “Esta música vai para a barraca de yakisoba”, gritou o vocalista, emitindo um refrão de urros guturais.

Quem ficou em casa perdeu também o “palco do bafão”, em frente ao Copan, onde um animado público GLS acompanhou atrações de cabaré, lindy hop, dança afro, ópera de monstros, pole dance e apresentações no alto de um guindaste.

Foi lá que o cantor Thiago Pethit convidou o pastor Feliciano a “borrar o batom da minha boca”, sob os gritos de “seu lindo!”. Duas velhinhas que vieram para ver Agnaldo Timóteo, uma delas brandindo a bengala, não perderam a chance de sacolejar com as músicas de Pethit, que unem rock com chanson française, folk, pop, dance e outros estilos. Havia muitos bebês e uma aglomeração de garis. Os policiais militares comentavam entre si as atrações e os seguranças do palco se rendiam às dançarinas mais picantes.

“Todo mundo é feliz na virada”, exclamou uma moça. Ainda que o show esteja atrasado em quase três horas (como foi o caso do jazzista norte-americano Lonnie Liston Smith) e a única bebida disponível seja uma garrafa de vinho tinto com xarope e fermentado de maçã. Ou um drinque mambembe oferecido por um garçom que passa de bandeja, em parceria com o vendedor de algodão-doce e maçã do amor.

Conforme o tempo passa, sobem os índices de lixo no chão, garrafas de vidro quebradas, gente vomitando e elementos bêbados abordando os passantes, bem como brigas e confusões. Mas crescem também as dancinhas, a cantoria e a alegria sem motivo, como um grupo que se dedicava a fazer voar chapéus e cachecóis sobre uma saída de ventilação, maravilhados com o milagre da levitação de objetos.

A “Off-Virada” contou com um baile funk improvisado num canto da avenida Rio Branco (o “Paredão do Juninho”), uma trupe de índios equatorianos tocando flauta na Barão de Itapetininga e dois conjuntos distintos de heavy metal nas proximidades da avenida São João.

As ruas do Centro lotadas às três da manhã, o metrô funcionando de madrugada e rappers sambando – a cidade precisa de menos medo e mais forró. Ainda que eu não goste de forró.

 


ps. Em tempo: o nome da banda que tocou na sacada do Largo do Arouche é a Hooker’s Mighty Kick, que se revezou com a Boys From Catland.

Minha bronca com as bibliotecas

Posted: 14th maio 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
13 de maio de 2013

por Vanessa Barbara

Como dei a entender na coluna anterior, não tenho um histórico amigável com bibliotecas públicas. Durante toda a infância, adolescência e parte da vida adulta frequentei obstinadamente as bibliotecas do meu bairro (Pedro Nava, Nuto Sant’anna, Narbal Fontes), as centrais (Mário de Andrade, Centro Cultural São Paulo, Centro Cultural Fiesp) e especializadas (bibliotecas da PUC e da USP), enfrentando uma porção de obstáculos.

Ainda que existam honrosas exceções e o cenário esteja lentamente melhorando, muitas bibliotecas são como túmulos, lugares escuros e ermos onde não entra luz desde 1997 e os livros vivem trancados em cofres. Os funcionários parecem prontos para dificultar as coisas, desdobrando-se em regras, fiscalizações e caras feias.

A começar pelo guarda-volumes e a proibição de entrar com bolsas, mochilas, pastas, fichários e laptops. Como a biblioteca não se responsabiliza por objetos extraviados, é preciso levar consigo o caderno, a caneta, a carteira, o celular, o porta-moedas, a manteiga de cacau e as chaves, equilibrando tudo em uma das mãos. Nenhum tipo de alimento ou bebida pode ser consumido lá dentro. De todas as restrições, a do laptop é a mais absurda.

