Do Tucuruvi para o mundo

Posted: 20th julho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
20 de julho de 2014

por Vanessa Barbara

Todos os verões, a Prefeitura de Paris organiza uma caça ao tesouro pelas ruas da cidade. A brincadeira acontece num domingo de manhã e tem a duração total de cinco horas e meia. Há percursos distintos em 14 bairros selecionados, com o apoio de comerciantes, artesãos e personalidades locais, que entregam pistas aos competidores.

Participei da edição de 2012 no 6o. Arrondissement. Era um dia frio e chuvoso, mas havia muita gente fazendo fila na subprefeitura para se inscrever.

O tema da vez era uma carta de amor encontrada ao acaso. Havia versões do jogo em francês e em inglês, com um pequeno mapa anexado.

Minha caça ao tesouro tinha início em frente à igreja de Saint-Sulpice, e as instruções que recebi num folheto pomposo envolviam passar por três pequenas livrarias, entrar pelos portões do jardim de Luxemburgo, dar umas voltas e sair por ruas laterais até o cinema Arlequin.

Desisti logo no começo, após ser bombardeada por textos caramelosos como: “Isto dá uma ideia do buraco que você deixaria no meu coração, caso fosse embora”. Ou: “Você consegue ouvir os pássaros cantando e o vento soprando por entre as folhas das árvores?.”


As pistas oscilavam entre o óbvio e o truncado e eram, por vezes, totalmente desprovidas de interesse. Não havia mistério nem clima de empolgação; muitos seguiram o meu exemplo e abandonaram a busca em favor de um chocolate quente.

(Afinal, o início da carta, em fonte cursiva, dizia que a amada estava escondida nas ruas de Paris e esperaria toda a eternidade; portanto não havia motivo para pressa.)


Não sei se as outras edições foram tão decepcionantes; em todo caso, a caça ao tesouro de Paris me pareceu uma atividade protocolar e insossa que se beneficiaria muito de uma consultoria escoteira ou bandeirante.

Na infância e na adolescência, e depois mais tarde, como voluntária dessas organizações, participei de jogos urbanos muito mais longos e difíceis de se decifrar, com um altíssimo potencial de enurese nas botas, que é a minha medida particular de empolgação de uma boa caça ao tesouro. (Muitas crianças chegam a fazer xixi de tanto medo, outras têm crises coletivas de riso.)

Com uma verba muito menor, nossos especialistas em jogos formulariam um roteiro enxuto e sem afetação, com pistas mais objetivas e intrigantes.

Se conseguíamos fazer isso nas inebriantes ruelas do Tucuruvi, fico só imaginando o estrago realizado no Boulevard Saint-Germain.

**

Aproveito este espaço para deixar agora a minha última pista, um tanto óbvia e desprovida de interesse: paro de escrever hoje esta coluna, em busca de outras aventuras pelas ruelas inebriantes do Tucuruvi e do mundo. Foi um prazer participar dessa caça ao tesouro quinzenal com vocês. 

Importante

Posted: 16th julho 2014 by Vanessa Barbara in Sem categoria

A vida enquanto caça ao tesouro

Posted: 6th julho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
6 de julho de 2014

por Vanessa Barbara

Na rue de Charenton, número 442, próximo à place de la Bastille, a intrépida locatária se dirigiu ao interfone e digitou o código 7214, que abria a porta. Na entressala, localizou nervosamente a caixa de correios com o nome LEFEBVRE (no bloco da direita, lado inferior esquerdo). A caixa estava trancada, mas metendo a mão por baixo e forçando uma aba no fundo foi possível retirar de dentro um bipe eletrônico verde para abrir a segunda porta.

Atrás da segunda porta, ela seguiu até o fim do corredor de pedra, onde existia uma escada oculta de acesso aos andares superiores.

O apartamento que aluguei pelo site Airbnb se localizava no terceiro andar, à esquerda de quem sobe. A chave estava escondida no vaso inferior da floreira mais próxima da janela, dissimulada sob uma folha de palmeira. Todas essas instruções me foram passadas por e-mail, e eu me senti verdadeiramente merecedora da honraria de abrir a porta.

E fiquei a matutar por que na vida não se fazem mais jogos de caça ao tesouro, daqueles bem intrincados e compridos, de preferência com moedas de chocolate no final.

Por isso utilizo este espaço para exigir das autoridades a promulgação imediata de uma lei garantindo a universalização de acesso à caça ao tesouro, um direito inalienável de todo cidadão, sobretudo nesses tempos em que direitos mais básicos estão sendo desrespeitados.

Vejam: se é para prender sem motivos, que ao menos forneçam uma pista da delegacia de destino em forma de mímica.

