7.jun.2013 – Manifestantes se aglomeram na avenida Paulista em protesto contra tarifas. Créditos: Leandro Moraes/UOL

The New York Times
21 de março de 2018

por Vanessa Barbara
trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves / Uol Notícias

É assim: o governo anuncia mais um aumento nas tarifas de ônibus, então alguns brasileiros vão às ruas, marcham por alguns quilômetros e depois a polícia decide que já foi suficiente. Segue-se uma espécie de exibição pirotécnica, com gás e explosões. Todo mundo vai para casa, alguns depois de uma curta estada em uma delegacia, outros com hematomas como lembranças.

Alguns dias depois, há outra manifestação. E depois mais uma. Enxágue e repita até que todo mundo fique cansado, demonizado, traumatizado ou suficientemente intimidado. A tarifa de ônibus continua absurda e aumentará de novo no ano que vem.

A trama é a mesma para muitos outros problemas nos últimos anos: as reformas trabalhistas; a reorganização do ensino público; uma Presidência ilegítima e impopular; uma Copa do Mundo cara e idiota; uma Olimpíada catastrófica. Afinal, todas essas coisas seguiram em frente, como se ninguém tivesse perdido os dentes protestando contra elas.

Essa rotina começou em junho de 2013, no que hoje é conhecido como Jornadas de Junho. Os eventos foram provocados por manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público. Quando a polícia reprimiu violentamente, os protestos cresceram. Mais de um milhão de pessoas foram às ruas em todo o país.

Essas manifestações deram origem a uma pequena geração de militantes antiautoritários, de esquerda e apartidários, que continuaram protestando durante vários anos por todo tipo de questão. Eles foram chamados de vândalos, bandidos, peões políticos ou simplesmente ineficazes. (Essa última acusação talvez não seja totalmente imprecisa.) Mas hoje eles também estão sendo responsabilizados pelo avanço da direita na política brasileira e pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

“Nós nos precipitamos ao achar que 2013 foi uma coisa democrática”, disse no ano passado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um popular ícone da esquerda brasileira. “Tenho para mim que o impeachment de Dilma não ocorreria não fossem as Jornadas de Junho”, escreveu Fernando Haddad, o ex-prefeito de São Paulo e uma figura importante no Partido dos Trabalhadores, de Lula. “Na minha opinião, ali começava o golpe nesse país”, tuitou Lula em janeiro.

Por que esses políticos de esquerda veem os manifestantes decididamente de esquerda como agentes da direita? Bem, em parte porque é fácil se sentir ansioso sobre um movimento incontrolável, sem liderança, com demandas pluralistas. Mas há outro motivo. Depois de junho de 2013, algumas pessoas protestaram contra a corrupção política em geral, incluindo o Partido dos Trabalhadores (PT), que estava no poder na época. Isso acabou resultando em cinco grandes protestos de rua de direita que pediam a demissão de Dilma, a presidente eleita, do PT. Os manifestantes de direita tiveram o que desejavam em agosto de 2016.

Mas não há uma linha reta entre os protestos de 2013 e o impeachment em 2016. As manifestações não foram a oportunidade de ouro que todos eles esperavam para derrubar Dilma, nem foram o principal fator que finalmente permitiu que tomassem o poder. Afinal, muitos na direita trabalhavam no governo Dilma. (Lembre que o presidente Michel Temer era o vice-presidente.) A direita também não “sequestrou” um movimento intrinsicamente anárquico, considerando o fato de que muitas outras pessoas continuaram realizando suas manifestações progressistas, pequenas mas muito inconvenientes. (Veja, por exemplo, as demonstrações contra a Copa do Mundo de 2014. Na época, criticar o evento por qualquer motivo era considerado uma afronta à esquerda governante.)

Essa visão é simplista e só serve para se evadir do peso da responsabilidade. Em 13 anos de governo do PT, a esquerda tradicional perdeu muitas oportunidades cruciais de efetivamente mudar o Brasil. Agora eles precisam de alguém para culpar por suas perdas. E o bode expiatório atual parecem ser os manifestantes de extrema-esquerda. Os mesmos que antes ousavam criticar as decisões do Partido dos Trabalhadores.

Esses manifestantes não se alinham necessariamente com outros movimentos sociais tradicionais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ou os sem teto, sindicatos ou organizações estudantis. Eles recusam a autoridade hierárquica e são impossíveis de controlar. E eles levantam questões importantes, às vezes muito antes dos outros.

Por exemplo: o Movimento Passe Livre, o principal grupo por trás dos protestos de 2013, não reduziu as tarifas de transporte, mas obrigou os políticos e os cidadãos da classe média a pensar seriamente, pela primeira vez, na necessidade de parar de dar prioridade aos carros e começar a investir em transporte público. Outro exemplo: pouco a pouco, as pessoas começam a compreender que os eventos esportivos globais nem sempre são uma boa ideia afinal, especialmente para os pobres. Os ativistas foram os primeiros a discutir publicamente a questão em termos concretos dos que estavam sendo prejudicados e os eventos provaram que estavam certos. Apesar das acusações do PT e seus apoiadores, foram afirmações progressistas.

Às vezes nada concreto é alcançado imediatamente, mas novas ideias são colocadas no reino do plausível. Talvez mais tarde elas sejam promovidas ao reino do necessário e, então, do inevitável. Por enquanto, o transporte público gratuito ainda é considerado utópico, mas a saúde universal e as escolas públicas gratuitas, não. Protestar também pode ser uma forma de provocar uma nova consciência coletiva e promover a solidariedade em uma escala mais ampla. Da perspectiva de um partido governante, nada é mais democrático que aceitar isso.

Os protestos também podem ter uma espécie de beleza kantiana, independentemente de seus resultados. Como escreveu Daniel Cohn-Bendit, um líder estudantil dos protestos de 1968 em Paris, “Vemos algo de relance, e ele desaparece. Mas isso basta para provar que essa coisa pode existir”. Passou da hora para que o principal partido de esquerda do Brasil pare de culpar as ruas e faça as pazes com 2013. Talvez então ele possa encontrar diferentes caminhos para agir, um vislumbre de possibilidade, novas utopias plausíveis e uma alternativa viável para as próximas eleições presidenciais.


Vanessa Barbara é editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês na página A15 da edição nacional do The New York Times de 21 de março de 2018, com o título: Why bother protesting?

Manifestación en São Paulo, Brasil, en junio de 2014 para conmemorar el primer aniversario de las “jornadas de junio”, cuando más de un millón de personas tomaron las calles del país para protestar contra el aumento en las tarifas del transporte público. Credit Miguel Schincariol/Agence France-Presse — Getty Images

The New York Times (en Español)
24 de marzo de 2018

por Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

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SÃO PAULO — La historia es así: el gobierno anuncia otro aumento en la tarifa del transporte público, así que unos cuantos brasileños toman las calles, marchan unos kilómetros y después la policía decide que ya fue suficiente. Acto seguido, hay una especie de exhibición pirotécnica, con gas y explosiones. Todos se van a casa; algunos después de una corta estancia en la estación local de policía, otros más con unos moretones de recuerdo.

Unos días después, hay otra manifestación. Y luego otra más. La historia se repite unas cuantas veces hasta que todos están cansados, satanizados o suficientemente intimidados. Las tarifas siguen siendo indignantes y subirán de nuevo el año próximo.

En años recientes varias quejas han desencadenado este tipo de protestas: reformas laborales; la reorganización de las escuelas públicas; una presidencia ilegítima e impopular; una Copa del Mundo costosa y tonta; unos catastróficos Juegos Olímpicos de Verano. Al final, todas esas cosas siguieron adelante, como si nadie hubiera perdido los dientes protestando en su contra.

Esta rutina comenzó en junio de 2013, en lo que ahora se conoce como las Jornadas de Junio. Todo comenzó con las manifestaciones en contra del aumento al precio del transporte público. Cuando la policía recurrió a la violencia para acabar con ellas, las protestas crecieron. Más de un millón de personas en todo el país tomaron las calles.

Estas manifestaciones engendraron una pequeña generación de militantes de izquierda opuestos al autoritarismo y apartidistas, que siguieron protestando durante varios años sucesivos contra todo tipo de problemas. Se les ha tachado de bandidos, vándalos, peones políticos o sencillamente ineficaces (esta última acusación podría no ser del todo inexacta). Sin embargo, ahora también se les responsabiliza por el avance de la derecha en la política brasileña y por la destitución de la expresidenta Dilma Rousseff.

“Nos apresuramos a pensar que 2013 fue democrático”, declaró el año pasado Luiz Inácio Lula da Silva, el popular expresidente e icono de la izquierda brasileña. “Creo sinceramente que la destitución de Rousseff no habría ocurrido de no ser por las Jornadas de Junio”, escribió Fernando Haddad, exalcalde de São Paulo y una figura importante del Partido de los Trabajadores de Lula da Silva. “En mi opinión, ahí fue cuando empezó el golpe de Estado”, escribió Da Silva en su cuenta de Twitter en enero.

¿Por qué estos políticos de izquierda consideran agentes de la derecha a los protestantes que sin duda son de izquierda? Bueno, en parte porque es fácil experimentar angustia ante un movimiento incontrolable y carente de líderes cuyas demandas son plurales.

Sin embargo, existe otra razón. Después de junio de 2013, algunas personas protestaron contra la corrupción en general, incluyendo la del Partido de los Trabajadores, que estaba en el poder en ese momento. Eso acabó por desatar cinco manifestaciones multitudinarias de la derecha que exigían la salida de Rousseff, la presidenta electa que provenía de ese partido. En agosto de 2016, los manifestantes de derecha vieron cómo su deseo se materializó.

No obstante, no hay una línea recta que vaya desde las protestas de 2013 hasta la destitución de 2016. Los mítines callejeros no fueron la oportunidad de oro que todos estaban esperando para derrocar a Rousseff ni tampoco el factor principal que acabó por permitirles hacerse con el poder. Después de todo, muchos de los que están en la derecha trabajaron en el gobierno de Rousseff (recordemos que el presidente Michel Temer fue vicepresidente de Rousseff).

La derecha tampoco “secuestró” un movimiento intrínsecamente anárquico, considerando el hecho de que muchas otras personas continúan realizando sus mítines progresistas, que han sido pequeños pero bastante molestos (piensen, por ejemplo, en las manifestaciones en contra de la Copa Mundial de 2014. En ese entonces, criticar ese acontecimiento por cualquier motivo se consideraba una afrenta para el gobierno de izquierda).

Esa perspectiva es simplista y solo sirve para evadir el peso de la responsabilidad. En trece años de gobierno del Partido de los Trabajadores, la izquierda tradicional perdió muchas oportunidades cruciales para conseguir un cambio efectivo en Brasil. Ahora necesitan a alguien más a quién culpar por sus derrotas. El actual chivo expiatorio parecen ser los protestantes de la extrema izquierda, aquellos que se atrevieron a criticar las decisiones del Partido de los Trabajadores en el pasado.

La verdad es que el movimiento que comenzó en 2013 ha protestado en contra de las malas políticas de todos los gobiernos, sean de izquierda o derecha, sin importar si esas acciones podían afectar o no a un partido político en particular.

Estos manifestantes no necesariamente se alinearon con otros movimientos sociales tradicionales, como el de quienes carecen de tierras o los trabajadores sin vivienda, los sindicatos o las organizaciones estudiantiles. Rechazan la autoridad jerárquica y son imposibles de controlar; además, traen a colación cuestiones importantes, a veces mucho antes que los demás.

Los mítines también podrían ser una forma de generar una nueva conciencia colectiva y promover la solidaridad a mayor escala.

