#120 – São Paulo, 4 de julho de 2026
Encantados com os flamingos
hortifruti.org


“Agradeço à minha família pela paciência enquanto eu escrevia cinco livros em cinco anos. Não foi saudável e prometo que não farei isso de novo.”

(Simon Kuper)

:: EDITORIAL ::

Ainda não é nem dia 5 e já estamos destroçados. Nas férias com crianças, não há pausa para hidratação, os juízes foram embora e as nossas tardes são reencenações deste vídeo com três jogadores profissionais driblando cem criancinhas japonesas. “After review, number 10, Brazil, closed her eyes, decision is red card!

Esta edição foi o que deu para fazer.


:: EXAUSTÃO ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Um amigo em Tóquio me disse que eu conheci mais do Japão em um mês do que muitos japoneses conhecem em toda a vida. Logo eu estava tão visivelmente exausto que, quando um colega me viu no centro de imprensa, veio até mim e mediu meu pulso.

[One friend in Tokyo told me that I visited more of Japan in a month than many Japanese do in a lifetime. I was soon so visibly shattered that when one colleague saw me in a media centre, he came up and took my pulse.]


:: INJUSTIÇA ::
Margaret Atwood, Cat’s Eye

Fui injusta com ele, é claro, mas onde eu teria ido parar sem essa injustiça? Estaria subjugada, presa ao jugo. As mulheres jovens precisam dessa injustiça; é uma de suas poucas formas de defesa. Precisam da sua dureza, precisam da sua ignorância. Caminham no escuro, à beira de penhascos altos, cantarolando baixinho, julgando-se invulneráveis.

[I was unfair to him, of course, but where would I have been without unfairness? In thrall, in harness. Young women need unfairness, it’s one of their few defences. They need their callousness, they need their ignorance. They walk in the dark, along the edges of high cliffs, humming to themselves, thinking themselves invulnerable.]


:: CHECAGEM ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Verificação de fatos: um gavião poderia realmente agarrar e levar embora seu cachorro minúsculo? Não, segundo um escritor freelancer especializado em temas naturais, que não recomenda prender pesos pequenos ao seu cachorro.

[Fact check: Could a hawk actually fly away with your tiny dog? No, according to the freelance nature writer, who does not recommend attaching small weights to your dog.]


:: ALELUIA ::
Gabriel Thompson, Working in the shadows

Para Pilgrim, ser um gigante da indústria avícola não é apenas um trabalho — é sua vocação. “Não há dúvida de que Deus queria que eu fosse um exemplo de empresário cristão”, disse ele a um repórter, e sua religiosidade transparece em muitas áreas que parecem bastante seculares. “Quero agradecer a Jesus Cristo pelo nosso novo avião Hawker 800 XP”, escreveu ele no boletim informativo da empresa, após adquirir um segundo jato corporativo por 12 milhões de dólares em 1999. “Uma nova Bíblia foi colocada no avião, em agradecimento a Jesus”, continuou. “Agora operamos ambas as aeronaves em nome de nossa empresa, que sempre louva a Jesus.”

[For Pilgrim, being a titan in the poultry industry isn’t just a job— it’s his calling. “There’s no doubt that God wanted me to exemplify being a Christian businessman,” he told one reporter , and his religiosity seeps into many areas that appear quite secular. “I want to thank Jesus Christ for our new Hawker 800 XP airplane,” he wrote in the company newsletter after purchasing a second corporate jet for $ 12 million in 1999. “Another Bible has been added to the new airplane, thanking Jesus,” he continued. “We are now operating both airplanes for our company which always praises Jesus.”]


:: FLAMINGOS ::
Lauren Collins, Signed, sealed, delivered

Em 1890, o futuro estadista britânico Neville Chamberlain visitou a ilha com seu irmão para avaliar se ela seria adequada à implantação de uma plantação de sisal. Este último ficou “encantado com os flamingos”, mas os Chamberlain acabaram desistindo do projeto.

[In 1890, the future British statesman Neville Chamberlain visited the island with his brother to see if it would make a good sisal plantation. The latter was “in ecstasies over the flamingoes,” but the Chamberlains ultimately abandoned the project.]


:: TROFÉUS ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Na primeira final da Copa do Mundo, o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2. Em seguida, os uruguaios correram em volta do gramado com um troféu próprio, aparentemente de prata — possivelmente um prêmio conquistado em alguma outra competição.

[In the first World Cup final, Uruguay beat Argentina 4-2. Afterwards the Uruguayans ran around the pitch waving their own trophy, apparently made of silver – possibly a prize won in some other competition.]


:: MAIS TROFÉUS ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Os companheiros de time carregaram seu pequeno capitão pelo campo enquanto ele acenava à torcida e beijava a taça. Uma foto dele erguendo o troféu acima da cabeça alcançou o recorde de 74 milhões de curtidas no Instagram. (O recorde anterior pertencia a uma foto de um ovo.)

Em meio à euforia, dois dirigentes da FIFA se aproximaram de Di María, que comemorava com um troféu diferente, e o instruíram a não deixar mais ninguém tocar nele. Di María ficou confuso. “O que é aquilo, então?”, perguntou, apontando para a taça de Messi.

