Caderno Cultura
Jornal O Extra, de Fernandópolis (SP)
30 de setembro de 2017

por Vanessa Barbara

Estou lendo Retratos Parisienses, coletânea de crônicas escritas por Rubem Braga durante sua temporada em Paris. São entrevistas com pintores, escritores e outros artistas da época, mas com uma particularidade: Braga era tímido e se considerava “o pior repórter do mundo”. Não sabia fazer perguntas e, portanto, chama seus perfis de “visitas”, como no capítulo “Visita a Pablo Picasso”, ou ainda: “Na casa de Georges Duhamel” e “Em Paris, no café de André Breton”.

Plagiando o cronista, descrevo aqui a minha eloquente visita ao escritor Luis Fernando Verissimo, ocorrida em fins de abril de 2013 com o único propósito de tornar-me uma mobília da casa. Fui acompanhada do cineasta Angelo Defanti, que à época cuidava do roteiro de O Clube dos Anjos, e devo ter proferido uma média de cinco palavras por hora, contando as onomatopeias involuntárias e crises de engasgo.

Naquela tarde de segunda-feira, montamos acampamento na residência do escritor, que fica no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Começamos por um almoço servido pela Lucia, esposa do cronista há mais de cinquenta anos. Confesso que estabeleci uma linha de comunicação bastante satisfatória com Lucinda, neta do escritor, então com 5 anos de idade, uma diminuta e desconfiada loirinha que alternava português e inglês (seu pai é britânico). Enquanto os adultos ­­– Lucia e Angelo – conversavam animadamente sobre cinema e futebol, eu me dedicava a colher informações sobre as bonecas da menina, uma série de monstras superproduzidas com nomes como Draculaura, Bonita Femur e Vandala Doubloons. (A próxima geração de feministas vai ser ótima.)

Emendamos a refeição com um café, e depois Lucia nos levou para conhecer a discreta casa branca, com arcos pronunciados e ares de residência interiorana, adquirida por Érico Verissimo, pai do escritor, em 1942. Ela mostrou o escritório do marido, uma sala no subsolo repleta de papéis, livros e flâmulas do Sport Club Internacional; o estúdio de ensaio da banda Jazz 6, encravado numa caverna de pedra no subsolo (onde sempre faz uns cinco graus a menos); o quintal apinhado de árvores e azaleias; e a área da churrasqueira (forrada de cartuns). Em todos os nichos livres das paredes, inclusive nos recantos mais improváveis, foram instaladas prateleiras para dar conta dos livros. Espalhados aqui e ali, os brinquedos de Lucinda.

Conhecemos também o escritório intacto de Érico, um espaço de tamanho modesto com piso de madeira, uma parede de tijolinhos marrons e uma lareira, cercado por estantes de livros, objetos de arte, abajures e quadros. Um excelente lugar para cometer um assassinato, pensei, tentando não olhar muito fixamente para um revólver antigo pendurado na parede e um sabre em exposição sobre a lareira. No centro da sala, uma poltrona vermelha com um banco acolchoado para apoiar os pés. Verissimo contou que o pai costumava corrigir seus escritos sentado nessa poltrona, usando uma tábua de madeira como apoio. Dali saiu a maior parte de O Tempo e o Vento. Mas só o que consegui imaginar foi um detetive antiquado analisando o cadáver no carpete e chegando à conclusão de que a vítima folheara uma edição envenenada de um pesadíssimo compêndio em latim.

Na sequência, eu e Angelo voltamos para a sala de estar e não fizemos qualquer menção de ir embora, ainda que às três horas aparecesse o fisioterapeuta de Verissimo para uma sessão de alongamento e caminhada. O cronista pediu licença – em sua própria casa – e deixou a sala. Quanto a nós, apenas afundamos no sofá enquanto familiares e amigos entravam, conversavam e saíam. A certa altura ficamos sozinhos e selamos o pacto de que só deixaríamos o local quando nos expulsassem.

          *

Convém esclarecer que não foi a primeira vez que entabulei farta conversação com o meu cronista favorito, pelo qual, aliás, sempre devotei uma veneração meio assustadora. (Lá pelos 15 anos, dediquei-me a copiar, à mão, um calhamaço das minhas crônicas favoritas. Hoje tenho uma caixa com 37 livros do escritor, incluindo uma edição de A Mesa Voadora comprada em um sebo por 3 reais, que certa vez tive a pachorra de pedir que ele me autografasse; um exemplar de Humor nos Tempos do Collor que custou 85 mil cruzeiros; e o mais antigo de todos, O Rei do Rock, publicado pela editora Globo em 1978.)

No almoço de confraternização dos convidados da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2008, pedi a meu editor, Cassiano, que me arrastasse até a mesa de Verissimo e fizesse as honras da apresentação, considerando que eu já estava rondando o local há tempo suficiente para que a polícia fosse acionada. Eu disse: “oi!”, e ele respondeu: “oi!”. Puxei uma cadeira. Sempre afetuosa, Lucia tentou engatar vários assuntos aos quais eu provavelmente respondi como se estivesse em um lugar barulhento demais e não entendesse as perguntas. Algo como: “Você mora em que bairro, lá em São Paulo?”, e a resposta: “Vinte e seis!”. Acho que fiz uma ótima figura e devo ter ido embora correndo para respirar num saquinho de papel.

Mais tarde, à beira da piscina do local onde ocorria o almoço, falei “oi!” de novo e ele pareceu concordar enfaticamente. Mencionei alguma coisa sobre a inevitabilidade de tropeçar durante o debate da manhã seguinte, do qual eu iria participar, e ele prometeu que estaria presente.

De fato, na quinta-feira, consegui enxergá-lo sentado na terceira fileira, ao lado de uma sorridente Lucia. Não tropecei nem tive uma crise de soluço. Pouco depois, ainda durante aquela Flip, trombei de novo com o casal e ele me disse que gostou do debate. Eu respondi: “gghghh”.

          *

Cinco anos mais tarde, já em 2013, na casa do cronista, posso dizer que retomamos nossa conversa iniciada naquela Flip. Depois que Verissimo voltou da sessão de fisioterapia, juntou-se a seu novo par de vasos decorativos na sala e não pareceu incomodado o suficiente para pedir que fôssemos embora.

