A coragem de amarelar

Posted: 15th abril 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Revista Viagem & Turismo
Abril de 2014

por Vanessa Barbara 

“Este certificado pertence a Vanessa Barbara, do Brasil, que acaba de enfrentar o medo e abraçar um estado de euforia pulando de bungee jump da ponte Kawarau, o primeiro ponto comercial de salto no mundo. Com a ajuda de uma corda de látex e uma dose de coragem, tal indivíduo realizou uma façanha e deixou de ser mais um zé-ninguém neste planeta.”

São esses os dizeres do diploma que ganhei após fazer um salto na Nova Zelândia, no mês passado. Ou seja: eu não passava de um zé das couves até aquele momento, quando deixei que amarrassem uma corda aos meus pés, subi numa plataforma estreita sobre o rio e mergulhei rumo ao estrelato. Naquele segundo, minha insignificância desapareceu e me enchi de glórias.

Só que a atividade me pareceu tão empolgante quanto comer um prato de mariscos.

O primeiro salto custa 180 dólares neozelandeses (R$ 350), o segundo R$ 90. Primeiro se deve assistir a um vídeo sobre a história do esporte – metade do grupo desistiu já nessa fase – e preencher os dados pessoais numa ficha amarela carinhosamente apelidada de toe-tag (nome das etiquetas de identificação amarradas ao dedão do pé dos cadáveres). Na sequência, há um processo duplo de pesagem. Ganhei um número vermelho na mão esquerda – meu peso, que me acompanhou pelo resto do dia e parecia aumentar quando eu comia demais; na mão direita, marcaram um número azul, que era o código para retirar as fotos após o salto.

Segundo a propaganda, 99% dos clientes afirmam que saltar foi a melhor experiência de suas vidas. É nisso em que eu tentava pensar deitada na plataforma, enquanto os funcionários atavam as minhas pernas e preparavam os equipamentos. Então pediram que me levantasse e chegasse bem perto da borda, o que só dá para fazer dando pequenos e ridículos saltinhos.

Os rapazes que coordenam a operação são chamados de jumpmasters. Eles me orientaram a olhar para a frente, onde havia uma câmera de filmagem, e depois para os meus amigos, que acenavam ao longe. Eu perguntei: “É só pular? É isso?”. Pediram que eu nunca olhasse para baixo, apenas para a frente. Naquele instante, tendo espiado com o canto do olho o rio que corria lá embaixo, todas as células do meu corpo sabiam que estavam fazendo pouquíssimo caso do próprio instinto evolucionário de autoconservação e perpetuação da espécie. À beira de um abismo de 43 metros, minha glândula suprarrenal implorava por clemência, meu sistema nervoso entrava em modo suicídio e o jumpmaster pedia: “Olhe para a frente. Respire fundo. Três, dois, um”.

Então obedeci e, durante a queda livre, tive a incômoda sensação de que o meu cérebro se descolava do crânio a uma velocidade de 80 km/h. Achei que fosse sofrer um aneurisma, senti um aumento brusco da pressão e tive uma forte dor de cabeça que durou o resto da tarde. Foi quando veio o primeiro puxão da corda, depois o segundo e o terceiro. No vídeo, pareço um desconjuntado boneco de posto, e me lembro de pensar: “Que bela ideia. Vou me fingir de morta e esperar que isso acabe logo”.

Então os funcionários vieram me resgatar num bote, eu me joguei no chão do barco feito um saco de batatas e eles perguntaram: “Primeira vez?”. Resposta: “Primeira e última”.

**

Todo o marketing do bungee jump se concentra no mito da coragem. Na lojinha de Kawarau, há dezenas de produtos com os dizeres: “Eu consegui” e camisetas que exploram a covardia dos que não pularam: “I was too chicken”, diz uma delas (algo como “Fui um franguinho”, ou “Amarelei”).

Os jumpmasters são orientados a não empurrar ninguém, pois a atividade é sobre “decidir por conta própria”, segundo Henry van Asch, cofundador do AJ Hackett Bungy. “É uma aventura menos física e mais emocional e intelectual. Não chamamos de esporte, mas de desafio pessoal”, ele sublinha, em entrevista a um site. Alguns falam em “inspiração para a vida”.

Segundo antropólogos, o bungee jump surgiu numa tribo de Vanuatu como ritual de iniciação masculina, uma forma de impressionar e desafiar as mulheres. Só os homens pulavam, e quem não conseguia era tachado de covarde.

Na raiz do esporte, o bullying permanece até hoje, disfarçado de audácia.

No meu grupo havia um rapaz que não quis pular e estava confiante e tranquilo dessa decisão; foi o mais corajoso de todos porque enfrentou o julgamento alheio e não se deixou abalar. Não via grande interesse na atividade e contentou-se em fotografar os outros.

Na área de turismo, damos uma ênfase excessiva ao valor da experiência, embora a vida seja feita sobretudo de não experiências, de coisas que optamos por deixar de lado porque não queremos ou não podemos fazer: hipertensos e epilépticos não podem saltar de bungee jump, assim como diabéticos não podem se entupir de doces. Há uma série de aspectos da existência que independem do nosso arbítrio, ao contrário do que acontece dentro do ambiente controlado dos esportes radicais, onde nos sentimos super-heróis capazes de tudo. (Animado, meu guia declarou: “É uma sensação incrível! Você sai de lá achando que é capaz de tudo, tipo… tipo suicídio!”.)

