Reportagem em grande estilo

Postado em: 14th julho 2008 por Vanessa Barbara em Clipping
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Portal Literal
14 de Julho de 2008
http://www.portalliteral.com.br/artigos/reportagem-em-grande-estilo

por Bruno Dorigatti

Em O livro amarelo do terminal (CosacNaify), Vanessa Barbara produz reportagem ao estilo do Novo Jornalismo, inspirada em Gay Talese, para mostrar as veias e avessos do maior terminal rodoviário da América Latina, o Tietê.

A rodoviária do Tietê, em São Paulo, é uma cidade de coisas perdidas. “O caça-níqueis está aqui há dois anos”, informou a funcionária, mostrando uma lista que enumerava o esquecimento de espingardas (duas), motocicletas (duas), um banco de kombi, uma máquina de serrar azulejos, camas, muletas, motores de moto, pneus, dentaduras e uma mão mecânica.

Às vezes vem gente procurando amigos desaparecidos: mostram a foto e perguntam se já encontraram”, contou Andréia, que trabalha no setor de Achados e Perdidos. De fato, muitos pernambucanos, baianos, peruanos ou mineiros perderam-se há algum tempo em São Paulo e continuam deslocados, reprimindo a cada dia o desejo de voltar para casa (depois, talvez, quando os guris crescerem e sair a aposentadoria). Têm nomes como Rosa, Hugo, Rosângela, Ivonete, José Fernando, Cláudio, Edilene. Vagam pela cidade junto aos guarda-chuvas esquecidos, aos botões que se desprenderam, às dentaduras e todas essas coisas que não se sabe mais onde estão.

Assim começa O livro amarelo do terminal (CosacNaify), reportagem que segue a linha do novo jornalismo, aquele que se adensa e se demora na pesquisa do tema retratado, utiliza técnicas de narrativas ficcionais (mas não cria nem inventa nada), preocupa-se com o rigor estilístico e vai além dos fatos puros e simples, para buscar e apurar detalhes que aparentemente não dizem muito, mas acabam por revelar algo que não pode ser visto no olhar apressado.

Vanessa Barbara conseguiu realizar a empreitada de maneira singular, ao investigar o maior terminal rodoviário da América Latina, o Tietê. O trabalho iniciou-se em 2003, como tema de sua monografia de conclusão da faculdade de jornalismo. Um ano freqüentando semanalmente o terminal com seu bloco rosa, conversando com funcionários e alguns dos que ajudam a formar o enxame diário de chegadas e partidas da principal cidade do país, pesquisando a história de sua construção e os meandros políticos que envolvem praticamente toda obra pública de grande porte. Esta parte mais factual, digamos assim, ela nos conta lá pro final do livro, escrita a partir da consulta dos jornais da época da construção do Tietê, concluída em 1981, mas cujo tema ocupava os periódicos desde 1967, com a complicação em torno do terminal Júlio Prestes, situado na área central de São Paulo.

Mas até chegarmos à informação fria, passeamos com Vanessa e as mulheres do balcão de informações, conhecemos os pessoal da sala de controle com suas vozes frias, amorfas e todas no mesmo tom, a arrogante assessora de imprensa, ouvimos conversas furtadas das pessoas que esperam parentes distantes ou aguardam o embarque para rever a família, acompanhamos Augusta – que cuida da entrada do banho – o pessoal que ajuda na bagagem – os únicos a conseguirem evitar a alta rotatividade nos empregos –, a dificuldade de se conseguir acesso a documentos públicos dos contratos de concessão da obra, a “proibição” de entrevistar, conversar e falar com quem quiser que fosse para a pesquisa – com exceção das pessoas indicadas pela assessoria – a angústia das viagens de Natal, as diferenças sociais refletidas nas diferenças entre os terminais que ligam ao norte/nordeste e ao sul do país. E por aí vai.

Gay Talese foi um dos que melhor soube traduzir o espírito do novo jornalismo. Divagando sobre o tema, falou o seguinte:

“Eu procuro seguir os objetos de minha reportagem de forma discreta, observando-os em situações reveladoras, atentando para suas reações e para as reações dos outros diante deles. Tento apreender a cena em sua inteireza, o diálogo e o clima, a tensão, o drama, o conflito, e então em geral a escrevo do ponto de vista da pessoa retratada, às vezes revelando o que esses indivíduos pensam durante os momentos que descrevo. Esse tipo de insight depende, naturalmente, da cooperação total da pessoa sobre a qual se escreve, mas se o escritor goza de sua confiança, é possível, por meio de entrevistas, fazendo as perguntas certas nas horas certas, aprender e reportar o que se passa na mente de outras pessoas.”