Se é para ceder à burocracia sem sentido, que o façam de modo divertido: o cidadão vai protocolar uma coisa qualquer e, no guichê amarelo, recebe um mapa. Precisa decifrá-lo com uma bússola e disparar em direção a outro guichê numa outra repartição, onde um funcionário vestido de mago lhe dará uma tarefa a ser executada em oito minutos. O cidadão é obrigado a fazer um curativo num morador de rua ou doar sangue, por exemplo, e o beneficiário da boa ação lhe entregará o formulário C65-F.

Já um paciente do SUS em emergência médica deverá seguir as seguintes instruções, com vistas a ser atendido:

1. Primeiro, no térreo do pronto-socorro, digitar no interfone a sequência de Fibonacci.

2. Depois, no corredor, procurar um capacho onde está escrito: “chipotle”. Haverá um número na porta levemente solto, atrás do qual se encontra um engenhoso grampo de cabelo que destrancará um alçapão.

3. Entrar pelo alçapão, descer cinco lances de escada e, no 48o. degrau, haverá um ovo.

4. Dentro desse ovo, um filhote de dragão.

5. Dentro do filhote de dragão, uma chave.

6. Dentro da chave, outra chave.

7. A chave dourada abrirá a porta de um consultório médico, mas só os puros de coração poderão ter acesso à terceira porta, esta realmente a entrada da UTI. 

Um placar macabro

Posted: 3rd julho 2014 by Vanessa Barbara in Sem categoria
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GAPP (Grupo de Apoio ao Protesto Popular)
30 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Gostaria de compartilhar os resultados de um levantamento que fiz para o The New York Times sobre as manifestações contra a Copa do Mundo ocorridas em São Paulo desde o começo do ano. Este é o saldo estatístico dos onze atos “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa”:

- No quesito “coisas quebradas”, foram 10 vidraças de banco, 2 concessionárias, 1 ônibus, 1 viatura policial, 1 guarita da PM e 1 fachada de McDonald’s.

- No quesito “gente quebrada”, foram 508 pessoas detidas e 89 feridas (de acordo com o GAPP, Grupo de Apoio ao Protesto Popular), incluindo um rapaz atingido por munição letal.

Todos os jornais pesquisados souberam informar com precisão o número de bancos vandalizados, bem como o total de detidos. A maioria não se deu ao trabalho de relatar o número de feridos, a não ser de policiais (foram cinco ao todo).

Os veículos também utilizaram as estimativas da Polícia Militar quanto ao número de manifestantes presentes, ainda que esses números fossem visivelmente menores do que se podia verificar no ato. Em muitas ocasiões, a polícia não informou o contingente destacado para o local, mas um cálculo realizado quando essas informações estavam disponíveis indica que houve, em média, uma quantidade bem maior de policiais em relação à de manifestantes – em torno de 20%. E esses são dados conservadores, utilizando apenas os números oficiais.

Em todo caso, o que se pode concluir a partir desses dados é o seguinte:

- Mesmo a polícia estando em maior número e excessivamente paramentada, não é capaz de agir de forma a preservar a integridade física dos manifestantes. Pelo contrário: os números provam que a violência é muito desproporcional aos danos cometidos.

- Se considerarmos o total de 508 detidos para 10 bancos depredados, temos uma fila indiana bastante comprida de vândalos ansiosos para dar sua contribuição ao quebra-quebra. São 50,8 detidos por agência bancária.

- Se, como disse o jogador Ronaldo, “tem que baixar o cacete nos vândalos”, já temos uma proporção de 8,9 feridos por vidraça quebrada. Entre esses feridos se encontram jornalistas, uma grávida e até um padre. 

O missário da torcida

Posted: 3rd julho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de S.Paulo – Especial Copa
1 de julho de 2014

por Vanessa Barbara

No estádio Mané Garrincha, durante a partida entre França e Nigéria, uma dúzia de franceses gritava tresloucadamente. Não diziam apenas “Allez les Bleus” (Avante, Azuis), mas “Qui ne saute pas n’est pas Français” (Quem não pula não é francês), o que muitos julgaram se tratar de um insulto.

Na dúvida, brasileiros puxaram vaias e o grito: “Ni-gé-ria, Ni-gé-ria”. Destituídos de outras ideias, se calaram.

Vez ou outra, os nativos aproveitavam para entoar aquele hino de 1979 que ninguém aguenta mais (“Sou brasileiro”), ainda que ninguém lhes tivesse indagado sua nacionalidade, e ainda que muitos se mostrassem incomodados com essa demonstração de patriotismo coxinha. “O gancho!”, alguém pediu, lembrando que se tratava de uma partida entre França e Nigéria.