A verdade é que esportes radicais podem ser empolgantes para alguns, mas decepcionantes para outros. Por isso não há lógica em constranger as pessoas, nem em relacionar tais práticas à tenacidade mental do indivíduo.

Pelo contrário: alguns psicólogos sustentam que, ao assumir riscos compulsivamente, as pessoas fogem dos verdadeiros riscos da vida; a ideia é produzir um falso senso de bem-estar e audácia ao encarar apenas perigos artificiais e voluntários. Numa situação de risco verdadeiro que exige coragem ­– posicionar-se diante de uma injustiça, por exemplo –, muitos agem com notável covardia.

São eles que praticam o bullying e precisam rebaixar os outros para se sentir melhores, brandindo um certificado que atesta a relevância existencial de alguém que pagou R$ 350 para mergulhar no vazio com uma corda nos pés.

Folha de S.Paulo – Revista sãopaulo
13 de abril de 2014

por Vanessa Barbara

Há poucas semanas, a revista sãopaulo publicou uma matéria sobre tartarugas abandonadas no lago do parque Piqueri. Seriam cerca de 150 animais que cresceram demais e foram despachados por seus donos, o que configura grave crime ambiental.

Não se pode abandonar uma tartaruga na natureza por vários motivos: primeiro porque, se ela foi criada em cativeiro, terá problemas em se adaptar à vida selvagem e pode morrer. Segundo porque irá desequilibrar o ecossistema local, sobretudo se for um tigre d’água americano, tartaruga nativa do sul dos Estados Unidos, com listras vermelhas abaixo dos olhos.

Muito populares no Brasil, as “orelhas vermelhas” são consideradas pela União Internacional de Conservação da Natureza uma das cem maiores espécies invasoras do mundo. Em matéria publicada no New York Times do dia 22/3, falo da caçada internacional a essa espécie, bem mais esperta e agressiva do que as nativas.

Algumas coisas que aprendi após a pesquisa, sendo dona de duas tartarugas legalizadas (e muito garbosas):

1. Não comprem tartarugas aquáticas como animais de estimação. Legais ou ilegais. São animais que dão trabalho, crescem rapidamente e fazem sujeira; é preciso ter um aquário de 100 litros para que elas tenham uma vida minimamente aceitável. Embora eu goste muitíssimo de Napoleão e Jacinto, não recomendo a compra e sou cada vez mais contrária à comercialização.

2. Embora os criadouros autorizados pelo Ibama façam um bom trabalho na comercialização de tigres d’água brasileiros, pregando o discurso de que assim estariam combatendo o tráfico de espécies invasoras, melhor seria se parassem de se dedicar ao negócio. Porque tartaruga não é pra ser bicho de estimação. Elas merecem viver em seu hábitat de origem.

3. Por último, sobre as infames orelhas vermelhas: que culpa tem a espécie de ter sido exportada? Sei que elas podem destruir um ecossistema, mas precisa decapitá-las, como fazem na Austrália? E depois esmagar o cérebro ainda ativo do animal, que segue consciente e demora para morrer? Precisa congelar as tartarugas até a morte, como no Japão, numa eutanásia considerada cruel, já que elas têm metabolismo lento e sentem as próprias células explodindo? Precisa executá-las com um tiro na cabeça?

As tartarugas, enfim, não têm culpa. Não deviam pagar pela estultice dos seres humanos.

Ps. Se você tem uma orelha vermelha, deve entregá-la ao Ibama ou a um CRAS (Centro de Recuperação de Animais Silvestres), como o do Parque Ecológico do Tietê (tel.: 2958-1477 ramal 226). Se não tem mais condições de criar sua tartaruga nativa, procure alguém que possa adotá-la ou a devolva ao criadouro de origem. Se quiser mesmo ter uma tartaruga, adote (http://mundodastartarugas.forumpratodos.com).

Revista são paulo
30 de março de 2014

por Vanessa Barbara

O trem mal havia deixado a estação Armênia quando um sujeito no vagão informou em voz alta: “Estação Tiradentes”.

Os passageiros se voltaram para ver o que estava havendo. O sujeito continuava impávido, fitando o vazio, como se nada tivesse ocorrido. Alguns se entreolharam e uma mulher trocou de lugar. Em poucos segundos, o trem parou na estação. Três pessoas saíram, as portas se fecharam e a composição seguiu.

“Estação Luz”, anunciou o anônimo, e tornou a calar-se.

Dessa vez, houve menos olhares e alguns suspiros de enfado. Um senhor de meia-idade ergueu os olhos do jornal com uma expressão de vaga curiosidade. O sujeito permanecia impassível, embora transparecesse um leve desconforto. Quando o metrô passou de São Joaquim, porém, ele já bradava o nome das estações vindouras com gosto e desenvoltura, e ninguém mais fazia caso.

O “exercício das estações de metrô” foi prescrito originalmente pelo psicólogo Albert Ellis para seus pacientes nova-iorquinos. O objetivo era demonstrar, na prática, como lidamos de forma irracional até com experiências apenas vagamente incômodas, e como podemos encontrar benefícios surpreendentes quando as enfrentamos.

O desafio é simples: bradar em voz alta o nome da estação seguinte antes do anúncio nos alto-falantes. Só de pensar, a maioria das pessoas experimenta um visível mal-estar ou um medo paralisante do julgamento alheio. Mesmo ao descrever a cena acima, que é fictícia, senti um leve constrangimento.