A taça de Messi era falsa, lançada ao gramado por torcedores argentinos. Di María é que estava segurando a verdadeira.

[Teammates carried their little captain around the field as he waved and kissed the cup. A photograph of him holding it above his head garnered a record seventy-four million likes on Instagram. (The site’s previous record had been held by a photo of an egg.) Amid the frenzy, two FIFA officials went up to Di María, who was celebrating with a different trophy, and told him not to let anyone else touch it. Di María was baffled. ‘What’s that then?’ he asked, pointing at Messi’s cup. Messi’s was a fake, thrown onto the field by Argentinian fans. Di María was holding the real thing.]


:: UMA PENA ::
Weike Wang, The Dreamdrive

“E ontem, teve alguma galinha?”, perguntou o psicólogo durante uma sessão. O homem verificou naquela noite e na seguinte — conferiu durante sete noites seguidas —, apenas para relatar que não havia galinhas psicodélicas atravessando a estrada. “Uma pena”, disse o psicólogo, fazendo uma anotação.

[The psychologist was a willing accomplice, even curious. “There ever any chickens?” he’d asked during one session. The man checked that night and the night after, seven nights in a row he checked, only to report back that there were no psychedelic chickens crossing the road. “A shame,” the psychologist said, making a note.]


:: LITERATURA ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Três anos após a publicação de Clarel, Melville autorizou, a pedido de seu editor, a venda de 224 exemplares a uma fábrica de papel para serem transformados em polpa — esses exemplares não vendidos, de uma tiragem original de 350, vinham ocupando um espaço valioso no depósito.

[Three years after Clarel’s publication, Melville authorized, at his publisher’s request, the sale of two hundred and twenty-four copies to a paper mill for pulping—These unsold copies, from an original print run of three hundred and fifty, had been taking up valuable office space.]


:: A TRISTEZA DO CACHORRO ::
Claudio Galperin, O avesso dos dias

Eu não acredito que Deus esteja morto. Eu tampouco acredito que Deus esteja vivo. Eu acredito na tristeza do meu cachorro, que de uns tempos pra cá deu para emagrecer junto comigo.


:: CONVERSAS COM NEVE ::
Weike Wang, The Dreamdrive

Assim eram as coisas, até que o homem mencionou, casualmente — mais como um pano de fundo —, que, durante sua viagem onírica, havia conversado com a neve. O psicólogo inclinou-se para a frente e perguntou se ele se referia à neve que caía do céu, e não a um acúmulo no chão na forma de um boneco de neve musculoso ou de uma boneca de neve voluptuosa. O homem esclareceu que estava falando de flocos de neve.

[This was the nature of things, until the man mentioned, offhandedly, more as a setting detail, that, in the dreamdrive, he talked to snow. The psychologist leaned forward and clarified that the man meant snow from the sky, and not a ground-level accumulation in the form of a buff snow guy or a voluptuous snow gal. The man clarified that he meant snowflakes.]


:: RETROSPECTIVA ::
Cesar Aira, Eu era uma mulher casada

Na viagem, que me parecia eterna, não tinha outro remédio senão pensar. Fazia um balanço das minhas dores. Lembrava da última, da antepenúltima, remontava à primeira, mas não a encontrava, sempre havia uma anterior.


:: ONDAS DE SOFÁ ::
Weike Wang, The Dreamdrive

Já que os rádios são frequentemente encontrados nos mesmos cômodos que os sofás, o homem perguntou a que velocidade as ondas de sofá se propagavam. Na velocidade do som ou da luz? O neurologista mais competente respondeu: som, com certeza. As ondas de sofá viajam à velocidade do som.

[Since radios are often found in the same rooms as sofas, the man asked at what speed sofa waves travelled. Sound or light? The better neurologist said sound, for sure. Sofa waves travel at the speed of sound.]


:: VIETNÃ ::
Wislawa Szymborska, Poemas
(tradução de Regina Przybycien)

Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quando está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Tua aldeia ainda existe? – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.

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#119 – São Paulo, 1 de junho de 2026
Um cão jogando xadrez
hortifruti.org


“Na Rússia, a seleção se divertia assistindo repetidamente ao vídeo do atacante Michy Batshuayi comemorando um gol – ele chutou a bola na trave e acertou a própria cara”
(Simon Kuper)


:: EDITORIAL ::

O cobrador ergueu o celular para transmitir a convocação da seleção brasileira aos passageiros da parte de trás do 971-A. Ele foi anunciando os nomes em voz alta, em tempo real, aos que não estavam ouvindo.

”Atacantes. Endrick!”, ele repetia, e ouvíamos um burburinho na sequência.

Houve inquietação com a escalação dos goleiros, vocalizada sobretudo pelo rapaz de camiseta branca. Mas o cobrador ficou satisfeito com a convocação do Neymar. “Cê loco!”, ele comentou, “vamo que vamo!”.

Até o momento em que desci, o rapaz de camiseta branca continuava preocupado.