A atuação da torcida brasileira tem sido triste. Não estou me referindo apenas a quem acha patriótico vaiar a escalação completa do adversário, assim como seu hino nacional, como aconteceu na partida contra o Chile.

Também não me refiro à pesquisa do Datafolha que mostrou que, nessa mesma partida, 67% dos detentores de ingressos eram brancos e 90% pertenciam à elite.

Estou me concentrando aqui no fato de a Brahma (um dos patrocinadores da seleção) ter decidido contratar animadores profissionais de torcida, com o intuito de combater o desânimo e a falta de criatividade do público pagante. Como numa missa, chegaram a distribuir folhetos com sugestões de gritos diferentes, e houve quem esperasse alguém anunciar ao microfone: “Todos de pé para entoar o cântico n. 44”.

No missário da elite branca nos estádios, começaríamos com os ritos iniciais, quando a comunidade, de pé, seria orientada a não vaiar a entrada da bandeira rival e respeitar o hino alheio. Depois valeria tudo: um cântico de repreensão ao árbitro, um hino de louvor à catimba, um momento de confraternização entre dizimistas.

Os missários seriam impressos em papel pólen de alta gramatura, teriam aroma de semente amazônica de murumuru e custariam um dinheirão ao erário.

Para muitos, melhor seria destituir os atuais proprietários de seus ingressos e promover uma ocupação maciça do estádio pela torcida do Flamengo, do Corinthians ou equivalente.

Ou, vá lá, pelo MTST.

Brasil vs. Brasil (tradução)

Posted: 25th junho 2014 by Vanessa Barbara in Traduções
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The New York Times
27 de junho de 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil — Em fevereiro, durante um protesto contra a Copa do Mundo, um grupo de manifestantes estava fugindo de balas de borracha e gás lacrimogêneo quando topou com um bloco de Carnaval de rua. O pessoal carnavalesco procurou abrigo num bar e passaram a aplaudir a repressão policial, com gritos de: “Parabéns! Parabéns!”. Um homem xingou uma manifestante. Ele estava rindo e batendo palmas, os olhos injetados de uma mistura de raiva e alegria.

Cenas parecidas se repetiram pelo país nas últimas semanas. Tem-se a impressão de que não existe apenas uma seleção representando o Brasil nesse período, mas duas: uma formada pelos que apoiam a Copa e outra composta pelos que a criticam.

O lado favorável inclui fãs de futebol apaixonados pelo torneio, bem como os brasileiros alinhados com o governo federal. Eles alegam que se trata de uma ótima oportunidade para a economia e uma boa forma de promover o Brasil no exterior. Também acreditam que nosso país tem recursos suficientes para sediar o torneio e continuar investindo em serviços públicos como saúde e educação. Para eles, não faz sentido culpar a Copa do Mundo pelos nossos problemas domésticos. Eles geralmente usam a palavra “legado”.

“Ninguém, quando voltar do Brasil, sairá daqui e levará na mala estádio, aeroporto, obras de mobilidade urbana”, disse a presidente Dilma Rousseff. Para ela, isso permanece como benefício para a população.

Os apoiadores da Copa dizem que os protestos deviam ter acontecido sete anos atrás; hoje seria tarde demais para reclamar. Os que insistem em expressar seu descontentamento são vistos como inimigos do governo de esquerda – logo, os manifestantes são considerados fascistas ou terroristas.

O time do contra é representado pelos ativistas nas ruas. Eles estão praticamente sozinhos nessa causa. Precisam enfrentar a desaprovação da mídia e a repressão policial; durante o protesto de fevereiro, foram 2.300 policiais para 1.500 manifestantes – mais de um policial por pessoa. Naquele dia, 262 foram detidos.

A principal justificativa usada para reprimir ou desdenhar os manifestantes é considerá-los vândalos e criminosos. Alguns deles de fato utilizam táticas Black Bloc – são em geral muito jovens, por vezes anarquistas, que se vestem de preto e cobrem os rostos. A tática originou-se no interior de movimentos anticapitalistas e antigovernistas na Itália e na Alemanha, no fim dos anos 70. Consiste em aplicar técnicas de defesa como formar uma linha de frente para proteger os manifestantes e erguer barricadas, mas também pode envolver ações ofensivas como engajar-se em confrontos de rua e vandalizar alvos simbólicos como bancos e prédios governamentais.

