As locutoras de quarentena

Posted: 23rd maio 2020 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Itaú Cultural
Brechas Urbanas, mai. 2020

por Vanessa Barbara

Tenho enorme admiração por esses tenores que cantam ópera nas janelas para entreter os vizinhos durante a quarentena. Há ainda aquelas pessoas que tocam instrumentos musicais (“Ode à Alegria”, de Beethoven, é uma opção comum), dão aulas de ginástica, projetam filmes nas fachadas, parabenizam coletivamente os aniversariantes e cantam bingo (aconteceu na Espanha).

Meus vizinhos – coitados – não têm tanta sorte. Só o que eles ouvem a tarde toda é minha voz sem graça narrando, da varanda, acontecimentos absolutamente prosaicos para minha filha, Mabel, de quase 2 anos. (É o que dá ser vizinho de escritora.)

Outro dia, por exemplo, devem ter acompanhado com desânimo minha arrastada descrição de uma moça de blusa azul descendo a escadaria da rua: “Ela vai descer devagarzinho, olha só, segurando no corrimão… Que cuidadosa! Ela está carregando uma sacola? Ou é uma bolsa? Para onde será que está indo?” Observamos em silêncio o percurso da mulher, que agora caminha pela calçada. “Ela vai trazer bolo para a Mabel”, responde a minha filha depois de pensar um pouco. Acho essa hipótese bastante digna. Desviamos a atenção para um senhor que passeia com os cachorros. “Olha! Acho que é o Francesco!”, eu grito, com excessiva alegria, referindo-me a um golden retriever do nosso prédio. Mabel não dá muita bola e começa a brincar de achatar o nariz no vidro.

Peço sinceras desculpas aos vizinhos, mas estamos fazendo o possível para nos entreter nesta quarentena. Conversar é o que há de mais prático em nosso limitado arsenal de distrações, sobretudo quando as respostas podem ser tão engraçadas. Minha expertise na função de cronista de varandas veio bem a calhar. Quando o tempo está bom, passamos um sem-número de horas nesse espaço exíguo observando o (pouco) movimento e nos alimentando de qualquer migalha de agitação registrada nas redondezas. Um ponto alto da nossa tocaia ocorreu duas semanas atrás, quando uma menina disparou a correr pela rua até alcançar uma amiga, que seguia bem à frente. “Corre muito!”, reparou minha filha, com verve de comentarista de olimpíada. Foi eletrizante o reencontro. “Será que elas vão pegar o trenzinho juntas?”, especulei, apontando para a estação de metrô. “O coronavírus está na cola dela”, disse Mabel, do nada. Passamos dias rememorando o episódio. Os vizinhos já devem ter ouvido dezenas de elegias ao ocorrido, todas caudalosas feito parágrafos proustianos sem sombra de ponto-final.

O vizinho da frente, aliás, continua acendendo as luzinhas de Natal toda noite. (Já passamos da Páscoa.) Nós fazemos o mesmo, naquilo que eu não sei mais se é uma competição acirrada ou um solidário meneio de cabeça. Outro vizinho acena de vez em quando para nós. Ele fica sentado na varanda por longos períodos e deve observar com curiosidade a nossa dupla sapateando, pulando e fazendo movimentos aleatórios de ioga. Às vezes, Mabel usa a minha barriga como tambor. Ou então ficamos brincando com as sombras, abrindo e fechando as cortinas, catando fios de cabelo no chão, contando quantos carros vermelhos passam na rua. Até os sinos da igreja servem de tópico para as nossas histórias.

Por uma dessas tristes ironias, moramos perto de um estacionamento de ambulâncias do Hospital Sancta Maggiore. Um de nossos passatempos mais recorrentes hoje em dia é acompanhar o movimento das ambulâncias subindo e descendo a ladeira do estacionamento. Ficamos imaginando que os veículos são amigos e trabalham o dia todo levando pessoas ao hospital, mas sempre voltam para descansar e compartilhar as novidades. As sirenes são seus gritos agudos, as luzes vermelhas são um recado de que vão voltar.

Um dia apareceu no chão da varanda um enorme besouro morto, já meio seco. Cantamos uma música para ele e ficamos conversando baixinho sobre a vida de aventuras que ele teria levado. Em outra ocasião, acompanhamos a saga de uma aranha tentando subir pela parede e caindo repetidas vezes. Juro que não fiz nenhuma analogia de autoajuda. O vento é outro fenômeno que serve de assunto para nossas infinitas confabulações: basta soprar uns balões e deixá-los na varanda para que comecem a dançar para lá e para cá.

Quando venta forte, temos assunto. Quando o ar está parado, idem. Comentamos o cheiro de sopa, de bife à milanesa e de pipoca que vem das outras janelas. Compramos ovos imaginários para os vizinhos e saímos distribuindo a todos os interessados. (Para Mabel, não há quem resista a um bom prato de ovos mexidos.)

E temos também a Lua, as estrelas e o planeta Vênus; a estação espacial internacional e os satélites Starlink; as nuvens carregadas e os pedaços de céu azul. Poucos. Mas suficientes.

Expedição à padaria

Posted: 1st maio 2020 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Itaú Cultural
Brechas Urbanas, abr. 2019

por Vanessa Barbara

Na segunda-feira dia 6 de abril, depois de 14 dias de total isolamento, saí de casa para comprar pão. Com o coração acelerado e o passo meio trôpego, percorri os 290 metros que separam minha residência da padaria da esquina. Pensei imediatamente em Charles Darwin singrando os mares a bordo do HMS Beagle, em James Cook mapeando terras desconhecidas, em Amelia Earhart com o vento no rosto enquanto sobrevoava o oceano e em Buzz Aldrin fazendo xixi na Lua. Quase chorei na fila do pão. Por pouco não pedi a quantia errada de bisnagas.

A expedição durou no máximo 15 minutos e me senti inspirada para compor uma versão estendida de Os Lusíadas em dodecassílabos parnasianos. Pensei também em fazer uma transmissão ao vivo para emocionar os amigos em suas respectivas quarentenas. Mas acabei desistindo porque achei que podia parecer ostentação. Antes de sair, botei o álcool em gel na bolsa e vesti uma máscara de tecido, mas quase sofri um bloqueio criativo quando fui escolher a roupa. Esqueci como a gente se vestia quando saía de casa. Parece que eu tinha um par de calças jeans. Onde mesmo que eu costumo guardar os sapatos?

Em meados do mês passado, entrei para os casos suspeitos da covid-19. Tive febre baixa, dor de garganta, perda de olfato, enjoo e uma dor de cabeça forte. Depois de um exame clínico que descartou infecção bacteriana, a médica me mandou para casa e estipulou o isolamento pelo período de duas semanas. (Ela marcou no meu atestado: “Z29.0”, o que me pareceu coisa de espião, mas era apenas a classificação da Organização Mundial de Saúde para isolamento em casos de doenças transmissíveis.)

Respeitei a prescrição médica e não saí nem para pegar as revistas deixadas no capacho. Meu marido fazia as compras semanais no mercado e ia buscar pão de vez em quando. Eu tentava me recuperar na medida do possível. Ao final dos 14 dias, e depois de receber o resultado negativo do exame da covid-19, eu me ofereci para singrar as calçadas rumo à padaria.