:: OLHA A LARANJA DOCINHA ::

O post acima teve 1,5 milhão de visualizações no Instagram. Deixamos aqui a dica de compra desta humilde coletânea:

O Louco de Palestra (Companhia das Letras, 2014)
Coletânea de crônicas | 200 páginas
R$ 29,42 para o Kindle | R$ 36,78 em papel


:: É PIOR ::

Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais

[Brasil 2×0 União Soviética, 15 de junho de 1958]

Cada gol de Vavá era um hino nacional. Na defesa, Bellini chutava até a bola. E quando, no segundo tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. A coisa virou show de Grande Otelo. E tem razão um amigo que, ouvindo o rádio, ao meu lado, sopra-me: “Isso que o Garrincha está fazendo é pior do que xingar a mãe!”


:: MORTALIDADE DA COPA ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Uma meta-análise de 2020, conduzida pelo acadêmico chinês Huajan Wang, descobriu que a mortalidade aumentava em 19% nos países que perdiam uma partida em um grande torneio internacional. Por outro lado, vencer um jogo reduzia a mortalidade nacional em 12%. Se extrapolarmos os danos a todos os países participantes, é provável que, em média, a Copa do Mundo cause mais mortes do que gols.

[A meta-analysis in 2020 led by the Chinese scholar Huajan Wang found that mortality rises 19 per cent in a country that loses a match at a major international tournament. Conversely, winning a game reduced national mortality by 12 per cent. If you extrapolate the damage across all the participating countries, it seems likely that the average World Cup causes more deaths than goals.]


:: MESMA REALIDADE ::
Zadie Smith, Dead and Alive: Essays

Adultos e crianças caminhando e/ou sentados em um espaço público, todos eles, nominalmente, na mesma realidade, no mesmo instante? Acho que não há mais nenhum lugar na Terra onde isso esteja acontecendo. E eu sinto falta disso! Dessa versão da vida em comum — sinto muita falta disso.

[Adults and children walking and/ or sitting in a public space, every single one of them nominally in the same reality at the same moment? I don’t think there’s a place left on earth where that is occurring. And I miss it! That version of the common life – I miss it.]


:: SEM NENHUM CONTEXTO ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Normalmente, eu ficava acordado até as 2 da manhã escrevendo uma coluna enquanto assistia aos gols do dia na TV japonesa — um espetáculo vertiginoso. Os produtores japoneses cortavam os passes que antecediam os gols por considerá-los irrelevantes, então você via uma sucessão interminável de bolas entrando na rede sem nenhum contexto. Era muito mais divertido do que futebol.

[I’d typically sit up till 2 a.m. writing a column while simultaneously watching the day’s goals on Japanese TV – a dizzying spectacle. The Japanese producers cut out the passes leading up to the goals as irrelevant, so you’d see an endless succession of balls flying into the net without any context. It was much more fun than football.]


:: PEIXE E SAPATOS ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Chegou a vez da Bafana. Sediando a Copa Africana de Nações, a seleção chegou à final contra a Tunísia. Cerca de 130 mil pessoas lotaram o Estádio FNB, a “Cidade do Futebol”, construído para 85 mil pessoas. Elas agitavam peixes e gritavam “Feeeesh!” para o zagueiro branco Mark Fish (que não precisava de apelido) e “Shoes!” para o habilidoso meio-campista “Shoes” Moshoeu. Alguns torcedores homenageavam os dois jogadores ao mesmo tempo, agitando sapatos presos a varas de pesca.

[…It was the Bafana’s turn. Hosting football’s African Nations Cup , they reached the final against Tunisia. About 130,000 people crammed into FNB Stadium, ‘Soccer City’, which had been built for 85,000. They waved fish and yelled ‘Feeeesh!’ for white defender Mark Fish (who didn’t need a nickname) and ‘Shoes!’ for tricky midfielder ‘Shoes’ Moshoeu. Some fans honoured both players at once, by waving shoes attached to fishing rods.]


:: VOMBATES ::
Olga Khazan, Me, But Better

Um ser humano adulto mal consegue correr mais rápido do que um vombate.

[An adult human can barely outrun a wombat.]


:: FIGURINHAS ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Mario Balotelli marcou o gol da vitória da Itália de cabeça. Depois, ele postou no Facebook uma foto da página da seleção italiana no álbum da Panini: ele havia preenchido todos os 14 espaços reservados para seus companheiros de equipe com figurinhas dele mesmo.

[Mario Balotelli headed Italy’s winning goal. Afterwards, he posted a picture on Facebook of the Italian pages of the Panini World Cup album: he had filled all fourteen spaces allotted to his teammates with stickers of himself.]


:: CACHORRO JOGANDO XADREZ ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Quase tudo na história da Inglaterra em Copas do Mundo desencoraja o otimismo. Felizmente, porém, eles haviam chegado à sua primeira semifinal de Copa do Mundo desde 1990 jogando um futebol europeu baseado na troca de passes. Não foi nada muito brilhante, mas, como um cachorro jogando xadrez, já era suficientemente notável que isso pudesse ser feito.