Eu havia levado uns livros de presente – minha tradução de O Grande Gatsby, sabidamente um de seus romances favoritos, e o meu livro mais recente, a graphic novel A Máquina de Goldberg. Entreguei o embrulho sem olhar nos olhos de ninguém. Ele me disse: “Obrigado pelos livros”, e eu respondi: “gghghh”.

Enquanto eu hesitava entre um episódio de parada respiratória e o tradicional xixi nas calças, ele folheou a tradução e se deteve nas últimas páginas. Elogiou minhas escolhas para o trecho final, que possui uma reconhecida dificuldade de tradução. Eu talvez tenha dado risada sem motivo ou respondido de alguma outra forma totalmente inadequada. A sorte é que Lucia deve estar acostumada com esse tipo de vexame e gentilmente passou a narrar episódios pitorescos das viagens do casal, acalentando nas mãos os óculos de leitura cuidadosamente dobrados, como se fossem a minha ansiedade.

Em algum momento dessa balbúrdia, surgiu à porta uma amiga da família, a quem fomos apresentados. Verissimo apontou para mim e disse: “Essa é a Vanessa. Ela escreve muito bem”. Mesmo correndo o risco de me tornar repetitiva, “ghghh” foi só o que consegui pronunciar em resposta.

Talvez pela absoluta inevitabilidade da situação, eu e Angelo fomos convidados, por fim, a acompanhar um ensaio particular da Jazz 6, na qual Verissimo toca sax alto. A banda, que é conhecida como o menor sexteto do mundo – pois era formada por cinco integrantes –, esteve na ativa por mais de vinte anos e gravou cinco álbuns.

Naquele fim de tarde, o ensaio ocorreu na caverna do subsolo. Lembro, entre outras coisas, de ouvir “Lullaby of Birdland” e “A Rã”, mas o resto das memórias daquele dia se perdeu em uma nuvem espessa de euforia e afeto. A certa altura, Verissimo puxou a melodia do hino do Internacional, cuja letra, por esses mistérios da vida, eu sei inteira de cor. Sentada ao meu lado, Lucia estranhou. Fui chamada ao microfone para prestar deferência a esse admirável escrete gaúcho que leva “a plagas distantes feitos relevantes”, mas a modéstia me impediu. Intrigado, Verissimo perguntou para qual time eu torcia; “Curíntcha”, eu respondi, com um fio de voz, e todos ficaram com tanta pena que preferiram não fazer mais perguntas.

Ao final do ensaio, a sala se encheu de borbulhantes conversas e Verissimo se sentou ao meu lado, calado. Passamos um tempo acompanhando, em silêncio, aquele soterramento de energia extrovertida e de histórias insólitas, e compartilhando a incredulidade sábia dos tímidos. Vez ou outra, ele fazia um comentário irônico em voz baixa, algo muito sucinto e preciso, e eu contabilizava mentalmente um ponto para o nosso time. Acho que foi o momento mais bonito da visita: não há dúvida de que logramos êxito em mostrar a essas pessoas joviais e desenvoltas do que é feito o nosso derrotismo sarcástico e a nossa empertigada inadequação.

Eu e Angelo só fomos embora depois de assegurar um convite para jantar, dali a pouco, numa churrascaria local.

          *

Só agora me dei conta de que as minhas conversas com Verissimo ocorrem de cinco em cinco anos, como se levássemos esse tempo todo para pensar em boas respostas. Isso significa que já está quase na hora de retomar nosso periódico duelo de vivacidade retórica, o que, segundo o calendário, deve acontecer em 2018.

A ideia agora é reproduzir o seguinte diálogo:

Lucia: “Esta é a Vanessa, ela mora na nossa sala desde abril”.
Vanessa: “Oi!”
Verissimo: “Oi!”

Entrevista com LFV (clipping)

Posted: 20th outubro 2017 by Vanessa Barbara in Clipping

Caderno Cultura
Jornal O Extra, de Fernandópolis (SP)
30 de setembro de 2017

Clique na foto para ler a entrevista

 

São Paulo’s mayor João Doria, center, visiting residents in the Vila Carrão neighborhood last February. Credit: Mauricio Lima for The New York Times

 

The International New York Times
September 25, 2017

by Vanessa Barbara 

SÃO PAULO, Brazil — A woman weeps while sitting in a corporate board room, surrounded by a couple of frowning businessmen and floor-to-ceiling glass windows showcasing the São Paulo skyline. She’s sorry, she says, but she should have the right to make mistakes. It’s her first time on a reality TV show! And besides, all she did was mess up someone’s coffee order.

João Doria, a media mogul, is unsympathetic. “Our world is the real world,” he says to the weeping woman from across the table. “It’s your world that is unreal.”

Since January, a new season of reality has begun for many of us. In the United States, Donald Trump became president. Here in São Paulo, João Doria Jr. became mayor. The two men have much in common: They are conservative populists with big egos. They like to use social media to get their message out. They have both written self-help business books with uninspired titles (“The Art of the Deal” by Mr. Trump, “Lessons in Winning” by Mr. Doria).

They are also both former hosts of the reality TV show “The Apprentice.”

I wanted to get a better sense of my new mayor and what he’ll do to my city. But instead of looking at his electoral platform, his speeches or his academic record, I decided to go right to the primary source. Following in the footsteps of Emily Nussbaum, The New Yorker’s television critic, I set myself to the task of watching 31 episodes from two seasons of Mr. Doria’s “O Aprendiz,” the Brazilian franchise of Mr. Trump’s original show, to search for lessons on the nature of reality.

“O Aprendiz” is a game show that tests the business skills of a dozen candidates competing to earn a position at one of the host’s corporations. In each episode, they are assigned to teams and given a business-related task, usually sponsored by a certain company (a bank, a retail chain, an automobile manufacturer). The task often consists in selling products or creating new advertising strategies.

The average episode goes something like this: The contestants — a majority of them white and privileged — receive about $5,000 to build a small kiosk in a mall. They spend a couple of arduous days on the telephone, persuading other businesspeople to do favors such as donating products or attending marketing events. They negotiate cutthroat rates with desperate freelancers.

Suddenly, they have some kind of brilliant idea — for example, dressing someone in a fluffy heart costume to promote coffee — and this stroke of genius produces a winner. The winning team gets a luxury trip to Switzerland as a reward. Walking in the streets of Zurich, one of the participants recalls her whole excruciating day of serving coffee at a marketing event and says: “Remember how many coffee cups we served? How many people we attended to? We deserve this, don’t we?” (I imagine a real-life waiter who works for minimum-wage salary watching this and collapsing in sobs into a fetal position.)