Por ejemplo: el Movimiento de la Tarifa Gratuita, el principal grupo detrás de las protestas de 2013, no redujo los precios del transporte, pero sí forzó a los políticos y a los ciudadanos de clase media a pensar seriamente, por primera vez, en la necesidad de dejar de dar prioridad a los automóviles y comenzar a invertir en el transporte público.

Otro ejemplo: poco a poco, la gente está comenzando a entender que los eventos deportivos mundiales no son tan buena idea después de todo, en especial para los pobres. Los activistas fueron los primeros en debatir el tema en los términos concretos en los que estaban siendo afectados, y los acontecimientos demostraron que estaban en lo correcto. A pesar de las acusaciones del Partido de los Trabajadores y sus seguidores, esos fueron argumentos progresistas.

Algunas veces, no se logra nada concreto de inmediato, pero nuevas ideas ingresan al ámbito de lo posible. Tal vez más tarde asciendan al ámbito de lo necesario y, después, al de lo inevitable. Por ahora, el transporte público gratuito sigue siendo una utopía, pero los servicios médicos universales y las escuelas públicas gratuitas no lo son.

Los mítines también podrían ser una forma de generar una nueva conciencia colectiva y promover la solidaridad a mayor escala. Desde la perspectiva del partido gobernante, nada es más democrático que aceptar esto. Las protestas también pueden tener una especie de belleza kantiana, independiente de los resultados. Como Daniel Cohn-Bendit, líder estudiantil de las protestas de 1968 en París, escribió: “Percibimos algo, fugazmente, que luego se desvanece. Pero basta para demostrar que ese algo puede existir”.

Ya es hora de que el principal partido de izquierda de Brasil deje de culpar a las calles y se reconcilie con 2013. Quizá entonces pueda encontrar distintos caminos de acción, un destello de posibilidad, nuevas utopías y una alternativa viable para las próximas elecciones presidenciales.


Vanessa Barbara es colaboradora de nuestra sección de Opinión, editora de la página web de literatura A Hortaliça y autora de dos novelas y dos libros de no ficción en portugués.

A version of this op-ed appears in print on March 21, 2018, on Page A15 of the National edition with the headline: Why bother protesting?.

Noches de lechuga (fragmento)

Posted: 9th março 2018 by Vanessa Barbara in Traduções
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Revista 2384 (España)
Março de 2018 – n. 21

por Vanessa Barbara
traducción de Sergio Colina Martín

Cuando Ada murió, la ropa aún no se había secado. El elástico de los pantalones continuaba húmedo, los calcetines gruesos, las camisetas y las toallas de cara colgadas del revés, nada estaba listo. Había un pañuelo en remojo dentro del balde. Los botes reciclables lavados en la pila, la cama deshecha, los paquetes de galletas abiertos encima del sofá… Ada se había marchado sin regar las plantas. Las cosas de la casa aguantaban la respiración y esperaban. Desde entonces, la casa sin Ada tiene los cajones vacíos.

Otto y Ada se casaron en 1958, durante un cambio de alcalde en la ciudad. Se compraron una casa amarilla y decidieron que no tendrían hijos, perros, gatos y ni siquiera un conejo de mascota. Vivieron casi cincuenta años cocinando juntos, montando enormes rompecabezas de castillos europeos y jugando al ping-pong los fines de semana, hasta que llegó la artritis y la actividad se volvió imposible. Ada fue envejeciendo con Otto, y a fin de cuentas era casi imposible distinguir el tono de voz, la risa o la forma de andar de uno u otro. Ada llevaba el pelo corto, era delgada y le gustaba la coliflor. Otto llevaba el pelo corto, era delgado y le gustaba la coliflor. Andaban sin parar por los pasillos y sacaban juntos la basura. Ada arreglaba la casa, con sus variadas minucias, y hacía la mayor parte del trabajo doméstico, mientras Otto la seguía contando historias sin clímax. Eran buenos amigos, de modo que la muerte de Ada trajo el silencio a los corredores de la casa amarilla.

Con el paso del tiempo, Otto fue aprendiendo lo que había que hacer con las bombillas fundidas, pero continuaba sin tener ganas de quitarse el pijama. Y así fue pasando el tiempo, enrollado en una manta a cuadros, incluso en los días de calor, echando de menos a Ada y cuidando de las cosas domésticas, de las manchas en el sofá, de los platos sucios. Era un viudo silencioso, resignado y diligente. Veía en sus tareas la presencia de la esposa y por eso ya no quería salir de casa. Encargaba víveres de la tienda local, medicinas de la farmacia, vivía tranquilo y no molestaba a nadie.

Siempre respetuosos, los repartidores cultivaban ese silencio: llamaban a la puerta como si entrasen en un monasterio, le pedían a Otto que firmase los recibos, le preguntaban si estaba todo bien sólo por preguntar algo. Les gustaba mirar hacia arriba y decir: va a llover más tarde, le convendría recoger la ropa del tendedero, quizás refresque un poco y tenga que cambiar de pijama. Qué tiempo más loco. ¿Cómo va la ciática? Otto decía que sí con la cabeza, medio distraído, pensando en que los repartidores se comportaban de forma diferente cuando Ada vivía allí. Ada atendía el timbre e inmediatamente ya estaba mandando al mozo de la farmacia que se sentase. Nico abría la mochila para mostrar alguna cosa y los dos se ponían a cuchichear sobre asuntos muy importantes, de manera que, a veces, Nico hasta se olvidaba de entregar las pomadas, las aspirinas y los medicamentos para la presión.

Ada guardaba todos los secretos del barrio. Conocía historias de cada uno de los vecinos y se las contaba casi en susurros durante la cena a Otto: Nico ganaba una miseria en la farmacia, lo que quería era ser nadador profesional, vivía con su madre y pasaba el tiempo libre en la academia. Se reía como un macaco, con la boca abierta al máximo, sin hacer ruido. Un día se sumergió y, cuando subió a la superficie, se estaba riendo de esa forma. “Todo el mundo se rió”, contó Ada. “Se volvió a sumergir, subió, y se rió. Todo el mundo se rió. Ahí él volvió a hundirse y ya no volvió. No se estaba riendo, se estaba ahogando. Moraleja: si te ríes con la misma cara con la que te ahogas, cambia de hábitos”.

Pero la historia no era trágica y Nico consiguió volver a ponerse en forma, ayudado por los colegas de natación. Nadaba muy mal, pero decidió que atravesaría el estrecho de Dover aunque para ello tuviese que pasar a trabajar a media jornada en la farmacia. Ada acompañaba su saga acuática con los ojos muy abiertos y un grandísimo interés, como si se tratase de una novela muy intrincada que luego ella pudiese contar a Otto, capítulo a capítulo. En el vecindario, Ada era el personaje central. Ella era quien organizaba las kermeses, era ella quien resolvía los problemas y conseguía empleo a quienes necesitaban trabajo. Incluso los que no querían terminaban con algún puesto de empaquetador en la verdulería, de repente, como quien recibe una visita un domingo por la mañana.

Tras la muerte de Ada, el vecindario respetó un luto de tres días, periodo en el que ni siquiera los perros de la señora Teresa gruñeron. El cartero dejó de entregar la correspondencia por puro sentido de comedimiento, ya que tenía la costumbre de pasar cantando “Bem Feioso Foi Aquele” a gritos, y tampoco nadie encendió la radio bien alta, nadie gritó al hablar por el móvil, nadie enchufó la licuadora a las dos de la mañana para batir crema de aguacate. Después de ese periodo, la ciudad volvió a su desorden habitual. Solo en aquella casa enorme, Otto se quedó aún más triste: cada vez que pasaba el afilador de tijeras era un recuerdo de que Ada ya no estaba allí; no saltaría del sofá ni iría corriendo a asomarse por la ventana, gesticulando de forma alborotada y riéndose por la nariz. Ahora, cada vez que los perros de la señora Teresa se escapaban, él cerraba los ojos e intentaba imaginarse a Ada disparada, dando a tumbos por la calle, gritando para que todos se pusiesen a salvo mientras pudiesen, realmente asustada con el can desgobernado que se arrojaba contra los portones y dejaba en la calle un rastro de pulgas, hasta que la señora Teresa lo alcanzaba lanzándole una botella de plástico y restablecía el orden. 

Otto no había convivido con los vecinos más que por intermediación de Ada, y ahora estaba aislado en aquel mar de locura colectiva. Decidió continuar sentado en la sala, con la manta en las rodillas, asistiendo calladamente al paso de los días. Sin Ada para explicar las historias, las cosas sucedían de forma inconexa. Pero poco a poco Otto iba escuchando una conversación aquí, una batidora allí, y empezaba a entender a los vecinos.

Por ejemplo: una noche los recién casados fueron a ver una película doblada. Era un documental sobre la madre camello Ingen Temee, que da a luz a un camello albino. A ella no le gusta su cría y la repudia, de manera que el retoño albino se pasa toda la película llorando. En un giro narrativo de cuño humano, el pequeño Ugna decide ir a la aldea a buscar a un violinista que toque una música bien bonita para conseguir gustarle a la madre camello. Funciona. El pequeño Ugna es muy astuto. Entonces el padre del pequeño Ugna revela al público que los camellos tenían, originalmente, tenían astas, pero un día se los prestaron a los ciervos para que estos los usaran en una fiesta. Por eso, hasta la fecha, los ciervos permanecen mirando impasibles al horizonte (incluso mientras mastican), esperando el día en que podrán recuperar sus ornamentos óseos.

Mães de Maio members demonstrating in São Paulo, Brazil in April. Credit: Cris Faga/NurPhoto, via Getty Images

 

The New York Times – Sunday Review
December 28, 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-Ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — It was not the best year for many of us. My country, for example, seemed to walk proudly backward through 2017, and the coming year promises fewer rights and even more inequality. Brazil is regressing so quickly that I can almost see on the horizon a fleet of Portuguese caravels coming to colonize us all over again.

A few recent setbacks worth mentioning: I lost my primary job a while ago and many of my friends are unemployed. The bus fare is probably going to rise again. Yellow fever is once more a looming threat. People are cooking with wood because they can’t afford gas. Brazil remains a leader in income inequality. Our homicide rates are still astronomical (with the majority of victims being poor and black). And the season for good tangerines is over.

So two months ago, when I found out I was pregnant, I knew exactly what kind of parent I was destined to become: a tenacious, angry mother carrying on a proud Latin American tradition. Something between Argentina’s famous Madres de Plaza de Mayo (who are called “las locas” because the government has branded them as crazy) and Brazil’s Mães de Maio (who are regarded by some as prostitutes, drug traffickers and defenders of criminals).

I want to take as models not those mothers who spend all their energy obsessing over decorating a nursery but those who cradle a baby with one arm and try to overthrow an illegitimate government with the other.

Mães de Maio is a group of activist women created after the police killed some 500 civilians throughout São Paulo State over a few days in May 2006. That mass killing was retaliation for the deaths of dozens of state officials (mainly police officers) in attacks coordinated by a criminal gang. According to a study by the International Human Rights Clinic at Harvard Law School and the Brazilian nongovernmental organization Justiça Global, at least 122 of the civilian deaths bore the marks of extrajudicial execution. Nearly all of these cases were closed without indictments.

More than 10 years later, Mães de Maio is still pushing to have the investigations of these deaths transferred from São Paulo State to federal authorities. But the group is interested in something more: Its mission, it says, is “to fight for truth, memory and justice” not just for its own families but for all oppressed Brazilians. Since 2006, mothers of other people killed by the police have joined Mães de Maio; the group also lends support to other causes, including those of poor and indigenous people, feminists, civil rights activists and public school students.