[Almost everything in England’s World Cup history discourages optimism. Cheeringly, though, they had reached their first World Cup semi since 1990 playing European passing football. It wasn’t done brilliantly, but, like a dog playing chess, it was remarkable to see it done at all.]


:: BONSUCESSO ::
Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais

A Inglaterra foi um Bonsucesso. Dirão que estou fazendo um exagero caricatural. Mas, se o Bonsucesso tivesse assassinado a pauladas Maria Stuart, se jogasse à sombra de lord Nelson, lady Hamilton e Dunquerque, e se morasse no palácio de Buckingham — o Bonsucesso faria mais que os ingleses.


:: COSTA DO MARFIM ::
Simon Kuper, World Cup Fever

Fui ao jogo com um amigo britânico que vai a todas as Copas do Mundo. Ele sempre se inscreve como torcedor de uma seleção que não vai levar muitos torcedores, pois é a maneira mais fácil de conseguir ingressos. Em 2006, ele era torcedor oficial da Costa do Marfim. Ao chegarmos ao estádio, notamos um grande número de torcedores brancos da Costa do Marfim.

[I travelled to the game with a British friend who goes to every World Cup. He always registers as a supporter of a team that won’t bring many supporters, because it’s the easiest way to get tickets. In 2006 he was an official Ivory Coast supporter. Arriving at the stadium, we noticed large numbers of white Ivory Coast fans.]


:: BIBLIOGRAFIA ::

Aproveitamos para indicar uma dupla de crônicas que publicamos no Uol Esporte sobre a história das Copas do Mundo, em 2018. Ficamos com os mundiais de 1954 e 1982.

Brasil é campeão no arranca-toco” (1954)

Nascida sob o signo de Sócrates” (1982)


:: O INGLÊS ::
Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais

[Na Copa de 1958]

O brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.


:: MAURO SHAMPOO ::
Stephen Pile, The Ultimate Book of Heroic Failures

Universalmente aclamado como o pior time profissional que já pisou na face da Terra, o Ibis de Recife, no Brasil, ficou 3 anos e 11 meses sem vencer uma partida. “Foi um grande privilégio ter essa reputação. É melhor do que jogar no melhor time do mundo”, disse o capitão, o lendário Mauro Shampoo, considerado o pior jogador de futebol do Brasil. “Tínhamos até uma torcida organizada em Portugal. Quando começamos a ganhar, eles nos mandaram telegramas furiosos.”

Peça fundamental do ataque do Ibis, o craque marcou apenas um gol em dez anos, mas, fora isso, seu currículo era imaculado. Sua habilidade peculiar e recorrente consistia em jogar-se sobre a bola quando não havia nenhum outro jogador por perto. “Por ser um jogador tão ruim”, disse sua filha, “ele ficou famoso. E agora está aí.”

Ele é o tema de um sensível documentário chamado Mauro Shampoo: Jogador de Futebol, Cabeleireiro, Homem. É assim que ele geralmente atende o telefone em seu salão, cujas paredes estão cobertas de lembranças de sua esplêndida carreira. Até hoje, o sr. Shampoo, que deu aos filhos os nomes de Creme Rinse e Xampuzinho, mantém o corte de cabelo permanente à la Kevin Keegan dos anos 70, muito tempo depois de Kevin ter decidido que não era a melhor opção.

No salão, ele é imediatamente reconhecível porque passa o mês de dezembro vestido com uma fantasia de Papai Noel pouco convincente. No resto do ano, ele usa seu uniforme de futebol do Ibis, incluindo as chuteiras, para que, entre um corte e outro, possa demonstrar seu célebre domínio de bola e tranquilizar os clientes, garantindo que não perdeu nada de sua habilidade.

[Universally acclaimed as the worst professional team ever to have played upon the face of this planet, Ibis of Recife in Brazil did not win a game for three years and eleven months. ‘It was a great privilege to have that reputation. It’s better than playing for the world’s best team,’ said their captain, the legendary Mauro Shampoo, who has been hailed as Brazil’s worst footballer. ‘We even had a fan club in Portugal. When we started to win they sent us angry telegrams.’ A key part of the Ibis strike force, the great man scored one goal in ten years, but his record was otherwise unblemished. His unique and recurrent ability was to fall over the ball when there was no other player near him. ‘Because he is such a terrible player,’ his daughter said, ‘he became famous. And now he’s out there.’ He is the subject of a sensitive documentary film called Mauro Shampoo: Footballer, Hairdresser, Man. This is how he habitually answers the telephone at his salon, where the walls are covered with memorabilia from his splendid career. To this day Sr Shampoo, who called his children Cream Rinse and Shampoozinho, has persisted with his Kevin Keegan 1970s permed haircut long after Kevin decided it was the wrong direction. In the salon he is immediately recognisable because he spends the month of December dressed in an unconvincing Father Christmas suit. The rest of the year he wears his Ibis football kit, including studs, so that between haircuts he can give demonstrations of his celebrated ball control to reassure customers that he has lost none of his old touch.]