After the first few episodes, I noticed something peculiar: The participants were reaching out to the same companies that had already sponsored the previous challenges of the season. (Let’s call it the power of networking.) They’ve also made outrageously improbable deals, like selling six bananas for $15 and earning 50 euros to wash a few dishes in an Italian hotel.

What does any of this have to do with Mr. Doria’s way of doing politics? A lot, actually.

Sometimes, as the mayor has proudly admitted, he calls one of his executive friends and asks for generous donations to the city. It doesn’t seem to matter if the company he’s requesting money from is being sued by the city or has huge debts to it. It’s the same kind of dubious, personalized style of doing business for which contestants on “O Aprendiz” are rewarded.

Look at the case of Cyrela, one of the biggest real estate companies in Brazil. Cyrela agreed to renovate the restrooms in a São Paulo park at “no cost” to the public, even though the renovation should cost about $140,000. At the time, the company was involved in a legal dispute with the city over some separate building projects. (That dispute was later settled.) Meanwhile, Cyrela also has vested interests in the forthcoming urban plan of São Paulo, which will include laws about the maximum height of new buildings.

As if it wasn’t enough, Mr. Doria has recently appointed Cyrela’s former vice president as head of a new department called the Special Secretariat for Social Investment. His first duty was to preside over the inauguration ceremony of the new toilets donated by his own former company. It was like the scene from the last episode of Season 7, when a competitor manages to persuade Saulo, the singer who won the reality show “Ídolos,” which is, of course, on the same channel as “O Aprendiz,” to perform at a marketing event.

Mr. Doria doesn’t see any conflicts of interest — though he once threatened to end an interview as soon as the issue came up. On that occasion, the journalist was questioning the mayor on his links to one of his many private-sector pals: the owner of a drugstore chain called Ultrafarma, who happens to be a member of Lide, an events company founded by Mr. Doria and now run by his son. The group often promotes business events with the participation of politicians.

According to news reports, Ultrafarma made a $190,000 donation to São Paulo’s public drug dispensaries last February. (The mayor’s press office denies this.) A day later, the mayor posted a video in which he personally advertised Ultrafarma’s vitamin brand before a meeting of his cabinet.

The following month, Ultrafarma made an official donation to the municipality, this time in the form of prime-time TV advertisements for Mr. Doria’s controversial cleanup program “Cidade Linda” (Beautiful City), which has been criticized by many citizens as a boondoggle. It’s unclear how the city itself should have benefited from this donation.

What’s even more worrying is that this “Aprendiz”-like behavior may not be confined to São Paulo. Mr. Doria is considered a possible candidate for the 2018 presidential elections. From a business perspective, a timely donation to the city may pay off more than making a contribution to a political campaign.

In fact, this ethical minefield in Mr. Doria’s administration has emerged soon after the Supreme Court decided to ban corporate donations to political campaigns. The goal was precisely to weaken the ties between the government and business interests that could lead to bribery and other forms of corruption.

But Mr. Doria remains unperturbed in his polo shirt while managing ethically questionable decisions. The mayor had already restricted the autonomy of the Office of the Municipal Comptroller General, the city’s recently created anticorruption agency, and last month he fired the acting comptroller general “for administrative and operational reasons.” As a protest, three officials at the agency resigned, including the head of the integrity department.

Curiously, in the fifth episode of Season 8 of “O Aprendiz,” Mr. Doria fired a contestant for using his connections with a business executive to get ahead in one of the challenges. “This country will change only when it has ethics, principles,” Mr. Doria declared vehemently while brandishing a silver pen. Donald Trump would be proud.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça, and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on September 26, 2017, in The International New York Times. 

João Doria, prefeito de São Paulo, visita moradores de Vila Carrão, em fevereiro. Crédito: Maurício Lima para o New York Times

 

The International New York Times
25 de setembro de 2017

por Vanessa Barbara

Uma mulher chora na sala de reuniões, cercada por empresários de testa franzida e por janelas panorâmicas de vidro mostrando a cidade de São Paulo. Ela pede desculpas, mas diz que deveria ter o direito de cometer erros. Afinal, é a primeira vez dela em um reality show! Além disso, tudo o que fez foi servir um cappuccino sem leite.

João Doria, um magnata da mídia, não se mostra solidário. “O nosso mundo é o mundo real”, ele diz para a mulher chorando do outro lado da mesa. “O seu mundo é que é irreal.”

Desde janeiro, uma nova temporada do reality teve início para muitos de nós. Nos Estados Unidos, Donald Trump se tornou presidente. Aqui em São Paulo, João Doria se tornou prefeito. Os dois homens têm muito em comum: são conservadores populistas com um ego enorme. Gostam de usar as redes sociais para divulgar suas mensagens. Ambos escreveram livros de autoajuda com títulos pouco inspirados (“A Arte da Negociação” por Trump, “Lições para Vencer”, por Doria).

Ambos também são ex-apresentadores do reality show “O Aprendiz”.

Eu queria entender melhor o novo prefeito e o que ele irá fazer à minha cidade. Então, em vez de consultar sua plataforma eleitoral, seus discursos ou formação acadêmica, decidi ir diretamente à fonte primária. Seguindo os passos de Emily Nussbaum, a crítica de televisão da New Yorker, assumi a tarefa de assistir aos 31 episódios das duas temporadas de Doria em “O Aprendiz”, a versão brasileira do programa original de Trump, à procura de lições sobre a natureza da realidade.

“O Aprendiz” é um game show que testa as habilidades nos negócios de uma dúzia de candidatos que competem para conquistar um cargo em uma das empresas do apresentador. Em cada episódio, eles são divididos em equipes e recebem uma tarefa, em geral patrocinada por uma empresa (um banco, uma rede de varejo, um fabricante de automóveis). A tarefa geralmente consiste em vender produtos ou criar novas estratégias publicitárias.

Em média, os episódios são assim: os competidores, a maioria deles branca e privilegiada, recebem cerca de 15 mil reais para montar um pequeno quiosque em um shopping. Eles passam uns poucos dias árduos ao telefone, tentando convencer outros empresários a prestar favores como doar produtos ou prestigiar eventos de marketing. Eles negociam valores baixos com free-lancers desesperados.