Mães de Maio was inspired by its Argentine sister, Madres de Plaza de Mayo, which has spent the past four decades pressing its government for information on the whereabouts of the children who disappeared under the military dictatorship that ruled Argentina from 1976 until 1983. Every Thursday, Las Madres circle a main square in Buenos Aires, reciting the names of some of the estimated 30,000 people detained, kidnapped and killed in that period. Many of them carry photographs of their loved ones. The ritual is both sad and moving.

Members of both the Argentine and Brazilian groups have been threatened, harassed and even killed for their activism. One of the mothers said that the police officer who killed her grandson has threatened to send her to jail for drug trafficking.

“But I don’t have any fear,” said Débora Maria da Silva, one of the founders of Mães de Maio. “After all, I don’t have anything else to lose: My son was my greatest treasure.” Ms. Silva also says she doesn’t feel intimidated by the police because she is, indeed, an authority. Mothers have certainly occupied an authoritative position in Latin America since Iberian colonization.

During a visit to Mexico in 1979, Pope John Paul II, speaking at the Basilica of Our Lady of Zapopán, declared that faith and devotion to the Virgin Mary are part of the identity of Latin America, “the true expression of the soul of a people.” It’s true that across the region we venerate the mother of Jesus. (Brazil’s most popular shrine is dedicated to Our Lady of Aparecida, our country’s patroness.)

Maybe we admire her relentless hope in the face of atrocity, her faith in moments of grief, her resilience and, especially, her idea of motherhood not as a celebration of herself or even of her son — who, by the way, was also the son of God, so no one would have blamed her — but as an authentic commitment to others. And like the Mães de Maio, she struggles in the name of the children of other women, especially the poorest and the neediest.

Mary is also a model, the pope said, “for those who do not accept passively the adverse circumstances of personal and social life.” And as if it weren’t enough, she “promotes justice, liberates the needy, but, above all, bears witness to that active love which constructs Christ in souls.”

With the blessing of Our Lady of Aparecida, I hope this pregnancy leads to a good, angry, disobedient mother. It might not leave much time for baby showers, but I prefer it that way.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça, and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on December 31, 2017, on Page SR9 of the New York edition with the headline: I Want to Be an Angry Mother.

A autodefesa feminina não diz respeito a controlar o corpo (como se portar a fim de “prevenir abusos”), mas a dominar o corpo (reconhecer sua força, delimitar sua zona de segurança) Foto: IMAGNO_GETTYIMAGES

Revista piauí
Dezembro de 2017 – n. 135

Pelo fim das especialidades de cortesia e instauração de aulas de defesa pessoal feminina no currículo da pré-escola

por Vanessa Barbara[1]

Desde pequena, aprendi que “a bandeirante é cortês e delicada”. Era uma das leis básicas do código bandeirante – a vertente feminina do escotismo – que segui durante quase uma década, e que também contava com este pitoresco mandamento: “A bandeirante é pura em pensamentos, palavras e ações.” (Estamos falando de uma criança de 9 anos.)

Um dos distintivos de reconhecimento mais valorizados era a especialidade de cortesia, que tirei em 1993 e cujo símbolo era uma xícara fumegante, provavelmente em referência ao fato de que uma boa bandeirante deveria se tornar exímia em servir café a valorosos homens de negócios. Para obter a insígnia, era preciso ser capaz de atender um telefonema, transmitir recados, saber receber autoridades e “agir com deferência”. Outras especialidades exigidas no setor de sociabilidade: “doceira, cozinheira, entreter, costureira e decoradora”, além de “dona de casa”, na qual a postulante à condecoração devia cumprir a tarefa de “esforçar-se para manter um ambiente agradável em seu lar”.

De lá para cá, algumas coisas mudaram. O bandeirantismo foi progressivamente se tornando uma organização mista, mas a especialidade de cortesia continuou no programa. Hoje em dia, a lista de requisitos inclui, para as crianças mais novas, “saber se dirigir às pessoas sem gritar”. Em idades mais avançadas, dos 9 aos 12 anos, é importante que ela saiba “ser cortês em casa, no colégio, no grupo e com estranhos” – ainda que, até onde pude apurar, recusar doces de desconhecidos não chegue a configurar uma desfeita. O símbolo não é mais uma xícara fumegante, e sim um aperto de mãos. As moçoilas adolescentes que desejarem obter a especialidade devem “saber ouvir e saber se colocar nas horas certas” e “compreender a importância da cortesia nas relações interpessoais”.

Ser cortês com estranhos, agir com deferência, esforçar-se para manter um ambiente agradável em seu lar: é assim que nós, mulheres, somos criadas desde que nascemos. Somos feitas para adornar. Para servir o café em inúmeras circunstâncias. Para enfrentar alegremente todas as dificuldades. Nossa principal virtude é saber ouvir e só se colocar nas horas “certas”, sendo que, em última instância, quem determina a licitude das horas provavelmente não somos nós. Aprendemos a ser agradáveis, delicadas, respeitosas. Uma das leis bandeirantes inclusive se referia à necessidade de exibir autorrespeito se quisermos ser respeitadas pela família e pela comunidade.

Dessa forma é que aprendemos a enfrentar um mundo de discriminação, assédio, abuso e violência doméstica: dizendo “com licença”, “por favor” e “obrigada”. E nos dirigindo aos agressores sem gritar.

**

Tempos atrás, sofri um relacionamento emocionalmente abusivo que durou alguns anos. Fui cortês e delicada durante todo o período, na expectativa de obter a renovação de minha tão sonhada especialidade. Esforcei-me para manter um ambiente agradável em meu lar, a despeito das úlceras que cultivava alegremente em meu interior. Foi um período de grande exposição e violência psicológica. Quando enfim acabou, reelaborei a experiência em um livro, com a ajuda de outras referências literárias e teóricas, sempre cuidando para não fazer menções concretas ao meu caso nem ferir os sentimentos de todos os envolvidos. Uma demonstração irretocável de cortesia e delicadeza, convenhamos.

Só me esqueci de um detalhe: a deferência às autoridades. Ninguém havia declarado que aquela era a “hora certa” para me colocar, mesmo que a conversa em questão dissesse respeito à minha própria vida. Ninguém havia me dado licença para opinar, e muito menos para causar mal-estar em um ambiente tão agradável. Dadas as circunstâncias, eu só renovaria minha especialidade de cortesia caso servisse um café ou cumprimentasse educadamente meus agressores. Melhor seria se agradecesse pela oportunidade de ter sido tão distintamente humilhada, e por cavalheiros assim tão cultos – um pouco como fez a cantora Taylor Swift após ser assediada por um radialista. [2]

Recentemente, depois que a imprensa passou a noticiar os abusos sexuais cometidos pelo produtor Harvey Weinstein e outras figuras do mundo artístico, muito se tem falado sobre a “rede de sussurros”, uma espécie de teia informal de proteção feminina que consiste basicamente em espalhar rumores sobre a conduta de certos homens dos quais é preciso manter distância. Homens misóginos, abusivos, violentos, desprezíveis e que usam o poder para perpetuar os abusos. Em geral, são indivíduos influentes em seu campo profissional e fortemente blindados contra delações mais formais como denúncias na delegacia, ações na Justiça e reclamações no departamento de relações humanas da empresa. A fofoca, nesses casos, passa longe da frivolidade: é uma ferramenta básica de sobrevivência. Afinal, ainda que a mulher seja corajosa o suficiente para levar a denúncia adiante pelos canais formais, os agressores são capazes de esmagá-la só por ter tido a ousadia. É comum que, depois da denúncia, a vítima – e não o agressor – entre para uma espécie de lista negra e não consiga mais arrumar um emprego em sua área de atuação profissional. A rede de sussurros é basicamente o que dá para fazer em matéria de justiça sem precisar arruinar a própria vida ou se submeter a uma segunda onda de violência diante do escrutínio público. [3]

Em um artigo na revista New Yorker, a jornalista Jia Tolentino fala sobre as opções que nós temos depois de sofrer um abuso: se ficamos quietas, é como se aceitássemos o que houve. Contar para um amigo não resolve nada. Quando nos reportamos a alguma instância de autoridade, as consequências são revoltantes: “As pessoas ficarão constrangidas ao seu redor, tentando adivinhar suas intenções ocultas; elas irão procurar motivos para que isso tenha acontecido especificamente com você; ou simplesmente ninguém irá acreditar em você.” Ela conta que é comum haver retribuição, em uma espécie de tentativa desesperada de falar por último e de manter intacta a velha dinâmica de poder. [4]

De fato, logo após a separação, muita gente cuidou para imediatamente julgar e condenar a minha postura, como se a reação é que estivesse em pauta, e não a violência sofrida. (No meu caso, a violência se materializou em abuso emocional, agressão verbal, ameaças, gaslighting, coerção, exposição, intimidação, humilhação e isolamento.) Por algum motivo, como podemos facilmente inferir a partir dos inúmeros episódios recentes de violência contra a mulher, existe um comportamento esperado das vítimas: se foi assim, então por que não denunciou à polícia? Por que não saiu de casa? Por que agradeceu? Por que estava sorrindo na foto? Precisava usar palavras tão ríspidas? Utiliza-se a reação da vítima para medir a gravidade e a veracidade do ato.

Quando a verdade é que, para as mulheres, todo tipo de reação é errada.

Até hoje sofro represálias por ter falado sobre o abuso psicológico que sofri. Não pega bem. Não é educado. Está fazendo escândalo. Está estragando a festa dos outros. Nem foi bem assim. O mero fato de eu ter tido a audácia de compartilhar com meus amigos e familiares o que havia ocorrido era suficiente para me condenar, sem direito a recurso. Fui acusada de ser vingativa, irresponsável, exagerada, histérica. Fui pessoalmente responsabilizada (e ameaçada) quando outras pessoas resolveram mencionar a terceiros o que eu sofri. O mínimo que se esperava de mim era o silêncio; o ideal seria que eu continuasse de quatro, sorrindo, a cantar velhas canções de docilidade. Mas como nem isso fui capaz de cumprir, então qualquer coisa que eu decidisse fazer, a partir de minha própria deliberação, seria interpretada com as tintas de uma tresloucada Valerie Solanas alvejando à queima-roupa um inocente Andy Warhol, ou como uma bruxa ensandecida brandindo um machado e saindo às ruas para castrar inocentes.

Curioso. Aos olhos do mundo, só de falar sobre a questão, eu aparentemente estava iniciando uma cruzada moral para destruir a vida de homens honrados, quando já tinha ficado mais do que evidente que uma única vida saiu destroçada dessa história. (Dica: ninguém, além de mim, ainda é obrigado a lidar com os desdobramentos dessa violência.) Perguntaram por que eu não “superava de uma vez”, por que não deixava para lá e parava de falar no assunto. Todo mundo parecia ter uma opinião sobre como eu devia me portar, e nenhuma dessas pessoas se preocupava com um detalhe: como diabos eu faria para lidar com todo aquele fardo.

É evidente que a dor de uma mulher deve ser guardada para si mesma, sob pena de incomodar os outros. Não interessa a ninguém o tempo que a vítima leva para elaborar a agressão ou a forma que ela encontrou para encarar sua história – não interessa, enfim, se ela irá se recuperar ou não, contanto que o faça em silêncio. A certa altura, senti que estava agredindo os outros só por continuar existindo. E fiz o máximo possível para reduzir a minha humilde presença sobre a Terra.

Para as mulheres, a cortesia aprendida desde cedo envolve sorrir beatificamente, engolir as violências cotidianas e calar a boca. É a cortesia que, em última instância, leva uma vítima de abuso a não gritar para evitar o escândalo, a ter dúvidas de si mesma, a se achar culpada de alguma forma, a relativizar a gravidade do ato e a não denunciar o agressor, sobretudo se ele for mais forte e poderoso que ela – o que geralmente é o caso. É a cortesia que alimenta a nossa submissão. É ela que obriga a vítima a guardar violências inimagináveis para si e arcar solitariamente com as consequências de um crime que outra pessoa cometeu.