Foi mais bonito do que eu sonhava. O céu estava azul, havia pássaros nos postes e um fétido chorume emanando dos sacos de lixo empilhados no meio-fio. (O olfato parecia feliz em ter voltado.) Troquei enigmáticas elevações de sobrancelha com transeuntes que passavam do outro lado da rua e que também estavam parcialmente ocultos em suas máscaras. Tentei sorrir com os olhos para os atendentes da padaria, que perguntaram como estava a minha filha e comentaram que o dia estava lindo demais para ficar em casa. Respondi: “Paciência!” e tentei dizer algo engraçado. 

Descobri que boa parte da comunicação se dá por meio da expressão do rosto e de sorrisos, e que é muito difícil ser irônico atrás de uma máscara. Gesticulei amplamente, como se falasse uma língua estrangeira a dez metros de distância. Esquadrinhei a mesa de bolos caseiros como se estivesse diante de uma caverna de tesouros. Desisti de abraçar todo mundo. Botei as compras na minha sacola de pano, paguei a comanda e voltei para casa sob a nuvem diáfana do maravilhamento. “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!”, posso ter dito ao chegar em casa, parafraseando certo cosmonauta.

Em tempos de quarentena, a saudade de circular pela cidade chega a doer. Até descer com o lixo parece uma aventura extraordinária, que só efetuamos uma vez a cada três dias. Sair para ir à padaria, então, é um feito mais cobiçado que escalar os Sete Cumes. Não sei quando minha jornada se repetirá, já que o isolamento doméstico permanece – e deve se intensificar daqui para a frente. Só sei que agora toda breve saída é passível de se tornar uma epopeia em versos a ser narrada para a próxima geração: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ que outro valor mais alto se alevanta”, já dizia o velho Camões.

Minha filha, de 1 ano e 9 meses, não sai de casa há mais de 30 dias. Uma das nossas atividades favoritas agora é relembrar, juntas, todos os detalhes dos nossos piqueniques no parque, as tardes de Carnaval, os passeios de ônibus, as voltas no quarteirão e as viagens de metrô. Como se fossem épicas expedições a uma civilização que não deve ser esquecida.

Força, mamãe

Posted: 22nd abril 2020 by Vanessa Barbara in Crônicas, esquinas, Revista piauí, Revista Piauí
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Ilustração: Andrés Sandoval

Revista piauí
N. 163 – abril 2020

por Vanessa Barbara

Estamos no sétimo dia de quarentena. Ao acordar, fico sabendo que há algum tipo de discórdia entre o dinossauro verde e o Senhor Cabeça de Batata. Não consegui obter muitos detalhes, mas tudo indica que houve empurrões e que alguém está chorando. É de se esperar que, com o confinamento, os ânimos de todos estejam à flor da pele. Tento promover uma reconciliação, mas os brinquedos da minha filha estão realmente nervosos. O Senhor Cabeça de Batata perde o nariz. O dinossauro verde tenta entrar numa caixa – certamente está em busca de um pouco de solidão –, mas não consegue e se desespera. “Calma!!”, grita Mabel, de 1 ano e 9 meses, sem parecer muito convincente. Ela desiste dos brinquedos e vai para a cozinha lamber uma pá de lixo. As coisas estão um tanto fora de controle.

Começamos nosso autoisolamento muito antes de entrar na moda. No dia 10 de março, uma terça-feira, Mabel acordou com febre. A professora da creche municipal já tinha alertado sobre uma forte virose que estava acometendo os alunos da sala 5 e provocou inúmeras ausências já na segunda-feira. Desmarquei duas vacinas que estavam agendadas para aquele dia (reforços contra varicela e hepatite A) e ficamos em casa.

Foram três dias inteiros de febre alta e mais outros tantos de uma tosse persistente que às vezes provocava vômitos. Nariz escorrendo, falta de apetite, prostração. Na sexta-feira, dia 13, levamos Mabel para uma consulta com a pediatra. Ela disse que os pulmões da paciente estavam limpos e que achava improvável ser coronavírus, mesmo porque a transmissão comunitária estava apenas começando em São Paulo. Foi a última vez que eu e Mabel saímos de casa.

*

Depois de passar muitas noites em claro, às voltas com incessantes inalações, banhos de emergência e gritos de “Tía a meletinha du naíz!” (Tira a melequinha do nariz), é claro que peguei o vírus também. Passamos a dividir o inalador. Resolvi que começaríamos nosso isolamento imediatamente, a fim de poupar os outros seres humanos dos nossos enigmáticos eflúvios virais. Minha mãe parou de vir ajudar. Suspendemos os passeios na rua. Deixamos de frequentar o ebuliente parquinho do prédio. Um a um, todos os nossos compromissos foram sendo cancelados. O mundo encolheu de repente e passou a medir os exatos 88 m2 do nosso apartamento, na Zona Norte de São Paulo.

No início da semana do dia 16, meu marido continuava trabalhando normalmente – ele é auditor fiscal da prefeitura –, e era ele quem nos trazia pão, soro fisiológico e notícias do mundo lá fora. Por causa do meu distúrbio de ritmo circadiano, continuamos a precisar da ajuda matutina da babá, Sheila, que passou a ir e voltar de Uber. (Pouco depois ela foi dispensada, obviamente com salário integral.) Alternei dias de febre baixa com gloriosos períodos em que me deitava no chão da sala e deixava minha filha me usar de tambor. A pediatra informou que algumas creches estavam registrando surtos de H1N1 e Influenza B, o que poderia ser o nosso caso. Acho que nunca vamos saber. Mabel estava aos poucos se recuperando, assim como as outras crianças da sala. Eu continuava em frangalhos, mas precisava seguir limpando, cozinhando, lavando, tossindo e desinfetando as maçanetas. No resto do tempo, tentava resolver as dúvidas de edição de um texto que escrevi para um jornal estrangeiro.

Parecia uma repetição catarrenta do alucinante puerpério (pós-parto), quando a mulher não dorme, não come, não sai na rua e não se expressa mais em frases coerentes. Só que, dessa vez, ninguém te manda docinhos.

No dia 19, meu marido foi liberado para trabalhar em casa. Ele participou de uma videoconferência confusa na qual Mabel gritou às autoridades presentes: “Péda a tuiúja!” (Pega a coruja). A coruja foi providenciada. No dia 20, ele passou o dia fora em uma reunião presencial. Chorei de dor de ouvido enquanto cuidava da Mabel, que corria em círculos e gritava: “Co-ona-viss! Co-ona-viss!” Aceitei uma nova encomenda de texto em inglês, que consegui escrever em parceria com Santo Expedito.

Conforme o resto da cidade ia aderindo ao autoisolamento, recebi relatos de mães que estavam aproveitando a oportunidade para desfraldar os filhos, tocar piano ou assar saborosos pães caseiros de mandioca.

*

Aqui em casa estamos em modo sobrevivência. Eu e Mabel passamos muito tempo sentadas na varanda acompanhando a movimentação da rua, pois é uma atividade estática que não faz a minha cabeça doer tanto. Já conversamos sobre quantas e quem são as pessoas que trabalham dentro dos ônibus, qual a diferença entre avião e helicóptero, por que os operários usam capacete e o que o vizinho está fazendo há horas com a luz do banheiro acesa (“xixizão” foi a nossa aposta). Ela também gosta de se dedicar à tradicional arte de abrir e fechar ralinhos.

