Folha de S. Paulo – Ilustrada
23 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

À beira de uma piscina, Sherlock Holmes encara seu arqui-inimigo Jim Moriarty. Aponta um revólver para o rival, mas hesita: Watson está na mira de atiradores e há explosivos no chão. Sherlock mira em Moriarty e, sem opções, passa para os explosivos. Vai ou não atirar?

Essa dúvida perseguiu os fãs durante um ano e meio, mas em 1o de janeiro foi finalmente desfeita com a estreia da segunda temporada de “Sherlock” na BBC (ver coluna de 9/1/11, “O Napoleão do Crime”).

A cena fica em suspenso até que o celular de Moriarty se põe a tocar – a ringtone é “Staying Alive”, dos Bee Gees. “Tudo bem se eu atender?”, pergunta o educado vilão, pedindo constrangidas desculpas aos presentes.

Se a primeira temporada da minissérie foi genial, a segunda não fica atrás. A mente de Sherlock é como “uma locomotiva sem controle, um foguete se despedaçando no ar”, e isso se traduz em imagens. Sempre que possível, o detetive não explica em diálogos como chegou a uma conclusão: seguindo seu olhar, a câmera capta detalhes de objetos e faz estourar deduções por escrito na tela.

No episódio “O cão dos Baskerville”, Sherlock projeta um mapa mental onde deposita suas memórias. “Teoricamente, você nunca esquece nada do que viu”, explica Watson. “Tudo o que precisa é encontrar o caminho de volta.” É o que ele faz diante do espectador, arrastando e descartando no ar inúmeras associações de palavras, imagens e lembranças, à la “Minority Report”.

Também os cenários sofrem vertiginosas montagens a serviço da trama – Sherlock está na sala e “vai e volta” de uma cena de crime, ou deleta um grupo de pessoas do sofá e torna a enxergá-los assim que dizem algo interessante.

Desta nova leva, destacam-se a participação demolidora de Irene Adler e o desfecho da temporada, baseado no conto “O problema final”. O episódio foi exibido no dia 15 e já é motivo de sangrentas discussões nos fóruns. Só aqui em casa os últimos minutos foram repassados cinco vezes, com pausas estratégicas para levantamento de hipóteses.

Não se trata apenas da versão contemporânea de um clássico, mas de uma bela reinvenção de linguagem.

Bem diferente, aliás, de “Sherlock Holmes 2: O Jogo de Sombras”, longa-metragem que estreou no Brasil no último dia 13 e usa os efeitos especiais sem critérios, contentando-se com algumas boas cenas de ação e pouca engenhosidade na trama. Curiosamente, ambas as versões falam do mesmo conto.

 

!! A Hortaliça!!
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Cerzir bem para cerzir sempre

#088 – São Paulo, 23 de janeiro de 2012
Edição especial de aniversário – 10 anos
Todo poder à beterraba
www.hortifruti.org

 

“Eu poderia esculpir um homem melhor de uma banana”
(Theodore Roosevelt)

“E me perguntei a respeito do presente: qual era a sua largura, qual a sua profundidade e quanto dele era meu.”
(Kurt Vonnegut Jr.)

“Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha avó”
(Vanessa da Mata)

:: EDITORIAL ::

Há exatos dez anos, no dia 23 de janeiro de 2002 às 3h15 da madrugada, A Hortaliça vinha ao mundo. Destinatários criteriosamente selecionados receberam a primeira edição deste periódico, e possivelmente a enviaram direto para a lixeira. Os que assim não o fizeram foi por burrice, ou quem sabe por implicância do Mailer-Daemon – a cada número da Horta, 3,54% do nosso universo de assinantes manifesta seu desagrado via Mailer-Daemon, e uma porcentagem cada vez menor manifesta seu desagrado por meio de pesadas ofensas ao nosso staff. Destes, muitos são colegas de trabalho do meu pai (criteriosamente selecionados), que não têm culpa de haver acontecido em 2003 um tilt sistêmico no catálogo de endereços do Outlook Express, misturando os religiosos assinantes da Horta aos profanos técnicos de refrigeração deste mundo. O que permanece inexplicado é o fato de continuarem recebendo este hebdomadário, apesar dos apelos desesperados e ameaças de processo. (Um abraço para o eng. Kan Wing e o Señor Rodriguez. Alô alô, gente com sobrenome esquisito.)

Mas hoje vamos tentar não mudar de assunto: após 88 caudalosas edições enviadas a 703 assinantes, completamos dez anos de vida com a mesma falta de credibilidade e noção que nos caracterizaram desde o início. A Hortaliça nasceu naqueles dias ociosos de férias de verão em que a gente já dormiu o suficiente, cavou um buraco no jardim e chegou a martelar sem motivos a parede do vizinho, só de tédio. Esta editora-chefe que vos escreve tinha 19 anos de idade e uma multidão de colaboradores imaginários disponíveis para a empreitada, sobretudo os mortos, que não tinham como reclamar. Juntos, pinçamos trechos pitorescos de coisas que estávamos lendo, elegemos cerca de 20 destinatários e enviamos o número de estreia deste que se tornaria um jornal lendário na comunidade hortifrutigranjeira.

E aqui cabe um pronunciamento oficial sob orientação de nosso Departamento Jurídico, com vistas a dissipar os boatos que vêm circulando a nosso respeito. Quando o caderno Ilustríssima publicou uma edição d’A Hortaliça, em agosto de 2010, correram rumores de que o almanaque mandaquiense se tornaria um suplemento fixo do jornal Folha de S.Paulo, dadas as similaridades botânico-folhosas de ambas as publicações. Venho aqui esclarecer que se trata de um boato infundado: A Hortaliça nunca teve tal pretensão; ao contrário, a Folha é que se transformaria num encarte do nosso querido hebdomadário leguminoso.

As negociações não vingaram por motivos exteriores à vontade dos envolvidos – nossa redação demonstrou ganância desmedida na hora de impor os seus termos, que envolviam a instalação de uma piscina de bolinhas com raia olímpica em pleno coração do bairro –, mas o afeto mútuo permanece. O leitor desocupado que acessar o sítio http://www.hortifruti.org verá, além do arquivo integral com nossas 88 edições abertas, uma centena de crônicas resultantes da joint-venture entre ambas as empresas jornalísticas.

E a história continua, mais ou menos cambaleante, daqui até os próximos dez anos.

 

:: QUERIDO SCOTT, QUERIDA ZELDA ::

26 de abril de 1934
Para Zelda

E a única tristeza é viver sem você [...]. Você e eu fomos felizes; não fomos felizes uma vez só, fomos felizes mil vezes.