Até pouco tempo atrás, só era permitido levar para casa dois livros por pessoa (hoje são quatro), o que me obrigava a acumular empréstimos em nome de todos os membros da família. Dois livros não eram nada para quem lia cinco por semana e tinha de fazer trabalhos de faculdade e pesquisas com uma porção de fontes. Daí as múltiplas carteirinhas, isso quando a bibliotecária era legal e deixava retirar livros usando a identidade de um familiar ou ente querido — arriscando-se a levar uma punição na corte marcial de biblioteconomia e tornando-se cúmplice do crime de falsidade ideológica.

O prazo de empréstimo é de duas semanas, com a possibilidade de uma única renovação. Há regras especiais para mestrandos, doutorandos e professores, mas é preciso apresentar comprovantes. Uma das diretrizes exclusivas para pesquisadores se refere à possibilidade de empréstimo de dez itens durante 21 dias — mas há uma cláusula que diz que não são liberados mais de cinco livros do mesmo assunto.

Uma das boas implementações recentes do Sistema Municipal de Bibliotecas em São Paulo foi o cadastro unificado, permitindo que o leitor utilize a mesma carteirinha em todas as bibliotecas da rede. (Antes não era assim: sei que, a certa altura, carregava sete ou oito carteirinhas amarelas de bibliotecas diferentes com nomes diferentes, feito uma espiã da bibliofilia internacional.)

O cartão, porém, ainda é preenchido à mão, renovado anualmente e carimbado a cada devolução. A ficha de cadastramento dos livros também é manual. A pesquisa eletrônica no acervo, disponível num computador conectado à internet, às vezes não funciona.

Além disso, os horários são restritivos: a Biblioteca Municipal Pedro Nava abre de segunda a sexta, das 9 às 18h, e aos sábados das 9 às 16h (viva!!). Contudo, “os serviços de inscrição de usuário e empréstimo iniciam-se após quinze minutos decorridos da abertura da biblioteca e encerram-se quinze minutos antes de seu fechamento”.

Em certas bibliotecas, não se recomenda flanar pelas estantes sem objetivo definido — um funcionário pode ficar te seguindo ou perguntando insistentemente: “Mas você está procurando algo em específico? Quer ajuda?”. Alguns tratam o usuário como um potencial ladrão de livros, considerando-o culpado até que prove o contrário.

(Sim, eu sei que não são todos assim e que há ótimos bibliotecários por toda parte.)

Em muitos casos, o problema se encontra na presunção de poder assumida pelos funcionários, que abandonam a ideia de prestação de serviços à população para exercer uma autoridade quase policial referendada pelo regulamento da instituição. Colocam as normas à frente das pessoas e defendem seu território como numa brincadeira de pique-bandeira.

Já tomei broncas homéricas na Biblioteca Sérgio Milliet, do Centro Cultural São Paulo (Vergueiro), uma das poucas da cidade que abre aos domingos e feriados. Uma vez fui consultar na prateleira uma sucessão de livros da mesma área, tirando-os da estante e recolocando-os no lugar, o que é naturalmente uma contravenção das mais graves. O bibliotecário me chamou a atenção em voz alta, dizendo que, uma vez retirados da estante, os livros devem ser depositados sobre as mesas ou num carrinho, ainda que você apenas puxe o título pela lombada para ver a capa. Aparentemente o leitor médio não tem capacidade de devolver o volume no mesmo lugar, gerando uma confusão de proporções épicas na catalogação dos exemplares. Não se determinou com precisão em quantos centímetros era permitido puxar o livro sem configurar uma “retirada” — por via das dúvidas, acabei abreviando a consulta, sobretudo após depositar uma pilha de oito livros na mesa e receber um olhar homicida.

Testemunhei pitos quase militares em gente que falou um pouco mais alto, ainda que o contraventor só estivesse soletrando o título do livro para um funcionário meio surdo. Algumas bibliotecas limitam a quantidade de obras que o usuário pode consultar na mesa, outras só liberam o volume desejado mediante requerimento (é o funcionário que vai pegar no acervo), e há ainda as que deixam bem claro que estão lhe fazendo um grande favor. Já ouvi um bibliotecário lamentando que havia muita demanda por livros naquele dia, que um sujeito apareceu às cinco e meia para abrir ficha (vê se pode) e que ele não via a hora de se aposentar.