No fim de semana, finalmente as ruas esvaziaram. Expliquei que as pessoas estavam em casa, algumas doentes, e ela anunciou na varanda: “Mabel vai fazê remedinho!” (Espero que isso não gere expectativas desmedidas no bairro.) Ela agora tem uma “maleta” de enfermeira com um frasco vazio de soro, uma seringa, uma caixa de curativos, uma colher para remédio e um martelo.

Ao contrário do que se esperava, a crise do coronavírus não fez Mabel repensar suas atitudes severas de governanta alemã. Enquanto estamos executando alguma tarefa doméstica, ela sai pela casa incorporando a coach: reclama que derrubamos um grão de arroz no chão, que deixamos um chinelo no caminho, que esquecemos a lixeira aberta, que estamos com a mão molhada. Ela repreende até as personagens dos contos de fada. Para a Cinderela, grita: “Pega o sapato!” Para a Cachinhos Dourados, que quebrou uma cadeira, ela ordena: “Conserta!” Isso gera todo tipo de tensão nos dinossauros coloridos.

Na sexta, dia 20, empilhamos caixas de lenços de papel. No sábado, cortamos o cabelo dela. Passei a chamar carinhosamente nossa doença de choronavírus, devido a um de seus sintomas mais pronunciados. Mal sabia que era cedo demais para cravar um diagnóstico: na segunda seguinte, tive febre de manhã e à noite. Quebrei a quarentena para me consultar com uma otorrinolaringologista, que descartou infecção bacteriana e me colocou na lista de suspeitos para Covid-19. Não é possível ter certeza, já que os hospitais só estão testando os pacientes internados. A prescrição: antitérmico e isolamento. Nada de novo, portanto.

O episódio mais representativo de nossa quarentena até agora aconteceu no quarto dia, enquanto eu fazia cocô com a porta aberta, como costuma acontecer ultimamente. Mabel se aproxima para assuntar. Ela rasga um pedaço de papel higiênico e se oferece para limpar o meu bumbum. Eu rejeito educadamente, dizendo que ainda estou no processo. Faço uma espécie de teatrinho do cocô. Ela põe as mãos nos meus joelhos, olha bem para mim e diz: “Força, mamãe!”

É o nosso 12º dia de quarentena. Penso que talvez estejamos ensinando à nossa filha alguma coisa sobre resiliência ao tédio.

An image of President Jair Bolsonaro of Brazil with the phrase “hysteria damages the economy” was projected on a building in São Paulo last month to protest his handling of the coronavirus outbreak. Credit: Miguel Schincariol/Agence France-Presse — Getty Images

We live in a time of more questions than answers. Beware anyone who thinks otherwise, especially presidents.

The New York Times
Apr. 14, 2020

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — My first symptoms started on a Monday morning, March 23. I was just getting over a random disease that my daughter had brought home from nursery school — we’re still not sure what — when I had a sudden fever. My husband was the culprit, we decided; my daughter and I had already been isolated at home sick with something else for 10 days. He, on the other hand, was still attending a few work meetings and leaving our house to buy groceries.

On that first day, I had a low fever and a strong headache. I also lost my sense of smell and developed nausea and ear pain. I called an ear, nose and throat doctor and reported my symptoms; she asked to examine me at the hospital. On Tuesday, I went to see her — she looked like an astronaut, in all her protective gear — and she promptly ruled out a bacterial infection. She prescribed a fever reducer and a medication to loosen the mucus. Then she put me on home quarantine — again — this time, for a suspected case of Covid-19.

In Brazil, until very recently, only the most severe cases were being tested for the new coronavirus. So I spent the next week in a haze: Was it Covid or not Covid? Would I infect my 21-month-old daughter? How could I take care of her in such a dire state? Would I soon require hospitalization? I was already feeling depleted from the intense mothering of the past couple of days without nursery school; suddenly I had to keep doing exactly the same thing, but with a fever. I wondered about the recovery rates for exhausted moms.

At the same time that I was facing this unprecedented uncertainty and fear, my president seemed absolutely certain — about everything.

For weeks now, President Jair Bolsonaro has been downplaying the severity of the coronavirus crisis; he dismissed the outbreak as a “fantasy,” called measures to fight it “hysteria” and called the illness a “measly cold.” He spreads dangerous misinformation — about an unproven cure, for example — and publicly ridicules quarantine measures. He ignores statistics, scientific evidence and specialists’ recommendations, as if he alone is endowed with a mysterious source of wisdom. He acts with the assuredness of fools. When in mid-March, Brazilian governors and mayors started to enforce lockdown measures, Mr. Bolsonaro accused them of falling into a state of panic. “Our lives have to continue,” he said, urging everyone to roll back restrictions. Later, he conceded a little ground, saying that “we will all die one day.” Because that is the sort of statesman he is.

Luckily, most of us haven’t listened to the president. In fact, few are still listening to him. My city, São Paulo, has been the place hardest hit by the outbreak in Brazil, and that’s enough to keep us on our toes — there’s no time to pay attention to delirious statements like Mr. Bolsonaro’s call for a national day of fasting and prayer to “free Brazil from this evil.” He is becoming more isolated by the day — figuratively, I mean: The approval ratings of his minister of health and various state governors are on the rise, while his own have plummeted.

Back in the realm of reality, the weekend came and my fever subsided, but I still had a persistent headache. I knew by then that the second week of the disease cycle was the truly critical one, when patients either improve or get sicker. I tried not to have a panic attack, since if I did, I wouldn’t know how to know whether it was the disease causing shortness of breath or my intense anxiety. At this point, the country had registered 4,309 confirmed cases and 139 deaths — 98 of them in the state of São Paulo.

On Tuesday, the 31st, I managed to schedule a visit with a health care provider to test me for the coronavirus. (I had to pay $73 for it.) It was the RRT-PCR test, which stands for real-time reverse transcription-polymerase chain reaction; the test detects bits of viral genetic material present in respiratory secretions. The results would not be ready for a couple of days. By then, my headache had lessened to something more tolerable, and I could once again smell the sweet scent of my daughter’s full diaper. I recovered my appetite (not while in proximity to her diaper, though). We resumed our mother-and-daughter sessions of crazy tap dancing on the balcony. I felt a vague sense of victory. By Friday, April 3, Brazil had 9,216 confirmed cases and 365 deaths.

Then on Saturday, the 4th, my test results came back negative. And the uncertainty came flooding back: Had it been the flu all this time? Or a false negative, perhaps? (A Chinese study has suggested that the false-negative rate of PCR tests may be around 30 percent.) A positive result would have been at least something concrete to deal with, a rare certainty amid all this coronavirus-fueled anxiety. As the days pass, I’m left wondering when or if we will get serological tests — which detect the presence of antibodies for a specific disease — to settle the question. I was back where I’d started, only more exhausted this time and with a (slightly improved) headache.

Besides the terrible loss of thousands of lives, the coronavirus has hit us with a wave of uncertainty. We worry for ourselves and for our parents. We wonder what will happen next, when the curve will start to flatten, how long this is going to last. Mass testing of the population still seems the surest and fastest way to stop the virus, but when my turn came, I learned that even this is riddled with ambiguities. But perhaps at this time, only fools have certainty about anything.