 

:: RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS ::
Oliver Sacks, O Olhar da mente

Existem diversos recursos ópticos ou mecânicos para ampliar o campo de visão quando se perde um olho. O uso de um prisma, por exemplo, pode permitir de seis a oito graus adicionais de campo visual, e há também engenhosas estratégias com espelhos. Uma solução mais drástica foi tentada no século XV por Frederico, duque de Urbino, que perdeu um olho em um torneio. Diante da eterna ameaça de assassinato, e para preservar sua habilidade no campo de batalha, ele mandou cirurgiões amputarem a ponta de seu nariz para dar a seu olho remanescente um campo visual mais amplo.

 

:: ADÍLIA LOPES ::
Rafael Mantovani, em Cão

1.
vejo Adília Lopes ler no vídeo
um rato a Capela do Rato
mas sumiu o som do vídeo

como senti saudades de Adília Lopes
enquanto reiniciava o computador

como se ela morasse pra sempre numa rua muito longe
rua rio muito longe

[...]

5.
Adília Lopes tem poemas
tão simples
que não entendo

de tão finos não consigo
entrar
porque saio do outro lado

são herméticos
ao contrário

 

:: SERIA NELSON JOBIM MANDAQUIENSE? ::
da piauí

Ainda menino, ele tinha obsessão pela pontualidade. Se precisasse pegar um trem, digamos, às onze da manhã, fazia questão de chegar à estação uma hora antes. Sua mãe o deixava lá, voltava para casa, e depois retornava à estação para embarcá-lo.

 

:: MAIS MANDAQUI ::
Juro pelo seu Farias que ouvi essa conversa

- Como é o seu nome?
- Gregório.
- E como eu posso te chamar?
- De Greg.
- Posso te chamar de “Delícia”?

 

:: ENSAIOS DE AMOR ::
Alain de Botton

Então, inevitavelmente, eu comecei a esquecer. Poucos meses após romper com ela, descobri-me na área de Londres em que ela havia vivido e reparei que pensar nela não me causava mais tanta agonia, eu até notei que meu primeiro pensamento não era para ela (embora aquelas fossem exatamente as suas vizinhanças), mas para o encontro que eu havia marcado com alguém num restaurante nas proximidades. Percebi que a lembrança de Chloe havia se neutralizado e se tornado parte da história. Mas a culpa acompanhava esse esquecimento. Não era mais a ausência dela que me feria, mas minha crescente indiferença por ela. [...]

Foi preciso um longo tempo para que as centenas de associações que Chloe e eu havíamos acumulado juntos se desvanecessem. Tive de viver com meu sofá por meses antes que a imagem dela deitada nele de camisola fosse substituída por outra imagem, a imagem de um amigo lendo um livro nele, ou de meu casaco jogado sobre ele. Tive de andar por Islington por numerosas ocasiões até poder esquecer que Islington não era só o distrito de Chloe, mas um lugar útil para se fazer compras ou jantar. Tive de revisitar quase todos os locais físicos, reescrever todos os tópicos de conversação, tocar de novo cada música e repassar cada atividade que ela e eu havíamos compartilhado para reconquistá-las para o presente, para desfigurar suas associações. Mas aos poucos eu me esqueci.

 

:: AS TARTARUGAS ENTENDERAM TUDO ::

 

:: COISAS QUE ME SÃO CARAS ::
Ivan Karamázov, psicografado por Dostoiévski

Tenho vontade de viver e vivo, ainda que contrariando a lógica. Vá que eu não acredite na ordem das coisas, mas a mim me são caras as folhinhas pegajosas que desabrocham na primavera, me é caro o céu azul, é caro esse ou aquele homem de quem, não sei se acreditas, às vezes a gente não sabe por que gosta, me é caro um ou outro feito humano no qual a gente talvez tenha até deixado de acreditar há muito tempo e mesmo assim, movido pela lembrança antiga, o respeita de coração.

 

:: RIQUELME ::

De um blog português, falando sobre a seriedade em campo do jogador Riquelme:

A verdade é que, a julgar pelo semblante de Riquelme, parece que lhe morre um irmão todos os dias em que joga!

 

:: PARA SCOTT ::

de Zelda Fitzgerald
9 de março de 1932

Querido, eu o amo – como com certeza você já sabe – e conquanto continue confusa quanto à posição que me cabe neste universo desconcertante e cataclísmico, não me esqueci do ímpeto original: que tem sido, por um período considerável, já, moldar-me em algo de onde possamos, quietinhos, continuar nos amando como aprouver aos deuses e nós mesmos julgarmos justo e direito. De modo que se conseguir aceitar alguma ligação espiritual com esta massa de confusão, que é como cada vez mais eu me vejo, me ame também. Ao menos tente, já que um dia hei de produzir algo que vai satisfazer minha necessidade de acreditar, ao passo que você vai se sentir muito mal quando vir minha obra-prima, caso tenha de dizer: “Se ao menos eu não tivesse levado a vitrola”.

 

:: SLOGAN DE CAMPANHA ::
Para a festa da democracia

Mais leite, mais água, mas menos água no leite – Vote no Barão de Itararé, Apparício Torelly.

 

:: HIPOTIREOIDISMO ::
Kurt Vonnegut Jr., Matadouro n. 5

– Salvei a sua vida mais uma vez, débil mental – disse Weary a Billy na vala. Há dias que vinha salvando a vida de Billy, xingando-o, acertando-lhe pontapés, esbofeteando-o, obrigando-o a ficar em movimento. Era absolutamente necessário usar de crueldade, pois Billy nada fazia para salvar a si próprio. Billy queria desistir. Tinha frio e fome, sentia-se desajeitado e incompetente. Mal podia distinguir entre sono e vigília e agora, no terceiro dia, tampouco notou diferenças importantes entre andar e ficar parado.

 

:: QUADRAS PAULISTANAS ::
Fabrício Corsaletti

pichação mais esquisita
nunca vi, sem brincadeira
“Rosivane, sem-vergonha
devolva minha assadeira”

missoshiro, missoshiro
delicado companheiro
que ressaca não se cura
com teu aroma e tempero?

 

:: RACISTAS! ::
Quino, Mafalda

 

:: PLANOS PARA 2012 ::
Wim Wenders, Asas do Desejo

Damiel: Às vezes me canso dessa existência espiritual. Em vez de pairar para sempre sobre os humanos eu gostaria de sentir um peso crescendo em mim, findando a eternidade e prendendo-me à terra. Gostaria de, a cada passo, a cada rajada de vento, poder dizer “Agora. Agora e agora”, e não mais “para sempre” e “por toda a eternidade”. Sentar-me num lugar vazio à mesa de carteado e ser cumprimentado, mesmo que seja com um aceno. Toda vez que participamos, foi de mentira. Brigamos de mentira com alguém, pescamos um peixe de mentira, sentamo-nos à mesa de mentira, comemos e bebemos de mentira. Fingimos comer carneiro assado e tomar vinho em tendas no deserto. Não, não preciso ter um filho e nem plantar uma árvore, mas seria ótimo voltar pra casa após um dia cansativo e dar comida para o gato, como Philip Marlowe, ter febre e os dedos sujos de tinta do jornal, empolgar-se não só por ideias, mas por uma refeição ou pela linha suave de uma nuca. Mentir! Na cara dura. Sentir os ossos conforme a gente anda. E finalmente supor, em vez de saber. Ser capaz de dizer “ah” e “oh” e “ei”, em vez de “sim” e “amém”.