De repente, eles têm algum tipo de ideia brilhante (por exemplo, vestir alguém em uma fantasia de coração para promover uma marca de café) e esse toque de gênio resulta em um vencedor. A equipe ganha uma viagem de luxo à Suíça como prêmio. Caminhando pelas ruas de Zurique, uma das participantes rememora o dia terrível que passou servindo café em um evento de marketing, e diz: “Lembra quantos cafés a gente serviu, quantas pessoas a gente atendeu? A gente merece, não merece?” (Imagino uma garçonete de verdade, que trabalha por um salário mínimo, assistindo a isso e se encolhendo em posição fetal, aos soluços.)

Após os primeiros episódios, notei algo curioso: os participantes estavam pedindo ajuda às mesmas empresas que já tinham patrocinado os desafios anteriores da temporada. (Vamos chamar isso de poder do networking.) Eles também fecharam acordos ultrajantemente improváveis, como vender seis bananas por 50 reais e ganhar 50 euros para lavar alguns poucos pratos em um hotel italiano.

E o que isso tem a ver com a forma de Doria fazer política? Muito, na verdade.

Às vezes, como o prefeito admite com orgulho, ele telefona para um de seus amigos executivos e pede generosas doações à cidade. Não importa se a empresa à qual pede fundos esteja sendo processada pela prefeitura ou tenha dívidas imensas com ela. É o mesmo estilo dúbio e personalizado de fazer negócios pelos quais os candidatos de “O Aprendiz” são recompensados.

Veja o caso da Cyrela, uma das maiores incorporadoras e construtoras do Brasil. A Cyrela concordou em reformar os banheiros em um parque de São Paulo “sem nenhum custo” para os cofres públicos, apesar de a reforma ter custado cerca de R$ 450 mil. Na época, a empresa estava envolvida em uma disputa legal com a prefeitura em torno de projetos de construção no terreno do Parque Augusta. (Essa disputa foi resolvida posteriormente em um acordo.) Além disso, a Cyrela tem interesses velados na atualização do plano diretor de São Paulo, que inclui leis sobre a altura máxima dos novos edifícios.

Como se isso não bastasse, Doria nomeou recentemente o ex-vice-presidente da Cyrela como chefe de uma nova pasta chamada Secretaria Especial de Investimento Social. Sua primeira tarefa foi presidir a cerimônia de entrega dos novos banheiros doados por sua antiga empresa. Lembrei de uma cena do último episódio da 7ª temporada, quando um competidor consegue convencer Saulo, o cantor que venceu o reality show “Ídolos”, que, é claro, passa na mesma emissora que “O Aprendiz”, a se apresentar em um evento de marketing.

Doria não vê nenhum conflito de interesse, ainda que certa vez tenha ameaçado encerrar uma entrevista quando o assunto foi abordado. Na ocasião, os jornalistas do Valor Econômico perguntaram ao prefeito sobre seus laços com um de seus muitos amigos do setor privado: o dono da rede de farmácias Ultrafarma, que por acaso é membro da Lide, uma empresa de eventos fundada por Doria e atualmente dirigida por seu filho. O grupo costuma promover eventos de negócios com a participação de políticos.

Segundo notícias da Veja e do Uol, a Ultrafarma fez uma doação de um cheque de R$ 600 mil para as farmácias populares de São Paulo em fevereiro deste ano. (A secretaria de comunicação da prefeitura nega que isso tenha ocorrido.) Um dia depois, o prefeito postou um vídeo no qual anunciava pessoalmente uma marca de vitamina da Ultrafarma pouco antes de uma reunião de gabinete.

No mês seguinte, a Ultrafarma fez uma doação oficial à prefeitura, desta vez na forma de propagandas de TV em horário nobre para o polêmico programa de limpeza de Doria, o “Cidade Linda”, que tem sido criticado por muitos cidadãos como inútil. Não está claro como a cidade poderia se beneficiar dessa doação.

O mais preocupante é que esse comportamento tipo “O Aprendiz” pode não ficar confinado a São Paulo. Doria é considerado um possível candidato para a eleição presidencial de 2018. Do ponto de vista dos negócios, uma doação oportuna à prefeitura pode render mais frutos do que uma contribuição para uma campanha política.

De fato, esse campo minado ético na prefeitura de Doria surge logo após o Supremo Tribunal Federal ter decidido proibir doações de empresas para campanhas políticas. O objetivo é justamente enfraquecer os laços entre o governo e interesses privados que possam levar a propina e outras formas de corrupção.

Mas Doria permanece imperturbável em sua camisa polo, enquanto toma decisões eticamente questionáveis. O prefeito já restringiu a autonomia da Controladoria Geral do Município, o órgão anticorrupção recém-criado pela cidade, e no mês passado demitiu a controladora-geral por “razões administrativas e operacionais”. Em protesto, três funcionários do órgão renunciaram, incluindo o chefe do departamento de integridade.

Curiosamente, no quinto episódio da 8ª temporada de “O Aprendiz”, Doria demitiu um candidato por usar suas conexões com um empresário para obter vantagem em um dos desafios. “Este país só vai mudar quando tiver ética, princípios”, declarou Doria com veemência, enquanto brandia uma caneta de prata. Trump ficaria orgulhoso.


Trad. adaptada de George El Khouri Andolfato/ Uol Notícias

Vestida para existir

Posted: 27th setembro 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Folha de São Paulo – Serafina 
24 de setembro de 2017

por Vanessa Barbara

Uma mulher chique deve saber se vestir apropriadamente para a ocasião, o clima e o local, cuidando sempre para checar se aquele evento possui qualquer indicação de dress code: esporte fino (blusinha com estampa de João Pessoa), social (cabe aí um par de ombreiras) ou de gala (alguma coisa bufante e/ou com pompons).

Contudo, nos últimos anos, os códigos de vestuário no Brasil se tornaram muito mais simples, pois só há um tipo de traje adequado: o que eu chamo de “manifestação completa” ou “casual chic de guerrilha”. Ele pode ser adotado em qualquer ocasião que envolva a vocalização de ideias próprias, de opiniões divergentes ou o simples exercício das liberdades democráticas previstas na Constituição (art. 5o., incisos IV, IX, XVI).