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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Medusa com a cabeça de Perseu, de Luciano Garbati

#118 – São Paulo, 6 de maio de 2026
Sou eu, a Márcia
hortifruti.org

“Os homens deviam se sentir gratos porque as mulheres
só querem direitos iguais, e não vingança”
(meme de internet)


:: EDITORIAL ::

Nesta edição, convidamos cinco especialistas para discutir o tema “O feminismo foi longe demais?”

Curiosamente, os cinco são homens brancos héteros e todos concordam que a resposta é sim, com diferentes graus de entusiasmo. Um dos nossos convidados está percorrendo o país em turnê de divulgação de seu novo livro Cala a Boca Não Morreu — Uma Reflexão Sobre as Masculinidades em Risco, e irá debater com os outros quatro sobre o apagamento de vozes genuinamente qualificadas e a necessidade de recolocar os mudos em seu lugar.

Ele é professor de Literatura Comparada na Universidade de Califórnia, Berkeley, bolsista do ICFJ Knight Fellowship e colunista do Jornal A Manhã, onde assina artigos sobre cultura e política. Os outros quatro também.

No bate-papo, também serão discutidos temas de interesse geral como a cultura do cancelamento, o perigo dos ultraprocessados, a criação neurocompatível e a influência danosa das telas para o desenvolvimento emocional das próximas gerações. Um dos convidados irá declamar um poema de sua autoria.

Este podcast conta com o apoio da Fundação Pinheiro-Pugliesi e do conglomerado empresarial Ao Cubo.


:: TEMPO ::
Megan K. Stack, Women’s Work

Ainda assim, não me passa despercebido o fato de que paguei com meu tempo. Persiste a expectativa de que os homens paguem com dinheiro. Mas, quando se trata de tempo, quase sempre é a mulher quem paga.

[Still it does not escape my attention that I paid in time. There is a lingering expectation that men will pay in money. But when it comes to time, it is almost always the woman who pays.]


:: ESTÁ TUDO BEM ::
Lucy Jones, Matrescência

Está indo bem. Está tudo bem. O bebê está muito bem. Sim, está mamando bem. Está tudo bem. A falta de sono vai bem. Os pensamentos de morte vão bem. Estamos tão bem! Eles são tão fofos e só são pequenos assim uma vez, então está tudo bem. A melhor coisa que já me aconteceu.


:: GÊNIOS MASCULINOS ::
Jennifer Habel e Chris Bachelder, Dayswork

Os manuscritos praticamente ilegíveis dos gênios masculinos:

Um dos editores de Victor Hugo comparou sua escrita a um “campo de batalha em uma folha de papel”.
Um dos manuscritos de Balzac teria levado um tipógrafo à loucura.
Quanto a Robert Louis Stevenson, “nenhum impressor jamais conseguiu decifrar o que ele havia escrito”.

[The nearly illegible manuscripts of male geniuses: One of Victor Hugo’s publishers likened his writing to a “battlefield on a piece of paper.” One of Balzac’s manuscripts allegedly drove a typesetter to insanity. As for Robert Louis Stevenson, “No printer ever could make out what he had written.”]


:: DICA DE PODCAST ::

Focus: Adults in the Room, um podcast de jornalismo investigativo sobre um professor da Garfield High School, em Seattle, que cometeu suicídio em 1999 após denúncias de abuso sexual. A série valida as acusações feitas por estudantes à época, revela outros casos de natureza semelhante e expõe uma cultura institucional negligente, em que proteger a reputação dos professores era mais importante do que garantir a integridade dos alunos.


:: CORTADOR DE UNHAS ::
Annie Ernaux, Exteriors

Ele embarcou em Achères-Ville; tinha 20 ou 25 anos. Acomodou-se em dois assentos, com as pernas bem abertas. Do bolso, tirou um cortador de unhas e passou a usá-lo, contemplando a beleza obtida após aparar cada dedo, estendendo a mão à frente. Os passageiros ao redor fingiam não notar. Claramente, era a primeira vez que ele tinha um cortador de unhas. Insolentemente feliz. Ninguém podia estragar sua felicidade – a felicidade de um homem sem modos, ou assim pareciam sugerir as expressões daqueles ao seu redor.

[He got on at Achères-Ville, twenty, maybe twenty-five years old. He settled across two seats, his legs stretched out, sideways. From his pocket he extracts a pair of nail clippers and uses them, contemplating the beauty obtained after treating each finger, extending his hand in front of him. The passengers around him pretend not to notice. Clearly, it’s the first time he has owned a pair of nail clippers. Insolently happy. Nobody can mar his happiness-the happiness of a man with bad manners, or so the expressions of those around him would seem to suggest.]


:: BICICLETAS vs. BEBÊS ::
Lucy Jones, Matrescência

Na Inglaterra, é mais fácil viajar com uma bicicleta do que com um bebê. Uma certa companhia ferroviária tem um espaço exclusivo para quatro bicicletas ou duas tandens, que os ciclistas podem reservar com antecedência. As tandens têm mais direitos nos trens do que os jovens seres humanos. Não raro, vemos mães recentes sentadas no chão imundo com suas crianças pequenas.

A bicicleta torna as mulheres cruéis?