Cassiel: É, ser capaz de apreciar de vez em quando a maldade. Sugar todos os demônios dos transeuntes e persegui-los mundo afora. Ser um selvagem.

Damiel: Ou ao menos saber como é a sensação de tirar os sapatos debaixo da mesa e alongar os dedos dos pés.

 

:: PLANOS PARA 2012 – SEGUNDA PARTE ::

Damiel: Primeiro, tomarei um banho. Depois farei a barba com um turco que me dará direito a massagem. Depois comprarei um jornal e o lerei das manchetes até o horóscopo. [...] Se alguém tropeçar em mim, terá que pedir desculpas. Serei empurrado e empurrarei de volta. No bar lotado, o garçom me arrumará uma mesa. Um carro oficial irá parar e o prefeito me dará carona. Serei conhecido de todos e não desconfiarei de ninguém. Não direi uma só palavra e entenderei todos os idiomas. Esse será o meu primeiro dia.

 

:: 501 LOTES PARA CARPIR ::
Porque tá fácil cuidar da vida alheia

http://501lotesparacarpir.tumblr.com/

 

:: DIPLOMACIA ::
Shimomura & Markoff, Contra-ataque

A diplomacia é a arte de falar “que cachorrinho lindo” enquanto se tenta pegar o porrete.

 

:: DA IMPORTÂNCIA DOS ABSURDOS ::
Ivan Karamázov, de novo

– O problema é que existe esse porém… – bradou Ivan. – Saibas tu, noviço, que os absurdos são necessários demais na Terra. É sobre os absurdos que se funda o mundo, e neste talvez não acontecesse absolutamente nada sem eles. Nós sabemos o que sabemos!

 

:: PARA SCOTT ::

Primavera/verão de 1931,
Clínica Prangins, Nyon, Suíça

Querido –

Fui a Genebra sozinha, eu e outra doida, e a cidade estava densa e carregada antes da chuva. O céu cinzento gotejava sobre as calçadas feito uma sobremesa cheirosa, depois de uma refeição pesada, e eu queria tanto estar em Lausanne com você – Sábado, voltando de Berna, procurei entre todos os que estavam na estação, quando passamos. Parecia incrível que algo tão querido quanto sua face luminosa não estivesse no mesmo lugar onde eu a vi pela última vez. Alguma vez já se sentiu solitário a ponto de se julgar eternamente culpado – como se não tivesse posto parte das roupas – eu o amo tanto e estar sem você é como ter saído e deixado o gás aceso, ou largado o bebê no cesto de roupa suja. Mas vou vê-lo em breve, e a chuva martela do lado de fora da janela, achata as árvores encharcadas, sobrecarrega o cascalho do passeio e eu torço para que a terra encolha com toda essa molhadeira, assim você ficará mais perto.

 

:: NA NORUEGA É ASSIM ::
a sabedoria de Rafael Mantovani, Cão

(na Noruega é assim:
o sono desce de trenó
desembarca em pernas curtas
traz uma mochila, diz que vai morar comigo

ele tem o rosto de um cachorro
e um rastro escuro na barriga
ele guarda os nomes de lugar
escritos todos numa lista.)

 

 

:: OTIMISMO EM GOTAS ::

Como dizia o Barão de Itararé, “é de onde não se espera nada que não sai coisa alguma”.

 

:: PARA SCOTT ::

25 de novembro de 1931
Montgomery, Alabama

O Natal está chegando e sua mãe estará aqui dentro de duas semanas, espero. Mandei o vestido para Annabel. Ela vai achá-lo um tanto Botticelli, mas talvez acabe sendo convidada para um festival de morangos, ou para rolar toras nos jogos da Vestfália, e aí poderá usá-lo para amarrar as canelas; ou talvez se veja presa num prédio em chamas e o vestido servirá para fazer uma escada.

 

:: MUITAS VEZES ::
Marcel Proust, Em busca do Tempo Perdido (Combray)

“É engraçado, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não posso pensar muito de cada vez”.

“Muitas vezes, mas pouco de cada vez, como o pobre do velho Swann” tornara-se uma das frases favoritas do meu avô, que a dizia a propósito das coisas mais diversas.

 

:: O AVÔ NA MPB ::

Nos últimos dez anos, a série “O avô na Música Popular Brasileira” andou progredindo e agora comporta a variante “avó” – às vezes mesclada ao seu companheiro e às vezes em voo solo, como nos exemplos a seguir. Outra novidade revelada por nossos estudos: além de “amor” por “avô” e “voz” por “avó”, temos também “alegria” por “alergia”, vocábulos substituídos no tempo da ditadura para despistar os milicos dos nossos familiares e das nossas crises de rinite.

“Tanto tempo longe de você
Quero ao menos lhe falar
A distância não vai impedir
Meu avô de lhe encontrar

Cartas já não adiantam mais
Quero ouvir a sua avó
Vou telefonar dizendo
Que eu estou quase morrendo
De saudades de você”
(MONTE, Marisa)

“Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa
Cabe o meu avô
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira”
(CIDADE, Banda Mais Bonita da)

“Quem inventou o avô?
Me explica por favor
Daqui vejo seu descanso
Perto do seu travesseiro
Depois quero ver se acerto
Dos dois quem acorda primeiro”
(URBANA, Legião)

“Meu peito agora dispara
Vivo em constante alergia
É o avô que está aqui”
(MONTE, Marisa)

 

:: NÃO GOSTEI ::

Março de 1920
Montgomery, Alabama

Eu amo você, querido Scott, e você me ama, de modo que podemos ao menos ser gratos por isso –
Obrigada pelo livro – não gostei –
Zelda Sayre

 

>>>> Agradecimentos

A Isabel A. W. de Nonno, Marcos Barbará, Mariana Delfini, Nayra Dmitruk, Paulo Henrique Martins. Assessoria jurídica: dr. Renato Onofri. Aproveitamos para cumprimentar alguns dos mais vetustos colaboradores deste jornal, a saber: Adriano Marcato, Antonio Prata, Bruno Brasil, Chico Mattoso, Maria Emilia Bender, Paulo Werneck, Reinaldo Moraes, Ricardo Monier, Sérgio Praça, Stephanie Avari, o Zé, os Dadás.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado — logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie Avari, a moradora mais ilustre da rua Paulo da Silva Gordo)   ## Você está recebendo !!Witzelsucht!! porque estava na mala direta. Ou então, ou então! Você está recebendo o !Rododendro! porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila. Caso não queira voltar a receber este jornalzinho, mande um e-mail para hortalica@gmail.com e diga na linha de assunto: “Foi demais para Kudno Mojesic”, mesmo que você não seja — e nem queira ser — Kudno Mojesic.