Vanessa Barbara is the editor of the literary website A Hortaliça, the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese, and a contributing opinion writer. 

Miguel Schincariol/Getty Images. An image of President Jair Bolsonaro wearing a face mask projected onto a building’s wall during a Panelaço balcony protest, São Paulo, Brazil, March 19, 2020

This running series of brief dispatches by New York Review writers will document the coronavirus outbreak with regular updates from around the world.

—The Editors

The New York Review of Books (Daily)
by Vanessa Barbara
March 20, 2020

SÃO PAULO, BRAZIL—Over the last week, a powerful virus has been circulating among the toddlers in my daughter’s public nursery school. She spent two nights with a high fever and many others with a persistent cough that caused occasional vomiting. (She’s twenty months old.) But this happened a few days before the coronavirus started to spread locally in Brazil, so her pediatrician guessed it was common flu or something similar. Besides, many schools here are registering a number of H1N1 and Influenza B cases, which are also possibilities. I was eventually infected, too. We didn’t take any tests.

At that point, the country had registered two hundred confirmed cases of coronavirus and almost two thousand cases under suspicion. There was no countrywide confinement. 

On Monday, when my husband went by the nursery school to deliver a sick note, the teacher casually mentioned that there were three confirmed coronavirus cases there. He immediately went home and broke the news. I was alarmed. My daughter apparently found the word funny and she couldn’t stop repeating it: “Co-ona-visss! Co-ona-visss!” while running in circles in the living room. (She was feeling a lot better.) 

To be completely sure, I called the school. They said those were only suspicious cases. We stayed home, as we’ve been doing for a while now. My husband went to work, wondering when he would be allowed to do his job remotely. (He’s a tax inspector for the city hall.) 

In Brazil, denial and confusion are the current official strategies to deal with the pandemic. President Jair Bolsonaro has been downplaying the crisis for weeks; he had called concern over the virus “oversized” and said that “other flus kill more than this.” On March 15, the president joined a pro-government street rally in Brasília, ignoring medical recommendations of social distancing. He shook hands and took selfies with supporters. More than fifteen members of his recent delegation to Florida have now tested positive for the virus. 

On Tuesday, against all better judgement, a few of my friends gathered to play volleyball as if nothing was happening. Meanwhile, health officials reported Brazil’s first death from Covid-19. By then, the country already had three hundred confirmed cases. But we know these statistics are unreliable: almost no one is being tested for anything, after all. 

On Wednesday, my friends decided to play volleyball again. Seriously. The death toll rose to four people, all of them from São Paulo. The mayor ordered the shutdown of all commercial establishments—including volleyball courts—with some exceptions such as supermarkets and drugstores. My husband was finally allowed to work from home. I had a low fever. My daughter seems to be recovering well. 

On Thursday, I received the news that my daughter’s best friend, from the nursery school, is also on the path to full recovery—we only don’t know exactly from what. In Brazil, against the recommendations of the World Health Organization, only patients with severe symptoms of coronavirus are being tested. Streets are finally starting to empty out a bit. Death toll: seven

It seems that the denial phase is almost over. Now we can concentrate on isolating ourselves with confusion as company.

Cronista de varandas

Posted: 18th março 2020 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Itaú Cultural
Brechas Urbanas, mar. 2020

por Vanessa Barbara

Eram 4 da manhã de uma sexta-feira, mais ou menos um ano atrás. Eu estava (invariavelmente) ninando o bebê na varanda do meu apartamento, no 14o andar, tentando não colapsar de sono e de tédio. Então vejo um motociclista passar velozmente pela rua de cima. Ele dá meia-volta, atravessa a pista e estaciona diante de uma escadaria. Olha para trás. Sai da moto, tira o capacete. Certamente vai cometer um ilícito. O homem parece analisar o jardim. Olha para os lados e pula uma mureta baixa. Colhe uma rosa branca. Depois parece refletir melhor, colhe mais outra e uma terceira (depois de escolher muito bem). Amarra em um buquê, bota o capacete de volta e sobe na moto. “Alô, polícia?”, pensei em anunciar. “Temos aqui um meliante agindo de forma premeditada com a flagrante intenção de roubar um coração. Não demorem. E tragam reforços.”

Ninguém precisa de televisão quando se tem uma varanda – ou, vá lá, uma janela com vista para a rua. Por aqui vejo de tudo: briga de bêbado, procissão, filmagem de comercial, ladrão no telhado, carro na contramão, bloquinho de Carnaval. Quando venta muito, a gente vê baldes voando. Quando chove, é a inundação descendo a ladeira. De vez em quando falta luz no bairro e é bonito divisar uma fronteira entre ruas iluminadas e ruas escuras, enquanto o farol dos carros abre um clarão no asfalto adiante.

Outro dia caiu um balão enorme numa casa da rua de cima; vieram uns malucos gritando numas motos, pularam o portão, deram uma apagada parcial no fogo do telhado e fugiram correndo. Depois de um tempo apareceram os bombeiros e duas viaturas de resgate para apagar o resto do fogo. Tudo isso aconteceu em questão de 15 minutos. Pelo que pude apurar, os moradores estavam na sala assistindo à televisão. Um deles continuou sentado no sofá enquanto o outro atendia os bombeiros.

Confesso: tenho um binóculo Celestron 15 x 70, que serve para enxergar as luas de Júpiter, a inclinação dos anéis de Saturno, algumas nebulosas e a Estação Espacial Internacional. Serve também para entender o que aqueles homens estão fazendo no meio da rua às 3 da manhã (recapeamento), de que companhia aérea é este avião enorme no céu (Qatar Airways) e, por fim, se o vizinho da frente está mesmo limpando o sangue de uma faca e de um serrote depois de esquartejar a esposa inválida (não, isso foi com o James Stewart e eu preciso parar de ver esse tipo de filme).

Não que eu passe a madrugada de binóculo em punho vigiando a rua – isso só quando tem chuva de meteoros e fica nublado de repente. Aí não sobra muito o que fazer. Às vezes estou casualmente estendendo roupas no varal e vejo alguma coisa interessante; a questão é que eu costumo estender roupas lá pelas 2 da manhã, quando qualquer coisa que acontece é interessante. E lá vou eu acompanhar a caminhada solitária de um homem que demora dez minutos para percorrer a rua, parando para amarrar os sapatos e soltar um espirro agudo que quebra o silêncio denso do orvalho. Ou um casal que espera o ônibus noturno para a Cachoeirinha. Ou um bêbado que recita a altos brados versículos aleatórios da Bíblia.

Também não precisa de telefone aquele que tem uma boa varanda. Até pouco tempo atrás, da minha sacada era possível enxergar (de binóculo) a feirinha de orgânicos da rua de trás. Assim dava para conferir se haviam chegado meus adorados pimentões, pepinos e morangos. O problema é que às vezes eu espiava com displicência e descia correndo para arrematar meia dúzia de tomates, só para chegar ao local e descobrir que eram maçãs. Para piorar, as verduras ficavam guardadas numa área mais fresca, dentro da loja, o que dificultava enormemente a minha apuração a distância. Sugeri – a sério – que o funcionário afixasse um cartaz na parede com os dizeres: “Vanessa, chegou a alface”, e fui recebida com ceticismo.