A exigência de não fazer escândalo caminha lado a lado com a nossa insegurança, autocensura e culpabilização, que, por sua vez, devem ser paradoxalmente tratadas com anos de remédios e terapia – como se não fosse exatamente isso que vem sendo exigido de nós há tanto tempo. São essas as bases da velha noção de feminilidade inculcada desde cedo em nossas belas e louras cabecinhas de vento.

A especialidade da culpa é nossa desde que nascemos.

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Talvez muitas histórias de abuso tivessem sido diferentes caso a nossa educação como mulheres não fosse, desde sempre, um interminável desdobramento da especialidade de cortesia. Eu poderia começar sugerindo, por exemplo, a inclusão de certas disciplinas eletivas em nosso currículo básico, tais como punk rock (teoria e prática), cultura hacker (todos os níveis), ativismo urbano (violento e não violento), introdução ao baixo calão (retórico e performático) e educação sexual (destacando o uso de técnicas de pompoarismo como armas de destruição em massa). Mas se existe um único curso essencial para a formação de legítimas donzelas – e introdutório a todas essas outras áreas do conhecimento – é o de defesa pessoal para mulheres.

Movida por uma curiosidade exclusivamente pedagógica, ao longo do mês de setembro fiz uma oficina intensiva de autodefesa no espaço cultural Laje e outra no Espaço Cayowaá, em São Paulo, ambas promovidas pelo Icamiaba, um projeto de empoderamento feminino por meio da defesa pessoal. E trago muitas verdades.

De cara, não se trata de sair por aí com uma espada de samurai arrancando o globo ocular de machos abusivos feito a Noiva de Kill Bill, embora fique aí a sugestão para as amigas mais empreendedoras. A ideia é descobrir os principais eixos de potência e agilidade de nosso corpo, usando a fluidez dos movimentos naturais para retomar o espaço a que temos direito. Os grupos são exclusivamente femininos (mulheres trans são bem-vindas), e lá se discutem os principais fundamentos da defesa pessoal e suas condutas corporais, aspectos sensoriais, imersão no espaço, golpes, projeções e enfrentamentos.

A facilitadora do curso é Heloíse Fruchi, de 26 anos, antropóloga e instrutora de caratê Shotokan, uma mulher forte e meiga, toda tatuada, que usa franja e tem olhos azuis. Nos cursos a que compareci, ela conduziu a turma com firmeza através de temas pesados como coerção e afronta, humilhação e brutalidade, e explicou como armazenamos em nossa postura as marcas da vulnerabilidade cotidiana.

O Icamiaba desenvolveu um programa personalizado, com o uso de técnicas de diferentes áreas, para atender às necessidades das brasileiras. Uma dessas técnicas é a do Wen-Do, arte marcial ocidental exclusivamente feminina criada na década de 60, no Canadá, com base no conceito de que as mulheres não precisam medir forças com seus agressores para conseguir se defender com sucesso. “É muito difícil ganhar na força bruta, na corrida, então precisamos de outra estratégia”, sugere Fruchi. O Wen-Do trabalha com técnicas simples e eficientes para expurgar e barrar a violência do nosso corpo; nunca se trata de aproximar essa violência, e sim de expulsá-la. Para tanto, é preciso ter noção dos limites da zona de segurança pessoal a fim de poder fornecer uma resposta adequada que não seja expositiva demais.

Outro dos princípios agregados ao programa é o da comunicação não violenta, que consiste em vocalizar nossas demandas, entender as emoções que sentimos e exprimi-las sem deixar que nos prejudiquem – o que às vezes acontece conosco em momentos de abusos e violência. A ideia é botar para fora e entender o que está acontecendo no corpo, sem se preocupar com questões de cortesia e graciosidade: a nossa saúde mental é mais importante do que saber qual é o garfo de peixes.

Por fim, são utilizados também alguns princípios do Hatha Yoga para reconhecer as travas, traumas e limitações que foram cristalizados na história da formação de nosso corpo. Fruchi explica que, em geral, as mulheres carregam marcas tensas de sociabilização no peito, como reflexo de uma educação que está sempre a martelar: “Abaixa a cabeça, menina!”, “Não responde!”, “Não faz escândalo”, “Fecha essa perna”. Esse tipo de postura nos faz caminhar (e agir) com os ombros recurvados e a cabeça baixa, num porte claramente defensivo de quem procura ser invisível para se proteger. “Isso marca o nosso peito, o nosso olhar, o jeito com que a gente avança, então todos esses exercícios de Hatha Yoga são para descondicionar isso”, ela explica. A partir desse autoconhecimento, é possível começar a identificar quais são os pontos do corpo que possuem maior potencial natural de ação, reação e controle, e como podemos explorá-los individualmente para garantir o domínio de um espaço que deveria ser nosso.

Vou dar um exemplo: no curso, aprendemos que vários reducionismos de cunho misógino estavam, na verdade, corretos. Sim, os machistas tinham razão. O verdadeiro poder feminino está nos quadris: inúmeras manobras de escape e desarmamento concentram forças no local e não em braços e punhos, por exemplo, que costumam ser o ponto forte do agressor. Saber “encaixar o quadril” é essencial para a estabilidade do corpo e para a potência de todos os golpes.

Outra verdade: ao ser prensada contra a parede, a mulher tem mesmo é que abaixar a cabeça, como sempre nos ensinaram. É que assim fica mais fácil se enrolar, fazer uma determinada manobra com os pés, mãos e quadris, e investir com força no agressor feito um touro desgovernado. É o meu movimento preferido, aliás – e um que emporcalhou as impecáveis paredes azuis do Espaço Cayowaá com marcas de mãos e pés sujos. Treinamos em duplas revezando os papéis, e, do ponto de vista do agressor, a resposta era assustadora.[5]

De fato, muitas das técnicas de defesa pessoal envolvem um primeiro movimento intencional em que a “vítima” parece estar completamente subjugada e o agressor provavelmente pensa: “Essa foi fácil.” Aprendemos a usar a força de nos lançar propositalmente ao chão, por exemplo, para ganhar impulso e aplicar chutes, ou para rolar e aplicar golpes sequenciais em partes inadvertidamente expostas. Aprendemos quais são esses pontos de neutralização – de acordo com a natureza da agressão e o porte do atacante – e que efeitos os nossos golpes provocam no corpo do ofensor, a fim de identificarmos novas partes expostas e futuros ossos a esmigalhar. Aprendemos a combinar diferentes golpes para confundir o supracitado porco chauvinista, que jamais poderia esperar uma força de resistência, posto que é meio apalermado. [6] Aprendemos a usar partes inesperadas do corpo de forma pouco ortodoxa para fazer movimentos intuitivamente efetivos.

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Alguns cursos de defesa pessoal mais genéricos reforçam o mito de que o perigo vem de homens estranhos de capuz que nos arrastam para um beco escuro com o objetivo de deflorar nossa pureza. Isso não é verdadeiro: segundo uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 70% dos estupros no Brasil são cometidos por familiares, namorados, amigos ou conhecidos da vítima. Entre os feminicídios, um terço ocorre dentro de casa. Três exemplos recentes: em outubro, em Santo André (SP), um detento estrangulou a ex-namorada até a morte numa cela de prisão porque, durante a visita, ela reafirmou o desejo de encerrar o relacionamento. Em julho, na capital do Rio de Janeiro, um jovem empurrou a namorada na frente de um ônibus porque ela contou que estava grávida, e ele já tinha planejado uma viagem de intercâmbio para o Canadá. Também em outubro, em Teófilo Otoni (MG), depois de relatar à polícia que o ex-marido a espionava com uma câmera secreta, uma mulher foi esfaqueada até a morte por ele, dentro da viatura policial, a caminho da delegacia. E esses são apenas exemplos aleatórios de um semestre como outro qualquer, demonstrando que, muitas vezes, o verdadeiro “comportamento de risco” para as mulheres é ficar em casa.

Além disso, há cursos que ajudam a perpetuar o “paradoxo da autodefesa”, ou seja, a insinuação de que parte da culpa é da vítima e que seu comportamento é um fator determinante para a consumação (ou não) do abuso. Mais uma vez, não procede: o único fator que realmente determina se o crime vai ou não ocorrer é a deliberação do criminoso. Às vezes é possível escapar de um ato de violência por pura sorte, no grito ou dando um chute no saco do infrator, mas, em última instância, as mulheres não detêm o controle. É importante que isso fique claro: nada do que uma mulher faz ou deixa de fazer é determinante para a concretização de uma violência sexual.

Alguns homens com treinamento em artes marciais também costumam fazer ressalvas quanto a ensinar autodefesa para as mulheres, sob o argumento de que aprender um ou dois golpes de caratê em um cursinho de fim de semana apenas daria às pobrezinhas uma indesejável ilusão de poder. Isso inclusive poderia representar um risco, pois exporia a vítima a um perigo ainda maior. Ficamos muito comovidas com a preocupação, mas não podemos deixar de notar que o subtexto é que as mulheres fariam bem em nunca reagir, para seu próprio bem – a menos que elas cheguem à faixa-preta de jiu-jítsu. Em suma: lições de autodefesa só são recomendadas se forem levadas a níveis semiprofissionais, do contrário é melhor ceder resignadamente aos abusos ou contar com um príncipe encantado para nos defender.

Diante dessas bem-intencionadas admoestações, preferimos deixar a decisão de reagir ou não por nossa conta, assim como a estrutura, a extensão e o conteúdo das aulas que optamos por fazer.

Dito isso, é claro que o ideal não seria ensinar as mulheres a se defender, mas impedir os homens de cometer essas atrocidades e promover uma cultura em que abusos e assédios sejam inadmissíveis e adequadamente punidos. Como ainda não sabemos quantos séculos isso vai demorar para ocorrer e como a opção de esperar pacientemente tricotando uns sapatinhos de bebê não parece muito viável, convém fornecer às mulheres o máximo de recursos para reagir e, sobretudo, a mera opção de poder fazê-lo, se assim preferirem.

Os cursos centrados na autodefesa de empoderamento (em inglês, empowerment self-defense, ou ESD) costumam responder a essas inquietações. Um dos itens do código de ética da organização norte-americana NWMAF (Federação Nacional Feminina de Artes Marciais) diz expressamente que a culpa pela violência é da pessoa que a comete, e que todas as vítimas “têm o direito de fazer suas escolhas sobre se preferem reagir ou não”. O manual da NCASA (Coalizão Norte-Americana Contra o Abuso Sexual) observa que um bom curso de autodefesa “não diz à mulher o que ela deve ou não fazer, mas oferece opções, técnicas e uma ferramenta para analisar situações”. É possível apontar o que geralmente funciona na maioria dos casos, a partir de dados estatísticos e da experiência coletiva, mas cada situação é única e a palavra final é da mulher.

Inúmeras pesquisas já foram realizadas para testar a eficácia dessa modalidade de autodefesa, com resultados positivos em autoconfiança, assertividade e autonomia. A técnica também pode ser usada como coadjuvante no tratamento de traumas. Em mulheres que sofreram abuso sexual, foram detectadas reduções significativas em comportamentos de evitação, ansiedade de estresse pós-traumático e depressão. A psiquiatra Judith Herman, da Universidade Harvard, em seu clássico livro Trauma and Recovery [Trauma e Recuperação], atesta que as sobreviventes de abuso que passaram por um treinamento de autodefesa aprendem a encarar o mundo de forma mais confiante: com a cabeça erguida, respirando mais facilmente, fazendo contato visual e com um maior senso de estabilidade e equilíbrio.