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Revista sãopaulo – Folha de S.Paulo
22 de janeiro de 2012

Especial aniversário de São Paulo

por Vanessa Barbara 

Uma vez me perguntaram se a Zona Norte tinha condições de se separar de São Paulo, constituindo uma cidade com outro nome. Respondi que sim: a ZN podia se emancipar de São Paulo e se chamar Hospício.

Foi grande o risco que corri de ser expatriada e perseguida em praça pública por nativos brandindo tochas e tridentes, já que uma das características dos locais é justamente o senso de humor confuso. É fácil ofender um morador da ZN sem querer; por outro lado, é dificílimo magoar um nativo de propósito. Os mais vis xingamentos não atingem o sujeito que, distraído, nunca acha que é com ele.

Nasci e vivi praticamente a vida toda no Alto do Mandaqui, que faz fronteira com os condados do Lauzane Paulista, Bancários, Pedra Branca e Santa Terezinha. Fica para além de Santana, em direção ao fim do mundo, onde ainda se diz “vou para a cidade” referindo-se ao centro, como se o bairro não fizesse parte da capital.

Hoje os moradores se encontram espiritualmente mais próximos do resto da metrópole, por conta de seus possantes tunados e do ímpeto catequizante dos motoristas do 118C, que cruzam as ruas com o furor da cavalaria cossaca.

A despeito disso, zona-nortenses mantêm suas diferenças antropológicas, tornando imediato o reconhecimento entre iguais. Por exemplo: o típico nativo da ZN é aquele que chega cedo nos lugares e compra o material escolar na primeira semana de janeiro. Ele é regrado, usa roupas de domingo e tem leve tendência ao corinthianismo.

Nestas terras, vizinhos costumam telefonar perguntando onde se pode adquirir uma bigorna de segunda mão, e é aqui que se recebe uma resposta. Há muitas casas, árvores, pássaros e sete tartarugas na mesma quadra – a maior média de cascos “per capita” do Brasil. Há gente que sai de casa com o cabelo cheio de bobes, e eu já vi uma menina atravessando a rua Voluntários da Pátria com uma toalha enrolada na cabeça.

A Zona Norte é também a terra do futuro, onde o progresso segue a galope e ninguém anda de costas. Possuímos três shoppings de grande porte, dezoito filiais da Drogaria São Paulo e incontáveis pet shops.

A Zona Norte é inexplicável: aqui se encontram serralheiros que dominam o sueco, faxineiras que são também cabeleireiras e decoradoras de interiores, relojoeiros nipônicos que combateram pelas forças do Eixo e a maior piscina de bolinhas da América Latina.

Em que pesem a falta de transporte público decente e a quantidade excessiva de automóveis, a Zona Norte é um belo lugar para se morar, com vizinhos muito interessantes. Basta ajustar o fuso horário e a lógica.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
16 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

Há um fenômeno televisivo pouquíssimo documentado que não tem nome, mas afeta a todos os espectadores sem distinção; para propósitos de estudo, iremos chamá-lo de Teorema do Disco Riscado, embora a expressão não faça o menor sentido hoje em dia. Só de invocá-lo, me vem à mente duas cenas: o discurso final de “Um lugar chamado Notting Hill” e a remoção do inseto do umbigo do herói em “Matrix”.

O Teorema do Disco Riscado ocorre quando a vítima se posta em frente à televisão, liga o aparelho e dá de cara com um filme que já viu, desenrolando-se no exato ponto das últimas três vezes. É como um sulco na grade de programação que garante uma reprise cada vez mais recorrente, quanto mais fundo se cava – se você já viu “Identidade Bourne” na TV quatro vezes, é certo que assistirá mais quatro, por pura contingência.

Um dos problemas do Disco Riscado Televisivo é que, nessas oito vezes, você fatalmente irá pegar a história no mesmo trecho – se tiver sorte, cinco minutos antes ou meia hora depois, e ai de quem se animar pensando que desta vez vai descobrir o que está havendo. Muitos espectadores sabem diálogos de cor, mas só intuem vagamente do que se trata o filme como um todo. (Ninjas ou mafiosos? Terremoto ou ameaça nuclear?)

Por sorte, o sulco repetitivo parece restrito a certos filmes ou episódios de séries – nas maratonas de “Friends”, é sempre aquele com o Russ.

Os demais seguem o Corolário da Persistência Recompensada: na primeira vez, você vai pegar um filme lá pelo meio e não irá entender patavinas. Na segunda, entenderá menos ainda, já que a trama está a poucos frames do final – mas, se continuar insistindo, um dia conseguirá juntar uma porção de peças essenciais, um tanto do começo, um flashback do fim, e conseguirá dar um sentido ao que viu.

Mesmo que seja totalmente equivocado.

Minha mãe, por exemplo, teve de assistir cinco vezes ao “Soldado Universal”, em prestações, até entender por que diabos enfiaram o Van Damme numa banheira de gelo. Quando lhe contei a sinopse de “A Força em Alerta” (visto três vezes), ela demonstrou intensa surpresa ao saber que Steven Seagal era um fuzileiro naval infiltrado no navio, especialista em artes marciais e mísseis, e não um simples cozinheiro sob ataque de piratas.

É a Lei do Maçante: a versão oficial nunca é tão divertida.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
10 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

Tarde do dia 64. As câmeras focalizam Space, que está fumando um cigarro na estufa de plantas. Marky e Veronica tomam sol na piscina. Joplin e Pippa estão no sofá, conversando.

“Quer dizer, o que é a televisão?”, filosofa Joplin, enquanto a companheira de confinamento pinta as unhas dos pés. “É apenas uma grande seta apontando para longe do problema. Especialmente em programas como este.” Mirando o horizonte, Pippa retruca, pensativa: “Os dedos do pé têm ossos?”.

Começa amanhã, dia 10 de janeiro, o “Big Brother Brasil 12”, na Globo, e espera-se que seja tão bom quanto os cinco episódios da minissérie inglesa “Dead Set”, de Charlie Brooker, produzida em 2008 pelo E4 e exibida no Brasil através do Multishow.