Pois foi isso que Vanessa conseguiu. Inclusive, ela abre o livro com um trecho que muito lembra um famoso texto de Talese sobre Nova York (cujo começo pode ser lido aqui), com alguns dos números referentes ao terminal e um acurado olhar sobre os transeuntes.

Nos corredores do terminal, 100 mil cafezinhos e 12 toneladas de pão de queijo são consumidos por mês, 300 quilos de chiclete desgrudam-se do chão a cada grande faxina e 60 mil passageiros vão e vêm, a cada dia. Todo mês, 1,4 milhão de créditos telefônicos são consumidos nos orelhões, o que equivale a 46 mil horas de conversa ou 84 milhões de “alôs” repetidos à exaustão. São 63 lojas e onze quiosques, 650 quilowatts de energia por hora, 9 milhões de litros de água e 1 mil quilômetro de papel higiênico (dentro ou fora dos cestos de lixo). Ao todo, 1 806 funcionários trabalham em três turnos: 445 na administração, 346 nas lojas, quatro mocinhas no balcão de informações e a filosófica atendente Rosângela, que odeia quando não olham para ela e lhe cospem ordens, números ou interrogações sem sentido.

Na rodoviária do Tietê, é normal colocar tigres de pelúcia na cabeça, dançar em trenzinhos de conga, cumprimentar os lojistas todos os dias às 7 horas em ponto, carregar carne-seca com vermes brancos ou sentar-se em um dos 1 200 bancos de espera para tirar os sapatos (aliviado). Pode-se dançar com uma bolacha de maisena na mão ou mostrar a fralda para os transeuntes. Pode-se ir para Piracanjuba ou para Morro do Chapéu, pode-se voltar de Buenos Aires e depois tomar um banho, após deixar 10 reais para garantir a toalha.

Também é possível pesar os volumes na Viação São Geraldo, pedir ajuda aos carregadores de amarelo – e, se você for freira e isso for mesmo necessário, embarcar sua prancha de surfe sem problemas. Nos corredores do Tietê, alguns aceleram o passo mesmo sem ter motivo e perguntam aos gritos onde fica o guichê da Cometa, mas também é permitido parar em algum canto e ficar ali, de bobeira, conversando com o Papai Noel ou com uma senhora de blusa de lã que diz (de repente) que a Marinha britânica está vindo buscá-la.

A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas.

A autora está em Parati como convidada da Flip, onde participou da primeira mesa desta quinta-feira. Além deste livro amarelo, acaba de lançar também O verão do Chibo (Alfaguara), escrito junto com Emílio Fraia, e que teve um trecho ainda inédito publicado no Portal Literal, na coluna De Olho Neles, de Marcelino Freire, em 2005.

Confira abaixo a entrevista com Vanessa. E leia trechos d’O livro amarelo do terminal aqui e aqui.

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O que a levou ao Terminal Rodoviário do Tietê?

Vanessa Barbara. A rodoviária é uma espécie de rio que tem de tudo: gente chegando, gente indo embora, parentes se despedindo, velhinhas caminhando com grandes fiapos presos aos pés, gente que trabalha por lá, gente que espera a Marinha Britânica, gente perdida e 300 kg de chicletes abandonados. “Tietê” vem do tupi: “té é té”, um rio que se mostra “muito fundo e corrente” e corta a cidade. Achei que seria um bom tema para reportagem.

Como se desenvolveu a pesquisa de campo? O texto segue uma ordem cronológica, conforme você foi conhecendo melhor aquele microcosmo?

Vanessa. De início, fiz um reconhecimento aleatório do “terreno”. Depois planejei abordar os temas básicos: os funcionários, os carregadores, os motoristas, o Balcão de Informações, a sala de controle, a assistência social, as grandes distâncias, o Natal, o Carnaval etc. Nessa lógica, algumas coisas ganharam maior importância durante a apuração, outras foram ficando de lado. O texto não segue nenhuma ordem cronológica.

Interessante como o terminal reproduz, em uma escala menor, várias facetas da cidade e do país (a “burrocracia”, as diferenças sociais refletidas nas diferenças entre os terminais que ligam ao norte/nordeste e ao sul do país etc.). Como foi se aproximar desse universo? Isso foi ficando claro à medida que a pesquisa foi se desdobrando?