É claro que os Black Blocs representam uma pequena parcela dos protestos – eu diria que aproximadamente 10%. A maioria dos manifestantes é pacífica e apenas deseja expressar publicamente sua desaprovação com o gasto excessivo de dinheiro público num evento privado. Eles observam que, sete anos atrás, o governo prometeu que “nenhum centavo de dinheiro público” seria gasto na construção ou reforma de estádios. Hoje, quase 97% do investimento nas arenas veio dessa fonte. Dos 25,5 bilhões de dólares que foram gastos com a Copa do Mundo, 85,5% foi retirado dos cofres públicos. Os manifestantes também criticam as remoções forçadas, as mortes dos operários na construção dos estádios, a isenção de impostos e a corrupção.

Em 12 de junho, dia da abertura da Copa, um protesto em São Paulo foi brutalmente reprimido antes mesmo de poder começar. A polícia deteve 33 cidadãos para “averiguação”, ainda que isso seja ilegal conforme a nossa Constituição. Advogados foram proibidos de acompanhar seus clientes, enquanto socorristas e observadores legais também foram agredidos. Inúmeros policiais removeram suas tarjetas de identificação.

A despeito de tudo isso, nossa mídia está cobrindo política como se fosse um evento esportivo. “Residentes 3 x 1 Ativistas”, dizia a manchete recente de um jornal de grande circulação, após um protesto em São Paulo – como se a realidade fosse uma partida de futebol entre a polícia e os manifestantes, com pessoas assistindo das arquibancadas.

O jornal relatou que moradores hostilizaram os ativistas e, em uma cidade, jogaram ovos neles. “Mete bala”, gritou um morador para a polícia, na sacada de um prédio. “Passa por cima deles”, berrou uma senhora de 70 anos, alegando que os brasileiros estavam passando vergonha diante do mundo. Um vendedor aposentado disse ao repórter do New York Times: “Eu só quero que o Brasil vença a Copa e cale a boca desses palhaços que estão protestando”.

Chegamos, portanto, a uma situação de Brasil vs. Brasil, um cenário competitivo em que um lado comemora os danos infligidos ao outro. O que eu não entendo é como os entusiastas da Copa poderiam vencer quando os manifestantes são reprimidos, já que seus próprios direitos civis estão em jogo. Quanto mais eles aplaudem a violação de direitos básicos como a liberdade de expressão e de reunião, mais todos perdem.

Isso ficou claro para mim durante o protesto de fevereiro, quando o bando carnavalesco estava aplaudindo a polícia debaixo do toldo do bar. De repente, sem motivos, a polícia atirou uma bomba de efeito moral dentro do estabelecimento. O homem que, momentos antes, insultara uma manifestante foi o primeiro a ser brutalmente empurrado por um policial.

Mas, já que estamos falando de esportes, vamos ao placar final: desde o começo dos protestos em São Paulo, há seis meses, até o momento em que a seleção brasileira concluiu sua primeira partida, tivemos um total de dez bancos depredados (vidraças quebradas) e duas concessionárias vandalizadas. No mesmo período, 505 pessoas foram detidas e 89 feridas (de acordo com o GAPP, o Grupo de Apoio ao Protesto Popular), incluindo um atingido por munição letal.

Ninguém vai ganhar essa partida.


Este texto foi publicado em inglês no The International New York Times do dia 26 de junho de 2014. Tradução da autora.

Brazil vs. Brazil

Posted: 25th junho 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens
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The New York Times
27 de junho de 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — In February, during a protest here against the World Cup, demonstrators were running away from rubber bullets and tear gas when they bumped into a group celebrating Carnival. The Carnival people took shelter inside a bar, while cheering the police repression with shouts of: “Well done! Well done!” One man insulted a female demonstrator. He was laughing and clapping, his eyes filled with a mixture of rage and joy.

Similar scenes have been repeated across the nation in the last few weeks. It seems Brazil doesn’t have just one national team representing it during this World Cup; it has two: those who support the tournament, and those who do not.

The pro side includes all soccer fans who are passionate about the World Cup, as well as Brazilians who are aligned with the federal government. They claim that it’s a huge economic opportunity and a good way to promote Brazil abroad. They also believe our country has sufficient resources to host the tournament while still investing in public services like health care and education. For them, it makes no sense blaming the World Cup for our domestic problems. They often use the word “legacy.”

“The airports, subways and stadiums will not go back with the tourists in their suitcases. They will stay here, benefiting us all,” said President Dilma Rousseff.

The supporters say that protests should have happened seven years ago; now it’s too late to complain. Those who continue in their opposition are seen as enemies of the left-wing government — hence, protesters are considered fascists or terrorists.

The other team is represented by the activists on the streets. They are almost alone in their struggle. They face the media’s disapproval and police repression; during one February protest, there were reportedly 2,300 police officers for 1,500 protesters — more than one officer for each demonstrator. That day, 262 people were arrested.