A série se passa dentro da casa do Big Brother inglês, onde os participantes se encontram efetivamente confinados por conta de um apocalipse zumbi que tomou conta do mundo. Conforme previsto, eles agem como se a epidemia fosse uma prova especial da produção, ficam lisonjeados com os gritos lá fora e aplaudem a nova participante que consegue entrar na casa – uma estagiária ensaguentada fugindo dos zumbis.

Além disso, a transmissão ao vivo não é interrompida, e tudo acontece em noite de eliminação.

A série de terror conta com a participação de inúmeros ex-BBBs de verdade e da apresentadora oficial da versão britânica: Davina McCall, em papel de destaque – ela admitiu inspirar-se no vilão de “Exterminador do Futuro 2” para seus trejeitos moribundos. É como se Pedro Bial viesse rastejando pelo corredor, olhasse para a câmera e gritasse: “Miolos!”.

Charlie Brooker trabalhou com um orçamento apertado. As cenas de Davina foram filmadas em um só dia, e os mesmos figurantes tiveram de interpretar diferentes mortos-vivos por conta do alto custo das lentes de contato. Em lugar de uma caríssima explosão de carro, recorreu-se a um prosaico “problema mecânico” para justificar uma fuga a pé. As cenas do público na noite de paredão são verdadeiras, e muitos dos extras da multidão decrépita foram voluntários recrutados via internet.

Apesar das limitações de produção e da relativa falta de originalidade do enredo, a atração foi bem recebida pelo público e crítica, que a consideraram bastante realista. Não me surpreenderia se terminasse com a legenda: “Baseada em fatos reais”.

Amanhã, protejam seus miolos.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
3 de janeiro de 2012

por Vanessa Barbara

Aos que andam em busca de uma diversão leve e descontraída, não recomendo que comecem o ano assistindo a nova temporada de “Breaking Bad”, que estreia hoje no AXN (às 23h).

É o quarto ano dessa série que anda mais soturna do que nunca, embora seu enredo seja o de sempre: Walter White é um afável professor de química que, diagnosticado com câncer terminal, resolve fabricar metanfetamina para ganhar dinheiro rápido e garantir o sustento da família. Acaba se envolvendo com o tráfico e passa a mentir para manter a fachada – sobretudo diante do cunhado, que é policial do Departamento de Narcóticos.

A temporada terminou em outubro nos EUA com grande estrondo. Só se falou de uma determinada cena final, que evidentemente não vamos contar aqui. Resta dizer que os treze episódios desta leva são excelentes, mantendo um nível de tensão contida que explode aqui e ali, quando menos se espera, deixando a impressão contínua de que a todo momento pode ser o fim da série.

Vince Gilligan é o nome por trás de “Breaking Bad” – uma gíria que pode ser traduzida como “meter o pé na jaca”, “tocar o horror” ou “chutar o balde”. Mais conhecido por seu trabalho em “Arquivo-X”, é ele quem assina os roteiros, a direção e a produção. Tem o dom de fazer evoluírem seus personagens de forma crescente, construindo arcos dramáticos até para os parentes mais enfadonhos de Walt – o único que continua igual é Walt Jr., até agora.

Além disso, usa movimentos de câmera para sugerir coisas, é meticuloso com a fotografia e os detalhes. Também se permite certas excentricidades, como basear um episódio inteiro numa mosca do laboratório e perder-se nas conversas dos viciados – a discussão sobre zumbis nazistas é um primor.

A tal cena que espantou a audiência nem é uma reviravolta, tendo sido orquestrada a partir de um lento e premeditado jogo de xadrez urdido por Gilligan desde o início da temporada. E que resulta em belas jogadas como a do sétimo episódio, quando o cunhado de Walt quase se dá por vencido. Quase.

Gilligan confessa trabalhar os roteiros tijolo por tijolo, considerando todas as permutações possíveis do enredo e cogitando as diferentes formas de desenvolvê-lo. O resultado é que, no fim, as peças se encaixam.

Eu, por exemplo, tive que recolher o meu queixo do chão e, depois de recolocá-lo no lugar, fiquei rindo sozinha.

Revista Vida Simples
Dezembro de 2011 – ed. 113

por Vanessa Barbara 

Possivelmente “o conceito mais importante de nossos dias”, segundo a ambientalista Joanna Yarrow, a pegada de carbono tem sido assunto recorrente nos guias práticos sobre mudanças cotidianas. O termo se refere à quantidade de dióxido de carbono (CO2) emitida como resultado direto ou indireto de uma atividade qualquer.

Quase tudo o que fazemos resulta em emissão de carbono, o que em si não é um problema, mas sabe-se que essa quantia vem aumentando exponencialmente, a ponto de não haver tempo para sua reabsorção natural. O gás em excesso se acumula na atmosfera e provoca todo tipo de alterações climáticas. “Atualmente, a liberação de CO2 ocorre três vezes mais rápido que a capacidade de reabsorção”, afirma a autora.

Yarrow é diretora de uma empresa de consultoria ambiental londrina e autora de dois guias lançados pela Publifolha: Como combater o aquecimento global – Informações completas para você reduzir a sua pegada de carbono (2008, 128 pp.) e 1001 maneiras de salvar o planeta – Idéias práticas para tornar o mundo melhor (2007, 384 pp.). São manuais que sugerem medidas simples como trocar as lâmpadas de casa por fluorescentes compactas, consumir alimentos orgânicos, usar os dois lados do papel (não o higiênico!) e reaproveitar velinhas de aniversário.

Segundo Yarrow, se cada um mantiver seu índice em torno de 1,5 tonelada de CO2 por ano, o ciclo do carbono pode voltar ao normal. “Essa é uma boa notícia se você vive na África subsaariana, onde esse total é o dobro da quantidade de carbono que grande parte das pessoas emite, mas para a maioria de nós significa cortes substanciais”.

Movida pela culpa ocidental, aceitei o desafio proposto pela Vida Simples: seguir as recomendações de Joanna Yarrow por quinze dias e registrar a experiência. Antes de tudo, usei uma calculadora na web para estimar a minha pegada anual (Carbon Footprint, em http://calculator.carbonfootprint.com/calculator.aspx). Descobri, com certo orgulho patriótico, que o fato de eu não ter um carro e raramente usar táxi, preferindo sempre ir de ônibus, metrô ou a pé, me confere uma boa média anual de 2,95 toneladas por ano. As nações mais ricas estão na marca de 11 toneladas. Os principais culpados são o automóvel e o avião.

Início da experiência

Para começar, estudei diligentemente as obras de referência e cheguei a uma conclusão: Joanna Yarrow não deu a mínima para a sua própria pegada de carbono, publicando dois livros desnecessariamente extensos, que podiam ser resumidos num só, com uma dúzia de dicas dispostas em poucas – e concisas – categorias. Ainda que o papel seja reciclado, a sra. Yarrow faria melhor se lançasse seus conselhos em e-book.