Vanessa. Nunca quis abordar o terminal como um resumo de nada, e nem achei que devia inseri-lo num esquema, mas, ao terminar o livro, cheguei a uma conclusão muito negativa e achava que era um lugar de desencontros. Hoje, depois de cinco anos, relendo o texto, vejo que é muito mais um lugar de pequenos encontros, de momentos sutis, de histórias extraordinárias. Vejo o terminal com muito carinho e gostaria que cada um interpretasse do jeito que lhe aprouvesse, pois é uma coisa muito difícil de classificar.

Deixou muita coisa de fora? Reescreveu muito o texto final? Poderia falar sobre esse processo?

Vanessa. Deixei de fora um capítulo sobre bandeirantes que escreviam cartões de Natal e outro escrito em forma de peça de teatro. Da edição final, saiu um capítulo de que eu gosto muito, o da viagem ao Chile (o destino mais distante do Tietê), que cortamos por ser um relato de segunda mão, ou seja, eu não cheguei a fazer essa viagem, só conversei com gente que tinha feito. Dei uma boa revisada em agosto do ano passado – passei um mês em cima do texto, tirando algumas gordurinhas e decidindo manter outras. Foi um processo difícil, mas, no geral, o livro não mudou quase nada. O Cassiano Elek Machado, meu editor, também fez umas sugestões precisas que me ajudaram bastante nesse tom amarelo final.

Poderia comentar as dificuldades que teve na pesquisa, para conseguir os documentos referentes aos contratos de concessão, além da “autorização” para circular e entrevistar as pessoas que trabalham no Tietê?

Vanessa. Os capítulos burocráticos explicam bem como foi esse pesadelo. Mesmo com um ofício da faculdade, não fui autorizada a circular livremente pela rodoviária. É claro que não cumpri as ordens. Acho que os capítulos falam por si e não há muito o que acrescentar sobre a minha “remontagem particular de O processo “, tirando o fato de que quase recorri a uma peruca rosa e uma longa barba branca para despistar os seguranças.

Percebe-se no texto uma influência do novo jornalismo de Gay Talese e Joseph Mitchell (este citado no livro na abertura do capítulo “História oral do Tietê”). Inclusive o capítulo de abertura, “Chegada”, remete ao começo do texto de Talese sobre Nova York. Poderia comentar a importância destes e demais autores no seu livro amarelo e como vê e pensa o novo jornalismo?

Vanessa. Li muitos desses autores na época da faculdade, e também Rubem Braga, Will Eisner, Truman Capote, Luis Fernando Verissimo, Hemingway, Orwell, John dos Passos. Minha idéia era escrever um livro que fizesse jus à classificação de projeto experimental, usando os recursos que eu bem entendesse, como partes de músicas, recortes de jornal, diálogos aleatórios, descrições, perseguições, geradores automáticos, reportagens mais clássicas e tudo o que me servisse para contar aquelas histórias.

Quanto tempo durou a pesquisa de campo? O que mais lhe empolga e motiva em uma pesquisa como essa? E o que lhe traz mais irritação e aborrecimento?

Vanessa. Foi uma apuração de aproximadamente um ano, durante o qual vivia apavorada. O que mais me irritou, além dos entraves burocráticos, foi a minha completa inaptidão para conversar com as pessoas. Às vezes eu ficava em silêncio ao lado de algum entrevistado vendo os ônibus passarem, por puro pânico e falta de perguntas. Isso às vezes era uma vantagem, porque o sujeito acabava falando qualquer coisa que lhe viesse à mente.

Ao final, você comenta a alta rotatividade dos funcionários que lá trabalham, e acha difícil reencontrar algumas das principais personagens do livro, como Rosângela, do balcão de informações, ou Marcos, da sala de controle. Chegou a reencontrar alguém já?

Vanessa. Não, e acho que o Marcos e a Rosângela não irão ler esse livro, o que é uma pena.

Em entrevista aqui no Portal Literal, na coluna do Marcelino Freire, em 2005, você e Emílio Fraia, com quem escreveu O verão do Chibo (recém-lançado pela Alfaguara) falavam das “setecentas e quinze” recusas das editoras. Três anos depois, os dois livros saem por grandes editoras e vocês dois abrem a Flip. O que mudou de lá pra cá?

Vanessa. É tudo culpa de um parecerista da CosacNaify, o Nelson Fonseca Neto, que recuperou o Livro Amarelo de uma pilha e o recomendou para publicação, e do Paulo Werneck e o Alexandre Barbosa, meus editores que resolveram apostar no livro.

E qual a expectativa de voltar a Parati como autora convidada?

Vanessa. Meu objetivo é não pegar soluço durante o debate e diminuir minha média anual de quedas nas pedras do calçamento (atualmente em 3,2 tombos/dia).