Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada no Rio de Janeiro

The New York Times
March 28, 2017

by Vanessa Barbara
Trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves/ Uol Notícias

Faz mais de um mês que o Exército brasileiro assumiu o controle da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro, seguindo um decreto presidencial para atacar o crime. Uma das vozes mais eloquentes contra essa intervenção foi a de Marielle Franco, uma mulher de 38 anos, negra e bissexual que veio da favela da Maré e era membro da Câmara de Vereadores do Rio.

Em 14 de março, ela foi assassinada com quatro tiros na cabeça depois de participar de um evento com outras jovens mulheres negras no centro do Rio de Janeiro.

Franco foi eleita em 2016 e era a única mulher negra entre os 51 membros da Câmara municipal. Era uma defensora veemente dos direitos humanos, feminista, mãe, membro do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e acabara de ser nomeada relatora de uma comissão legislativa que monitoraria a intervenção militar.

“E aí, quem é que vigia os vigias?”, perguntou ela em uma entrevista no mês passado. “Quem presta contas?” Essa não era uma pergunta retórica; era uma questão urgente. Em janeiro passado, no Rio de Janeiro, pelo menos 154 pessoas foram mortas pela polícia; seis policiais foram assassinados em serviço. A maioria deles — civis e policiais — era negra e vinha dos bairros mais pobres do Rio.

Há uma preocupação de que esses números aumentem com os militares no controle. O comandante do Exército brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, disse recentemente que suas tropas precisavam de “garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade no futuro”, referindo-se à investigação dos abusos cometidos sob a ditadura militar que durou de 1964 a 1985. O comandante também manifestou interesse em obter “mandados coletivos” de busca e apreensão que seriam emitidos para uma área ampla, como por exemplo, uma favela inteira, e não para um endereço específico.

Marielle defendia todas as vítimas dessa “guerra às drogas”. Enquanto trabalhou na Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores do Rio, ela ajudou dezenas de famílias de policiais que foram mortos no cumprimento do dever. Em sete anos, segundo ela, nunca visitou uma família que morasse “da Tijuca para cá”, querendo dizer que a maioria dos policiais vive nos subúrbios mais pobres da cidade. “E geralmente são negros”, afirmou.

Marielle Franco em comício durante as eleições de 2016

 

Mas Marielle também era uma destemida crítica da violência do Estado. No passado, trabalhou como assessora de uma comissão parlamentar que investigou o envolvimento da polícia e de políticos em milícias. Alguns dias antes de ser assassinada, ela acusou o 41º Batalhão da Polícia Militar, a unidade mais letal da cidade, de aterrorizar e assediar os moradores da favela de Acari.

Na véspera do crime, ela lamentou a morte de Matheus Melo, um rapaz de 23 anos que levou um tiro quando saía de uma igreja. “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM”, escreveu ela no Twitter. “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”

A identidade e o motivo dos assassinos de Marielle continuam desconhecidos, mas está claro que o crime foi premeditado: os assassinos esperaram que ela saísse do evento e a seguiram em dois carros por alguns quilômetros. Então efetuaram uma execução a tiros cuidadosamente planejada e deixaram o local rapidamente, sem levar nada. Segundo investigadores, as balas vieram dos estoques de munição da polícia. (O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse acreditar que elas foram roubadas de uma agência dos Correios.)

O Brasil é um dos países mais letais para os defensores dos direitos humanos, ao lado da Colômbia, México e Filipinas. Segundo um relatório da Front Line Defenders, 67 ativistas foram mortos no Brasil no ano passado. De todos os casos acompanhados pela entidade, só 12% resultaram na prisão dos suspeitos. Isso parece comprovar a eficácia sinistra dessas execuções.

Mesmo quando os crimes recebem cobertura da mídia, as pessoas frequentemente criam outras narrativas para explicar os assassinatos: a pessoa foi morta por um amante, por traficantes de drogas ou pela máfia, ou cometeu suicídio. E pior: ela talvez merecesse isso.

Está acontecendo agora com Marielle. Logo depois da execução, começaram a circular notícias falsas nas redes sociais. Algumas diziam que ela era casada com um traficante de drogas, outras que era membro de uma organização criminosa. Alguns diziam que ela fumava maconha. Outros que ela teve um bebê aos 16 anos. Que crime! (A verdade: ela teve um bebê com 19 anos, uma menina chamada Luyara. Não posso imaginar como isso possa ser relevante para seu assassinato.)

Poucas semanas depois, a narrativa em torno da morte de Marielle está mudando mais uma vez. Noticiários de televisão exageram no melodrama, focalizando a tragédia humana; nunca são suficientes os closes de parentes chorando. Então eles usam esse momento de dor para colocar tudo debaixo do guarda-chuva mais amplo da “violência” no Rio, para concluírem anunciando alegremente que o governo federal vai liberar mais algumas centenas de milhões de reais para a intervenção militar no Rio de Janeiro. Problema resolvido.

Isso é exatamente o oposto do que Marielle Franco defendia.

Ela passava os dias combatendo a desigualdade e a injustiça, e não uma ideia abstrata de “violência”. Por isso, não adianta levar mais terror e repressão às favelas, matando mais das mesmas pessoas (negros, jovens e pobres). Desviar recursos de áreas como a saúde e a educação para financiar mais balas e tanques só irá agravar a violência. Nesse sentido, Marielle defendia uma nova política de drogas que não envolvesse incursões armadas nas comunidades. Ela também apoiava uma maior diversidade na representação política, encorajando a participação e candidatura de mulheres, pessoas LGBT e indígenas. Seu caminho era o democrático, e não o caminho autoritário do regime militar.

Ela considerava a si mesma e outras mulheres “uma real ameaça ao status quo“, como escreveu no ano passado em um artigo de jornal. Na sua opinião, os poderosos estariam tentando estreitar as frestas democráticas existentes. “Mas nós, mulheres, negras, das periferias, ponta de lança das transformações e de um mundo melhor, vamos enfrentar esse disparate autoritário”, disse ela.

Suas últimas palavras gravadas em vídeo foram dirigidas a um grupo de jovens negras: “Vamo que vamo, vamo junto ocupar tudo”.


Vanessa Barbara é editora do site literário A Hortaliça e colunista de opinião do INYT.

Este texto foi publicado em inglês na página A8 da edição nacional do The New York Times de 29 de março de 2018, com o título: Don’t turn an activist’s killing into melodrama.