:: DESTRUIDORAS DE EMBRIÕES ::
Los Angeles Herald, June 13, 1897

Outra teoria que tem sido seriamente considerada é a de que [a insanidade] seja o resultado da intensa euforia provocada pelo pedalar veloz sobre o sistema nervoso.

As ciclistas francesas pedalam em ritmo acelerado. Todas elas são destruidoras de embriões em potencial, muito mais do que suas irmãs de outros países. Sendo este o caso, sugere-se que a prática desse exercício frenético entre as mulheres possa causar uma nova forma de insanidade, correspondente àquela que aflige as infelizes mulheres francesas.

[The other theory advanced as to the cause which has been seriously considered is that it is the result of the effect upon the nervous system of the intense exhilaration rapid riding brings about. French wheelwomen ride at a high pace. They are all embryo scorchers, much more so than their sisters in other countries. This being the case, it is suggested that the practice of scorching by women is likely to bring about a new form of insanity corresponding to that which afflicts the unfortunate French women.]


:: É POSSÍVEL ::
Virginia Woolf, Um teto todo seu

É possível que o professor, ao insistir de forma tão enfática na inferioridade das mulheres, não estivesse preocupado com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade.


:: VIRANDO CIDADES ::
Thorkild Hansen, Arabia Felix: The Danish Expedition of 1761-1767

Enquanto trabalhava nessa tarefa, ele inesperadamente se viu em uma situação difícil. Um pequeno ponto elevado perto da Coluna de Pompeu havia se mostrado um local adequado para observações, pois oferecia uma vista de grande parte da antiga muralha da cidade. Enquanto Niebuhr trabalhava com seus instrumentos, uma multidão rapidamente se reuniu ao seu redor: “Um dos presentes, um comerciante turco, notou que eu havia apontado meu astrolábio para a cidade. Ele estava tão curioso que insistiu em olhar pelo visor do instrumento e ficou bastante inquieto ao ver uma torre de cabeça para baixo. Isso deu origem a um boato de que eu havia vindo a Alexandria para virar a cidade inteira de cabeça para baixo.”

[While engaged on this work, he unexpectedly found himself in a difficult situation. A bit of high ground near Pompey’s Pillar had proved to be a suitable place for taking bearings because it commanded a view of a large part of the old city wall. While Niebuhr was working with his instruments, a crowd quickly gathered round him: “One of those present, a Turkish merchant, noticed that I had directed my astrolabe towards the town. He was so curious that he insisted on looking through the instrument’s viewfinder, and was rather disquieted when he saw a tower standing upside down . This gave rise to a rumour that I had come to Alexandria to overturn the whole city and stand it on its head.”]


:: EXCEPCIONAIS ::
Betty Friedan, The Feminine Mystique

Talvez as mulheres que se destacaram como “excepcionais” não se identifiquem realmente com as demais mulheres. Para elas, existem três classes de pessoas: homens, outras mulheres e elas mesmas; seu próprio status como mulheres excepcionais depende de manter outras mulheres em silêncio e de não perturbar a ordem estabelecida.

[Perhaps women who have made it as “exceptional” women don’t really identify with other women. For them, there are three classes of people: men, other women, and themselves; their very status as exceptional women depends on keeping other women quiet, and not rocking the boat.]


:: CANÁRIOS ::
Thorkild Hansen, Arabia Felix

Além dessa dissertação, ele [Christian Carl Kramer] escreveu um único livro, publicado em 1759. Nada sabemos sobre seu conteúdo, nem nos sentimos muito tentados a estudá-lo mais a fundo. […] Seu título basta: Canários e seus Cuidados.

[Apart from this dissertation, his authorship is limited to a single book, published in 1759. We know nothing of its contents, nor are we greatly tempted to study it more closely— as we are, for example, Forsskål’s work on the freedom of the press. Its title is sufficient. It was called Canaries and Their Care.]


:: BOLA DE BOLICHE ::
Jennifer Habel e Chris Bachelder, Dayswork

[…] Que Melville comprava livros quando não tinha dinheiro e quando estava morrendo, que comprava livros que ele próprio queria ler e os dava de presente a membros da família.

Que Lizzie provavelmente não queria ganhar Passeios Pela Cidade e Arredores de Jerusalém como presente de Natal em 1870.

[That Melville bought books when he was broke and when he was dying, that he bought books as gifts for family members that he wanted for himself. That Lizzie probably didn’t want Walks About the City and Environs of Jerusalem for Christmas 1870.]


:: NÃO HÁ COMO SABER ::
Annie Ernaux, Exteriors

No jornal Libération, o historiador Jacques Le Goff comentou: “O metrô é uma verdadeira curiosidade”. Será que as pessoas que o utilizam diariamente teriam a mesma opinião sobre o Collège de France? Não há como saber.

[In the newspaper Liberation, the historian Jacques Le Goff remarked: “The subway is quite a curiosity.” Would the people who commute every day feel the same way about the College de France? There is no way of knowing.]

“Querido duende: sou eu, a Márcia. Eu quero que você desenfeitice o meu paciente, por favor.”