Contudo, não há nada na tarefa que seja em si apavorante: dentro de um vagão de metrô ninguém se conhece, e todos costumam ignorar comportamentos esquisitos. “Quando há um sem-teto no vagão gritando que Pat Sajak é a segunda vinda do Cristo, um homem lendo uma enorme enciclopédia com inscrições douradas na lombada não chama tanto a atenção”, observou certa vez o jornalista A. J. Jacobs, que optou por ler a Britannica no trem.

Além disso, anunciar as estações até pode até ser considerado algo útil, ainda que francamente idiota. Então para que tanto drama?

“Nada é tão ruim quanto nós antecipamos. Algumas estações mais tarde, eu me levantei e saí do trem, sorrindo para mim mesmo, repleto de serenidade estoica”, declarou Oliver Burkeman, repórter britânico que desempenhou vitoriosamente a missão. “Ninguém no vagão se interessou por isso também.”

É que, em geral, o que de pior pode acontecer em qualquer ocasião é a nossa crença exagerada de como ela vai ser terrível. Só encarando as coisas é que notamos o tamanho dessa distorção.

Para a ciência, passar vergonha faz muito bem.

(Fica a sugestão para o fim de semana.)

The New York Times
March 22th, 2014

by Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil — AMERICANS are predatory. They invade other countries, prey on native populations and exploit their resources. They are typically voracious, opportunistic and highly adaptive. It is said they are filthy; they can tolerate living in polluted areas and can carry diseases to which locals have no immunity. As we speak, they are causing global ecological damage.

We are talking, obviously, about American red-eared sliders — semiaquatic turtles originally from the southern United States. Over the last few decades, these turtles (officially Trachemys scripta elegans) have spread around the world, prompting some to label the species the reptilian Norway rat (for biologists, this is practically an obscenity). It is listed by the International Union for the Conservation of Nature as one of the 100 worst invasive species in the world. The turtles can be found on every continent but Antarctica, in more than 70 countries and several islands, and in my São Paulo neighborhood.

(There are five of them living on my block. My favorite is a sweet one named Turtle Moses; for reasons that will soon become obvious, their owners will remain anonymous.)

The importation of red-eared sliders is prohibited in Brazil, the European Union and elsewhere. In Australia, people who keep them can face fines of up to $110,000 or five years in jail.

The problem goes back to the late 1950s and ’60s, when turtle farms in the United States started selling red-eared sliders. They seem very appealing as pets: Newborns are bright green little creatures barely larger than coins, with distinctive red stripes behind their eyes. They are cute, lively and easy to handle. However, in a year they double in size, reaching up to 12 inches in diameter. And they can live for 40 years.

They’re called “sliders” for their eagerness to slip off rocks and logs into water when approached. The owner’s required paraphernalia includes a large tank with a dry area, a heater, a powerful filter (turtles make a lot of waste, and their water has to be partially changed every week), two kinds of ultraviolet lamps and many bags of food pellets. That’s more work than many people signed up for, and the pets are often released to the wild.

In 1975 the United States Food and Drug Administration banned the sale of small turtles in hopes of preventing salmonella infections in children. Turtles of all sizes can carry the bacteria, but hatchlings are much more likely to be purchased. As a result, domestic sales dropped, and farms shifted their focus to international markets.

Sales boomed in the late 1980s, after the release of the cartoon comic “Teenage Mutant Ninja Turtles,” starring four brave (and pizza-loving) red-eared sliders. From 1989 to 1997, more than 52 million of the turtles were exported from the United States to foreign markets. When they reached adulthood, the pets were often abandoned at nearby lakes and ponds, introducing American red-eared sliders into other ecosystems.

Today, Australians may be considered the red-eared slider’s biggest predators. “They are tough as old boots,” Scott O’Keeffe, a biosecurity expert, told an Australian newspaper. “They can live in poor water quality and they’ll eat just about anything.” The Department of Agriculture and Food runs a fierce eradication campaign against those the news media calls “illegal immigrants,” “menaces” and “pests.” The official policy is to kill every red-eared slider they find.

Years ago, a newspaper celebrated the capture of a turtle on Christmas Eve: “Having eluded authorities since being smuggled into Australia, the ‘large and exotic’ offender was captured by a Melbourne housewife and will be put down.” By that point, the government had spent five years setting traps for this specific individual and even hired an expert to help take it into custody. “It is believed there is another, smaller red-eared slider turtle in Blackburn Lake,” the article warned. (I’d say “slider” is a suitable name for a notorious outlaw.)

American sliders are considered environmental pests outside their natural range because they compete against native turtles for food, mates, nesting areas and basking sites. They are way smarter and more aggressive than other species, like Trachemys dorbignyi, the Brazilian sliders.

Here in Brazil, owners can face fines of around $210 and up to one year in jail, but it is possible to hand them over and avoid prosecution. In theory, these proscribed turtles would be relocated to zoos or conservationist facilities, although everybody knows they’re full — no vacancies for Americans. According to a biologist from the Brazilian Institute of Environment and Renewable Natural Resources, euthanasia is not the standard policy here, but in a broader sense, it would be preferable to kill these turtles than to let them destroy a whole ecosystem. “In matters of ecological balance, individuals aren’t important,” he said to me.

Even in most of the United States their sales are banned, and in many places, euthanasia is the rule. The standard procedure for putting turtles to sleep, devised by the American Veterinary Medical Association, is rather gruesome: First you sedate the animal, then you decapitate it. Then the humane thing to do is to scramble its still-active brains, for they’re tenacious, stubborn, slow animals to die.