Dito isso, vi algumas sugestões interessantes, outras pitorescas e uma grande maioria com aplicação quase que limitada aos países ricos, como as que se referem ao sistema de aquecimento central, serviço de higienização de fraldas de pano, máquinas de secar roupa e lavar louça, embargo ao caviar, comércio ético de diamantes, golfe ecológico e o dilema dos casacos de pele.

Outras estariam ali apenas para fazer número. Como esta:

no 671 – Comemore! Apesar dos problemas que estamos enfrentando, o mundo não é um lugar tão ruim assim. Não se esqueça de celebrar a alegria da vida aqui e agora. Como disse o jogador de beisebol Satchel Paige, “trabalhe como se não precisasse do dinheiro, ame como se nunca tivesse sido magoado, dance como se ninguém estivesse vendo”.

E o que dizer desta?

no 153 – Olhar as estrelas – Para se reconectar com a Terra e todo o universo, passe uma noite sob as estrelas, deitado apenas sobre um lençol.

Além disso, há recomendações repetidas com ligeiras variações, sendo as principais: “tampe a panela ao ferver a água”, “ensine seus filhos a andar de bicicleta”, “aproveite a natureza” ou “use bicarbonato” – esta última com referência a qualquer coisa.

A seguir, como preencher ecologicamente duas semanas da sua vida com 200g de bicarbonato.

Dia a dia

Dia 1: Munida de ótimas intenções, fui pesquisar informações sobre carregadores para laptop ou celular movidos a energia solar – uma fonte limpa e renovável, que aproveita os raios do nosso Astro Rei para gerar energia sem liberar, no entanto, uma grama sequer de CO2 para a atmosfera. Há uma mochila da marca Xonma com duas placas fotovoltaicas embutidas que captam a luz solar e transformam em energia elétrica, carregando baterias e transferindo energia para eletrônicos. Preço: R$ 339,00. As da marca Voltaic são as mais cobiçadas e custam R$ 1.099,00. No Mercado Livre é possível encontrar modelos mais genéricos de R$ 100,00, mas não me arrisquei. Vou esperar baixar o preço.

Dia 2: Na condição de adepta ferrenha da reciclagem e do reaproveitamento de materiais em suas mais diversas formas e possibilidades, reduzindo a geração de lixo, descobri que uma das minhas grandes faltas era não aproveitar as sobras de folhas de chá para adubar as plantas (dica no 654). Assim fiz. Querido diário, hoje matei um girassol.

Dia 3: Ainda abalada pelo revés botânico do dia anterior, que continua sem explicação, resolvi partir para algo certeiro. Reduzi o brilho dos monitores da casa (TV e laptops) e tirei da tomada vários aparelhos que permaneciam constantemente em stand-by. No Reino Unido, equipamentos eletrônicos deixados em modo de espera são responsáveis por 8% do consumo doméstico de energia. E o relógio digital do microondas utiliza tanta energia em um ano quanto o próprio microondas. Outro dado interessante: deixar o carregador do celular ligado o tempo todo na tomada, mesmo sem conectar o aparelho, pode desperdiçar até 95% de toda a energia que ele recebe. Também programei o protetor de tela do meu laptop para “nenhum” (tela preta), conforme as recomendações de Yarrow.

Dia 4: Começa a temporada do bicarbonato. A autora assim prega: “Esqueça os produtos de limpeza modernos e use bicarbonato de sódio, que é muito barato. Ele é bom para limpar tudo e tem ação fungicida”. É possível ter uma economia de 63% no supermercado com a troca de produtos (como água sanitária e detergente) pelo bicarbonato. Hoje desentupi os ralos da cozinha e do tanque usando meio copo de bicarbonato de sódio, meio copo de vinagre branco e água fervente. A mistura soltou vapores e ameaçou implodir os canos, mas, fora isso, fez algum efeito. E é divertido. Descobri que essa combinação forma justamente o dióxido de carbono (CO2), o que me deixou um tanto perplexa. (A ideia não é diminuir as emissões de gás carbônico?) A mesma mistura serve para limpar vasos sanitários, azulejos, cortinas com mofo, panelas queimadas, utensílios de aço inox, carpetes, tecidos com ferrugem. O bicarbonato também se presta a eliminar odores quando misturado numa tigela com água. E é utilizado como desengordurante de forno, bastando passar uma pasta com água e deixar descansar.

Dia 5: Verifiquei a vedação da porta da geladeira colocando nela um pedaço de papel. Se o papel escorregasse com a porta fechada, o que não ocorreu, seria hora de trocar o material. Também limpei a poeira acumulada na serpentina que fica atrás da geladeira, pois, segundo Yarrow, isso aumentará sua eficiência em até 30%, otimizando a capacidade do aparelho e economizando alguns Kw na conta de energia no final do mês.

Dia 6: Dia de renegar o azeite de dendê, que é antiecológico: os dendezeiros estão substituindo grandes extensões de florestas importantes para as espécies da Indonésia, como o orangotango e o tigre-de-sumatra. Ainda que a autora não forneça maiores detalhes, sabe-se que a monocultura de dendezeiros é a principal causa de desmatamento nessa região do planeta, com cifras na casa de 1,3 milhão de hectares por ano. A emissão de dióxido de carbono na produção do azeite é tão excessiva que suplantaria os benefícios de sua utilização como biocombustível.

Dia 7: Hoje esfreguei bicarbonato na pele para testá-lo como desodorante (dica no 457). Yarrow diz que muitos desodorantes comerciais contém alumínio, que pode ser absorvido pela pele e afetar órgãos internos, além de trazerem perfume em excesso e implicarem embalagens desnecessárias. Surpreendentemente, o bicarbonato funciona.

Dia 8: Parei de comprar leite longa vida e aderi de vez ao leite orgânico, que consome apenas um terço da energia gasta na produção de leite de caixinha – provavelmente por causa dos altos custos de embalagem, processamento e distribuição. Além disso, tem mais nutrientes – até dois terços a mais de ômega-3.

Dia 9: Hoje é dia de lavar as mãos e não secá-las, sacudindo-as no ar ou esfregando-as na roupa (na sua ou na dos outros, por meio de um afetuoso abraço). Para Yarrow, não dá pra saber o que é mais danoso ao meio-ambiente: se usar secadores elétricos (movidos a fontes de energia não-renováveis) ou toalhas de papel, que desperdiçam madeira e outros recursos valiosos. Na dúvida, convém chacoalhar. Além disso, hoje encontrei a dica mais útil do livro, a de número 975:

Nuance semântica Hoje em dia, muitos produtos trazem no rótulo o triângulo de flechas pretas que os identifica como “recicláveis”. Em tese, muitas coisas podem ser recicladas, mas, ao comprar essas mercadorias, a responsabilidade pela reciclagem continua sendo sua. Por isso, procure comprar produtos de materiais já reciclados. Eles trazem no rótulo um triângulo ligeiramente diferente, com flechas brancas sobre um fundo escuro. Uma diferença sutil de comunicação com grande impacto no meio ambiente.