A peça principal do look consiste em um tênis de corrida já amaciado e resistente a grandes quilometragens. A blusa deve ser de manga comprida e tecido impermeável, que é para proteger a pele do contato com nuvens despóticas de gás lacrimogêneo. Recomenda-se o uso de jaquetas de chuva, mesmo se não estiver chovendo. Burcas são uma opção ainda pouco explorada.

É importante cobrir o máximo possível do corpo. As calças têm de ser compridas e de tecidos grossos (como jeans) para proteger de estilhaços de bombas de efeito moral. Quanto ao cabelo, deve estar preso em um coque casual, sem a aplicação de cremes que possam reagir aos gases e provocar combustões inesperadas. Para o rosto, sugiro um make ousado e provocantemente oculto sob a máscara de gás com filtro duplo, própria para vapores tóxicos; na falta de verba, vale levar cachecol, bandana, máscara de pintor ou mesmo uma blusa de gola alta para cobrir o nariz. Também é recomendável ter uma camiseta extra para trocar a roupa contaminada, feito uma debutante depois da valsa.

Um acessório cada vez mais em voga, sobretudo depois que muita gente perdeu o olho em confronto com balas de borracha, são os óculos de segurança industriais. Mais uma vez, é possível improvisar com um par de óculos de natação ou máscaras de solda – principalmente se as peças ornarem com o capacete. Ou com um balde na cabeça.

Escudos de diferentes materiais trazem ainda mais glamour à mulher brasileira moderna, com destaque para boias infláveis de jacaré e coletes salva-vidas para amortecimento.

Não é agora que o preto vai sair de moda.

Pijama de guerrilha

Posted: 14th agosto 2017 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo
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Flavia Lobo
Ilustração de Flavia Lobo para a coluna da Vanessa Barbara na Serafina. ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

 

Folha de S. Paulo – Revista Serafina
30 de julho de 2017

por Vanessa Barbara

Em matéria de moda, convém escolher os ídolos certos. A minha é Claudia Silvano, diretora do Procon do Paraná, que causou comoção há semanas ao aparecer na TV vestindo uma roupa que muitos julgaram ser um pijama.

Claudia é professora universitária especialista em direito do consumidor, trabalha como funcionária pública há 30 anos e está à frente do Procon estadual desde 2011, onde os índices de resolução de problemas chegam a 86%.

“Não é pijama!”, ela explicou no Facebook. “É só uma roupinha megacolorida e superconfortável, porque a vida tem que ser assim.”

Para a entrevista no telejornal matutino, ela vestiu uma camisa de flanela xadrez vermelha e preta, um cachecol listrado e uma calça soltinha de losangos multicoloridos. Respondeu dúvidas sobre consórcios e ganhou o absoluto respeito da internet. Ela afirmou que as roupas são feitas por uma costureira, sob encomenda, e que gosta de estampas alegres.

Claudia foi alçada instantaneamente ao suprassumo da lacração e tornou-se o modelo feminino máximo em meu círculo social: competente, confiante, alegre, gosta de cachorros e não dá a mínima para a opinião alheia.

Meu próprio guarda-roupa de trabalho consiste em duas gavetas com múltiplas combinações do que eu chamo de “pijama social completo”: calça de flanela, blusa de moletom, uma meia de lã que parece um texugo, um gorrinho e um par de pantufas. É assim que eu costumo destroçar a reputação dos poderosos na imprensa internacional e ditar os rumos da literatura latino-americana, quando não estou ocupada tomando sol com as tartarugas.

Minha indumentária “de sair” inclui uma miríade de blusinhas de brechó, inclusive uma branca com a inscrição “João Pessoa Paraíba Brasil”, ainda que eu nunca tenha ido para João Pessoa, e uma outra que eu descobri esses dias que era da H&M Gestantes. As calças jeans são as mesmas de sempre e quase não há sapatos de salto.

(Na minha adolescência de acampamentos, uma amiga apareceu uma vez calçando uma chocante galocha azul de salto alto e bico fino. Segundo ela, a peça é perfeita para “matar baratas nos cantinhos”. E combina com tudo.)

Usar a roupa que bem entende é, afinal, uma espécie de teste do caráter alheio: se alguém não nos respeita porque estamos “malvestidos”, isso diz mais sobre essa pessoa do que sobre nós. Fora que esmagar o patriarcado vestindo um tailleur não é tão notável quanto com um pijama de pezinhos… 

A protest against proposed changes to labor and pension laws in São Paulo, Brazil, on Monday. Credit: Nacho Doce/Reuters

The New York Times
July 12, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

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SÃO PAULO, Brazil — Until recently, I thought that being a writer was the most pitiful profession ever, especially in Brazil. Nobody reads our books, and we can easily spend an entire life just railing against the same things again and again. In general, we Brazilian writers have no impact at all. A bunch of local capybaras that are also believed to tell fortunes garner more respect than we do.

But then I found another job that is even more heartbreaking: the United Nations special rapporteur. The rapporteurs are independent experts working unpaid on behalf of the United Nations to monitor countries, governments and policies. They are usually appointed with three-year mandates. And they are completely ignored.

My brave, dear friends: I understand your pain. Every time I do research into a serious local matter related to, say, education, the environment, police brutality, racism or women’s rights, I find a stern, accurate, fact-filled statement from a special rapporteur condemning the situation. Again and again.

Almost two years ago, for example, Juan E. Méndez, an Argentine human rights lawyer who had been appointed special rapporteur on torture and other cruel, inhuman or degrading treatment or punishment, urged Brazilian authorities to immediately address prison overcrowding, as well as implement measures against torture. After visiting many of Brazil’s prisons and jails, Mr. Méndez collected credible testimonies on torture and ill-treatment by the police. He recommended that Brazilian authorities urgently provide custody hearings for all detainees within 48 hours of arrest and redesign those hearings to encourage victims to speak up and to allow for effective documentation of torture or ill-treatment.

But who would listen to an Argentine, right? In the year since he issued his report, Brazilian prisons have reported more than one violent death per day. The incarcerated population has grown regularly since the special rapporteur’s report, and in the first 15 days of 2017, more than 130 inmates were killed during clashes between rival gangs.

In 2016, Victoria Tauli-Corpuz, an activist from the Philippines who had been appointed the United Nation’s special rapporteur on the rights of indigenous people, visited Brazil to identify the issues facing the native population and to follow up on recommendations made by the previous special rapporteur. She documented not only “a disturbing absence of progress in the implementation of his recommendations” but also a serious regression in the protection of indigenous peoples’ rights. Later, Ms. Tauli-Corpuz also highlighted the fact that immediately after her mission, many of the communities she had visited registered an increase of attacks.