Mas nem tudo é contemplação passiva nesse ofício de sentinela de varandas. Já tentei travar contato com os vizinhos do prédio da frente que ostentavam uma portentosa árvore de Natal de 2 metros de altura, mas eles fingiram que não me viram. (Minha filha gritava: “Batussínu!”, o que na língua dela quer dizer “Bate o sino”, e gesticulava com os braços. Ambas fomos ignoradas.)

Há pouco decidi travar uma competição com outro vizinho da frente: estamos vendo quem será o último bastião de resistência dos piscas-piscas de Natal. Nunca tinha parado para pensar que não existe polícia estética que obrigue os cidadãos a observar os feriados corretos em seus adornos domésticos; não há multa para os que deixam abóboras de Halloween como enfeites de porta bem depois de outubro ou para os que usam um capacho temático de Páscoa no ano inteiro. Esse descaso das autoridades tem consequências preocupantes: já estamos em março e nenhuma das duas varandas dá sinal de desistir dos enfeites cintilantes.

Coitados dos vizinhos; não imaginam com quem estão lidando. Mal sabem eles que nossas bandeirinhas de festa junina foram até dezembro, chegando a coexistir com os piscas-piscas.

“Alô, polícia? Temos aqui uma cronista de varandas atuando sem licença e espalhando o anarquismo decorativo pela vizinhança. Tragam reforços. Ela está armada de advérbios e não irá hesitar em usá-los.”

Protesters against police violence in Rio de Janeiro’s favelas. Last year, police killings in the state reached a 20-year high. Credit: Silvia Izquierdo/Associated Press

Security forces have always been unaccountable for their actions in the favelas. But under Bolsonaro, things have gotten even worse.

The New York Times
Mar. 16, 2020

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — It was around 5 a.m. on an average Tuesday. I was sitting on the sofa eating toast when I received a Facebook notification saying that a police raid had just begun. “Please don’t leave your homes,” I read. “If you are outside, take shelter!”

Classes were canceled that morning. Armored tanks rolled through the streets, shooting seemingly at random. By 8 a.m., according to reports, police officers broke into homes and tortured residents. Others headed to the roofs to set up sniper hideouts. The operation lasted all day. It was entirely typical.

Of course it didn’t happen where I live — a middle-class neighborhood in São Paulo, where such acts of state terror would be nearly inconceivable. No, the operation took place last month in Complexo da Maré, a complex of 16 favela communities in Rio de Janeiro where approximately 140,000 people live.

I recently started following the Facebook page “Maré Vive” (Maré Lives) months ago, in a vague effort to grasp what it would feel like living in a Rio favela. To keep residents safe, the page shares information and live updates on police raids in the community. Almost every morning, around 5 a.m., I receive their daily forecast. Will everything be calm in the favela today? Or are the tanks already rolling in? It’s almost like a weather forecast — if only you could trade raincoats for bulletproof vests.

And yet I can shut down the computer and forget all about it right away, if I want to. Residents can’t. In 2019, according to a report by the nonprofit group Redes da Maré, there were 39 police operations in the complex — one every 9.4 days — that lasted almost 300 hours and left 34 people dead. (None of them were white.) Twenty-four school days have been lost. (School is canceled when there’s a police raid.)

The raids are part of a disastrous policy to combat drug trafficking in Rio de Janeiro. The state’s security forces have always been violent and unaccountable for their actions in the favelas, but things have gotten even worse under the country’s far-right president, Jair Bolsonaro, and his ally, Rio de Janeiro’s governor Wilson Witzel.

Mr. Witzel has promised to “slaughter” criminals in the communities, saying that military police should “aim at their little heads.” This is at the core of his public security policy, which consists of tough-on-crime rhetoric, giving carte blanche to the police and nothing else. Last year, he claimed he should have the right to send a missile into a favela in order to “blow up these people.” He encourages incessant and deadly police invasions into poor communities in pursuit of drug gangs, failing to recognize that most of the residents are law-abiding, working citizens.

As a result, police killings in the state of Rio de Janeiro reached a 20-year high last year, with 1,810 people murdered by security forces — almost five deaths per day. (Twenty-two police officers were killed in the same period.) Police forces are now responsible for 43 percent of all the violent deaths in the state, an astonishingly high number even by Brazilian standards.

While the authorities claim that most of the victims are gang members who engaged in confrontations with the police, many cases show signs of being extrajudicial killings. Other times, victims are innocent bystanders caught in the crossfire: Six children died last year during police raids in Rio de Janeiro’s poorest communities. (Most of these murders are still unsolved.) Other victims were wrongfully targeted; if you are black and live in a favela, anything can be mistaken for a gun. People have been killed for carrying an umbrella, an hydraulic jack, a cellphone, a backpack. Four years ago, a 16-year-old boy was killed when his bag of popcorn was mistaken for drugs.

In the poorest neighborhoods, random episodes of violence, torture, humiliation and verbal aggression by the police are so common that we have a word in Portuguese for them: “esculacho.” The slang refers to the degrading treatment of black poor citizens by police officers. Kicking down a door and waking up everyone inside the house, putting rifles to their heads and accusing them of using drugs? Pretty typical esculacho. “Our society has constructed the idea that the favela is inferior, that the people who live there are worth less,” the journalist and activist Raull Santiago said in an interview with The Guardian. He is the co-founder of “Papo Reto” (Straight Talk), a group similar to “Maré Vive,” which monitors police abuses in the Complexo do Alemão favela, also in north Rio de Janeiro.

Last year, Mr. Santiago recorded and broadcast several scenes of the police in armored helicopters opening fire at his neighborhood from above. Firing from helicopters has intensified in the last couple of years — so much so that a school in Complexo da Maré installed a big yellow sign on the rooftop that read, in capital letters: “SCHOOL, DON’T SHOOT.”

At least two people died and two were wounded in the “typical” raid in Complexo da Maré I mentioned earlier, which took place on Feb. 18. The authorities found one rifle and two radio transmitters.

It’s obvious that these random, brutal police raids are not effective at combating organized crime or drug trafficking. They do certainly serve to undermine any trust that residents may have in the police, which should be protecting them, and in the government, which should at least acknowledge them as citizens.

I don’t know what it would take for the authorities to understand that people who live in favelas are just as deserving as anyone else when it comes to eating their toast in peace and, well, staying alive. But I have a suggestion. Let’s install a sign on every rooftop and every street: “HUMAN BEINGS, DON’T SHOOT.”


Vanessa Barbara is the editor of the literary website A Hortaliça, the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese, and a contributing opinion writer. 

A version of this article appears in print on March 22, 2020, Section SR, Page 3 of the New York edition with the headline: Brazilian Police Are on a Rampage. 

Nenê Gigante

Itaú Cultural
Brechas Urbanas, fev. 2020

por Vanessa Barbara

Há anos circula pela internet o vídeo “Caminhando com Tim Tim”, que resume bem o que é andar pelas ruas da cidade na companhia de uma criança pequena.