Dia 10:  Hora de radicalizar e seguir a dica no 887: “Adote uma família de rãs”. Diz a autora: “Se você tem um laguinho no jardim (com bastante vegetação e margens com acesso fácil para anfíbios), recolha um punhado de ovos de rã de um lago próximo e transfira-os para o seu laguinho, que será o novo lar dos futuros girinos. Não se esqueça de deixar ovos suficientes no ecossistema de onde você os retirou.” Ela não fornece maiores explicações quanto às benesses de se criar uma família anfíbia, mas, convenhamos, mal não há de fazer.

Sendo assim, passei a tarde abrindo um buraco no jardim com uma pá de pedreiro. A quem passava pelas imediações, eu balbuciava frases vagas sobre as obras da futura estação Mandaqui do metrô. No buraco, encaixei uma bacia velha com água e testei sua funcionalidade com minhas três tartarugas. Projeto aprovado, só falta ir ao Horto Florestal buscar uns ovinhos.

Dia 11: O sucesso lacustre da véspera me isentou de seguir a dica no 455: “Se você tem quintal grande, crie algumas galinhas poedeiras”. Aí já é demais. Segundo Yarrow, elas comem de tudo, exceto casca de frutas cítricas, sendo uma boa solução para o reaproveitamento do lixo orgânico. Os galináceos também ajudam a combater as pragas do jardim, como lesmas e caracóis, e trazem “ovos fresquinhos e saborosos para toda a família”. A ideia de fazer um minhocário tampouco me atraiu.

Dia 12: Uma das sugestões para refrescar a casa é plantar trepadeiras em treliças em seu lado mais quente. A quinze centímetros da parede, elas formam um colchão vertical de ar frio. Aproveitando uma planta que já existia em casa, improvisei uma treliça na grade da minha janela que ficou bastante simpática, e espero que dê uma ajuda no verão.

Dia 13: Hoje enfim choveu e pude me valer de uma tina vazia que deixei estrategicamente sob o cano de escoamento da calha para recolher a água da chuva. Ainda que turva e possivelmente ácida, a água coletada serviu para regar as plantas e lavar o chão da lavanderia.

Também decidi parar de comprar sabão em pó com fosfatos. Ao entrar na rede fluvial, a substância estimula a proliferação de algas que consomem todo o oxigênio da água, sufocando plantas e animais. “É pior do que a morte”, enfatiza a autora. Ainda no quesito supermercado, darei preferência a produtos vendidos a granel, que poupam o uso de embalagens, com opção de refil ou aqueles embalados em vidro (material mais fácil de reciclar e de se decompor).

Dia 14: Por sorte, meu cabelo é oleoso. Sendo assim, fui obrigada a dispensar a dica no 839: “Espalhe cerca de 100 gramas de maionese no cabelo seco, espere 15 minutos, enxágue a cabeça e depois lave. Como alternativa, misture abacate amassado com leite de coco”. O livro tem outras receitas caseiras de beleza que evitam a compra de produtos industriais, como uma máscara facial de iogurte e aveia. “Se a mistura sobrar, coma-a!”

Dia 15: Para terminar a maratona ecológica, escolhi a dica no 843, que dispõe sobre os benefícios de “usar os intervalos comerciais dos programas de TV para remendar roupas, afiar facas ou até consertar a bicicleta”. Como justificativa, ela diz apenas que “nossos pertences duram muito mais se forem bem cuidados”, e que, de quebra, essa política de produtividade poderia diminuir nosso consumo de porcarias televisivas. Sei que é estranho assistir a uma partida de futebol com uma pedra-pomes na mão esquerda e uma peixeira na direita, mas é o preço que se paga para salvar o planeta.

Legal mesmo seria encerrar com a dica no 1001, que diz: “Veleje ao pôr-do-sol”. Mas não vai dar. Preciso cuidar dos meus bebês girinos.

 

Folha de S. Paulo – Ilustrada
26 de dezembro de 2011

por Vanessa Barbara 

Fim de ano sem retrospectiva na TV é como prova de hipismo nas Olimpíadas: não tem graça. Desde aproximadamente setembro estamos aguardando uma boa recapitulação dos eventos do ano, ansiosos por seu término, e a pioneira foi a da RedeTV!, com sua “Retrospectiva 2011” exibida no dia 18. Acompanhei a edição do programa disponível no site.

Com uma hora de duração, o especial até que fez um apanhado razoável dos fatos jornalísticos do ano. Foi longo e falou de diversas áreas: os protestos no mundo árabe, o terremoto no Japão, as mortes de Bin Laden e Muanmar Kadafi, as tragédias provocadas pelas chuvas, o Rock in Rio e a queda sucessiva de ministros.

Nos intervalos, “como não poderia deixar de ser”, temas pitorescos como a morte do urso polar Knut, a multa aplicada em noivas atrasadas e um homem pelado andando pelas ruas de Nova Mutum. (A expressão entre aspas é uma das mais intrigantes do nosso tolicionário, voltarei a ela em outra ocasião.)

Só houve um problema: o roteiro foi gerado automaticamente por um ciborgue, de posse do livro “O Pai dos Burros” (Humberto Werneck, Arquipélago Editorial, 2009), uma compilação de lugares-comuns e frases feitas do nosso léxico.

Está tudo lá: no especial, fala-se em “morte e destruição”, “solo tupiniquim” e “carnaval brazuca”. Invoca-se uma tal “face devastadora da natureza, com suas marcas e cicatrizes”.

Sem constrangimento, as repórteres ultramaquiadas fazem caras e bocas, mas no fundo parecem não prestar atenção ao texto: o importante é dar ênfase. “É o trânsito em sinal de alerta”, exclamam. E emendam uma série de trocadilhos deprimentes: o ex-ministro da Agricultura teve uma colheita infeliz, o dos Transportes saiu dos trilhos, o do Trabalho entrou para as estatísticas de desemprego e o de Turismo carimbou o passaporte para fora do governo.

Por que a televisão precisa ser sempre tão engraçadinha e enchoiriçada?

Amy Winehouse “vai embora assim como invade o Planeta Sucesso: fugaz demais” [sic]. Ainda assim, ela “ecoa viva por todos os quadrantes do Planeta Música”.

O mais constrangedor é o segmento sobre as obras da Copa-2014: “Por enquanto não há jogadores e nem torcedores. Os donos da bola são estes operários, que de Norte a Sul correm contra o relógio para mostrar uma Copa com cara e jeito do país do futebol”. Só aí, foram cinco clichês.