So these special rapporteurs are not only ignored but apparently also challenged. “I deplore that despite my prior alerts, state and federal authorities have failed to take prompt measures to prevent violence against indigenous peoples,” Ms. Tauli-Corpuz said when another preventable death occurred just three months after her initial report.

The same thing has happened with a constitutional amendment establishing a cap on the growth of public spending. The Senate boastfully approved the amendment just days after the release of a condemnatory report by Philip Alston, a United Nations special rapporteur on extreme poverty and human rights. In Mr. Alston’s opinion, the law, which imposes a 20-year cap on federal spending, would “lock in inadequate and rapidly dwindling expenditure on health care, education and social security, thus putting an entire generation at risk of social protection standards well below those currently in place.” The government’s answer? Whatever.

But the rapporteurs shouldn’t feel singled out. It’s not personal, you know. The Brazilian government’s ability to ignore its critics is universal. According to a Datafolha survey, 60 percent of Brazilians opposed the expenditure cap before it was approved anyway. More than seven in 10 Brazilians reject plans for pension reform, and nonetheless a pension-reform law is on the verge of being passed. One legislator said that popular protests — of which there have been many — were not going to change their votes.

President Michel Temer himself has declared that the “modernization of national legislation” will continue and that any “broad, sincere debate” should be held at the appropriate arena: the Congress. So there’s no use in protesting in the streets, organizing strikes, asking for direct presidential elections — or being a United Nations-appointed expert, for that matter. Nobody besides businessmen or crooked politicians will do.

Mr. Temer’s approval rating has recently dropped to 7 percent. Last month, Brazil’s prosecutor general officially charged him with corruption. Other charges of bribery and obstruction of justice are being prepared. “They want to stop the country, stop the Congress,” Mr. Temer has said, arguing that those accusations are an attack on the presidency itself. “I won’t let that diminish my mood,” he added. A clairvoyant capybara would make for a more democratic leader.

So all the solidarity of Brazilian people goes to the intrepid United Nations special rapporteurs. Let’s keep working together on being neglected. As Érico Veríssimo, a Brazilian novelist, said, the least writers can do is hold up our lamps and bring some light to atrocities and injustice. And “if we do not have a light bulb, let’s light our candle stumps or, as a last resort, repeatedly strike some matches as a sign that we did not desert our post.”

A filipina Victoria Tauli-Corpuz, relatora especial das Nações Unidas para os direitos dos povos indígenas em 2016. Reprodução Facebook.

The New York Times
12 de julho de 2017

por Vanessa Barbara

Trad. George El Khouri Andolfato

Escritores são ignorados. Observadores de direitos humanos são repelidos. Será que alguém é capaz de induzir o governo do Brasil a corrigir seu rumo?

Até recentemente, eu achava que ser escritor era a profissão mais lamentável de todas, especialmente no Brasil. Ninguém lê nossos livros e podemos facilmente passar toda a vida protestando contra as mesmas coisas repetidas vezes. Em geral, nós, escritores brasileiros, não temos impacto nenhum. Um bando de capivaras locais, que acredita-se serem capazes de prever a sorte, são mais respeitadas que nós.

Mas encontrei outro emprego ainda mais doloroso: o de relator especial das Nações Unidas. Os relatores são peritos independentes que trabalham de forma não remunerada em nome das Nações Unidas no monitoramento de países, governos e políticas. Eles costumam ser nomeados para mandatos de três anos. E são completamente ignorados.

Meus caros e corajosos amigos: eu entendo sua dor. Toda vez que pesquiso sobre um grave assunto local relacionado a, digamos, educação, meio ambiente, brutalidade policial, racismo ou direitos da mulher, encontro uma declaração séria, precisa, repleta de fatos de um relator especial condenando a situação. Várias e várias vezes.

Há quase dois anos, por exemplo, Juan E. Méndez, um advogado de direitos humanos argentino que foi nomeado relator especial para tortura e outros tratamentos e punições cruéis, desumanas ou degradantes, pediu às autoridades brasileiras que tratassem imediatamente da superlotação das prisões, assim como implantassem medidas contra a tortura.

Após visitar muitos dos presídios e cadeias do Brasil, Méndez coletou depoimentos críveis sobre tortura e maus-tratos pela polícia. Ele recomendou que as autoridades brasileiras providenciassem urgentemente audiências de custódia para todos os detidos em até 48 horas após a detenção e remodelassem essas audiências visando encorajar as vítimas a falarem e permitir documentação eficaz da tortura e maus-tratos.

Mas quem daria ouvidos a um argentino, não é? No ano que se passou desde a divulgação de seu relatório, as prisões brasileiras relataram mais de uma morte violenta por dia. A população carcerária tem aumentado regularmente desde o informe do relator, e nos primeiros 15 dias de 2017, mais de 130 presos foram mortos durante brigas entre gangues rivais.

Em 2016, Victoria Tauli-Corpuz, uma ativista das Filipinas que foi nomeada relatora especial das Nações Unidas para os direitos dos povos indígenas, visitou o Brasil para identificar as questões enfrentadas pela população nativa e acompanhar as recomendações feitas pelo relator especial anterior.

Ela documentou não apenas “uma ausência perturbadora de progresso na implantação das recomendações dele”, como também uma séria regressão na proteção dos direitos dos povos indígenas. Posteriormente, Tauli-Corpuz também acentuou o fato de que, imediatamente após sua missão, muitas das comunidades que ela visitou registraram um aumento de ataques.

11.jan.2014 – Juan Ernesto Méndez, relator especial sobre tortura da ONU. Foto: Martial Trezzini/Keystone/AP

Logo, esses relatores especiais não são apenas ignorados, mas aparentemente também desafiados. “É deplorável o fato de que, apesar de meus alertas anteriores, as autoridades estaduais e federais tenham fracassado em adotar medidas imediatas para prevenir a violência contra os povos indígenas”, disse Tauli-Corpuz, quando outra morte que poderia ter sido evitada ocorreu três meses após seu relatório inicial.

A mesma coisa aconteceu com a emenda constitucional estabelecendo um teto no aumento dos gastos públicos. O Senado aprovou orgulhosamente a emenda poucos dias após a divulgação de um relatório condenatório escrito por Philip Alston, um relator especial das Nações Unidas para pobreza extrema e direitos humanos.