A artista Genifer Gerhardt descreve a venturosa jornada de Valentim, de 1 ano e 4 meses, até a “casa da vovó”, que fica a duas quadras de distância. O menino dispara na frente, estanca, volta, examina pedrinhas, sai correndo de novo. Ele anda de forma cambaleante, tem um penteado arrojado e veste sandálias vermelhas e azuis. Genifer, que é mãe, “palhaça, bonequeira e poeta”, descreve os quatro encontros do garoto nesse curto percurso: ele cumprimenta seu João, morador de rua e flanelinha; seu Jorge, o guardador de carros do restaurante da esquina; o “homem do mercadinho” e seu gato; e os três senhores do almoxarifado do hospital.

Com Valentim ela aprende que “chegar não é mais valioso que a andança, e que o encontro é precioso e necessário”. O menino exibe as sandálias para um dos amigos, faz carinho no gato de outro, dá a mão para atravessar a rua. Não tem pressa. Às vezes parece se perder observando uma pedra.

Penso sempre nesse vídeo quando passeio com minha filha de 1 ano e 7 meses, que atende pelo codinome de Batatinha. Ela frequenta uma creche que fica a 400 metros de casa. O horário de saída é às 6 horas. Porém, quando vou buscá-la, é comum chegarmos em casa lá pelas 7, cansadas e falantes, cheias de aventuras para contar.

Batatinha gosta de reparar nos buracos da calçada e pedir que os passantes tomem cuidado com as poças d’água. Gosta de ver os balões azuis da loja de sapatos, os passarinhos que dão voos rasantes, o pandeiro da loja de instrumentos musicais, uma letra “O” gigante em um letreiro de estacionamento. (Ela gosta do “O” porque é uma letra que está sempre espantada.) Empolgadíssima, avisa a todos quando vê um carro vermelho ou o caminhão do lixo.

É comum que ela pare subitamente e fique encarando alguém em específico: outro dia foi um pai com um menino na garupa de uma moto estacionada. Estavam ambos de capacete, o que lhe pareceu bastante intrigante. Ela passou uns bons minutos olhando séria para os dois, sem dizer nada. Nessas horas, eu já nem fico mais constrangida; apenas aguardo, respeitando o tempo misterioso de suas contemplações. Só parou de encará-los quando a moto foi embora. Então retomou o passo.

Batatinha gosta de ir comprar pão na “padaria da Raíssa”, que é a atendente do turno da tarde da padaria da esquina, e às vezes leva uma florzinha para ajudar a pagar a conta. Ela gosta de procurar a “lua magrinha” (minguante) no céu e fica feliz quando consegue avistar uma estrela. Quando os funcionários de uma clínica oftalmológica jogam arroz para os pombos, o percurso ganha uns 15 minutos a mais.

Sair para caminhar com uma criança pequena é uma aula prática de relatividade: o tempo e o espaço se distorcem, e nada é tão objetivo e direto quanto um dia já pareceu. Uma quadra pode ser percorrida em 20 segundos ou 20 minutos; às vezes escurece assim que dobramos a esquina.

Há dias em que saímos de casa apenas para visitar duas extraordinárias atrações do bairro: o “nenê gigante” e o “cabelo maluco”. O primeiro é a foto grande de um bebê de gorrinho no letreiro de uma loja infantil. Ele está abrindo a boca com ar de deslumbramento. Perdi a conta de quantas vezes fui até lá só para apreciar essa surpreendente obra de arte contemporânea; não sei como ainda não me cobraram ingresso. O Nenê Gigante evoca na Batatinha um enlevo estético que nenhum museu seria capaz de replicar. (Acho que é o ar de espanto.)

O Cabelo Maluco se refere ao penteado dos manequins de uma loja de roupas. Um dia, Batatinha conseguiu testemunhar o momento em que uma das vendedoras vestiu com um macacão branco o manequim pelado, que ainda por cima estava sem braços. A funcionária deixou que a extasiada visitante tocasse no cabelo maluco, que se enrola para o alto feito um sorvete de casquinha.

Batatinha só falou disso pelo resto da semana.

Manequins sem cabeça também despertam o interesse filosófico da menina, que logo se apressa em checar se a dela continua no lugar. Não se conforma com a negligência dos bonecos, que deixam cair a cabeça pela rua. Outro dia refletiu bastante, apalpou meu pescoço e declarou, aliviada: “A mamãe não perdeu a cabeça”. (Eu não seria tão categórica assim.)

Agora que Batatinha já sabe falar, todas essas aventuras ganham comentários descritivos em tempo real: “O menino espirrou”, “Olha o cabelo azul!”, “Oi, cachorrinho, tudo bem?”, “O moço tá dormindo”, “Acabou o Natal”, “O vento levou o chapéu”, e assim por diante. As peripécias são relembradas e recontadas ao longo de vários dias. As experiências do passeio de ontem são evocadas no passeio de hoje, como se pregássemos dezenas de placas comemorativas em cada ponto de interesse.

No domingo passado nós simplesmente saímos para dar uma volta no quarteirão, sem destino. Foi como uma road trip sem automóvel. Encontramos cachorros, lixeiras sem tampa, o Guigui de bicicleta, um homem soldando uma porta, um sapato esquecido no chão (“Pega, Cinderela!”). Sentamos na escadaria da rua para tomar água. Puxamos conversa com 13 ou 14 passantes.

A cidade da Batatinha tem a medida exata do seu assombro.

Cabelo Maluco
Deforestation in the Amazon (above) has skyrocketed under Brazil’s right-wing President Jair Bolsonaro. Photo: Joao Laet/AFP/Getty Images

Vogue | Up Front
Jan. 2020

by Vanessa Barbara

IT WAS A MONDAY AFTERNOON when day turned into night in the city of São Paulo. I was visiting an expensive nursery school for my 13-month-old daughter, trying to look remotely worthy of such a sophisticated institution. Although it was not supposed to rain that day, the sky suddenly disappeared behind a dense layer of low, heavy clouds. A two-year-old boy stepped out of his classroom, rubbed his eyes, and looked inquisitively at the principal, who said, “No, it isn’t night yet, dear, and your father’s not here to pick you up. Go back inside.”

Later that day, meteorologists struggled to explain the midday darkness. They eventually blamed low-lying clouds from a cold front combined with smoke from the fires in the Amazon rain forest, thousands of miles away. Many people saw this as a sign. While we Brazilians were carrying out our day-to-day activities in oblivion, our rain forest was sending an unequivocal distress signal. How were we going to answer? Was there anything we could do besides posting angry rants on social media?

In August, Brazil’s National Institute for Space Research reported an 84% increase in fires in the country compared with the same period in 2018. More than half of these were in the Amazon region. Thanks to images from NASA and NOAA satellites, one can see the extent of the devastation: dozens of smoldering patches of land clouding the otherwise dark-green landscape. The smoke from the flames had already swept across several Brazilian states, including São Paulo.

These were not natural wildfires—nor caused by weather and other factors, like the recent, devastating blazes in California. They were likely set by cattle ranchers, farmers, and loggers to clear the land for commercial purposes. Their method is well known: First they pull trees by their roots, using tractors equipped with chains. They wait a few months for the dry season, and when the piles of wood have finally dried, they set fire to everything.

It’s been going on for decades. For a while, between 2004 and 2014, a stricter enforcement of environmental laws had effectively curbed the pace of deforestation. But over time, a coalition of landowners, soy producers, and other rural players—the so-called agribusiness caucus—has gained more and more power in Brazilian politics, pushing its economic interests further into the forest. Then came the election of far-right politician Jair Bolsonaro—a notorious anti-environmentalist who sneers at the rights of indigenous people—and all hell broke loose.

