Síntese de paulistano

Postado em: 17th março 2014 por Vanessa Barbara em Crônicas, Folha de S. Paulo, Revista

Folha de S.Paulo – revista sãopaulo
16 de março de 2014

por Vanessa Barbara

São Paulo é muito mais do que um homem xingando da janela do carro e estacionando na vaga para deficientes só por cinco minutos para buscar o filho no judô. É mais do que motoristas levantando o vidro blindado quando aparece um vendedor de balas e boatos histéricos repassados pela internet de que bandidos jogam ácido no para-brisas dos carros e sequestram seus filhos e sua bolsa só porque você usa um óculos da Prada.

São Paulo é muito mais do que o ódio por flanelinhas, viciados e “black blocs”, é muito mais do que “bandido bom é bandido morto” e “Gostou? Leva pra casa”. É mais do que linchamento, briga de torcida e morte de ciclistas, é mais do que ônibus incendiados, criminalidade e o Datena gritando: “Onde é que estão os direitos humanos agora?”. É mais do que violência, desigualdade, injustiça.

A cidade que abriga eventos pomposos como Fashion Week, Boat Show e Salão do Automóvel é muito mais do que os 54 shoppings coalhados de seguranças e decorações de Natal que aparecem em outubro.

Também é mais do que uma noiva que gasta R$ 10 mil num vestido e R$ 500 num bolo de isopor, é mais do que um rei do camarote pedindo para trazerem a bebida que pisca. É mais do que universitárias bêbadas que passeiam pela avenida Paulista de limusine e encomendam suas monografias de conclusão de curso por quatro vezes de R$ 600; é mais do que faculdades ruins, alunos indiferentes e professores cansados. Sem contar os livros de autoajuda que prometem enriquecimento rápido e sem rugas.

São Paulo é mais do que subcelebridades do fitness, socialites, maquiagem definitiva e novas tinturas de cabelo; é mais do que Higienópolis, Jardins e Berrini.

É a cidade dos vendedores de picolé e dos carteiros que cantam, dos velhinhos que esperam o supermercado abrir de manhã e saem correndo para entrar na fila do pão; dos barbeiros antigos que cumprimentam os passantes e abrigam desconhecidos quando a chuva aperta. Onde às vezes se divide um guarda-chuva com uma senhora comendo canjica num prato de plástico. É a cidade de gente que adota animais abandonados e conta piadas no aperto do trem.

São Paulo é muito mais do que ódio e intolerância, muito mais do que rotular os outros de fascistas, comunistas, fanáticos, veados ou carolas —é uma cidade com crianças de 4 anos, vira-latas, dançarinos, equilibristas e gente que não dá as costas quando vê algo injusto acontecer.

Ou pelo menos é assim que devia ser.