Run, Turtle Moses, run. And find yourself a better P.R. agent.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is a novelist and a columnist for the newspaper Folha de São Paulo.

A version of this op-ed appears in print on March 22, 2014, on page A21 of the New York edition with the headline: Beware of Cold-Blooded Americans.

The New York Times
22 de março de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brasil ­­— AMERICANOS são predadores. Invadem outros países, aproveitam-se das populações locais e exploram seus recursos. São tipicamente vorazes, oportunistas e altamente adaptáveis. Dizem que são sujos; podem tolerar a vida em áreas poluídas e por vezes carregam doenças às quais os nativos não têm imunidade. Agora mesmo estão causando um grave dano ecológico ao mundo.

Estamos falando obviamente dos tigres d’água americanos, ou orelhas vermelhas – tartarugas semiaquáticas originárias do sul dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, esses animais (Trachemys scripta elegans) espalharam-se ao redor do globo, incentivando alguns biólogos a apelidá-los de ratazanas do mundo réptil (o que é praticamente um insulto). Essas tartarugas são listadas pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) como uma das cem maiores espécies invasoras do mundo. Hoje são encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida, em mais de 70 países e ilhas, e no meu remoto bairro paulistano.

(Há cinco delas vivendo ilegalmente no meu quarteirão. A minha favorita é a doce Tartaruga Moisés; por motivos que logo ficarão óbvios, a identidade de seus donos permanecerá anônima.)

A importação de orelhas vermelhas é proibida no Brasil, na União Europeia e por toda parte. Na Austrália, quem tem o animal em casa está sujeito a multa de até US$ 110 mil ou cinco anos de prisão.

O problema remonta ao fim dos anos 50 e começo dos anos 60, quando criadores americanos passaram a vender as tartarugas da espécie. Elas são bastante atraentes como animais de estimação: os filhotes são criaturas muito verdes do tamanho de moedinhas, com faixas vermelhas perto dos olhos. São fofas, espertas e fáceis de manejar. Contudo, dobram de tamanho no período de um ano, atingindo até 30 centímetros de diâmetro (o tamanho de uma folha de papel A4). E podem viver por 40 anos.

Em inglês, são chamadas de “sliders” (escorregadias) por causa da avidez com que mergulham do alto de pedras e troncos em direção à água quando alguém se aproxima. A parafernália obrigatória do proprietário inclui um aquário grande (mais de 100 litros) com uma área seca, um termostato, um filtro potente (tartarugas fazem uma sujeira atroz e a água tem de ser trocada parcialmente toda semana), dois tipos de lâmpadas ultravioleta e muitos pacotes de ração. É muito mais trabalhoso do que a maioria dos compradores imaginava, e por isso os animais são abandonados na natureza.

Em 1975, a FDA americana proibiu a venda de tartarugas pequenas (com menos de 10 centímetros de casco) no país, numa tentativa de evitar a contaminação por salmonela em crianças. Tartarugas de todos os tamanhos podem carregar a bactéria, mas filhotes são mais populares no mercado de animais de estimação. Como resultado, as vendas domésticas caíram e os criadores mudaram de foco para o mercado estrangeiro.

As vendas dispararam no fim dos anos 80, após o lançamento do desenho animado “Tartarugas Ninja”, cujas protagonistas são quatro orelhas vermelhas corajosas e comedoras de pizza. De 1989 a 1997, mais de 52 milhões de indivíduos foram exportados dos Estados Unidos para o mercado estrangeiro. Quando atingem a idade adulta, as tartarugas são às vezes abandonadas em lagos e rios próximos, introduzindo a espécie em outros ecossistemas.

Hoje os australianos podem ser considerados os maiores predadores das orelhas vermelhas. “Elas são tão resistentes quanto botas velhas”, disse Scott O’Keeffe, especialista em biossegurança, a um jornal local. “Podem viver em águas de péssima qualidade e comem praticamente de tudo.” O Departamento de Agricultura e Alimentação do país empreende uma feroz campanha de erradicação daquelas que a mídia chama de “imigrantes ilegais”, “ameaças”, “impostoras” e “pestes”. A política oficial é matar todas as que forem encontradas.

Anos atrás, um jornal celebrou a captura de uma tartaruga na véspera de Natal: “Tendo logrado escapar das autoridades desde que foi contrabandeada para a Austrália, a ‘grande e exótica’ criminosa foi capturada por uma dona de casa de Melbourne e será sacrificada.” Naquela altura, o governo já tinha passado cinco anos montando armadilhas para esse indivíduo específico, e chegara a contratar um especialista para ajudar a enquadrá-la. “É provável que exista outra tartaruga de orelhas vermelhas, menor, no lago Blackburn”, alertou o artigo. (Eu diria que “slider” é um nome apropriado para foragidas tão notórias.)

As orelhas vermelhas são consideradas pestes ambientais fora de seu habitat natural porque competem com as tartarugas nativas por comida, parceiros, áreas de postura de ovos e lugares ao sol. São muito mais espertas e agressivas que as demais espécies, como o tigre d’água brasileiro (Trachemys dorbignyi).

Aqui no Brasil, os donos de tartarugas ilegais estão sujeitos a multa de 500 reais e até um ano de cadeia, mas é possível entregá-las sem ônus. Em teoria, os quelônios proscritos são transferidos para zoológicos ou criadouros credenciados pelo Ibama, embora todos saibam que esses locais estão lotados – não há mais vagas para americanas. De acordo com um biólogo do Ibama, a eutanásia não é a prática oficial por aqui, mas, do ponto de vista ambiental, é preferível o animal ser abatido do que causar desequilíbrio a todo um ecossistema. “Em matéria de equilíbrio ecológico, o indivíduo não tem importância”, afirmou.