Landowners have felt emboldened by the new president’s rhetoric. Some of them even coordinated a recent “fire day” in the northern state of Pará to declare their right to burn land. Worse, several reports have described a gruesome uptick in attacks on indigenous territories since Bolsonaro won the presidency, with several cases of homicide, stoning, and arson. Last January, dozens of men armed with machetes, chainsaws, and firearms entered the protected territory of the Uru-eu-wau-wau tribe to claim land for commercial purposes. They marked trees and staked out plots for sale. For months the tribespeople have fought back. Now part of this territory is on fire.

The author with her daughter, Mabel, photographed in the Brazilian city of Juiz de Fora. Photo courtesy of Vanessa Barbara

SO THERE WE WERE in the streets of one of the world’s largest cities as the sky turned dark. Ironically, my husband and I were interested in that upscale nursery school mainly because it is one of only a few in the neighborhood with a large outdoor area, a place where children are not confined to a concrete room depressingly devoid of windows. In a dense city like this, where trees are such a luxury, it can be hard to believe there’s hope for the Amazon.

But I’ve long since learned that being Brazilian is an exercise in helplessness. Protesting in the streets, organizing strikes, or calling the United Nations to beg for international attention—it can all feel beside the point given the Brazilian government’s legendary ability to ignore its own people. Sometimes policies temporarily change—under the heat of media pressure, perhaps—only to worsen exponentially later, when the news cycle has moved on.

The feeling of helplessness is acute for someone like me, a writer and journalist who is constantly taking stock of her country. One of my columns for the New York Times, for instance, praised the United Nations’ special rapporteurs—independent experts who monitor countries on behalf of the international body. I’d learned about them through my work: Whenever I researched a serious Brazilian matter related to, say, the environment, or the rights of the indigenous people, I would find out there had been a stern, accurate statement from a special rapporteur condemning exactly this situation. And the statements were always ignored. “Let’s keep working together on being neglected,” I wrote at the end of my piece. And I meant it.

But helplessness is no way to live, or else why would I have chosen to have a child? There is something endearingly foolish about a couple deciding to bring a new life into this world, I think. And things were not good when I decided to take the leap of faith: President Dilma Rousseff had been recently impeached on controversial charges of manipulating the federal budget. The incumbent government was enjoying an approval rating of 3%—almost lower than the poll’s margin of error. And yet I decided to go for it. I mean, the future had to be brighter, right? Little did I know that I would be nursing my tiny baby when the unimaginable happened: Jair Bolsonaro elected the 38th president of Brazil. The retired military man who praised the country’s history of dictatorship and who disparaged women, blacks, and homosexuals. The same man who vowed to put an end to all activism in Brazil. Indeed things could get worse. At home, watching the returns come in, I cried so much that my daughter stopped nursing to look up at me. She was wearing a rainbow onesie that day.

The grim new reality gave fresh resonance to another leap of faith I’d taken some years before. This was at another moment of powerlessness—personal and professional—and I’d first considered such remedies as studying medicine, opening a turtle sanctuary, or joining one of the remarkable environmental NGOs that work in Brazil. Feeling unsuited for any of it, I settled instead on one of the few true freedoms that we have: the choice of what to eat. I became a vegetarian.

At first I was guided only by ethical reasons: Animals are sentient beings that feel pain and are due certain moral rights. Killing a living creature seemed to me justified only in extreme circumstances; consuming an animal just for your own pleasure, convenience, or out of habit was morally wrong. I felt strongly about this, but I knew it would be difficult—for a number of reasons—to stop eating meat. I hate to cook; there are very few vegetarian restaurants in this city that open for dinner. I’ve had anemia before; I struggle with chronic depression. None of it would be easy, I complained to a vegan friend. (Until then, the only thing we had in common was our commitment to amateur astronomy.)

He just replied, “You are seeing this from the wrong point of view.” When we moan about difficulty, what we really mean is we’re not willing to stand up for fundamental change. Try talking about difficulty to a cow waiting in the line to get a captive bolt in her skull. Try talking about difficulty to indigenous tribes being exterminated to make room for livestock. Would I resign myself to helplessness? How serious was my indignation? I decided to get my act together; I consulted a nutritionist and stopped eating meat on the same day.

THE FACT THAT most Brazilians don’t think, even for a moment, about vegetarianism— that we are one of the world’s most carnivorous countries—spurred me along in my defiance. The case for eating meat is conservative, as conservative as the people who voted for Bolsonaro. They’d argue that meat-eating is natural, normal, and even necessary.

They’d appeal to tradition, evoke images of Christmas turkeys roasting in wealthy suburban homes. According to their worldview, vegetarians are outsiders, along with homosexuals, feminists, atheists, environmentalists, indigenous people, blacks, and immigrants—the same groups that Bolsonaro once swore to eradicate. Such an honor, I thought.

Gradually my choice became more about politics—and about the climate. These facts are fairly well known: Going vegetarian is one of the four biggest environmental contributions a single person can make—along with having one fewer child, living car-free, and avoiding air travel (especially transatlantic flights). The livestock sector is horribly inefficient, representing nearly 15% of global greenhouse gas emissions, while providing just 18% of calories and a third of the protein consumed around the world. In 2010, the U.N. reported that a significant reduction of the impact from greenhouse gases could be possible only with “a substantial worldwide diet change, away from animal products.” And in October 2018, a report in Nature argued that a shift toward plant-based diets was essential to mitigate the effect of greenhouse gases. According to the research, citizens from rich nations such as the United States would need to cut beef consumption by 90%.

And, of course, Brazil is the world’s largest exporter of beef and the second-largest soy producer. (Around 70% of the world’s soybean ends up as feed for animals—not for direct human consumption.) Livestock production is by far the leading cause of deforestation in the Amazon. According to a 2004 report from the World Bank, medium- and large-scale cattle ranching accounts for 80% of all converted land in the forest. Which is probably why President Bolsonaro recently declared that environmental issues matter only to “vegans, who eat only vegetables.” He was speaking for the status quo.

In the end, we didn’t choose the upscale school for our daughter—and not only because it was too expensive. I feared she would grow up among rich, entitled children of the same conventional families, and she would lack a diversity of perspective. We decided to hang around a few more months on the waiting list for the public nursery schools, which are unpretentious but have very nice teachers. I supposed she would be more comfortable there, with her rainbow onesie and her feminist toys. (She has a knitted Molotov cocktail, which we often throw at the chauvinist Easter Bunny. She also wears a secondhand onesie that says prince, which my neighbors find outrageous.)

I have to admit I feared the conversations I would have with the other parents in that upscale school. Already I catch myself dodging small talk in order to hide the fact that I’m a vegetarian; I’ve also learned to make excuses to skip barbecues or feijoadas, serving a traditional Brazilian dish made with black beans and pork. I mostly try not to sound judgmental, since I feel that people here can see my dietary choices as a threat to their way of life. After all, everyone knows that a woman should cook, obey her husband, and honor the Lord by diligently consuming His creatures. If I refuse to follow these rules, there must be something wrong with me. Maybe I’m secretly trying to boycott the Brazilian meat industry. Maybe I’m not patriotic. Maybe this will become one of the many subversive acts that call for punishment.