The main reason for repressing or dismissing the protesters is that they are seen as vandals and criminals. Some of them — usually young people, many of them anarchists, who dress in black and cover their faces — do use what are called “Black Bloc” tactics. These originated in anticapitalist and antigovernment movements in Italy and Germany in the late 1970s and early ’80s. They consist of defensive tactics like forming a front line to protect demonstrators and building barricades, as well as offensive actions such as street fighting and vandalizing symbolic targets like government buildings or banks.

Of course, the Black Blocs represent a small part of the rallies — I’d say roughly 10 percent. Most of the demonstrators are peaceful and just want to openly disapprove of the excessive spending of public money on a private event. They point out that, seven years ago, the government promised that “not a single cent of public funds” would be spent building or refurbishing stadiums. But almost 97 percent of the investment in the arenas has come from taxpayers’ money. Of the World Cup’s total cost of $11.5 billion, 85.5 percent has come from public funds. The protesters also speak out against forced evictions, deaths of construction workers, tax exemptions and corruption.

On June 12, the first day of the World Cup, a protest in São Paulo was brutally repressed before it could even start. The police detained 33 citizens for “verification purposes,” even though this is illegal under our Constitution. Lawyers were denied access to their clients, while first- aid workers and legal observers were also attacked. Several police officers removed their identification tags.

Despite these problems, our news media is covering politics as if it were a sporting event. “Residents 3 vs. Activists 1,” read a recent headline in one major newspaper, after a protest in São Paulo — as though it was a soccer match between police officers and protesters, with people watching from the stands.

The newspaper said that residents harassed protesters and, in one city, threw eggs at them. “Shoot them!” a man yelled to the police from his window. “Crush them!” shouted a 70-year-old woman, claiming that Brazilians were embarrassing themselves in front of the world. A retired salesman told a New York Times reporter, “I just want Brazil to win the cup in order to silence these clowns who are protesting.”

So we’ve reached a Brazil vs. Brazil situation, a competitive scenario in which one side celebrates the harms done to the other. What I don’t understand is how the pro-World Cup people could possibly win when the protesters are repressed, since their own civil rights are also at stake. The more they celebrate the violation of basic rights like freedom of expression and the right to assemble, the more everybody loses.

This became clear to me during that February protest, when the Carnival group was cheering on the police from the shelter of a bar. Suddenly, for no apparent reason, the police threw a percussion grenade inside the bar. The man who, moments before, had insulted a female demonstrator, was the first to be brutally pushed by a police officer.

But since we’re on the sports field, this is the score: From the beginning of the protests six months ago to the time Brazil’s team finished its first match, in São Paulo we’ve had a total of 10 banks vandalized (front glass shattered) and two car dealerships damaged. In the same period, 505 people were arrested here and 89 injured (according to GAPP, a group of first-aid volunteers), including one shot with real bullets.

No one is going to win this game.


Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper Folha de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

Campeões do pior (tradução)

Posted: 24th junho 2014 by Vanessa Barbara in Reportagens
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Svenska Dagbladet


Jornal Svenska Dagbladet

11 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Sete anos atrás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo FIFA 2014, o ministro do Esporte Orlando Silva prometeu que “nenhum centavo de dinheiro público” seria gasto na construção ou na reforma dos estádios. Segundo ele, tudo viria da iniciativa privada.

Hoje, quase 97% dos investimentos nos doze estádios veio do dinheiro dos contribuintes. E isso incluindo as três arenas privadas.

A Copa do Mundo irá custar 25,5 bilhões de reais ao Brasil, dos quais 85,5% de recursos públicos, sejam de financiamento federal ou dos orçamentos municipal ou estadual. Isso sem contar o montante de 1,1 bilhão de reais em isenções fiscais concedidas pelo governo federal à FIFA e suas parceiras.

Oito anos atrás, na Alemanha, as instalações esportivas custaram 2,2 bilhões de dólares (4,8 bilhões de reais), mas os clubes e os investidores privados financiaram 60% do total. Mais tarde, na África do Sul, a construção e reforma dos estádios alcançou um montante de 2,7 bilhões de dólares (5,9 bilhões de reais), a maior parte de fontes públicas. O que o país africano gastou para sediar o evento chegou próximo a 25% do seu orçamento anual de educação, um patamar que veremos ser superado no Brasil, onde o total de recursos será igual a 27% do orçamento federal de educação. (Na conta não entram os orçamentos municipais e estaduais.)

A rigor, um terço do orçamento total foi investido em projetos de infraestrutura, como soluções de mobilidade urbana para as cidades-sede. Em São Paulo, de acordo com a última Matriz de Responsabilidades – publicada pelo governo federal em novembro do ano passado –, 548 milhões de reais foram utilizados para promover intervenções viárias no entorno do estádio. E só. Nada foi investido no nosso sistema metroviário superlotado ou em corredores de ônibus. O antigo projeto de um monotrilho ligando o aeroporto ao metrô foi abandonado devido à lentidão das obras e sucessivos adiamentos.