Para essas pessoas, o ideal é que não houvesse leitores e as bibliotecas fossem apenas depósitos de volumes impecavelmente enfileirados, incólumes, jamais lidos.



Vanessa Barbara
 nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista daFolha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Site – Facebook

Questões delicadas

Posted: 12th maio 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – Revista da Folha
12 de maio de 2013

por Vanessa Barbara

– São bem moles, sim, mas em caso de acidente aguentam até 4 toneladas.

O ônibus parou no congestionamento e a moça decidiu que era hora de falar do assunto. Trabalhava como representante de uma empresa de próteses de silicone e estava sentada no banco próximo à catraca. Quando o coletivo parou de andar, sacou o celular e ligou para uma cliente.

– Oi, aqui é a Solange da Ultrasilicone. Consegui as próteses que você me pediu… de 350 ml, né?

É difícil saber por que ela resolveu ter essa conversa específica naquele momento, com tamanho requinte de detalhes. Seja como for, o cobrador e os passageiros do 508-L tiraram imediatamente os fones do ouvido e se voltaram naquela direção.

– Olha, desse tamanho grande tem muita procura. Antes as pacientes só pediam de 200 e 250 ml, mas agora o que pedem mais é 300, 350… até 375.

É um tamanho de busto considerado grande, padrão californiana-loira-de-maiô-vermelho.

– Porque depois da cirurgia o volume desincha e a pessoa acaba ficando decepcionada, né? Você está certa, é sempre bom escolher maior para não se arrepender depois. Vai fazer a cirurgia quando, no dia 6 de junho? Acho que vai trocar os curativos na semana seguinte… não, não sei. Você pode deixar o cheque comigo esta semana.

Então o ônibus parou em definitivo no trânsito e, para a sorte dos passageiros, a moça resolveu elencar as particularidades da prótese. Era um material de extrema qualidade e de origem francesa, como todos podíamos apurar.

– Você não vai ter problemas com essa. Tem garantia vitalícia. Nunca tivemos que trocar, quer dizer, só uma vez, para uma cliente que tinha o… a prótese muito velha. Mas você teve sorte, uma paciente de Santos desistiu e aí acabou sobrando.

O cobrador olha com cara de espanto. A moça desanda a falar da consistência do produto, que a propósito não racha, não vaza, não deforma e não fica murcho.

– Você vai amar. E esse é o preço mínimo que te passei, mas faço em duas vezes. Foi um sufoco conseguir, sabe. Quer anotar a conta pra fazer o depósito?

Ela passa todos os dados necessários, nome, CNPJ, telefone, e diz que a paciente pode ligar a qualquer momento, mesmo fora do horário comercial. Imagine que tipo de emergência mamária pode vir a acometer a interlocutora.

É uma das inegáveis vantagens do celular: poder compartilhar assuntos delicados de sua vida com o maior número de pessoas indiferentes ao tema. De peito aberto, arrisco dizer.

– São bem moles, sim, mas em caso de acidente aguentam até 4 toneladas. A gente gosta de dizer que eles até salvam vidas!

Passinho para a frente, por gentileza

Posted: 28th abril 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
Ilustração: Catarina Bessell

Ilustração: Catarina Bessell

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
28 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

Não há nada mais paulistano do que um ônibus lotado. Um coletivo realmente entupido, com gente prensada contra a porta e um sujeito de cócoras em cima do motor, quase no colo do motorista, tentando se comunicar com uma senhora no banco preferencial, escondida atrás de uma pilha de mochilas, sacolas e um frondoso bonsai.

Nessa conjuntura clássica do transporte local, tem sempre alguém que se oferece para segurar as bolsas. Há um garoto que acabou de comprar esfirras e parece constrangido com o embrulho no colo, torturando olfativamente seus companheiros de ônibus. Há gente que dorme de pé e cai pra frente nas curvas.