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Uma cirurgia cerebral em um jato em chamas

#117 – São Paulo, 3 de abril de 2026
Causando estragos
Provocando perturbações
Comportando-se de forma imprudente*
hortifruti.org

“Eles não eram só corajosos, mas, meu Deus, como sabiam remar!”
(The Ballad of Harbo and Samuelsen)

:: EDITORIAL ::

Estamos em franca temporada de viagem a Lua, viciados nos streamings da Nasa e redigindo newsletters como se estivéssemos dentro de uma cápsula espacial, quase de ponta-cabeça, com os joelhos dobrados. <Segue imagem de Reid Wiseman tomando Chamyto pelo canudinho.>

Num primeiro momento, reparamos que todos os astronautas usam relógio de pulso. Registramos essa informação em ata. Depois, numa dessas transmissões aleatórias, acompanhamos a interação de uma integrante da cápsula espacial com o serviço de atendimento ao consumidor da NASA. Digite um para falar sobre sensores. Digite dois para placas de circuito impresso. Digite três se você está à deriva no espaço.

A astronauta Christina Koch entrou em contato com Houston para reclamar que um dos aparelhos não estava funcionando direito. Sem tirar os olhos da tela, a atendente sugeriu apertar o botão de volume down junto com o botão home para reiniciar. Exatamente o que qualquer um de nós responderia. “Funcionou, obrigada”, informou Koch. Aqui em casa, nesse momento, nós cuspimos água de coco pelo nariz. Por pouco, o Diretor-Chefe das Operações de Voo não entrou na ligação e disse: “Ô Cris, tira da tomada e assopra”.

Enfim, gostamos de tudo. Dez de dez.

E ainda assim, a grande euforia deste mês pertence ao âmbito marítimo: é um belo livro chamado Dayswork (de 2023), escrito pelo romancista Chris Bachelder e pela poeta Jennifer Habel, que ainda não conseguimos terminar porque estamos economizando. Há dias o marcador não sai da página 151.

A trama de Dayswork acontece durante a pandemia de covid-19, quando uma mulher sem nome fica obcecada pela vida do escritor Herman Melville, autor de Moby-Dick. Seu marido fornece comentários distraídos enquanto aparafusa tábuas de madeira. Ela vai contando suas principais descobertas biográficas em trechos breves, que intercala com cenas cotidianas de seu isolamento doméstico.

É tipo uma edição estendida de A Hortaliça que só se consegue ler com um lápis na mão, grifando tudo e passando raiva.

Muita raiva.


:: MELVILLITE ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Meu marido diz que eu devo ter contraído Herman Melville, e é verdade que, em algumas manhãs, encontramos um dos meus post-its amassados nos lençóis como um lenço usado.

[My husband says that I seem to have contracted Melville, and it’s true that some mornings we find one of my crumpled sticky notes in the sheets like a used tissue.]


:: ASTRONAUTAS ::
Kelly e Zach Weinersmith, A city on Mars

Cada programa tem suas peculiaridades — a Agência de Exploração Espacial Japonesa exige que os candidatos dobrem mil origamis de tsuru ao longo de uma semana para demonstrar que conseguem manter um alto padrão de qualidade realizando tarefas monótonas. Já os candidatos russos são lançados de um avião e obrigados a resolver quebra-cabeças presos aos pulsos antes da abertura do paraquedas.

[Different programs have their own exotica—JAXA has candidates fold a thousand origami cranes over the course of a week to show they can maintain high standards while doing monotonous tasks. Russian candidates are dropped out of an airplane and made to solve puzzles tied to their wrists before the parachute opens.]


:: RANCOR ::
Elizabeth Hardwick, Sleepless Nights

A mãe era como a velha senhora que Herzen menciona em suas memórias, aquela que não conseguia perdoar Napoleão pela morte prematura de sua vaca favorita em 1812.

[The mother was like the old woman Herzen mentions in his memoirs, the one who could not forgive Napoleon for the premature death of her favorite cow in 1812.]


:: FLEXÃO DO QUADRIL ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Pela janela do escritório, vejo meu marido lendo no quintal e decido não enviar a mensagem que escrevi sobre a flexão do quadril de Melville.

[Through my office window I see my husband reading in the backyard, and elect not to send the text I’ve written about Melville’s hip flexion.]


:: ROUPA ::
Susan Sheehan, “The Patient

Quanto mais extravagante sua roupa, mais feliz ela parece estar.

[The wilder her attire, the happier she seems to be.]


:: ADENDO ::

Recomendamos a leitura dessa reportagem em quatro partes sobre a vida de Sylvia Frumkin (Maxine Mason), uma mulher diagnosticada com esquizofrenia que navega pelo sistema hospitalar psiquiátrico de Nova York, em fins dos anos 1970. Os artigos de Susan Sheehan foram reunidos em um livro chamado Is There No Place On Earth For Me? [Não tem nenhum lugar pra mim no planeta Terra?], que ganhou o Pulitzer de Não Ficção de 1983.


:: CAMPEONATO PAULISTA ::


:: BIOGRAFIA ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Aos vinte e três anos, após desertar de um navio nas Ilhas Marquesas, viver entre canibais, fugir para um baleeiro australiano, juntar-se ao motim da tripulação, ser brevemente preso, fugir para outro baleeiro, navegar pelo Pacífico Sul e, finalmente, abandonar a caça às baleias, Melville trabalhou por um curto período como repositor de pinos em uma pista de boliche em Honolulu.