Ano passado, catorze projetos de mobilidade urbana foram cortados do orçamento da Copa, a maioria deles monotrilhos, VLTs (veículo leve sobre trilhos) e corredores de ônibus. Para a cidade de Manaus, por exemplo, não houve nenhum investimento nessa área. Os projetos remanescentes se restringem aos arredores dos estádios – em outras palavras, o importante agora é garantir o acesso às arenas, não melhorar a mobilidade urbana em geral.

E assim se foi um terço dos 25,5 bilhões de reais. Dos recursos restantes, 30% foi alocado para melhoria dos aeroportos e 7% para segurança (como dito antes, 30% foi empregado nos estádios). Os investimentos privados se concentraram nos aeroportos, enquanto os governos locais ficaram totalmente responsáveis pelos setores de telecomunicações (182 milhões de dólares) e segurança (860 milhões de dólares). Nos últimos anos, o orçamento oficial foi constantemente atualizado e continuou crescendo, a ponto de um consultor alemão afirmar a uma revista britânica que “dinheiro claramente não é um problema no Brasil. Eu não sei de onde eles tiram, mas estão gastando uma quantidade incrível na Copa do Mundo.”

E ainda assim, a maior parte do trabalho está longe de ser concluída.

Nosso estádio mais caro, o Mané Garrincha, localizado em Brasília, custou 1,4 bilhão de reais. Foi inteiramente construído usando o dinheiro dos contribuintes do Distrito Federal, a um custo de 22.644,96 reais por assento.

Menos de oito meses após a inauguração, o teto apresentou goteiras. Trabalhadores foram vistos enxugando o chão durante uma partida oficial da Copa das Confederações. Recentemente, o Tribunal de Contas do Distrito Federal encontrou evidências de 337 milhões em superfaturamento, que ainda estão sendo investigadas. A auditoria revelou inúmeras irregularidades na construção do estádio, como compras inadequadas de material, erros graves nos cálculos do custos de frete, além de dispensas em multas por atraso nas entregas e um prazo perdido no requerimento de isenção de impostos.

Da mesma forma, o projeto para um sistema de VLT em Brasília foi cortado em função de irregularidades no processo de licitação. (Suspeita-se que houve transferência de recursos entre os dois principais competidores na disputa.)

E não é só isso: ano passado, após um escândalo público, o governo de Brasília teve de cancelar a licitação para a compra de 17 mil capas de chuva, que seriam distribuídas à polícia – o custo total era de 5,35 milhões de reais. O preço de cada capa: 315 reais. Numa manobra quase marxista (Groucho, não Karl), tentaram até mesmo convencer a população da alta qualidade do produto: “É uma capa especial, com sistema reflexivo, que permite exercer a atividade policial, correr, pular muro, tem encaixe para painel balístico”, explicaram. Ninguém engoliu. Possivelmente porque a Copa será disputada num período de seca.

**

Em janeiro, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, disse que o Brasil estava mais atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo do que qualquer outra nação sede, mesmo tendo tido sete anos para se aprontar. Em março, o secretário-geral da FIFA Jérôme Valcke sugeriu que poderíamos ser “os piores organizadores do pior evento de todos os tempos”.

Concordo: até o momento, oito trabalhadores morreram na construção dos estádios. De acordo com a Coordenação Nacional dos Comitês Populares da Copa, ao todo 250 mil pessoas foram removidas à força de suas casas para dar espaço ao megaevento futebolístico. Esses despejos foram frequentemente marcados por violência policial e desrespeito aos direitos humanos.

Não que esperássemos algo diferente. Afinal, vivemos num país em que até as crianças sabem o significado de “fraude na licitação”, “caixa dois”, “sonegação”, “extorsão” e “corrupção”. Outro dia, meu sobrinho de quatro anos estava brincando na sala com seus bloquinhos de madeira e me perguntou o que eram “estádios superfaturados”. Juntos simulamos um colapso estrutural causado por materiais de péssima qualidade e planejamento malfeito.

Aqueles que levantam a voz contra o gasto excessivo, as remoções forçadas, a violência da polícia, a corrupção e a desigualdade não encontram muita ressonância. Ainda que os protestos  tenham aumentado, o governo acena com mais repressão policial, com medo de que alguém estrague a festa bilionária. Até mesmo manifestantes pacíficos têm sido tratados como terroristas, e o governo decidiu empregar o Exército para garantir a segurança durante a Copa.