Mesmo na maior parte dos Estados Unidos é proibida a comercialização de orelhas vermelhas e, em vários estados, a eutanásia é a regra. O procedimento padrão para sacrificar tartarugas, de acordo com a Associação Veterinária Americana, é bem atroz: primeiro o animal é sedado, depois decapitado. Então, na sequência, é preciso destruir seu cérebro ainda ativo, pois as tartarugas americanas são animais obstinados, teimosos e difíceis de morrer.

Corra, Tartaruga Moisés, corra. E arrume uma assessoria de imprensa mais decente.


Este texto foi publicado em inglês no New York Times do dia 22 de março de 2014. Tradução da autora.

Síntese de paulistano

Posted: 17th março 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
16 de março de 2014

por Vanessa Barbara

São Paulo é muito mais do que um homem xingando da janela do carro e estacionando na vaga para deficientes só por cinco minutos para buscar o filho no judô. É mais do que motoristas levantando o vidro blindado quando aparece um vendedor de balas e boatos histéricos repassados pela internet de que bandidos jogam ácido no para-brisas dos carros e sequestram seus filhos e sua bolsa só porque você usa um óculos da Prada.

São Paulo é muito mais do que o ódio por flanelinhas, viciados e “black blocs”, é muito mais do que “bandido bom é bandido morto” e “Gostou? Leva pra casa”. É mais do que linchamento, briga de torcida e morte de ciclistas, é mais do que ônibus incendiados, criminalidade e o Datena gritando: “Onde é que estão os direitos humanos agora?”. É mais do que violência, desigualdade, injustiça.

A cidade que abriga eventos pomposos como Fashion Week, Boat Show e Salão do Automóvel é muito mais do que os 54 shoppings coalhados de seguranças e decorações de Natal que aparecem em outubro.

Também é mais do que uma noiva que gasta R$ 10 mil num vestido e R$ 500 num bolo de isopor, é mais do que um rei do camarote pedindo para trazerem a bebida que pisca. É mais do que universitárias bêbadas que passeiam pela avenida Paulista de limusine e encomendam suas monografias de conclusão de curso por quatro vezes de R$ 600; é mais do que faculdades ruins, alunos indiferentes e professores cansados. Sem contar os livros de autoajuda que prometem enriquecimento rápido e sem rugas.

São Paulo é mais do que subcelebridades do fitness, socialites, maquiagem definitiva e novas tinturas de cabelo; é mais do que Higienópolis, Jardins e Berrini.

É a cidade dos vendedores de picolé e dos carteiros que cantam, dos velhinhos que esperam o supermercado abrir de manhã e saem correndo para entrar na fila do pão; dos barbeiros antigos que cumprimentam os passantes e abrigam desconhecidos quando a chuva aperta. Onde às vezes se divide um guarda-chuva com uma senhora comendo canjica num prato de plástico. É a cidade de gente que adota animais abandonados e conta piadas no aperto do trem.

São Paulo é muito mais do que ódio e intolerância, muito mais do que rotular os outros de fascistas, comunistas, fanáticos, veados ou carolas —é uma cidade com crianças de 4 anos, vira-latas, dançarinos, equilibristas e gente que não dá as costas quando vê algo injusto acontecer.

Ou pelo menos é assim que devia ser.

Loucos de cinema

Posted: 5th março 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo

Folha de S.Paulo – Guia da Folha
28 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

Tem o sujeito que pensa que está em casa e faz questão de comentar o filme inteiro em voz alta, perguntando para a pessoa ao lado: “O que foi que ele disse?”, “Mas matou de verdade?” ou “Ela é prima daquele de óculos?”.

Geralmente é o mesmo cidadão que desembrulha uma bala com extrema lentidão, oferece para toda a fileira e por fim decide comê-la, e é quando descobrimos se tratar de um caramelo toffee que passará ao menos 15 minutos sendo mascado vitoriosamente pelo meliante.

Tem o cara que come salgadinho de cebola no cinema, o que exagerou no perfume, o que está gripado e não para de tossir. Sem falar naquele que não desgruda do celular e faz questão de emitir uma luz celestial desde o início dos trailers, amigo de outro que ri pelo nariz, soltando um discreto, porém irritante, ronquinho.

Há quem chore de soluçar e por pouco não se ponha a assoar o nariz num ombro desconhecido; dentre os espectadores solitários, são muitos os que esperam o final dos créditos e o acender das luzes para caçar um olhar de cumplicidade e então comentar: “Pesado, né?”. Alguns assistem ao filme com a concentração de quem resolve um cálculo diferencial.

Quem senta na minha frente costuma ser alguém de 1,84 m com o cabelo fofo e um tique nervoso; quem senta atrás é um jogador de vôlei que cutuca as minhas costas com o joelho pontudo. Do meu lado direito, um sujeito que não compreende a cordial divisão do espaço útil do braço da cadeira —trata-se de um conceito simples que implica em dividir a área longitudinalmente, o que pode acarretar em um incômodo roçar de braços, ou impor uma linha imaginária de latitude a partir da qual eu me apoie na parte dianteira e ele encoste atrás, ou vice-versa.