No parecer de Alston, a lei, que impõe um teto de 20 anos aos gastos federais, “congelará os gastos em níveis inadequados e rapidamente decrescentes na saúde, educação e previdência, colocando, portanto, toda uma geração futura em risco de receber uma proteção social muito abaixo dos níveis atuais”. A resposta do governo? Tanto faz.

Mas os relatores não deveriam se sentir discriminados. Não se trata de algo pessoal. A habilidade do governo brasileiro de ignorar seus críticos é universal. Segundo uma pesquisa Datafolha, 60% dos brasileiros rejeitam os planos para reforma da Previdência, mas, mesmo assim, a lei está prestes a ser aprovada. Um legislador disse que os protestos populares – que não foram poucos – não mudarão seus votos.

O próprio presidente Michel Temer declarou que a “modernização da legislação nacional” continuará e que qualquer “debate amplo, sincero” deve ser realizado na arena apropriada: o Congresso. Assim, de nada vale protestar nas ruas, organizar greves, pedir por eleições presidenciais diretas, ou mesmo ser um especialista nomeado pelas Nações Unidas. Ninguém é capaz de fazer diferença, exceto empresários e políticos corruptos.

O índice de aprovação de Temer caiu recentemente para 7%. No mês passado, o procurador-geral da República o denunciou oficialmente por corrupção. Outras acusações de recebimento de propina e obstrução da Justiça estão sendo preparadas. “Querem parar o país, parar o Congresso”, disse Temer, argumentando que as acusações são um ataque à própria Presidência. Ele acrescentou que não permitiria que isso abalasse seu humor. Uma capivara clarividente daria um líder mais democrático.

Assim, toda a solidariedade do povo brasileiro aos intrépidos relatores especiais das Nações Unidas. Vamos continuar trabalhando juntos em nosso ofício de sermos ignorados. Como disse Érico Veríssimo, “o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, trazer luz sobre a realidade de seu mundo”. E “se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto”.

The New York Times
30 de maio de 2017

por Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

Trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves / UOL Notícias

Em 30 de abril, um grupo de fazendeiros armados com rifles e machados atacou um assentamento de cerca de 400 famílias da tribo gamela, no Estado do Maranhão, no nordeste do Brasil. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, um grupo de defesa dos direitos indígenas, 22 índios ficaram feridos, inclusive três crianças. Muitos receberam tiros nas costas ou tiveram os punhos decepados.

Pouco depois do ataque, o Ministério da Justiça anunciou em seu site na web que iria investigar “o incidente entre pequenos agricultores e supostos indígenas”. (Minutos depois a palavra “supostos” foi retirada.)

Isto não deveria causar surpresa. Foi o terceiro ataque relatado contra o povo gamela em três anos e faz parte de uma tendência de atos violentos contra indígenas brasileiros. Toda semana parece trazer a notícia de uma nova atrocidade cometida contra povos indígenas em alguma parte remota do país. Mas nada mais parece chocar a sociedade brasileira. Nem mesmo quando, algumas semanas atrás, uma criança de 1 ano da tribo Manchineri levou um tiro na cabeça.

Esses ataques fazem parte de um padrão mais amplo de abusos, marginalização e negligência. Desde 2007, 833 índios foram assassinados e 351 cometeram suicídio, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena –índices muito superiores à média nacional. Entre as crianças, o índice de mortalidade é duas vezes mais alto que no restante da população brasileira.

Segundo o Censo, restam cerca de 900 mil indígenas da população original, estimada entre 3 milhões e 5 milhões, que habitavam o país quando os colonizadores portugueses chegaram em 1500. Doenças importadas da Europa dizimaram milhões deles durante o primeiro século de contato. Mais tarde, os indígenas foram escravizados nas plantações.

Mas o genocídio não terminou aí. Durante o século passado, dezenas de milhares de indígenas foram vítimas de estupro, tortura e assassinato em massa, cometidos com a ajuda de um órgão governamental, o Serviço de Proteção ao Índio. Algumas tribos foram completamente eliminadas. Hoje, somente 12,5% da terra brasileira continuam em posse dos povos indígenas.

A história dos guarani-kaiowás, do Estado de Mato Grosso do Sul (oeste do Brasil), é típica dos problemas enfrentados pelos grupos indígenas. Os guarani-kaiowás foram expulsos de suas terras ancestrais no final dos anos 1940, quando o governo concedeu títulos de propriedade aos fazendeiros e pecuaristas da região. Então eles se mudaram para reservas superlotadas e acampamentos à beira de estradas.

A situação da tribo parecia prestes a melhorar em 1988, quando o Brasil aprovou uma nova Constituição que reconhecia os direitos dos povos indígenas às terras que ocupavam tradicionalmente. O governo deveria demarcar esses territórios em cinco anos após a aprovação da Constituição. Demorou mais do que se esperava: a identificação e demarcação das terras dos guarani-kaiowás começou em 1999 e foi concluída em 2005.

Eles voltaram ao seu território –mas só brevemente. Meses depois, seguindo uma petição de fazendeiros locais, um juiz federal suspendeu o decreto que teria demarcado oficialmente suas terras. Mais uma vez a tribo foi expulsa.

Em agosto de 2015, alguns guarani-kaiowás decidiram reocupar parte de seu território. Acamparam em terras de propriedade dos fazendeiros, que tinham outros planos. Segundo relatos, eles contrataram milícias armadas para tentar expulsar a tribo. Semião Vilhalva, um líder tribal, foi morto a tiros.

Houve relatos de tortura, violação e rapto de crianças. Menos de um ano depois, outro ataque matou um líder guarani-kaiowá e nove pessoas foram feridas a tiros. Cinco fazendeiros locais foram detidos por participação no ataque, mas foram liberados após alguns meses.

Os indígenas que não são mortos ou sequestrados enfrentam outro desafio: ser apagados. Como muitos deles foram empurrados para os subúrbios das cidades e obrigados a adotar novos hábitos (como usar jeans, motocicleta e telefone celular), eles também enfrentam o estigma de serem chamados de “falsos índios”. Pouco antes do ataque no Maranhão no mês passado, um congressista chamou publicamente as vítimas de “pseudoindígenas”.