A verdade é que a autodefesa de empoderamento feminino não diz respeito a controlar o corpo (definir que tipo de roupa usar, que lugares frequentar e como se portar a fim de “prevenir abusos”), mas a dominar o corpo (não se deixar intimidar, saber responder e se colocar no espaço, reconhecer a sua força, delimitar a sua zona de segurança). São técnicas e estratégias para aumentar as opções das mulheres, e não para reduzi-las; elas servem para nos conferir mais poder, e não para nos tornar ainda mais aprisionadas em uma cultura sufocante que não dá mostras de ceder tão cedo.

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Em ambos os cursos que fiz, ainda que algumas das participantes já se conhecessem, o clima era pesado e dolorido – tão sólido que seria possível cortar o ar com um shutô. À exceção da animada hora do intervalo, reinava um silêncio angustiante que refletia o estado de espírito das alunas, como se traumas imemoriais estivessem à espreita. A sensação de fazer certas tarefas propostas era como a de assistir a um episódio particularmente desesperançado de Em Terapia ou a uma projeção de Gritos e Sussurros numa segunda-feira chuvosa depois que o seu cachorro morreu.

O curso começa com exercícios de concentração e identificação de elementos que possam aguçar nossa percepção, como focos de luz e rotas de escape. Definimos o alcance da visão periférica e aprendemos a projetar o olhar para cima a fim de ganhar um campo maior de vigilância. Acessamos sentidos pouco usados que ajudam no foco e na percepção do espaço (como estamos, até onde chegamos, onde tem luz, quem está ao meu redor), de modo que logo estávamos fazendo posturas de ioga e identificando ao mesmo tempo a raça dos cachorros que passavam lá fora.

Aprendemos técnicas para não travar a respiração no susto, já que toda sequência de golpes, saídas e corridas exigem fluxos livres de respiração. Fomos orientadas a abrir o peito, relaxar os ombros, encaixar os quadris, descer ligeiramente o queixo e fazer o olhar chegar primeiro, estabilizando assim nossos principais pontos de força. Fruchi ressalta a importância de construir coletivamente “um novo saber sobre o nosso corpo, um saber sobre o qual todas nós temos agência”, ao contrário do que nos foi imposto até agora. Aprendemos a cair e a levantar, a tomar soco e a revidar, e a desviar lepidamente de um pônei rosa de plástico que estava obviamente com segundas intenções.

Durante as práticas de esquiva, por exemplo, ficou muito claro qual tipo de reação havia se tornado intuitiva para nós, sem que houvéssemos decidido por isso. Eu, por exemplo, agia de forma defensiva (mãos para o alto, palmas para fora) sempre que me deparava com o furtivo pônei rosa, como se tivesse passado a vida toda tentando me proteger de um inevitável ataque. Ou melhor: como se a única resposta esperada do lado de lá fosse um objeto sendo arremessado contra a parede, ameaças físicas e berros. Todas as outras mulheres do curso também pareciam ter esse reflexo de se encolher, travar a respiração, andar para trás, ficar paralisada e/ou agir como um tatu-bola. Nossos ombros e pescoços estavam sempre tensos e nossa postura, retraída. Pedíamos desculpas umas às outras de dez em dez segundos, ríamos de nervoso e cobríamos o rosto de vergonha. Posso inclusive ter manifestado remorso após rebater uma almofada com energia excessiva. Não sei quantos anos serão necessários para descondicionar nosso treinamento em medo, docilidade e cortesia.

Um dos exercícios mais difíceis era justamente o de marcar o espaço ao andar. A simples instrução de olhar nos olhos das pessoas que passavam, com uma expressão neutra, foi quase impossível de executar. (“Olhar no olho é mais difícil que o soco”, confessou mais tarde uma aluna.) Eu desviava tanto o olhar para baixo que quase tive de confeccionar um par de antolhos de papelão, que eu colaria nas pálpebras inferiores para manter o rosto erguido. Outras recomendações, que também achei simbólicas para mulheres que desejam sobreviver em um mercado profissional dominado por homens: nunca andar em círculos, não deixar a rota óbvia, cruzar o caminho de outro jeito, não deixar ninguém sacar como é o seu passo. Ir pelo meio, ocupar outros espaços. Confiar no seu passo e garantir o seu espaço. “Assustou, segura aquilo, leva o medo com você e vai indo”, instruiu Fruchi. “Anda no meio da rua, não vai para o canto, não olha para trás. Olha no olho, mostra que você está ali.” Ao som de Baby I Call Hell, da dupla de roqueiras do Deap Vally, ela ia repetindo as instruções: Não andar perto da parede. Nunca andar para trás: sair pela diagonal e fazer outra rota. Pisar fundo. Marcar seu espaço para cima dos outros. Não deixar ninguém chegar perto. E, sobretudo, não se deixar encurralar.

A parte de encarar um agressor e gritar foi igualmente penosa. Experimentamos, em um ambiente controlado, a sensação de ter uma pessoa avançando em nossa direção. Para além do contato visual e do bloqueio, aprendemos a soltar um grito visceral que sai do abdômen, um berro para a frente, dirigido ao invasor – que nas artes marciais é chamado de kiai.

Depois disso, em meio a um tétrico silêncio, recebemos a instrução de “segurar o olhar, chegar perto, ir na cara… e dar um abraço na amiga”. Soltamos um suspiro aliviado em uníssono. “A gente ri porque é assustador”, diz a instrutora. “A gente não ri porque é uma amiga ou porque a gente se perdeu, a gente ri porque a gente fica fora do nosso eixo. Só de se pensar recebendo uma parada dessas, gritando com ela, enfrentando…”
É daí que vem a importância de naturalizar posturas mais assertivas, de entender que podemos marcar esse espaço para a nossa proteção. Gritar é o oposto de silenciar, e é a essência do que devemos aprender daqui para a frente.

Os exercícios de esquiva eram quase uma valsa, assim como a prática (em dupla) dos golpes em si, que se assemelhavam a uma dança coreografada. Aprendemos o que fazer quando nos puxam pelo braço ou pelo cabelo, quando nos agarram por trás, quando metem o dedo na nossa cara, quando tentam nos enforcar. Ao som de City of Angels, da banda punk The Distillers (liderada por uma mulher), aprendemos a cair no chão e a chutar, “estilingando” a perna, enquanto protegemos a cabeça. A vocalista canta: “É mais quente no inferno, então para baixo nós vamos.”

Praticamos o shutô em pontos de choque, além de socos, joelhadas, marretadas, cotoveladas. A hora da pancadaria é toda embalada no punk rock, com bandas como X e Babes in Toyland. Logo estávamos gritando, esmurrando e confrontando o pônei rosa, para a curiosidade dos passantes lá fora. Apenas um gostinho de como é se sentir mais forte e autônoma, com maior domínio do corpo, rejeitando a velha presunção de passividade.

Um exemplo: sempre que alguém tenta agarrar nosso braço, jamais devemos segurar de volta ou puxar. “Não é disputa de força, é de eixo”, demonstra Fruchi, explicando como podemos usar a força do agressor para desestabilizá-lo. E então, quando a pobre alma está no chão, totalmente rendida, é hora de sair andando na direção oposta. “E aí depois vem uma amiga para meter uma bica”, sugeriu uma das alunas, entrando no espírito.

Um parêntese: há uma paródia maravilhosa circulando pela internet, infelizmente sem indicação de fonte ou autoria, inspirada em um velho pôster de primeiros socorros com manobras para lidar com situações de engasgo. O primeiro quadrinho começa com um tom bastante didático: “Se um homem agarrar os seus peitos, não entre em pânico.” A vítima, uma inocente mocinha de vestido vermelho e rabo de cavalo, é então instada a resolver suas pendências com o agressor: “Puxe uma faca, crave-a na mão dele, se liberte do agressor e corte sua garganta”, a legenda prossegue. E depois: “Meta a faca em seu estômago e o estripe como um peixe.” Na sequência, vem minha parte favorita: a mulher está debruçada sobre o cadáver ensanguentado e começa a aterrorizar os passantes com uma faca. “Ameace as testemunhas e avise para elas não se meterem com você.”

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Um dos problemas em inculcar cordialidade e delicadeza nas meninas desde cedo é que, dessa forma, já estamos promovendo a redução de um extenso leque de comportamentos possíveis em um ser humano. Aquilo que, em uma menina, é instantaneamente rotulado como falta de educação ou grosseria, em um menino pode ser visto como coragem, ousadia, senso de justiça, autoconfiança, inconformismo, curiosidade, alegria, euforia, indignação (e também falta de educação e grosseria, mas essas não são as únicas opções). Nas meninas, reações naturais e justificáveis são abafadas em benefício de uma conduta discreta e obediente. É por isso que, quando viram adultos, os homens geralmente sentem que podem ser o que quiserem – inclusive discretos e obedientes, se for essa a escolha –, enquanto as mulheres já foram ensinadas desde sempre a se limitar a determinados papéis.

E não estamos falando de docilidade visível, de mulheres que passam a vida toda ajoelhadas e se comportam como se morassem numa gravura doméstica de Norman Rockwell. Estamos falando de autoconfiança, de segurança, de ter que lutar internamente contra uma educação restritiva que nos manda ser discretas, fechar as pernas, não retrucar. De passar o tempo inteiro se questionando por dentro e tendo dúvidas sobre o seu valor. Não é nada que um homem, mesmo aqueles que se julgam esclarecidos e destituídos de atitudes machistas, consiga captar assim tão fácil. Muitas mulheres podem até parecer confiantes, mas a maioria delas tem um passado assim para superar. É uma questão estrutural. [7]

Em todo caso, talvez a consequência mais trágica e imediata de criar meninas para serem indefesas e submissas é que elas ficam sem saber o que fazer quando o homem no qual elas supostamente deveriam confiar – aquele que deveria estar lá para defendê-las, como o pai, o companheiro ou o chefe – é justamente o que mais se aproveita dessa vulnerabilidade para depreciar, agredir e violentar. Mesmo quem se orgulha de nunca ter “encostado um dedo” na esposa pode passar a vida reforçando essa cultura de passividade feminina de formas tão covardes quanto as de quem usa força física. Afinal, o espectro da violência de gênero também engloba violações psicológicas, sexuais e econômicas, pois consiste essencialmente em um abuso de poder. Ainda que “nem todo homem” seja misógino, todos se aproveitam desse imenso privilégio que é viver num mundo governado pela política da broderagem.

No curso de autodefesa, todas nós, sem exceção, descobrimos que caminhamos, falamos e escrevemos em um estado perpetuamente defensivo. Não tememos tanto a figura bigoduda de um malfeitor desconhecido, mas sobretudo os homens que estão mais próximos de nós, porque temos a nítida e acertada impressão de que eles parecem nos amar e respeitar somente enquanto nos comportamos de maneira aceitável para os seus padrões. Assim que saímos da linha e começamos a ter ideias próprias, ficamos expostas à violência.

Não se pode, portanto, argumentar que as donzelas casadoiras deveriam aprender a ser recatadas para sua proteção, ou seja, porque essa conduta acanhada supostamente preveniria a ocorrência de abusos. Pelo contrário: quanto mais recatada, menos ela se sentirá no direito de gritar quando sua vida estiver em perigo, sobretudo se o agressor for alguém “confiável”. Esse treinamento em docilidade serve, sim, para a proteção dos abusadores e a perpetuação de seus crimes.

E assim chegamos ao sacrossanto direito de fazer barraco, se assim for necessário, e que se encontra no cerne de muitas das questões discutidas atualmente.