À minha esquerda, sobra um sujeito que obviamente tem um bebê em casa e só está ali para dormir.

Ventinho bom

Posted: 25th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista
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Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
23 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

O pai estava postado de pé numa grade de saída de ventilação do metrô, na esquina da avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio. Em plena tarde de domingo, aquele senhor de bermuda marrom e camiseta branca – com as pernas um pouco afastadas e o corpo inclinado para a frente – cuspia para baixo.

Ao lado do gradil, a mulher e o filho pequeno observavam. “Vem, Gabriel, vem com o pai aqui”, ele chamou.

O menino parecia receoso; a esposa não dava para saber o que estava pensando, mas incentivou o filho a ir até lá. E ficaram os dois de pernas afastadas, um do lado do outro, cuspindo no vazio.

Podem-se tirar inúmeras conclusões a partir dessa história; por exemplo, é cabível censurar o cuspe em família numa instalação pública ou filosofar sobre a natureza íntima do bafo que sai dos dutos de ventilação: suspiros e espirros de milhões de passageiros do transporte subterrâneo.

Mas meu objetivo aqui é outro. E para melhor ilustrá-lo, contarei uma segunda anedota: a de uma família inteira se divertindo numa dessas saídas de ar. A menina mal sabia andar e ainda assim tropeçava em círculos, maravilhada. O cachorro simplesmente estava sentado se refrescando, de olhos fechados. A mãe gostava de ver a saia inflar, como em “O Pecado Mora ao Lado”. Nisso, uma madame passa e prende o salto numa das frestas. Mas ela consegue se desvencilhar da armadilha e segue andando.

Nos gradis da estação Faria Lima, um dos mais violentos em termos eólicos, os taxistas estão cansados de ver moças desavisadas com a saia lá pelo pescoço. “Todo dia eu vejo muita calcinha”, afirmou um deles, em entrevista a um jornal.

E mais: certa vez amarraram as pontas de um plástico grande numa dessas grades, de modo que, ao ser inflado, o volume ficava parecendo um cachorro. Nos idos de 2008, em Nova York, o artista Joshua Allen Harris utilizou sacos plásticos e fitas adesivas para inflar esculturas na tubulação do metrô – sua obra mais comentada foi um pequeno urso polar que denunciava o aquecimento global, mas eu gosto especialmente de um monstro feito de saco de lixo com mais de 4 metros de altura. E da girafa.

Quando eu era pequena, achava que no fundo do gradil vivia uma criatura misteriosa e ancestral, um Felino laranja que se alimentava de ver a cor das nossas calcinhas.

Estou contando tudo isso por motivos que nem eu poderia decifrar. Talvez porque, neste calor, meu cérebro esteja precisando de um sistema de ventilação mais eficiente.

Pity Brazil’s Military Police

Posted: 19th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in New York Times, Reportagens

International New York Times
February 20th, 2014

Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — In Brazil, police officers kill an average of five people every day. In 2012, according to a security report from the Brazilian Forum on Public Security, 1,890 Brazilians were killed by the police, 351 here in São Paulo. That was around 20 percent of all homicides in the city. At the same time, 11 police officers were killed on duty here and around 100 were executed off-duty, allegedly by organized crime. Police officers are three times more likely to be murdered than the average Brazilian.

I once complained about being a writer in Brazil, but it seems our police officers are in considerably worse shape. In São Paulo, lower ranked military police officers earn an annual salary of $15,248, including benefits and danger pay allowances. They work in 12-hour shifts, night and day, for an average of 42 hours a week. But only in theory. Officers claim the rules are often ignored, with extended overtime, short notice of scheduling changes and irregular or no lunch breaks. Some take on additional jobs to supplement their wages, not only as private security guards (which is illegal), but also in a program called “Atividade Delegada,” through which the city hires policemen in their spare time, offering the equivalent of $64 for eight extra hours patrolling the streets.

There are two main kinds of police in Brazil. The civilian police concentrate on criminal investigations, while the military police have the duty of maintaining public order and working to prevent crimes.

The military police are not part of the armed forces, and yet they operate according to military principles of rank and discipline. They cannot strike or unionize, and are subject to a military-style penal code (meaning transgressions at work can be treated as mutiny or treason, and officers are tried in a special court). They are prohibited from “revealing facts or documents that can discredit the police or disrupt hierarchy or discipline.”

They also can’t openly disapprove of the acts of civilian authorities from the executive, legislative or judicial branches of government, and are forbidden to express their personal political opinions. Last year, eight officers from Ceará, in northeastern Brazil, were discharged after taking part in a political meeting. Three others were arrested upon returning from a public meeting to discuss police demilitarization.

As if that weren’t enough, the same Brazilian Forum on Public Security report found that 70 percent of Brazilians distrusted the police. In other words, our police have lost their legitimacy.

“I love my job, I really do,” one member of the military police recently told me. “But our work goes unrecognized. Our errors are scrutinized. We have fractions of a second to decide between accelerating or braking, shooting or retreating; either way we are blamed.”

Another officer complained that the news media gave more attention to cases of police brutality than to the killings of officers. He noted that police officers were sometimes the only agents of the state stationed in poor neighborhoods dominated by organized crime. “Everything is on us.”

But their main complaint is the impunity of criminals. Many believe Brazil’s judicial institutions are too lenient and inefficient. Officers are tired of arresting the same suspects over and over.