Enquanto isso, os fãs do futebol lutam para comprar seus ingressos, que são caros e disputados. Um amigo só conseguiu o seu para Coreia do Sul vs. Bélgica (o menos desejado dos jogos que acontecem em São Paulo), e os meus foram para três partidas em lugares a até mil quilômetros de distância de casa. Cada ingresso me custou em média 380 reais, o que equivale a metade do nosso salário mínimo mensal. É virtualmente impossível conseguir ingressos para as partidas do Brasil.

A meu ver, já somos os campeões do pior.

 


Este texto foi publicado originalmente no jornal Svenska Dagbladet, da Suécia, no dia 11 de junho de 2014. Tradução do original em inglês: Giovane Salimena.

Champions of the worst

Posted: 23rd junho 2014 by Vanessa Barbara in Reportagens
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Svenska Dagbladet

Svenska Dagbladet (Sweden)
June 11, 2014

Text in Swedish:
http://www.svd.se/kultur/brasilien-redan-varldsmastare_3649296.svd
Translation: Clemens Poellinger

by Vanessa Barbara

Seven years ago, right after Brazil was chosen as host for the 2014 FIFA World Cup, the Minister of Sport Orlando Silva promised that “not a single cent of public funds” would be spent building or reforming stadiums. “All money will come from private sources”, he said.

Today, nearly a month from the event, almost 97% of the investment in the twelve stadiums has come from taxpayer’s money. And that’s including the three private arenas.

The next FIFA World Cup will cost around $12 billion to Brazil, of which 85,5 percent from public funds, either provided by city or state budgets, federal financing, or tax exemptions. The expenditure on stadiums corresponds to $4bn of the total bill.

Eight years ago, in Germany, sports venues had cost $2.2bn, but clubs and private investors financed 60 percent of the total. Later, in South Africa, the building and upgrading of stadiums had amounted to $2,7bn, mostly from public sources. What the African country had spent to host the event was close to 25 percent of its annual education budget, a figure we’ll see topped in Brazil, where total funds will be equivalent to 27 percent of the national education budget.

Officially one-third of the total bill has been invested in infrastructure projects, such as urban mobility solutions for the host cities. In São Paulo, according to the Responsibilities Matrix issued by the federal government, $250 million have been used to improve the roadways around the stadium. And that’s all. Nothing was invested in our overcrowded subway system or in bus corridors. The old project of a monorail connecting the city airport to the subway was abandoned due to the slow pace of work, after successive delays.

Last year, fourteen projects on urban mobility were cut from the World Cup budget, most of them monorails, light rails and bus corridors. The city of Manaus, Amazonas’ capital, for instance, was left without any investments in that field. The remaining projects are restricted to the stadium’s vicinities – in other words, the important now is to guarantee access to the arenas, not to improve general urban mobility.

And there goes roughly one-third of the $12bn. Of the remaining funds, 30 percent were allocated to improvements in airports, and 7 percent to security measures (as I said earlier, another 30 percent was employed in stadiums). Private investments concentrated in the airports, while local governments were fully responsible for telecommunications ($182mi) and security ($860mi). The official budget is constantly being updated and keeps growing, to the point that a German consultant confessed to a British magazine: “Money clearly is not an issue in Brazil. I don’t know where they get it from, but they are spending an incredible amount of money on the World Cup.”

And yet, most of the work is far from being done.

Our most expensive stadium, Mané Garrincha, located at the nation’s capital, Brasília, has cost $720mi. It was entirely built using the city’s taxpayer’s money, at a rate of $8,307 per seat. Less than eight months after its opening, it had a leaking roof. Employers had to mop up the floor during an official Confederations Cup match. Recently, the Court of Auditors of the Federal District found evidence of $185mi in over billing, which is still being investigated. The auditing revealed a lot of irregularities in the venue’s construction, such as improper purchases of equipment, serious shipping miscalculations, plus allowances for late delivery penalties and a delayed request for tax exemptions.

Likewise, the project of a light rail system in Brasília was cut due to alleged irregularities in the bidding process. (It is suspected that there has been a transfer of funds between the two main competitors in the tender.)

And there’s more: last year, after a public scandal, Brasília’s government had to cancel the bidding for the purchase of 17,000 raincoats, which would be distributed to the police – the total budget was $2,3mi. The price of each raincoat: $140. In a rather Marxist move (Groucho’s, not Karl’s), they even tried to convince the public of the product’s fine quality: “These raincoats, equipped with reflective high-performance strips of material, were labeled Safety Apparel with High Visibility, intended for traffic police and traffic aids”, they said. Nobody fell for it. Possibly because the tournament will be played in the dry season.