Depois do assassinato de Vilhalva, o líder tribal guarani-kaiowá, o representante de direitos humanos da ONU na América do Sul, Amerigo Incalaterra, pediu que o governo protegesse os direitos dos povos indígenas, incluindo seu direito à terra. O governo do Brasil adiou a demarcação das terras tribais e permitiu que indígenas sofressem violência por causa de conflitos com proprietários de terras, segundo ele.

Incalaterra pediu que as autoridades “detivessem a expulsão das comunidades guarani-kaiowás e concluíssem com urgência o processo de demarcação de suas terras”.

Isso parece cada vez menos provável. Aproximadamente a metade do Congresso brasileiro está ligado aos proprietários rurais. O governo do presidente Michel Temer está tão emaranhado com o lobby rural que recentemente nomeou Osmar Serraglio, um proeminente membro do grupo do agronegócio, para ministro da Justiça.

Temer também indicou um general militar como chefe interino da Fundação Nacional do Índio, apesar de vigorosos protestos das comunidades nativas. No início de maio, uma comissão parlamentar de inquérito criada e formada por membros da bancada rural emitiu um relatório condenando as atividades de “supostos” povos indígenas, uma dúzia de antropólogos, alguns advogados do Estado e membros de organizações de direitos indígenas, inclusive o Conselho Indigenista Missionário.

A menos que haja uma reação pública em defesa dos povos indígenas do Brasil, eles continuarão morrendo –expulsos de suas terras, oficialmente silenciados, assassinados, destruídos pela desnutrição e a doença–, e o genocídio estará completo. 


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves/ UOL Notícias

The New York Times
May 30th, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

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Jose Ribamar from Brazil’s indigenous Gamela tribe is pictured next to his daughter at a hospital after he was injured in a dispute over land in northern Brazil, in São Luis, Maranhão state, Brazil. Credit: Lunae Parracho/Reuters

 

SÃO PAULO, BRAZIL — On April 30, a group of ranchers armed with rifles and machetes attacked a settlement of about 400 families from the Gamela tribe, in the state of Maranhão, in northeastern Brazil. According to the Indigenous Missionary Council, an advocacy group, 22 Indians were wounded, including three children. Many were shot in the back or had their wrists chopped.

Soon after the attack, the Ministry of Justice announced on its website that it would investigate “the incident between small farmers and alleged indigenous people.” (Minutes later, the word “alleged” was removed.)

This shouldn’t have come as a surprise. It was the third reported attack on Gamela people in three years and part of a trend of assaults against indigenous Brazilians. Every week seems to bring reports of a new atrocity committed against indigenous people in some remote part of the country. But nothing seems to shock our society anymore. Not even when, a few weeks ago, a 1-year-old from the Manchineri tribe was shot in the head.

These attacks are part of a larger pattern of abuse, marginalization and neglect. Since 2007, 833 Indians have been murdered and 351 have committed suicide, according to the Special Secretariat for Indigenous Health — rates far above the national average. Among children, the mortality rate is two times higher than in the rest of the Brazilian population.

According to the census, there are around 900,000 Indians left from the original estimated three to five million who inhabited the country when the Portuguese settlers arrived in 1500. Diseases imported from Europe wiped out millions during the first century of contact. Later the Indians were enslaved on plantations. But the genocide didn’t end then. Over the past century, tens of thousands of indigenous people have been victims of rape, torture and mass murder, perpetrated with the help of a governmental agency, the Indian Protection Service. Some tribes were completely eliminated. Today, only 12.5 percent of Brazilian land remains in the possession of indigenous people.

The story of the Guarani-Kaiowa, from the western state of Mato Grosso do Sul, is typical of the trials indigenous groups face. The Guarani-Kaiowa were first expelled from their ancestral lands in the late 1940s, when the government granted farmers and ranchers titles to the area. They then moved to overcrowded reservations and roadside camps.

The tribe’s situation seemed poised to improve in 1988, when Brazil adopted a new Constitution that recognized the rights of indigenous people to the lands they traditionally occupied. The government was supposed to demarcate those territories within five years of the Constitution’s enactment. It took longer than expected: The identification and demarcation of the Guarani-Kaiowa’s land started in 1999 and was completed in 2005. They returned to their territory — but only briefly. Months later, following a petition by local ranchers, a federal judge suspended the decree that would have officially demarcated their land. Once again, the tribe was evicted.

In August 2015, some of the Guarani-Kaiowa decided to reoccupy part of their territory. They camped on land owned by ranchers. The landholders had other plans: According to reports, they hired armed militias to try to drive the tribe out. Semião Vilhalva, a tribal leader, was shot and killed. There were accounts of torture, rape and child abduction. Less than a year later, another attack killed a Guarani-Kaiowa leader and nine people were shot. Five local farmers were detained for taking part in the raid but were released after a few months.

The indigenous people who aren’t killed or abducted face another challenge: being erased. Since many of them have been pushed to the outskirts of cities and towns, and forced to adopt new habits (like wearing jeans, riding motorcycles and using cellphones), they also have to face the stigma of being called “fake Indians.” Soon before the attack in Maranhão last month, a congressman publicly called the victims “pseudo-indigenous people.”

After the murder of Mr. Vilhalva, the Guarani-Kaiowa tribal leader, the United Nations human rights representative for South America, Amerigo Incalaterra, urged the government to protect the rights of indigenous people, including their right to land. Brazil’s government had delayed demarcating tribal land and allowed indigenous people to suffer violence because of conflicts with landowners, he said. Mr. Incalaterra called on the authorities “to stop evictions of Guarani-Kaiowa communities and to urgently complete the process of demarcation of their lands.”

That seems less and less likely. Around half of Brazil’s Congress is linked to the rural caucus. The government of President Michel Temer is so entangled with the rural lobby that he has just named Osmar Serraglio, a prominent member of the agribusiness caucus, as minister of justice. Mr. Temer also appointed a military general as the interim head of the National Indian Foundation, despite vigorous protests from the native communities. At the beginning of this month, a parliamentary commission created and formed by members of the rural caucus issued a report condemning the activities of “alleged” indigenous people, a dozen anthropologists, a few state’s attorneys and members of indigenous rights organizations, including the Indigenous Missionary Council.

Unless there is a public outcry in defense of Brazil’s indigenous people, they will continue to die — cut off from their lands, officially silenced, murdered, ravaged by malnutrition and disease — and the genocide will be complete.

 


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on May 30, 2017, in The International New York Times.