According to Adilson Paes, a retired police lieutenant colonel who conducted a study on police brutality, some officers turn vigilante as a result. This was also the conclusion of an investigation into policing in Rio de Janeiro and São Paulo conducted by Human Rights Watch: Many deaths of civilians “resisting arrest” are in fact extrajudicial killings, the report found, and “some police officers are members of ‘death squads,”’ which are “responsible for hundreds of murders each year.”

This often leads to a cycle of retribution between the police and organized crime. Just a month ago, in Campinas, a city 60 miles from São Paulo, a policeman was killed in front of his wife during a robbery; within a few hours, 12 people were found executed — apparently by the police, as revenge. And sometimes corrupt police officers themselves are involved in organized crime.

“We are one of the most violent countries in the world, and the military police are part of that universe,” José Vicente da Silva Filho, a retired police colonel, told TV Folha. “So it would seem difficult to have a much better police force than we have now.”

In São Paulo, many attribute a recent drop in killings by the police to a new rule that forbids officers to transport wounded suspects to the hospital or offer them first aid. It turns out that police officers had been picking up people who had been wounded by the police officers themselves, and then executing them on the way to the hospital. Five months ago, a young man allegedly committed suicide in the back of a police car, after being arrested for robbery. If that’s true, he somehow managed to shoot himself in the head while his hands were cuffed behind his back.

Two years ago, the United Nations Human Rights Council recommended that Brazil abolish its military police; other international groups have criticized the force for beating and torturing detainees. But the discussion here has been polarized. Human rights organizations are often seen as apologists for criminals: “Some believe that investigating and prosecuting police abuses would weaken the hand of law enforcement, and thereby strengthen criminal gangs,” says Human Rights Watch.

But lately, more Brazilians have been taking notice, as police brutality is increasingly directed against journalists and political protesters (many from the middle class), instead of just the same old black and poor citizens who live in favelas.

As a regular attendee of the mass demonstrations that have swept the country since last June, I have witnessed acts of unnecessary violence against unarmed protesters. In that period, a student and a professional photojournalist were both blinded after being hit by flash bombs and rubber bullets. Three weeks ago, the police shot a man who was protesting against the World Cup. He allegedly threatened an officer with a box cutter.

Many officers at the protests work without identification tags and inhibit journalists from filming and taking pictures. It is wise to approach them with your hands in the air, speaking in a reassuring way. In a recent poll, 64 percent of police officers claimed to be unprepared to deal with mass demonstrations.

Now, with the World Cup fast approaching and more demonstrations on the way, there’s a lot of talk about demilitarizing the police. This would grant more labor rights to our officers, releasing them from a military code of conduct and discipline that often involves humiliation and training infused with a war mentality. It would also mean conferring on the civilian justice system the authority to judge all crimes committed by police officers.

This would be a step back from our military dictatorship years and a step toward creating a legitimate police force where officers deal with the civilians not as their enemies but as fellow citizens — even if they have broken the law.


Vanessa Barbara, a novelist, edits the literary Web site A Hortaliça and is a columnist for the newspaper Folha de São Paulo.

O drama da PM brasileira (tradução)

Posted: 19th fevereiro 2014 by Vanessa Barbara in Traduções

International New York Times
20 de fevereiro de 2014

por Vanessa Barbara

SÃO PAULO, Brazil – No Brasil, a polícia mata em média cinco pessoas por dia. Em 2012, de acordo com o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.890 pessoas foram mortas pela polícia, 351 em São Paulo. Isso representa 20% de todos os homicídios na cidade. Ao mesmo tempo, 11 policiais foram mortos em serviço e aproximadamente 100 foram executados em horário de folga, provavelmente a mando do crime organizado. Os policiais brasileiros têm três vezes mais chances de serem assassinados do que o cidadão comum.

Uma vez reclamei de como é difícil ser escritor no Brasil, mas parece que nossos policiais estão em uma situação bem mais delicada. Em São Paulo, soldados da PM ganham um salário mensal de R$ 3.023,29, incluindo benefícios e adicional de insalubridade. Trabalham em turnos de doze horas, começando por um período diurno (por exemplo: das 5h45 às 18h), seguido por uma folga de 24 horas, um plantão noturno (17h45 às 6h), e por fim uma folga de 48 horas. Isso resulta numa média de 42 horas de trabalho por semana.

Mas só em teoria. Os policiais reclamam que as regras são por vezes ignoradas, com muitas horas extras, mudanças bruscas na escala e pausas irregulares (ou inexistentes) para almoço. Alguns assumem trabalhos adicionais para cobrir as despesas, não só como seguranças privados (o que é ilegal), mas também num programa chamado “Atividade Delegada”, através do qual a prefeitura contrata policiais em seu tempo livre, oferecendo R$ 156 por um período de oito horas extras patrulhando as ruas.

Há dois tipos principais de polícia no Brasil. A civil se concentra na investigação de crimes, enquanto a militar tem o dever de manter a ordem pública e trabalhar na prevenção de crimes.

A polícia militar não faz parte do Exército, mas opera de acordo com princípios militares de hierarquia e disciplina. Eles não têm direito a fazer greve e formar sindicato, e estão sujeitos a um código penal de aspecto militar (isso quer dizer que transgressões no trabalho podem ser tratadas como motim ou traição, e são julgadas por um tribunal específico). Os policiais não estão autorizados a “publicar, divulgar ou contribuir para a divulgação irrestrita de fatos e documentos que possam concorrer para o desprestígio da Polícia Militar, ferir a hierarquia ou a disciplina”.