Há também um senhor afortunado que conseguiu espremer-se no espaço vago entre um balaústre e a cadeirinha do cobrador, espécie de vácuo VIP do coletivo lotado –mas que, se fosse um pouco mais para a esquerda, permitiria a alocação de duas crianças e um cabo de vassoura. Pairam sobre ele, portanto, olhares de reprovação quanto à ineficácia no aproveitamento do espaço.

É ele o responsável por validar o Bilhete Único da turma que não vai conseguir passar a catraca a tempo, alertando o condutor com um sonoro: “Próximo desce!”. Forma-se uma corrente popular para passar o bilhete de mão em mão até chegar à máquina, onde é debitado em polpudos R$ 3. “Vai descer, motô!”, repetem, em coro.

Há sempre uma jovem prensada na roleta que deve girá-la sem passar pro outro lado, o que invariavelmente faz, orgulhosa, num contorcionismo aperfeiçoado em anos. Bebês, travesseiros e sacolas de compras se espremem entre os circunstantes. Conta-se de um anônimo que já transportou, num ônibus relativamente cheio, um beliche desmontado. Começa a chover e alguém fecha as janelas.

Há gente que precisa descer sem ter que descer, só para dar passagem aos que vêm atrás, e um sujeito que dá sinal na última hora e passa rasgando as bolsas dos concidadãos. Quando consegue escapar, saltando os degraus e ganhando a rua, por pouco não emite um “plop!”, feito uma aliviada rolha de vinho. Os restantes se reagrupam enquanto mais três pobres almas adentram pela frente.

Nessas situações, o cobrador é um estrategista, orientando passageiros a irem para o fundo do veículo a fim de liberar o corredor. É ele quem diz: “Um passinho para a frente, por gentileza”, diante de risos histéricos dos presentes. “Tem um espaço ali no canto. Vamos colaborar aí, pessoal”, ele pede, fingindo não ouvir os comentários sarcásticos de: “Senta no meu colo então” e “Debaixo da roda cabem dois”.

Certa vez tomei um ônibus tão cheio, mas tão cheio, que fui prender o cabelo e acabei amarrando junto o de quem estava atrás.

Folha de S.Paulo – revista Serafina
maio 2013

por Vanessa Barbara

Clássico indiscutível da literatura americana, “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, é considerado pela crítica um romance “discursivamente perfeito e inesgotável” (segundo Tony Tanner), com estilo, caracterização e enredo “perfeitamente equilibrados para atingir um fim altamente coeso” (Harold Bloom).

É um dos grandes livros do século, mas não foi sempre assim: em 1925, data de sua publicação original, amargou vendas decepcionantes e uma recepção crítica quase indiferente, vagamente positiva.

Scott Fitzgerald morreu praticamente esquecido, em 1940. Seu obituário no “New York Times” fala em “promessa de uma carreira brilhante jamais cumprida”. Só no fim da década, através de sucessivas reedições e ensaios acadêmicos, a obra foi ganhando espaço na tradição literária.

Cena do filme “O Grande Gatsby”, baseado no clássico homônimo do escritor F. Scott Fitzgerald

O crítico Harold Bloom considera Jay Gatsby o maior personagem da literatura americana. É um herói vulnerável em busca de um ideal, um gângster romântico que se torna vítima da própria obsessão. Sua imagem no escuro, de pé, esticando os braços para a luz verde do outro lado da baía, é poderosa o suficiente para permear todo o livro. Não por acaso ele demora em aparecer no romance e, quando o faz, é somente através dos olhos do narrador, Nick Carraway.

Diz o crítico Tony Tanner que essa imprecisão ou “insubstancialidade ontológica” do personagem é parte essencial da mágica do livro, não podendo, portanto, ser reduzida a uma caricatura. Jay Gatsby é propositalmente indistinto, alguém que se aproxima e some, fica nítido e embaçado, um desafio para o ator que se proponha a representá-lo.

No papel, DiCaprio foi precedido por Alan Ladd, numa adaptação desastrosa de 1949, e por Robert Redford, no famoso longa de 1974.

Mas ele não é necessariamente o personagem central da obra, que possui também um narrador forte e moralmente ambíguo, além do casal Daisy e Tom Buchanan, descuidados e indiferentes. Apesar dos inúmeros elementos cinematográficos do texto, não é uma adaptação fácil nem de interpretações óbvias.