E o ano ainda não acabou.

Leituras radicais

Posted: 20th dezembro 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
20 de dezembro de 2011

por Vanessa Barbara


 

Durante muito tempo, minha única frustração na vida foi não poder levar os livros comigo para o chuveiro, grudando-os com ventosas à parede do box e tentando virar a página com os dentes. Naquela época, não existiam livros infantis emborrachados e nem audiobooks (até hoje, a Bíblia narrada pelo Cid Moreira me desperta uma curiosidade sem fim).

Fato é que interromper um romance nunca é agradável, e por isso há quem tenha o desastroso hábito de ler pendurado nas alças dos ônibus, ou mesmo enquanto anda — antes isso do que perder o ponto de descer, dizem. Eu mesma já fui vista plantada em plena calçada, nas últimas páginas de O Senhor dos Anéis, dando um passo e parando, outro passo e parando, e só não me sentei no meio-fio porque podiam me prender por perturbação da ordem pública. Há os que leem atravessando a rua e, quando a calçada está excessivamente cheia, fazem uma parada estratégica no canto de um prédio para terminar um capítulo.

Já li em cima do telhado, principalmente volumes de suspense e terror, sob a ameaça constante de quebrar uma telha e cair. Outra vez, instalei-me no beiral externo da praça Buenos Aires, ou seja, na rua, em busca dos últimos raios de sol daquela tarde, e liElizabeth Costello. Ganhei uma moeda.

Os locais mais visados para a prática da leitura são a cama (abajur opcional), a poltrona, o banheiro, a mesa da cozinha, a praia e a sala de espera dos médicos. Alguns leem durante refeições solitárias, no cabeleireiro, no aeroporto, nos trens e nos parques. Há quem devore um volume inteiro enquanto espera um amigo atrasado, mesmo que de pé e procurando um facho de claridade em meio à penumbra.

Cresci numa família de gente que gosta de comer lendo (ou de ler comendo, uma das principais causas de obesidade em intelectuais), o que, se não preza pela sociabilidade em termos de interação familiar, ao menos pode render assuntos dos mais variados, sobretudo quando alguém acha algo engraçado e decide ler em voz alta. Meu sobrinho, do alto de seus 20 meses de idade, já demonstra um nítido comichão literário no decurso das refeições, quando costuma pedir para analisar os folhetos promocionais de supermercado e os cardápios de pizzarias.

Semana passada, o estudante paraense Diego Uchôa postou no Facebook esta foto de um gari lendo um livro dependurado no caminhão de lixo. Mais de 7 mil pessoas compartilharam a imagem, e, embora a maioria se limitasse a enaltecer a força de vontade essencial para vencer na vida, não é bem isso o que me vem à mente. Afinal, qual será o título da obra? Também me pego a pensar nesse braço esquerdo astutamente preso ao suporte do caminhão (ele deve ter prática no desporto radical) e na disponibilidade quase absoluta das duas mãos para o manejo do livro — como qualquer bom leitor também irá reparar, admirado.

É gente que aproveita qualquer brecha no cronograma para ler mais um trecho de um romance policial, nem que, para isso, tenha que o fazer dirigindo, com o livro sobre o volante. Ou enquanto pratica a equitação.

Pesquisando por aí, encontrei relatos de gente que lê enquanto passeia de bicicleta ou toca órgão na igreja — esta última, aliás, é uma ocorrência comum, já que os músicos são obrigados a escutar várias vezes o mesmo sermão nas missas e correm o risco de cochilar bem em cima do instrumento. Devo confessar que já levei um livro de bolso para ler num show de rock, enquanto a banda de abertura tocava, e se não me engano era um Dostoiévski (mas também podia ser um gibi do Cebolinha).

Nesses termos, ninguém supera a minha mãe, que leu um romance inteiro nas arquibancadas de um estádio de futebol. Foi num Juventus vs. Joinville, na rua Javari, pela Taça São Paulo de Futebol Junior de 1986. Os gols foram de Camus (contra), Duras e Dumas (de barriga).

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Beijinho, dona Iara!

Posted: 19th dezembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
19 de dezembro de 2011

por Vanessa Barbara

Campeão de audiência em consultórios de ginecologista e salões de beleza, o programa “Mulheres” (Gazeta) é a atração de fundo mais sintonizada nesses locais. Parece durar a vida inteira, mas passa de segunda a sexta, das 14 às 18h, em quatro horas diárias de atração.

“Mulheres” é o programa feminino de maior longevidade da TV brasileira, no ar desde 1980. Tem quadros de culinária, artesanato, saúde, fofocas de celebridades, desfiles de moda e a presença ocasional de bebês.

Na última terça-feira, o programa começou com a participação de Mamma Bruschetta, interpretada pelo ator Luiz Henrique Benincasa, uma senhora italiana fofoqueira que comenta a vida das celebridades. O diálogo inicial foi algo insólito.

“Ah, deixa eu te perguntar”, disse Mamma à apresentadora Cátia Fonseca, após se queixar do calor e elogiar seu vestido. “O motorista que me trouxe aqui tem uma esposa chamada dona Iara, aí eu conversei com a dona Iara pelo telefone, porque ela é fã da gente (beijinho, dona Iara!) e ela quer saber o seguinte: o nome da tua sogra”.

Depois de ouvir a resposta, Mamma dispara: “É ela! Elas foram amigas há muito tempo. Diz que tem uma foto em que está o seu esposo, está a dona Elza…”. Cátia reflete por um instante e informa que “a dona Elza trabalhou na Caixa Econômica a vida toda. Quando se aposentou, foi para o Guarujá”.

Sou imediatamente teletransportada para uma conversa de comadres na manicure, ainda mais quando a apresentadora pede o telefone da referida senhora e diz que o mundo “não é um ovo comum, é um ovo de pardal”.

Logo mudam de assunto, passando a dar pitacos no planejamento familiar da atriz Angelina Jolie e no funcionamento intestinal do cachorro de Leonardo DiCaprio (que sofre de flatulência). Em meio a comentários sobre carma e doenças, Cátia apresenta receitas culinárias, como o “sonho com recheio recheado” – que na sala de espera do ginecologista incitou uma conversa sobre sopa de mandioquinha e seus benefícios para a saúde.

Mas o que verdadeiramente preenche a programação do “Mulheres”, além de receitas e artesanato (25 minutos só de patchwork), é o merchandising de produtos.

No programa de terça, foram anunciados uma frigideira antiaderente de titânio, uma pirâmide de cápsulas de ômega 3, uma centrífuga milagrosa, três tipos diferentes de implantes dentários e um remédio antivarizes.

Haja cutícula.