Também não podem desconsiderar ou desrespeitar, em público ou pela imprensa, os atos ou decisões das autoridades civis ou dos órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, e estão impedidos de expressar suas opiniões políticas. Ano passado, oito policiais do Ceará foram exonerados por participar de uma reunião. Outros três foram presos ao retornar de um debate público sobre a desmilitarização da polícia.

Como se não bastasse, o mesmo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 70% dos brasileiros não confiavam na polícia. Em outras palavras, a instituição perdeu a legitimidade.

“Eu amo o meu trabalho, de verdade”, um soldado me confessou recentemente. “Mas o reconhecimento é zero. Nossos erros são esmiuçados. Temos frações de segundo para tomar a decisão de acelerar ou brecar, atirar ou recuar; em ambos os casos somos criticados.”

Outro tenente reclamou de que a mídia dá mais atenção para os casos de brutalidade do que para a morte de policiais. Ele lembrou que os policiais são muitas vezes os únicos agentes do Estado presentes nos subúrbios dominados pelo crime organizado. Às vezes se sentem acuados por todos os lados: imprensa, comandantes, políticos, juízes e cidadãos. “Tudo fica nas nossas costas.”

Mas a principal reclamação é a impunidade criminal. Muitos acreditam que o poder judiciário brasileiro é leniente e ineficaz. Os policiais estão cansados de prender os mesmos suspeitos dia após dia.

De acordo com Adilson Paes de Souza, tenente-coronel aposentado que conduziu um estudo sobre a brutalidade policial, o resultado é que alguns policiais podem decidir virar justiceiros. A mesma conclusão foi obtida num estudo sobre as práticas policiais no Rio e em São Paulo promovido pela organização de direitos humanos Human Rights Watch: segundo o relatório, muitas mortes de cidadãos que “resistiram à prisão” foram, na realidade, execuções extrajudiciais. Além disso, alguns policiais fazem parte de esquadrões de extermínio, “responsáveis por centenas de assassinatos todos os anos”.

Isso incorre, muitas vezes, num ciclo vicioso de vingança entre a polícia e o crime organizado. Mês passado, em Campinas, um policial foi morto na frente da esposa, durante um assalto; em poucas horas, doze pessoas foram executadas – aparentemente como vingança. Às vezes há casos de corrupção e envolvimento da própria polícia no crime organizado.

“Somos um dos países mais violentos do mundo, e a polícia faz parte desse conjunto descontrolado”, declarou o coronel da PM aposentado José Vicente da Silva Filho, em entrevista para a TV Folha. “Então é difícil ter uma polícia tão melhor do que nós temos”.

Em São Paulo, muitos atribuem uma queda recente nas mortes cometidas por policiais a uma lei que proíbe os agentes de transportar suspeitos feridos para o hospital e prestar serviços de primeiros socorros. Ao que parece, os policiais aproveitavam para transportar os suspeitos que eles mesmos feriram e então executá-los a caminho do hospital. Cinco meses atrás, um jovem supostamente cometeu suicídio dentro de uma viatura, após ter sido preso por roubo. Se isso é verdade, ele de algum modo conseguiu atirar na própria cabeça enquanto estava com as mãos algemadas nas costas.

Há dois anos, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas recomendou que o Brasil extinguisse sua polícia militar; outros grupos internacionais criticaram a corporação por espancar e torturar cidadãos sob sua custódia. Mas a discussão permanece polarizada. As organizações de direitos humanos são muitas vezes vistas como apologistas do crime: “Alguns acreditam que investigar e punir abusos policiais enfraqueceria o braço da lei, fortalecendo os criminosos”, declarou o Human Rights Watch.

Hoje em dia, porém, mais e mais brasileiros estão prestando atenção no assunto, conforme a brutalidade policial é dirigida contra jornalistas e manifestantes políticos (muitos da classe média), em vez de atingir os pobres e negros de sempre.

Como participante assídua das manifestações que tomaram o país desde junho, testemunhei inúmeros atos de violência desnecessária contra manifestantes desarmados. Nesse período, um estudante e um fotojornalista profissional ficaram cegos de um olho após serem atingidos por bombas de efeito moral e balas de borracha. Três semanas atrás, a polícia deu dois tiros num rapaz que estava protestando contra a realização da Copa do Mundo. Ele teria ameaçado um policial com um estilete.

Nos protestos, muitos policiais trabalham sem tarjetas de identificação e inibem os jornalistas de filmarem e fotografarem. É recomendável aproximar-se deles com as mãos para o alto, falando de modo calmo e reconfortante. Numa pesquisa recente promovida pela Fundação Getúlio Vargas, 64% dos policiais confessaram estar despreparados para agir em manifestações.

Hoje, com a Copa do Mundo se aproximando e mais manifestações a caminho, há grande discussão sobre a desmilitarização da polícia. Isso poderia garantir mais direitos trabalhistas aos nossos profissionais, libertando-os de um código militar de conduta e disciplina que muitas vezes pressupõe um treinamento humilhante e marcado pela mentalidade de guerra. Também significaria conferir ao sistema comum de justiça a autoridade para julgar os crimes cometidos pelos policiais.

Isso pode ser uma importante tomada de distância do período da ditadura militar e um passo adiante rumo à criação de uma força policial legítima em que os policiais possam lidar com os civis não como seus inimigos, mas como cidadãos iguais a eles – ainda que tenham infringido a lei.


Este texto foi publicado em inglês no International New York Times do dia 20 de fevereiro de 2014. Tradução da autora.