Confesso que ainda não assisti ao trailer da versão de Baz Luhrmann porque fiquei com medo.

A jornalista Vanessa Barbara traduziu “O Grande Gatsby” para a Penguin-Companhia das Letras em 2011.

Despedida

Posted: 23rd abril 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV

 

Folha de S.Paulo – Ilustrada
22 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

Aquele momento em que acaba a luz no meio da novela e todos ficam no escuro, sem ter o que fazer; alguém vai procurar uma lanterna e outro acende uma vela para iluminar não se sabe o quê.404736_449313005163306_1787845195_n

É o instante em que alguém abre um livro, liga o radinho de pilhas, resgata um volume de palavras cruzadas, telefona para a Eletropaulo e descobre que a luz só vai voltar lá pelas três da manhã. Os vizinhos decidem sair à rua, alguns de meias, e há quem se proponha a trazer umas cadeiras enquanto as crianças rolam no chão e comem terra.

A janta é esquentada no fogão, em banho-maria, e as novidades da rua são compartilhadas num telejornal participativo que termina com um adolescente botando fogo num bombril e girando – um espetáculo pirotécnico severamente punido pelos pais. Alguém barbudo aparece com um violão. Um tiozinho já meio bêbado começa a recitar poesia, sendo ardorosamente aplaudido quando se esquece dos versos originais e passa a inventar.

O banho é decretado opcional e a calçada já está cheia de brinquedos, cobertores, tabuleiros de xadrez, uma roda de pôquer à luz de velas, um par de patins e um pessoal que conta histórias de terror sobre um bairro sem luz que é sitiado por zumbis.

Já são onze e meia quando alguém decide ir ao banheiro e descobre que a luz voltou, sabe-se lá há quanto tempo – um segredo que decide guardar para si, pelo menos até terminar a pipoca.

 

**

 

É chegada a hora de sabotar os disjuntores e desligar a tevê puxando pela tomada: depois de 153 crônicas e quase três anos de tendinite provocada pelo constante manuseio do controle remoto, esta coluna deixa de ser publicada hoje, antes que os leitores inadvertidamente cochilem ou mudem de canal.

A partir deste domingo irei transmitir diretamente da revista sãopaulo, onde revezarei com Fabrício Corsaletti na cobertura dos principais assuntos da cidade – ou nem tão principais assim. Na verdade, um tanto quanto aleatórios.

Foi um prazer dividir este espaço com vocês, continuem enviando mensagens alvissareiras, sugestões, protestos, ameaças e ofensas em geral. Deixo aqui um agradecimento especial para Águeda Horn, a competente ilustradora deste espaço, que não reclamou nem uma vez dos assuntos mais abstratos e me desenhou com o cabelo azul.

Fiquem agora com nossa próxima atração, “Flor do Caribe”. Boa noite.

 

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Leitor de livraria

Posted: 15th abril 2013 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
15 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

Reading

A megalivraria é a nova biblioteca. Muita gente almoça às pressas e deixa de escovar os dentes só para poder passar mais tempo lendo confortavelmente num pufe de livraria. Comprar o livro, nunca — a graça é ler um trecho por dia, pular o almoço, disputar com outros dois clientes o único volume em estoque e fazer anotações teóricas num caderninho.

O típico leitor de livraria é aquele que traz seu próprio marcador (ou pega emprestado no caixa do estabelecimento) e esconde os livros ainda não concluídos em lugares aleatórios, a fim de garantir seu paradeiro no dia seguinte. Para esse indivíduo, é muito difícil lidar com a realidade de que o seu livro pode ser vendido de repente, antes que ele chegue ao final, e ainda por cima para alguém que não pretende lê-lo. Ou que não vai lhe dar o devido valor. Por isso, o leitor inveterado recorre a associações mnemônicas a fim de recordar onde deixou o tomo dois de Guerra e paz: na estante de viagens, atrás do guia da Coreia (nota mental: parei na página 234). As benevolentes, de Jonathan Littell, pode ser oculto na área de estudos religiosos. Já a edição comentada de Alice no País das Maravilhas ficaria na seção de moda, ao lado de um livro sobre chapéus. Ou na de literatura brasileira, junto a um romance do Paulo Coelho. (Advertência: a associação com o Chapeleiro Maluco e o Coelho Branco é um tanto manjada e pode ser de fácil decodificação para os vendedores mais calejados.)