É curioso perceber quem são as pessoas que se preocupam, antes de tudo, com questões como “linchamento virtual”, destruição de reputações, moralismo, repressão sexual e o mundo ficando chato. É inegável que esses são temores legítimos que deverão ser cada vez mais discutidos, questões para as quais todos precisaremos buscar novas saídas coletivamente; não são detalhes irrelevantes e nem se propõe aqui passar com um rolo compressor por cima deles.

Acontece que, para muitas das pessoas que consideram “toda essa gritaria” intolerável, a estrutura anterior de silenciamento sumário era suficientemente aceitável, confortável e inclusive uma situação ideal à qual seria preciso retornar com urgência. A preocupação excessiva com “o dia em que o morro descer e não for Carnaval”, como dizia o samba de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, sinaliza para uma ênfase em valores como a preservação da reputação individual, em detrimento à sobrevivência e à livre expressão de setores historicamente esmagados. Aliás, a escolha da palavra “linchamento” diz muito sobre a disparidade de forças em jogo: se os negros estivessem efetivamente pretendendo açoitar o jornalista William Waack, amarrá-lo num pelourinho e trocá-lo por cabras, poderíamos falar em oprimido usando as mesmas armas do opressor. [8] Da mesma forma, até o momento não fui avisada de nenhum movimento de castração masculina em massa, empalamento de abusadores sexuais e implantação definitiva da ditadura feminazi, ainda que eu possa apenas estar desinformada, e nesse caso por favor mandem convites.

Para muitas de nós, fazer um curso de autodefesa é finalmente entender – no próprio corpo – que ficar calada deve ser uma escolha, e não uma imposição. Porque somos nós que carregamos as marcas dessa violência estrutural e contínua em forma de traumas, torcicolos, transtornos, fobias e inadequações. Compreendemos, enfim, que ser cortês com estranhos e agir com deferência são atitudes que não jogam necessariamente a nosso favor, e que melhor seria se nos sentíssemos – como um homem – livres para chutar e xingar como um pirata, quando assim for preciso.

A autodefesa de empoderamento feminino nos ensina que, em muitos casos, podemos até não ter tanto poder ou força física quanto um homem, mas possuímos estratégias suficientemente engenhosas para nos colocar como iguais, neutralizar os ataques e nos expressar como seres humanos. E que talvez essa força de resistência se encontre em nossa aparente fragilidade. Os nossos agressores podem ter influência, riqueza, um time de advogados pomposos e espaços infinitos na tevê e nos jornais, mas nós temos umas às outras e uma força insuspeita nos quadris.

E não iremos mais parar de gritar.

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Pós-escrito: Saímos do curso cavalgando nuas pela avenida Pompeia e uivando à luz da Lua. (Só para ver se ainda tem alguém lendo.) Quando cheguei em casa, meu marido disse que agora vai ter que me acompanhar sempre que eu quiser sair sozinha à noite. “É por uma questão de proteção”, disse ele. “Dos outros.”

Eu concordei. Inclusive achei ótimo que, umas semanas atrás, ele tenha ido comigo ao supermercado em um domingo escuro de ruas vazias, porque “sabe-se lá quantos cadáveres eu já teria deixado pelo caminho a essa altura”.

Fico feliz por finalmente estarmos nos entendendo, eu e o mundo.


[1] Este texto é dedicado à minha avó Glaudy Lopes de Moraes, pelas 8.3 décadas de luta e inspiração.

[2] Ver o artigo de Laura Bates, “A Thank-You To Taylor Swift”, no International New York Times de 20 de agosto. Segundo a mãe da cantora, uma das questões que mais perturbava a filha era o fato de ela ter polidamente agradecido pela presença do homem que a assediou. “Como mãe, fiquei me perguntando por que ensinei minha filha a ser tão educada”, ela disse.

[3] É provavelmente por isso que a maioria dos abusos passa batido: a punição para a vítima é quase sempre alta demais. Curioso notar também que, enquanto a “rede de sussurros” das mulheres se ocupa em proteger as vítimas em potencial, impedindo a ocorrência de uma cadeia ainda maior de abusos, a “lista negra” dos poderosos faz questão de condenar as vítimas ao ostracismo, incentivando cada vez mais esse tipo de conduta.

[4] “How Men Like Harvey Weinstein Implicate their Victims in their Acts”, no site da New Yorker, 11 de outubro de 2017.

[5] Às vezes, o “agressor” elogiava a manobra e dizia: “Arrasou!”, o que – suspeito – dificilmente aconteceria na vida real.

[6] Alerta de ironia realizada com o único motivo de disfarçar o fato de que temos medo, e o deboche é uma das poucas armas que nos restam.

[7] A literatura científica está repleta de estudos mostrando que, em diferentes contextos econômicos e socioculturais, há uma sólida propagação de estereótipos desiguais de gênero que incentivam as meninas a serem polidas, submissas e modestas, e os meninos a serem fortes e corajosos. Um dos mais recentes é “Understanding Factors that Shape Gender Attitudes in Early Adolescence Globally: A Mixed-Methods Systematic Review” (2016), de pesquisadores da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, em parceria com a Organização Mundial de Saúde. Segundo o estudo, as garotas são em geral “pressionadas para se adequar a normas estereotípicas de subordinação feminina, o que restringe sua voz, suas oportunidades e a tomada de decisões sociais e sexuais”.

[8] O jornalista da Globo foi flagrado em um vídeo fazendo comentários racistas, durante a cobertura das eleições norte-americanas.

Credit: Ping Zhu

 

The New York Times (Sunday Review)
November 12, 2017

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by Vanessa Barbara 

SÃO PAULO, Brazil — When I was 7, I joined the Brazilian Girl Guides. One of the basic laws of the guides was that a girl should be “courteous and delicate.” (These days they only emphasize the “courteous” part.) I remember being taught to abide by the following requirements to earn one of the guides’ coveted badges: A girl needs to know how to treat authorities, how to show deference to people, how to listen and speak at the right time and — my favorite — how to address people without yelling.

In September, I took my first classes in women’s self-defense. They definitely left some marks on me (besides the bruises). I could finally understand, in my body, the full extent of the violence and humiliation that we women in Brazil are meant to swallow during our lives, always with meekness and grace. Lowered head, slumped shoulders, stiff neck, dropped gaze: Our whole body is often shrunken and pointed inward, as if we are trying to be as small a target as possible.

For a long time, showing obedience and good manners were considered the most important things for a girl to learn. Even now, especially in developing countries like mine, this has barely changed: The worst thing a woman can do is speak up for herself and spread ideas that are not “appropriate,” like saying that misogyny exists in her professional field or denouncing a sexual crime committed by a powerful man. It’s always better to stay quiet and just let the abuser have his way. If the woman could also manage to say “thank you” after that, it would be even better. (For the record: Women should also refrain from using irony.)

But I don’t need to go very far to prove that we have good reasons to yell. Just look at a few random acts of gender-based violence in Brazil in the past few months: A male detainee strangled his girlfriend to death inside a prison cell because she restated her desire to end their relationship during the visit. A young man pushed his ex-girlfriend in front of a bus because she told him she was pregnant and he had already planned an exchange trip to Canada. A woman who told the police that her ex-partner was spying on her with a secret camera was stabbed to death by him — in a police vehicle on their way to a police station.

These are extreme manifestations of the unequal power relations between men and women — real-life, concrete expressions of a social dynamic that forces women to stay in a subordinate position, always speaking at a low volume and cowering. The full spectrum of gender-based violence also encompasses but is not limited to sexual harassment, domestic battering, sexual exploitation, violation of reproductive rights, “honor” killings and rape. Not to mention all kinds of threats and abuses of power that hurt women physically, sexually, economically and psychologically.

And what is the only unanimously acceptable response to these acts of violence? Showing deference to the aggressors and keeping one’s mouth shut, of course. It really doesn’t matter that we might carry this burden for the rest of our lives, etched in our consciousness and stored in our tense necks and shoulders. How a woman could possibly heal from a traumatic experience is not the main concern here. Tactfulness, discretion and the responsibility of keeping men safe from unjust accusations are more important.

I spent a few years in a psychologically abusive relationship that left me all hunched over and defensive. After it ended, every time I decided to talk or write about what I’d been through — even in the vaguest terms — I experienced a concerted backlash, an attempt to silence me that pushed me more and more toward the domain of the hysterical, exaggerated, resented woman. In many cases, nothing is easier than condemning a woman to a social and professional limbo. The more powerful the abusers are, the less people believe the victims and the more difficult it is to get material proof.

Every single woman in my self-defense course had some horror story. Learning how to block, evade, immobilize and disarm potential attackers was not the hardest task. The most difficult was the yelling. Our female instructor, Heloíse Fruchi, told us that when we faced our imaginary aggressor, we should look him in the eye and shout as loud as we could. Anything, really, could work: “No!” or “This is Sparta!” or “I’m mad as hell and I’m not going to take this anymore!” Some of us simply couldn’t do it, having spent an entire life being courteous and delicate.

During our classes, we have blushed, giggled and apologized to one another a hundred times. I’ve found myself lowering my eyes and doing a common pleading gesture (hands out, palms up) every time I faced the prop that I was supposed to fight back against. We’ve found out that we walk, talk and write in perpetual dread — and that we do not particularly fear the stranger who might drag us into an alley and rape us as much as we fear our own male friends, neighbors, relatives, bosses and partners. Because it seems that — more often than one might think — they love us and respect us only to the extent that we behave in a pleasing way. The minute we step out of line and begin to entertain ideas of our own, we become vulnerable.

In other words, for women it’s always a lose-lose scenario: Be quiet and spend 10 years in therapy; be delicate and suffer from a chronically stiff neck; be firm and get ostracized; be loud and get punished.

Those lessons that begin at age 7 teaching us to be courteous and deferential are partly to blame. If only we were taught instead to yell and scream, while kicking and cursing like a pirate. Maybe that couldn’t prevent abuse. The ultimate responsibility, of course, is not on us; it’s on the abusers. But at least we wouldn’t have to lead those permanently stiffened, suffocated lives.


Vanessa Barbara, a contributing opinion writer, is the editor of the literary website A Hortaliça, and the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese.

A version of this op-ed appears in print on November 12, 2017, on Page SR9 of the New York edition with the headline: How I Learned to Yell.

Credit: Ping Zhu

 

The New York Times International Weekly
O Estado de São Paulo
17 de novembro de 2017

Por Vanessa Barbara
Trad. Augusto Calil

SÃO PAULO, Brasil — Quando eu tinha sete anos, entrei para as Bandeirantes. Uma das leis básicas da organização dizia que uma garota deveria ser “cortês e delicada” (hoje em dia, enfatizam apenas a parte da cortesia). Lembro de ser ensinada a atender aos seguintes requisitos para ganhar um daqueles distintivos tão desejados: uma garota deve saber como tratar as autoridades, ser respeitosa com os outros, saber a hora certa de falar e de ouvir, e como falar com as pessoas sem gritar (minha favorita).

Em setembro, fiz minha primeira aula de defesa pessoal para mulheres. A experiência me deixou muitas marcas, para além dos hematomas. Finalmente compreendi, em meu corpo, toda a dimensão da violência e da humilhação que nós, mulheres brasileiras, temos que engolir, sempre mantendo o respeito e a cortesia. Cabeça baixa, ombros caídos, pescoço tenso, olhar no chão: o corpo todo é frequentemente encolhido e voltado para dentro, como numa tentativa de ser o menor alvo possível.

Durante muito tempo, a habilidade de mostrar obediência e bons modos era considerada o mais importante que uma garota deveria aprender. Mesmo hoje, especialmente nos países em desenvolvimento, como o nosso, essa situação mudou pouco: o pior que uma mulher pode fazer é levantar a voz em defesa própria e disseminar ideias “inapropriadas”, como dizer que há misoginia no trabalho ou denunciar um abuso sexual cometido por um homem poderoso. É melhor ficar quieta e deixar o abusador impune.