I am equally aware that the efforts of a single person are barely a scratch in the grand scheme of things. A vegetarian mother does not create a greener, compassionate world for her child (and my daughter is eating meat . . . for now. I’ll let her decide for herself when she’s older). I’ve never been the one to make decisions by weighing their consequences, for better or worse, so in a way it doesn’t matter if my vegetarianism has any effect on whether Brazilians continue to raise and kill animals for food. Brazil may indeed become a country with no place for indigenous people, homosexuals, blacks, feminists, environmentalists, and vegetarians. The fires may persist, the smoke continuing to gather. But I will choose not to participate in that grim barbecue.

Women performing “Un violador en tu camino,” or “A Rapist in Your Path,” in a demonstration against gender-based violence in front of the National Stadium in Santiago, Chile, last month. Credit: Esteban Felix/Associated Press

Women in Chile, Brazil, Argentina and elsewhere know: Stopping violence against women starts with politics and power.

The New York Times
Jan. 29, 2020

by Vanessa Barbara
Contributing Opinion Op-ed Writer

SÃO PAULO, Brazil — During the jury selection process for Harvey Weinstein’s criminal trial this month, dozens of women gathered outside a Manhattan courthouse to perform a version of the dance/chant known as “Un violador en tu camino,” or “A Rapist in Your Path.” First in Spanish, then in English, they sang: “Patriarchy is our judge that imprisons us at birth/And our punishment is the violence you don’t see.”

This performance, which quickly went viral, was created last year by the feminist collective Lastesis in Valparaíso, Chile, and is based on the work of the Argentine-Brazilian anthropologist Rita Segato. The lyrics describe how the state upholds systematic violations of women’s rights, through institutions such as the judiciary and the police. It’s not just that members of those institutions simply disregard the complaints — looking the other way, doubting the victims — but that they are often the perpetrators themselves. “This oppressive state is a macho rapist,” the chant goes.

“Un violador en tu camino” was first performed in front of a police station by a small group during a protest in Valparaíso on Nov. 20. It was then repeated five days later in the capital, Santiago, by hundreds of activists on the International Day for the Elimination of Violence Against Women. In early December, a group of thousands sang the anthem together outside Santiago’s National Stadium, which was a detention and torture center during Chile’s military dictatorship. (In one verse, the song mentions the “disappearance” of women.)

From there, it has spread all over the world: London, Berlin, Paris, Madrid, Barcelona, Tel Aviv, New Delhi, Tokyo, Beirut, Istanbul, Mexico City, Caracas, Lima, Buenos Aires, among other places. In Manhattan, according to The Associated Press, it caused “a commotion so loud that it could be heard in a 15th-floor courtroom.”

Protesters performing “A Rapist in Your Path” outside the Manhattan courthouse where Harvey Weinstein’s sexual assault trial is underway. Credit: Carlo Allegri/Reuters

The choreographed dance begins with a driving drum beat, as the women do a side-to-side movement and stomp out the rhythm with their feet. Many verses speak universally about the violence against women: They mention rape, femicide, impunity for the killers. “And it’s not my fault, not where I was, not how I dressed,” they shout, as if collectively rebuffing the same old forms of victim-blaming.

But the performance also carries strong local elements that might go unnoticed by the broader public. One verse sarcastically quotes the Chilean police anthem word for word: “Sleep calmly, innocent girl/ Without worrying about the bandit,/ Over your dreams smiling and sweet,/ watches your loving police.” The title, “A Rapist in Your Path,” is also an ironic appropriation of an old slogan used by the national police, “a friend in your path.”

The performance also makes references to police abuse in Chile, and by extension in neighboring countries. Part of the choreography includes squatting down, hands behind the head, a common search procedure still performed in many Latin American countries: Police officers and prison wardens often force women — sometimes even children — to squat, naked, in order to do a body cavity search.

The activists wear a black lace blindfold as a symbol of the often invisible ways that women are made vulnerable, but also as a nod to the hundreds of protesters who were partly blinded by the Chilean police in the past three months. (Since the beginning of the demonstrations, Chilean’s National Human Rights Institute has filed 1,080 lawsuits against the state, 770 for allegations of torture and inhumane treatment and 158 for sexual abuse, including four rapes.)

In Latin American countries, women performing the song also wear pañuelos verdes — the green scarves symbolizing the campaign for legal abortion. (The use of green scarves as an abortion-rights emblem derives from the white scarves carried by the Madres de Plaza de Mayo, whose children disappeared during Argentina’s military dictatorship.)

But “Un violador en tu camino” is way more than its Latin American specificities. This is why it has spread so far and so quickly. It speaks about something that is true in too many countries — not only Chile, Argentina or Brazil. “The rapist is you,” the women repeat here and everywhere, either pointing to a courthouse, to the police headquarters or to the presidential palace. They mean that violations against women are not isolated events, not merely connected to interpersonal relations, but rather, essentially political. Activists point a finger at institutions that facilitate gender-based violence by systematically dehumanizing women and promoting ideologies to keep them under control.

For proof that this is really a global political issue, look to Turkey, where the police broke up a performance of the song in Istanbul and confiscated the activists’ megaphone. Six women were arrested for supposedly insulting the president and degrading the institutions of the state. In a separate incident, courts issued arrest warrants for 25 women who protested in Izmir, while nine were detained. “Turkey has become the only country where one has to have immunity to stage this protest,” said a lawmaker, Sera Kadigil, as she and other colleagues staged a version of the protest in the parliament.

It should come as no surprise that female representatives make up only 17 percent of the Turkish parliament and 11.8 percent of the ministerial positions. The country ranks 130th out of 153 countries in the World Economic Forum’s Global Gender Gap Report for 2020.

Performing the piece in front of the Supreme Court in Brasília last month. Credit: Eraldo Peres/Associated Press

Here in Brazil, we face similarly depressing statistics. Activists here have added a couple of verses to the lyrics of “Un violador,” saying: “Marielle is present. Her killer is a friend of our president.” These refer to Marielle Franco, a Brazilian City Council member who was assassinated in 2018, and to the fact that President Jair Bolsonaro has ties to both of the suspects in the killing. (The investigation is ongoing.) In Brazil, women occupy 15 percent of the lower house seats and 9 percent of ministerial positions.

“It’s the cops. It’s the judges. It’s the system. It’s the president. The rapist is you.”

According to the 2020 Global Gender Gap Report, the largest gender disparity in the world still lies in the sphere of political empowerment. I dare say that’s where everything else begins. Only 25 percent of the 35,127 global parliamentary seats are taken up by women, a figure that drops to only 21 percent at the ministerial level. In nine of the 153 countries the forum examines, women are not represented at all. Over the past 50 years, 85 countries have had no female head of state.

It is no wonder that women from Chile, where the song was created, are demanding gender parity for a forthcoming constitutional convention. There will be no justice for women as long as we are kept out of the political process. There won’t be any hope of equality. The rapists will continue while most of us stand powerless outside courthouses, police stations and presidential palaces, furiously pointing at them, to no avail.


Vanessa Barbara is the editor of the literary website A Hortaliça, the author of two novels and two nonfiction books in Portuguese, and a contributing opinion writer. 

A version of this article appears in print on Jan. 29, 2020, Section A, Page 27 of the New York edition with the headline: A Feminist Performance Goes Global.