A livraria é mais agradável do que a biblioteca por conter uma miríade de poltronas, cadeiras e almofadões com níveis variados de comodidade — muitos leitores caem no sono e são acordados no fim do expediente por um funcionário fechando a loja. Há quem diga que encontrou a cura da insônia na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, outros preferem um lugar mais intimista como a Livraria da Vila para pegar no sono lendo contos de fadas. A Saraiva Mega Store do Shopping Center Norte é recomendada para quem deseja comentar passagens de livros com desconhecidos.

As livrarias possuem os últimos lançamentos e todas as obras têm cheiro de novas. Além disso, nas lojas não é preciso deixar a bolsa no guarda-volumes e é muito difícil levar bronca, ao contrário do que acontece nas bibliotecas. Nenhum funcionário segue o leitor perguntando incessantemente o que ele está procurando, nem há proibição expressa de vasculhar livros por conta própria, vagando pelas prateleiras e tirando volumes do lugar. Isso, como todos sabem, é severamente punido nas bibliotecas públicas, onde o que menos se aprecia é a existência de leitores.

A habilidade do leitor de livraria é a de ler sem deixar vestígios, sem machucar as páginas ou provocar dobras desagradáveis. Ele às vezes leva um laptop para fazer anotações enquanto avança e para pesquisar o significado das palavras, caso esteja com preguiça de ir à seção de dicionários. Ri em voz alta e pede silêncio se alguém está conversando nas proximidades. Quando devora um thriller policial e está nas últimas páginas — o detetive prestes a desvendar o culpado —, pode se incomodar com a interrupção de um vendedor pedindo licença para mostrar o título a um cliente interessado. “Só um segundo”, diz, correndo a página com os olhos. “Eu sabia! Desde o começo!” e, levantando-se: “Você precisa ler isto aqui. É muito bom”. Entrega o volume nas mãos do funcionário, agradecendo e dando boa tarde a todos. No dia seguinte, volta para pedir indicações de títulos policiais naquela mesma linha.

Há quem afirme ter lido nessas condições todos os sete volumes de “As crônicas de gelo e fogo”, de George R. R. Martin (o primeiro tomo está na seção de literatura infantil, perto de um conhecido clássico da Companhia das Letrinhas) e Caninos brancos, de Jack London (na estante de livros técnicos, atrás de Onze técnicas avançadas para clareamento dental). No mesmo setor se encontra O deserto dos tártaros, de Dino Buzatti, e a biografia de Tiradentes, ambos na diagonal, bem no fundo da estante.

Os banheiros desses estabelecimentos também costumam ser melhores do que os de bibliotecas, mas infelizmente não é possível levar um livro para acompanhá-lo lá dentro — há detectores na entrada.

Nas megalivrarias também há cafés, de modo que o leitor mais folgado pode apreciar um bolo de morango com suco enquanto se dedica à fruição de algo que não vai comprar. Vez ou outra há distribuição gratuita de champanhe, vinho e amendoim nos vernissages de lançamento, o que pode ser um incentivo a mais para ler a obra da noite, tirando dúvidas in loco com o autor. Ou para pedir emprestada uma das cadeiras do anfitrião (“Eu não vou incomodar, só estou aqui terminando o capítulo”), lançando assim a moda das noites de autógrafo com um autor e um leitor, numa espécie de showroom do produto.

Duas regras de etiqueta para o leitor de livraria: levar a própria garrafa térmica de casa não é recomendado, tampouco fica bem tirar os sapatos para maior conforto.


ps 1. Leitura recomendada: “Leitor de livraria”, no Blog do Paulo Velho, que serviu de inspiração para este post.

ps 2. A autora gostaria de pedir as mais sinceras desculpas ao Pedro Herz, da Livraria Cultura, pelos eventuais transtornos causados.