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Last January, the president of FIFA, Joseph Blatter, said Brazil was further behind in their arrangements for the World Cup than any previous host nation, even though it had seven years to prepare. In March, FIFA’s secretary-general Jérôme Valcke implied we could be “the worst organizers of the worst event ever”.

I agree: until now, eight workers have died building the venues. According to the National Coordination of World Cup Popular Committees, a total of 250,000 people are threatened or have been forcibly removed from their homes to make way for the soccer mega-event. These evictions have been often marked by police brutality and disrespect for human rights.

Not that we would expect otherwise. After all, we live in a country where children of all ages know the meaning of “bid-rigging”, “slush-fund”, “tax evasion”, “extortion”, and “corruption”. Just the other day, my 4-year-old nephew was playing with his building blocks in the living room and asked me what was the meaning of “overpriced stadium”. Together we’ve enacted a collapse caused by poor construction materials and sloppy planning.

Those who speak up against excessive spending, forced evictions, police violence, corruption and inequality don’t have much resonance. Even though demonstrations are getting bigger, the government is waving with police repression, fearing that someone would spoil that billionaire party. Even pacific demonstrators have been treated as terrorists, and the government has settled on the use of the Army to ensure public security during the World Cup.

In the meantime, soccer fans struggle to buy their tickets, which are pricy and scarce. A friend of mine got one only for South Korea vs. Belgium (the least desired of the games occurring in São Paulo), and I managed to buy three for matches being held at locations as far as 1,000 kilometers from home. Each ticket has cost me an average of $170, which is half our monthly minimum wage. It’s virtually impossible to get tickets for Brazil’s matches.

As far as I’m concerned, we’re already champions of the worst World Cup ever.

Guia prático da Copa

Posted: 23rd junho 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
22 de junho de 2014

por Vanessa Barbara

Com vistas a complementar o Manual de Procedimentos elaborado pela prefeitura carioca e o Manual do Estrangeiro Assaltado, emitido pela Polícia Civil de São Paulo, aqui vão algumas medidas de precaução voltadas ao torcedor que deseja aproveitar melhor o Mundial no Brasil.

Primeiro: deve-se cogitar a instalação de um bunker caseiro, onde se possam armazenar víveres (amendoins), líquidos (cerveja), um gerador de energia, uma tevê sobressalente, um chinelo da sorte e um desfibrilador programado para agir de forma automática nas disputas de pênaltis. Pedir demissão do emprego é uma opção válida, porém custosa.

Caso o torcedor pretenda comparecer a uma partida no estádio, a estratégia deve ser a de guerrilha urbana. Munido de um capacete, cotoveleiras, vinagre e ingresso, o fã deve estar preparado para encarar não só os congestionamentos como também a equipe de “turismo receptivo” da Copa, que consiste em funcionários altamente treinados (e armados) para conter distúrbios.

Jamais saia de casa vestido de preto, a não ser que queira ser confundido com um torcedor de rúgbi neozelandês ou adepto da tática black bloc.

Se houver ação da polícia ou do Exército, cumpre-se observar uma recomendação dos tempos da Guerra Fria diante da ameaça de hecatombe nuclear: na dúvida, “duck and cover” (abaixe-se e proteja-se). Abstenha-se, portanto, de correr tresloucadamente das bombas, feito um morador depauperado das áreas de remoção da Copa; tampouco procure abrigo em locais fechados.

Prefira encostar nas laterais e se proteger atrás de postes ou bancas de jornal, de preferência com as mãos para cima a fim de parecer mais alto.

O torcedor precavido deve sair de casa com antecedência, dar comida para os peixes e conferir a localização do portão de entrada. Segundo o ex-presidente Lula, são três as opções oficiais de transporte: a pé (descalço), de bicicleta e de jegue.

Tome cuidado ao portar objetos ilegais como vuvuzela, caxirola e camisas falsificadas, mas não se esqueça da máscara de gás modelo GMC-2 com filtro para gases ácidos e vapores orgânicos, além do telefone de um advogado.

Lembrando que a organização do evento precisa de voluntários para efetuar a tradução simultânea dos gritos das ruas aos turistas estrangeiros. Uma proposta de cartilha a ser distribuída pela Fifa dá conta de alguns bordões, como: “Ei, Dilma, vai tomar no…”, que pode ser vertido para o idioma anglo-saxão de forma mais precisa e elegante: “They’re suggesting some curious and specific new hobbies to the President”.

O grito “Não, não, mais aumento não/ O Fernando Haddad é um cabeça de melão” dá espaço para liberdade poética e metrificação a gosto.

Já “Quem não pula quer a Fifa” será oficialmente traduzido da seguinte forma: “They’re exercising for the 2016 Olympics”.