Mas não é preciso ir muito longe para ver que temos bons motivos para gritar. Basta uma olhada em alguns casos aleatórios de violência de gênero ocorridos no Brasil nos meses mais recentes: um detento estrangulou a namorada até a morte em sua cela porque, durante a visita, ela reafirmou o desejo de encerrar o relacionamento; um jovem empurrou a namorada na frente de um ônibus porque ela contou que estava grávida, e ele já tinha planejado uma viagem de intercâmbio para o Canadá; depois de relatar à polícia que o ex-marido a espionava com uma câmera secreta, uma mulher foi esfaqueada até a morte por ele, dentro da viatura policial, a caminho da delegacia.

São manifestações extremas da desigualdade nas relações de poder entre homens e mulheres que obrigam estas a permanecer numa posição subalterna, sempre falando em voz baixa e se acovardando. O espectro de toda a violência de gênero também inclui (sem se limitar a): assédio sexual, violência doméstica, exploração sexual, violação dos direitos reprodutivos, assassinato em defesa da “honra” e estupro. Para não falar em todas as ameaças e abusos de poder que ferem as mulheres fisicamente, sexualmente, economicamente e psicologicamente.

E qual é a única resposta aceitável diante desses atos de violência? Ser respeitosa com os agressores e manter a boca fechada, é claro. Não importa que talvez tenhamos que carregar este fardo pelo resto da vida, marcado em nossa consciência e guardado na tensão de nossos ombros e pescoços. A possibilidade de recuperação de uma mulher após uma experiência traumática não é a preocupação principal. O importante é ter consideração pela responsabilidade de proteger os homens de acusações injustas, mantendo a discrição.

Passei alguns anos envolvida num relacionamento de abuso psicológico que me deixou defensiva e encolhida. Depois que a relação chegou ao fim, sempre que decidia falar ou escrever a respeito do que tinha vivido, ainda que nos termos mais vagos, eu era alvo de uma reação coordenada, uma tentativa de me silenciar que me empurrava cada vez mais para o domínio da mulher histérica, exagerada, ressentida. Em muitos casos, nada é mais fácil que condenar a mulher a um limbo social e profissional. Quanto maior o poder dos abusadores, menos as pessoas acreditam nas vítimas, e maior a dificuldade de se obter provas materiais.

Cada uma das mulheres do curso de autodefesa tem uma história de terror para contar. Aprender a bloquear, se esquivar, imobilizar e desarmar os agressores em potencial não foi a parte mais difícil. O mais difícil foi aprender a gritar. Nossa instrutora, Heloíse Fruchi, disse à turma que, diante do nosso agressor imaginário, deveríamos olhá-lo nos olhos e gritar o mais alto que pudéssemos. Vale qualquer coisa: “Não!”, ou “Aqui é Esparta!”, ou “Estou furiosa e não vou mais suportar isso!”. Depois de toda uma vida de cortesia e delicadeza, algumas de nós não conseguiam fazê-lo.

Durante as aulas, ruborizamos, rimos e pedimos desculpas umas às outras centenas de vezes. Toda vez que enfrentava o boneco contra o qual eu deveria reagir, vi-me baixando os olhos e fazendo um gesto instintivo de defesa: mãos estendidas, palmas abertas. Descobrimos que andamos, falamos e escrevemos em estado de perpétuo terror, e não tememos tanto o desconhecido que pode nos arrastar para um beco e nos estuprar, mas sim nossos próprios amigos, vizinhos, parentes, chefes e companheiros. Porque temos a impressão de que, com uma frequência surpreendente, eles parecem nos amar e respeitar somente enquanto nos comportamos de maneira agradável. Assim que saímos da linha e começamos a ter ideias próprias, ficamos vulneráveis.

Em outras palavras, as mulheres estão sempre diante de possibilidades ruins: ficar quieta e passar dez anos fazendo terapia; ser delicada e viver com o pescoço tenso; ser firme e, em seguida, jogada no ostracismo; erguer a voz e ser castigada.

Ensinadas desde os sete anos, essas lições dizendo às meninas para serem corteses e respeitosas têm parte da responsabilidade. Que bom seria se fôssemos ensinadas a gritar e berrar, chutando e xingando como piratas. Talvez isso não evitasse os abusos. Afinal, a responsabilidade não recai sobre nós, e sim sobre os abusadores. Mas, ao menos, não teríamos que viver permanentemente tensas e sufocadas.


Vanessa Barbara é editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT. Recentemente foi demitida do Estadão.

Este texto foi publicado em inglês na página SR9 do The New York Times Sunday Review do dia 12 de novembro de 2017, com o título: How I Learned to Yell.

The New York Times International Weekly
Diario La Segunda (Chile)
18 de noviembre de 2017

por Vanessa Barbara

Credit: Ping Zhu

 

The New York Times
13 de noviembre de 2017

by Vanessa Barbara
Contributing Op-ed Writer

Read in English

SÃO PAULO – Cuando tenía 7 años, me uní a las Guías Brasileñas. Una de las leyes básicas de las guías era que una niña debía ser “cortés y delicada” (hoy solo enfatizan la parte de “cortés”). Recuerdo que me enseñaron a cumplir los siguientes requisitos para ganar una de las codiciadas insignias de las guías: una niña debe saber cómo tratar a las autoridades, cómo mostrar deferencia hacia la gente, cómo escuchar y hablar en el momento correcto y ‒mi favorita‒ cómo dirigirse a los demás sin gritar.

En septiembre tomé mis primeras clases de defensa personal femenina. Definitivamente dejaron una marca… y no solo por los moretones. Finalmente pude comprender, a nivel corporal, el verdadero grado de la violencia y la humillación que las brasileñas debemos soportar a lo largo de nuestras vidas, siempre con humildad y gracia. La cabeza agachada, los hombros caídos, el cuello rígido, la mirada hacia abajo: a menudo todo nuestro cuerpo se encoge y señala hacia adentro, como si tratáramos de ser un blanco lo más pequeño posible.

Durante mucho tiempo, ser obediente y educada se consideró lo más importante que debía aprender una niña. Incluso ahora, en especial en países en vías de desarrollo como el mío, esto apenas ha cambiado: lo peor que una mujer puede hacer es decir lo que piensa y divulgar ideas que no son “apropiadas”, como decir que la misoginia existe en su esfera profesional o denunciar algún delito sexual cometido por un hombre poderoso. Siempre es mejor quedarse callada y dejar que el abusador se salga con la suya. Si la mujer se las arregla para decir “Gracias” después de todo eso, sería aún mejor (tomen nota: las mujeres también deben abstenerse de ser irónicas).

Sin embargo, no tengo que ir muy lejos para probar que tenemos buenos motivos para gritar. Solo consideremos unos cuantos actos aleatorios de violencia de género en Brasil en los últimos meses: un detenido estranguló a la muerte a su novia dentro de la celda después de que ella reafirmó su deseo de terminar con la relación durante la visita. Un joven aventó a su exnovia frente a un camión porque ella le dijo que estaba embarazada y él ya tenía planeado un viaje de intercambio a Canadá. Una mujer que reportó a la policía que su expareja la espiaba con una cámara secreta fue apuñalada a muerte por esta… en una patrulla cuando iban camino a la estación de policía.

Estas son manifestaciones extremas de las desiguales relaciones de poder entre hombres y mujeres: expresiones concretas y de la vida real de una dinámica social que obliga a las mujeres a quedarse en una posición subordinada, siempre hablando a un volumen suave y achicándose. El espectro completo de la violencia de género también abarca, entre otras cosas, el acoso sexual, la violencia doméstica, la explotación sexual, la violación de los derechos reproductivos, asesinatos para defender “la honra” y violaciones. Ni qué decir de todo tipo de amenazas y abusos de poder que dañan a las mujeres física, sexual, económica y psicológicamente.

¿Cuál es la única respuesta aceptable por unanimidad ante estos actos de violencia? Mostrar deferencia al agresor y mantener la boca cerrada, por supuesto. Realmente no importa que tengamos que cargar con esto por el resto de nuestra vida, grabado en nuestra conciencia y almacenado en nuestros hombros y cuello tensos. Aquí la principal preocupación no es cómo puede sanar una mujer tras una experiencia traumática. El tacto, la discreción y la responsabilidad de salvar a los hombres de acusaciones injustas son más importantes.

Pasé algunos años en una relación en la que sufrí abuso psicológico, que me dejó maltrecha y a la defensiva. Cuando terminó, cada vez que decidía hablar o escribir sobre todo aquello por lo que había pasado ‒incluso en términos vagos‒ experimentaba una reacción concertada, un intento de silenciarme que me empujaba más al terreno de las mujeres histéricas, exageradas, resentidas. En muchos casos, nada es más fácil que condenar a una mujer a un limbo social y profesional. Mientras más fuertes los abusos, menos les cree la gente a las víctimas y más difícil es encontrar pruebas materiales.

Todas las mujeres en mi curso de autodefensa tenían alguna historia de terror. Aprender cómo bloquear, evadir, inmovilizar y desarmar a los posibles atacantes no era la tarea más ardua. La más difícil era gritar. Nuestra instructora, Heloíse Fruchi, nos dijo que cuando enfrentáramos a nuestro agresor imaginario, deberíamos verlo a los ojos y gritar tan fuerte como pudiéramos. Cualquier cosa servía: “¡No!”, o “¡Esto es Esparta!”, o “¡Estoy muy enojada y ya no voy a aguantar esto!”. Algunas simplemente no podíamos gritar después de toda una vida de ser corteses y delicadas.

Durante las clases, nos sonrojamos, lanzamos risitas nerviosas y nos disculpamos cientos de veces. Me descubrí bajando la mirada y haciendo un gesto común de súplica (las manos hacia afuera con las palmas hacia arriba) cada vez que me enfrentaba al estímulo con el que se suponía que debía enfrentarme. Nos dimos cuenta de que caminamos, hablamos y escribimos con un miedo perpetuo… y que no tememos tanto a un extraño que podría arrastrarnos a un callejón para violarnos tanto como a nuestros amigos, vecinos, parientes, jefes y parejas. Y es que parece que ‒más a menudo de lo que uno pensaría‒ nos aman y nos respetan solo en la medida en que nos portamos de modo complaciente. En el momento en que nos salimos de la raya y comenzamos a tener ideas propias, quedamos vulnerables.

En otras palabras, para las mujeres la situación es una de perder-perder: cállate y pasa diez años en terapia; sé delicada y vive con el cuello rígido crónicamente; sé firme y que te aíslen; grita y que te castiguen.

Parte de la culpa la tienen esas lecciones que aprendimos a los 7 años sobre ser corteses y deferentes. Ojalá nos enseñaran en cambio a gritar mientras pateamos y maldecimos como piratas. Quizá eso no evitaría el abuso. Al final, la responsabilidad, por supuesto, no es nuestra, sino de los abusadores. Pero al menos no tendríamos que llevar esa vida permanentemente rígida y sofocante.


Vanessa Barbara es colaboradora de nuestra sección de Opinión, editora de la página web de literatura A Hortaliça, así como autora de dos novelas y dos libros de no ficción en portugués.

A version of this op-ed appears in print on November 12, 2017, on Page SR9 of the New York edition with the headline: How I Learned to Yell.

The Last Winter (fiction)

Posted: 20th novembro 2017 by Vanessa Barbara in Traduções
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In: Sobras, Geraldo de Barros
Paris: Chose Commune, 2017

Vanessa Barbara
Translated from the Portuguese (Brazil) by Zoë Perry

I could begin by making a list of all the things I’ve lost: a green blouse with a lizard brooch during a train ride. A tube of mint flavored toothpaste after an intercontinental flight. A boyfriend, in 1982. A sock. An aspirin tablet. Contact lenses. My house keys – but they were inside a tote bag, something I only discovered after changing all the locks.