Folha de S.Paulo – Ilustrada
15 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

Começou com uma sátira ao restaurante Spoleto, no qual os clientes precisam escolher oito acompanhamentos para o macarrão. No vídeo, divulgado pela internet, uma moça é pressionada por um atendente neurótico, que grita: “Milho, presunto, o que mais? O que mais?”.

Apavorada, ela pede pimentão (“Ai, meu Deus, odeio pimentão”). “Ervilha, quer mais o quê? Fala!”

A moça responde, chorando: “Eu só queria almoçar”. E o atendente: “Ninguém mandou vir almoçar no inferno”.

Produzido pelo grupo humorístico “Porta dos Fundos”, o quadro fez enorme sucesso e foi adotado como propaganda da própria empresa, numa corajosa e bem-sucedida ação de marketing.

A trupe, fundada pelos comediantes Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Antonio Tabet, Luis Lobianco e Clarice Falcão, entre outros, posta vídeos inéditos todas as segundas e quintas-feiras num canal exclusivo do YouTube.

São curtos esquetes de temática absurda e humor nonsense, com um quê de Monty Python. Os melhores trazem um sotaque carioca de classe média totalmente fora de lugar.

Em alguns dos roteiros, Moisés discute com Zaqueu e sua turma o conteúdo das tábuas da lei (“Dez Mandamentos”), uma torcida organizada acompanha uma reunião da firma (“Torcedores”), e dois guerreiros escoceses comentam a falta de quórum numa batalha. “Vou aproveitar e resolver umas coisas, tenho um perrengue ali em Camelot, mas eu volto, tá? Vai segurando aí o pessoal”.

“Assembleia Geral” aborda uma reunião de condomínio na ala 9 da penitenciária Bangu 1. Na pauta, o andamento das obras do túnel subterrâneo e sugestões de nova data para a rebelião.

Em “Trago a pessoa”, um funcionário é designado para buscar e entregar pessoas amadas em três dias. Já em “Van”, um homem conta como pretende levar a família a Miami usando milhas, sobretudo agora que a Viação Itapemirim entrou para a Star Alliance.

“Eu faço Galeão–Guarulhos, Guarulhos–Campinas, Campinas–Belém, Belém–Bogotá, Bogotá–Cidade do México, aí depois a balsa direto. Meu filho, o Luquinha, vai de Saveiro até Cuiabá, e de lá tentamos pegar carona por um site de compras coletivas.”

Ao fundo, o cobrador do lotação grita: “Belém, Bogotá, Miami, via Rezende”.

Bem distantes do humor forçado da televisão, a turma da Porta dos Fundos promete aos fãs um mundo “repleto de fantasia, diversão, aventura e possíveis processos cíveis e criminais”.

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Posted: 8th abril 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
8 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

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Águeda Horn

Uma das características mais curiosas da memória é quando ela teima em reter coisas que não são nossas e nem sequer são relevantes.

Por exemplo, toda vez que eu vejo alguém fritando bolinhos me lembro de uma história absolutamente sem graça que aconteceu com uma amiga: alguns acepipes explodiram na frigideira e ganharam o apelido de “bolinhos Bin Laden”. Não tem importância e nem foi comigo, mas me recordo com nitidez.

Há uns anos, eu e minha mãe evocamos um episódio pitoresco e ficamos dias tentando descobrir quem era o protagonista da história – Eu? Ela? Então percebemos que aquilo estava num livro e acontecera com o Sting.

O mesmo vale para episódios de séries, cenas de novela ou bordões de personagens que compartilhamos como se tivessem acontecido conosco.

Na hora de fazer um pedido no restaurante, por exemplo, alguém pode citar “Friends” e dizer que “Joey não divide comida”. Na outra ponta da mesa, o primo de um amigo de um conhecido exclama: “Lembra quando ele tirou um garfo do bolso e começou a comer um troço do chão? E quando a Rachel fez pavê de carne porque as páginas do livro estavam grudadas?”.

De longe, pode parecer que estamos falando de algo que ocorreu com o grupo.

A memória compartilhada da televisão pode aproximar desconhecidos e afastar bons amigos que não conhecem “Seinfeld” e não entendem por que estes pretzels estão me dando sede. Quando alguém pergunta o que vamos fazer hoje, provavelmente será “o que fazemos todas as noites, Pinky: tentar dominar o mundo”. Quem ignora o desenho “Animaniacs” vai ficar boiando. 

Um jantar pessimamente executado logo é rebatido com a frase: “Amigo, junte suas facas e vá embora”, como no reality show de culinária “Top Chef”. Se algo estranho acontece, a música-tema de “Arquivo-X” é entoada em coro. Em caso de gripe, a sugestão é sempre uma punção lombar. E o diagnóstico, lúpus. Como em “House”.

Às vezes a citação cai no vazio: “Justamente quando pensei que tinha escapado, eles me puxaram de volta”, imita alguém, e é preciso explicar que se trata de uma menção a “Família Soprano”, que por sua vez tirou as palavras de Michael Corleone.

Há até quem conte uma história como se fosse sua, confundindo detalhes e descartando a fonte até que alguém diga: “Isso não aconteceu com o seu primo em Jaguariúna, cara. Foi com o Bob Esponja e um molusco que luta caratê”. 

Sinistros

Posted: 2nd abril 2013 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S.Paulo – Ilustrada
1 de abril de 2013

por Vanessa Barbara

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Num típico programa do canal Investigação Discovery, que estreou em julho, um assassinato hediondo ocorre numa cidadezinha de Ohio, Oregon ou Colorado. A comunidade fica chocada e dois homens são detidos, ex-presidiários em passagem pela região.

Os investigadores falham em colher evidências na cena do crime e não conseguem extrair uma confissão. Dias depois, os suspeitos apresentam um álibi e são liberados.

Durante uma quermesse, a polícia se depara com uma nova pista. Mal podem esperar pelas novas revelações que viriam, deslindando uma seita de rituais satânicos conduzida pelos próprios familiares da vítima.

Fim do primeiro bloco. Segue-se uma série de comerciais sobre programas da emissora: “Índice da Maldade”, “Sinistros”, “O Diabo a Seu Lado”, “Encontros Perigosos”, “Vizinho Assassino”, “A Sangue Frio”. Um anúncio convida os espectadores a participarem da comunidade do canal no Facebook, na qual um anônimo escreve: “Meu primo poderia ser um serial killer”.

Após o intervalo, o caso é retomado e se divulga a tal evidência, algo provavelmente encontrado antes e que só figura nesse momento para fins de suspense: a vítima frequentava um grupo gótico que se reunia no cemitério. Faz-se a reconstituição teatral de uma discussão ocorrida dias antes do crime.

Apesar dos novos rumos da investigação, os detetives não encontram um fio condutor que possa levar à violenta abreviação da vida de Tiffany, mas estão prestes a descobrir algo que mudaria para sempre o vilarejo de Yellow River.

Fim do segundo bloco. No intervalo são exibidos vídeos curtos e chocantes de pessoas se salvando por um triz de ocorrências alarmantes.

O decorrer do caso é detalhado mais uma vez, há nova leva de depoimentos chorosos com música dramática de fundo e uma evidência atordoante: manchas de sangue no cemitério. Sangue de cabrito – assim se encerra o terceiro bloco.

Cinco ou seis comerciais depois, o desfecho: os primos de Tiffany confessam ter matado a jovem num sacrifício ritualístico que envolvia caprinos; seguem-se o julgamento, a condenação e a prisão de membros da seita.

Cenas do coreto de Yellow River, jovens brincando, frases de efeito sobre cidades pacatas onde coisas terríveis podem acontecer. Fim do programa.

Vejam a seguir: uma prostituta lésbica que atraía os clientes para áreas afastadas e os alvejava à queima-roupa, em “Dementes”.