Thirty-odd years come and gone and I still can’t remember where I heard the phrase “I don’t want to die in Cordeirópolis”, which for some reason is scribbled in the margins of a French notebook. In my handwriting. Something else I’ve never been able to verify was a story someone told me about a couple who, as an experiment, hid the word ‘apple’ from their son until he was six years old.

I’ve lost my cat a few times too. Adoniran used to climb inside drawers, closets, empty boxes, and once he hid in the attic for an entire week. One night, however, he slipped out the open door and disappeared. I must have been around eleven. My parents assured me that cats know their way home and they always come back, but I waited several weeks and nothing. Some school friends – I don’t know if they were just making it up to comfort me – told me incredible stories about cats who’d returned home years after they disappeared, with battle scars and one eye missing, stories that had happened to their friend’s cousin’s neighbor, but Adoniran did not follow that pattern. Months passed. I gained a little brother, a chubby brown-haired baby who spent all day nursing. I also found a dried out contact lens under a kitchen chair, but no sign of Adoniran.

One day he came back. It was a late summer afternoon when my father opened the front door carrying a black cat with green eyes, an angry ball of fur that looked at us with the haughty contempt of someone who wasn’t put on this earth to be bossed around. He said he’d found it in the garden digging up daisies. My mother was right behind him, crack-ing her knuckles like she did when she was nervous. I was so happy I didn’t even notice he no longer had the tuft of white fur on his belly, or that his ears were not as pointy. Adoniran immediately took up residence in a corner of the living room and began sharpening his nails on my mother’s slippers, oblivious to my euphoria.

After that day, even if, deep down, I knew that cat wasn’t Adoniran – and my parents were counting on me not to notice the difference – I continued to call him by that name and was always spotting traits of his old personality lurking in this other animal: the way he sat in the fern planter, the meow of protestation he gave whenever something wasn’t to his liking, his obsession with staring into nothing. Cats know their way home and always come back, said my parents. I didn’t want to lose Adoniran.

Every cat who came after had the same name.

When my husband came home, I was standing in the middle of the living room with a spoon in my hand. Apparently I’d left the kitchen and was going to the bedroom, but along the way started thinking about armadillos and my whole reason for getting the spoon was seemingly sucked down the drain, vanishing in a matter of seconds and leaving in its place a blank spot, empty and frightening as a room with no furniture.

In the beginning it was like this: I’d be telling a story and all of a sudden lose my train of thought. I’d take the lead in a meeting to make some point I deemed important, then all of a sudden no longer remember why I was saying it or what I’d intended to say next. I started writing things down to keep them from slipping away, and soon began jotting down even the most trivial matters to prevent them getting lost by the wayside. For example, if I had to go to the laundry room to get a screwdriver, odds were good that, en route, I’d get distracted by a dirty dish left in the living room and change course to go wash it and, on my way to the kitchen, tap the edge of the table with my little finger and remember I needed to trim my nails, but in the middle of all this be startled by a car alarm in the street. And then I’d find myself in the bathroom holding a dirty dish, with no idea what I’d gone in there to do. So when a task arose that demanded more than three seconds to complete – or required a change of room – I would immediately grab pen and paper and write: “screwdriver”. I’d tuck the paper in my front shorts pocket, so that on any given morning the list might look like this: “wash face”, “don’t go out without wedding ring”, “empty bathroom trash”, “refill water filter”, “take umbrella”, “put on eyeliner”.

But that was just the beginning. On that day my husband simply took the spoon from my hand and started talking as if nothing out of the ordinary had happened, like you do with children when they threaten to burst into tears and you have to quickly distract them with a crayon or a head of cabbage. Apparently he didn’t want to make a big deal of it, or perhaps he had been through something similar. Maybe it wasn’t the first time he’d found me standing in the middle of the room holding a spoon.

These episodes of forgetfulness were becoming constant. It was like thinking of something – for example, the object we use to remove an egg from a frying pan, or the actor who played Spiderman – and simply being unable to name it. I could sense the information was there, somewhere in my mind, but didn’t know how to go about reaching it. I would open a door and find other things stored inside, like the name of that Portuguese aunt who wore flowery dresses (Cremilda) and my old phone number, or I’d keep thinking about electric mixers and can openers. I’d close my eyes, hold my breath and try to physically retrieve the word from within a tangle of other memories, but it was no use. The only way out was to give up and ask someone, at the risk of seeming very strange (“you know, that thing with the little holes? With a handle like this?”). Only then would I be able to retrieve that blessed slotted spoon.

Before long, everybody knew something was wrong with my memory. Still, at first, things would come back to me. I sensed that that bit of information existed; I knew it was ‘on the tip of my tongue’ and triggering one detail was enough to ignite the rest. Later on, this too would go. That feeling of unease at being in a room with no furniture ceased to be a presence and was transformed into an absence, and it was only through others that I noticed large gaps in my memory.

They were stuffed with something that looked like snow.

This erosion is inevitable and happens at a rapid pace. Since the last dash, I’ve already lost the slotted spoon again and was tickled to hear about this woman who makes lists to remind herself to refill the water filter.

Since I have no idea what I was planning to write next, I’ve decided that, before my understanding of words dries up completely, I will embark on putting into writing a single incident – one I hope will be the last to disappear, and about which I still have a few scattered memories. Enough to get me through until the last piece of me melts away.

They are the memories of the last winter with my brother.

I don’t remember now if it was in Switzerland or in France, only that it happened in the mid-seventies. For Christmas, I got a beautiful orange sweater, or maybe it was blue, and a pair of warm, cozy boots. My childhood dream was to see the snow. So off we went – me, my parents and my little brother – to a cottage we rented for the season, which probably means my family was very rich, or my father was a corrupt military officer, or that I was an international fashion model.

I still remember the feeling of watching snow fall for the first time. At first, it looked like dandruff from heaven, or a bunch of small white feathers someone had strewn from a building. It felt like we were on a different planet. I got butterflies in my stomach, like someone riding in a glass elevator: the more the snow fell, the faster it felt the elevator was rising. Snow covered the mountains, the trees, the roof of the cottage, the stairs, blanketing everything in white batting. When I close my eyes, I can still feel my feet stepping in it, the smell of clean air, the biting cold that pierced through my innermost layers of clothing.

That winter, soon to turn nineteen, I saw snow for the first time. I also tried to learn to ski – it was a disaster. My brother, always good at sports, picked it up almost immediately and could zip down the mountain by himself – skis bigger than him, goggles perched on his forehead, with the confident look of someone who’s only nine. “Just lean back like this”, and off he went, gliding smoothly along in front of me, while I just stood there, afraid to shift from my spot and fall again. I tried my best, taking a deep breath each time, but would always be overcome by panic and fall. After a few days, I finally gave up, content to sit by the lake reading a detective novel or watching my brother, who was now teaching the other children and even racing ahead of several adults.

I don’t remember if anyone else came on the trip with us; maybe some uncles and cousins, or neighbors, or my father’s co-workers. I do know that one of my most memorable (pardon the expression) experiences was a picnic by a tree that still had its leaves, where I drank a mug of frothy hot chocolate with people whose identity escapes me. (On second thought, maybe they were my parents.) The rest has been lost. I don’t remember, for example, whether that was before or after our trip to the cabin. Random things cling to my memory: a pile of burlap sacks, a sticky tap, or my brother with a frightened look on his face. I remember falling, hitting my head, and having to spend a few days in bed recovering. But I’m only sure of that because I still have the scar.

One weekend my parents decided to spend a few days away in the city and left me alone at the cottage in charge of my brother. We hadn’t spent time together in a while. I was already away at college and no longer had much contact with him, and suddenly I realized that I didn’t know him very well – or was that just a feeling I had now, fifty years later, as his image gradually fades from of my mind and I could no longer tell you if he was right- or left-handed.

I suggested we hike to an abandoned cabin that sat on the other side of the ski resort, up the mountain, through the trees. “We can build an igloo once we get there,” I said, wanting to convince my brother to ditch his skis for a day and spend the afternoon with me.

We jumped the barricade that marked the edge of the ski resort and hiked up the trail into the forest, walking slowly as I told a scary story – only I was lousy at it and he just giggled. I remember the wind picked up, it wouldn’t be long before the snow began to fall. I hesitated, but my brother begged for us to keep going. By my calculations, we were almost at the cabin. “We’re going to find a bunch of bodies up there for sure,” my brother said, as if trying to cheer me up. According to him, the place was used by evil spirits that attracted poor lost skiers. “The kids at the ski resort told me,” he explained, “they said nobody’s ever come back from there.”

(Left-handed, definitely left-handed.)

I don’t really remember if the snow on the trail was high or if we saw any squirrels along the way, but I can’t forget the little boy chattering away excitedly, almost breathless: “You’ll see, we’ll open the door and stacks of severed heads with bulging eyes will come rolling out, and a half-alive skeleton will grab you by the feet”. Dark clouds filled the sky and I picked up the pace because it looked like a storm might roll in. I took two of those woolen hats, whose name escapes me, from my backpack, as well as gloves and scarves. “No one can get out of there because when you slam the door it starts an avalanche, and the people get stuck in there and starve to death,” the boy said. I was amused and wondered what kind of school he’d been attending, or what kind of books his mother let him read.

In the distance, we saw a pile of stones and a shovel planted in the snow, which the boy then asked if we could take with us to bury the bodies. “No, we can’t bury anyone because we’ll need to eat their brains,” I replied in all seriousness, and he grew more excited. “There will be some little coffee spoons there, those teeny tiny ones, and we’ll take turns eating juicy brains,” I added. “And then,” he continued, “we’ll turn into zombies, and we’ll live in our igloo and hunt squirrels.” We left the slotted spoon standing in the snow and continued climbing.

At one point, he buried some marbles at the foot of a tree, saying they were presents for the next travelers who passed through, after the snow melted.

Basically that’s what I remember about that day: our conversation on the way to the cabin as clouds gathered overhead and the wind spread a snowy sheet over us, growing whiter by the minute. After we reached the top, we took a moment to admire the structure and began building our igloo. Inside the cabin, to our surprise – I don’t remember what was in there, and if I were to remember now that would certainly be a surprise. I feel like we’d taken some cucumber sandwiches. I took off my boots and left them at the door. Adoniran dropped his backpack and went to scout out the bedrooms. Maybe a storm came; maybe we had to spend a few days there, living off sandwiches. Or maybe that was from some movie I saw. I don’t know if the cabin was really abandoned, nor do I remember what happened after that. As hard as I try to shut my eyes and retrieve those memories, all I can see are bare walls, glassless windows, vague shapes buried under the snow.

And an orchid – yes, I remember an orchid. It would seem that inside that abandoned cabin in the ice, a few kilometers from the ski resort, was a vase with a single orchid that had somehow survived the winter. I stood watching that miracle, and was about to say something poetic when Adoniran came running in and plucked the orchid from its stem, saying he wanted to take it to give to his mother as a gift. He beamed from ear to ear. That’s all there is for me to tell. And it’s all that I have left.

I couldn’t say how we got back, or even if we ever did get back from there. That was my last winter with him – not that anything happened that day, or maybe something did happen, but because it is the last winter left in my memory. Bit by bit everything is fading away. I encounter people who may have already died, I forget whether I’m married, I scream at the nurses and don’t know why. The person I was in the past now no longer exists. The people I’ve loved are gone. All I have left are feelings in the present: a mouthful of chocolate cake, the sun burning my skin, a beautiful song that takes me back to absolutely nothing. I don’t even know anymore if I’ll die without ever seeing the snow.