[At age twenty-three, having deserted ship in the Marquesas Islands, lived among cannibals, escaped onto an Australian whaler, joined the crew’s mutiny, been briefly imprisoned, escaped onto another whaler, sailed the South Pacific, then quit whaling forever, Melville worked briefly as a pinsetter at a bowling alley in Honolulu.]


:: CIRURGIA CEREBRAL ::
Kelly e Zach Weinersmith, A city on Mars

Mas o objetivo básico é o mesmo em todos os lugares: o astronauta ideal é uma espécie de Ned Flanders hipercompetente — confiável, equilibrado, um pouco entediante e também o tipo de pessoa que poderia realizar uma cirurgia cerebral em um jato em chamas, se necessário.

[But the basic goal is the same everywhere; the optimal astronaut is a sort of hypercompetent Ned Flanders—reliable, even-tempered, a bit boring, and also the kind of person who could perform brain surgery in a flaming jet if called upon to do so.]


:: SUCESSO ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Três anos após a publicação de Clarel, Melville autorizou, a pedido de seu editor, a venda de 224 exemplares a uma fábrica de papel para serem transformados em polpa — esses exemplares não vendidos, de uma tiragem original de 350, estavam ocupando um espaço valioso.

[Three years after Clarel’s publication, Melville authorized, at his publisher’s request, the sale of two hundred and twenty-four copies to a paper mill for pulping—These unsold copies, from an original print run of three hundred and fifty, had been taking up valuable office space.]


:: PORTO RICO ::
Belle Burden, Strangers: A memoir of marriage

Meu pai e eu éramos muito próximos de várias formas. Tínhamos piadas internas. Sempre que estávamos em um carro, desde a infância até a vida adulta, eu perguntava: “Para onde estamos indo?” e ​​ele respondia: “Porto Rico”. Não me lembro por quê.

[My father and I were close in many ways. We had inside jokes. Every time we were in a car, from childhood well into adulthood, I would ask him, “Where are we going?” and he would answer “Puerto Rico”. I can’t remember why.]


:: CENAS HISTÓRICAS ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Em resposta à pergunta de um entrevistador sobre quais cenas históricas ele gostaria que tivessem sido filmadas, Nabokov forneceu uma breve lista que incluía “Herman Melville no café da manhã dando uma sardinha para seu gato”.

[In response to an interviewer’s question about historical scenes he wishes had been filmed, Nabokov provided a brief list that included “Herman Melville at breakfast, feeding a sardine to his cat.”]


:: PORQUE ESTÁ LÁ ::
Ted Conover, Immersion

Em 1924, uma equipe britânica que incluía George Leigh Mallory tentou escalar o Everest; Mallory é famoso por ter respondido a uma pergunta sobre o porquê com as palavras: “Porque está lá”.

[In 1924 a British team including George Leigh Mallory attempted to climb Everest; Mallory is famous for having answered a question about why with the words, “because it’s there.”]


:: MULHERES DA FAMÍLIA::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Com exceção de Billy Budd, encontrado na escrivaninha de Melville após sua morte, todos os seus livros foram copiados pelas mulheres da família.

[With the exception of Billy Budd, found in Melville’s desk after his death, all of his prose was copied by the women in his family.]


:: DIVISÃO DE TAREFAS ::
Chris Bachelder e Jennifer Habel, Dayswork

Ela copiou Guerra e Paz sete vezes, eu disse a meu marido enquanto ele lia avaliações online de aquecedores de propano.

Isso é muita coisa, ele disse.

Já passamos da fase do nosso casamento em que talvez brigássemos sobre a divisão de tarefas dos Tolstói.

[She copied War and Peace seven times, I told my husband while he read online reviews of propane heaters. | That’s a lot, he said. | We’re well past the point in our marriage when we might fight about the Tolstoys’ division of labor.]

A luta feminista chegou a outros planetas (“Etea” é o feminino de ET)

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*Um oficial da inteligência europeia descreveu a ação cotidiana da GRU (agência de inteligência russa) dessa forma: “Causando estragos, provocando perturbações e comportando-se de forma imprudente”. Nesta reportagem aqui.

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Distintivos escoteiros para o macho alfa

Posted: 20th março 2026 by Vanessa Barbara in Crônicas

Porque os homens precisam ser recompensados por seus méritos

18 de março de 2026
por Vanessa Barbara

As premiações são uma ótima maneira de reconhecer as conquistas dos indivíduos masculinos de nossa sociedade, que muitas vezes se comportam com distinção mesmo sob extrema pressão.

Aqui estão os requisitos para alguns dos distintivos mais rigorosos e prestigiados:

Distintivo de Ajuda Doméstica – Conclua uma tarefa doméstica simples (por exemplo, trocar uma lâmpada ou desentupir uma pia) em até trinta dias e/ou após seis pedidos cada vez mais insistentes. Troque os lençóis uma vez por ano por iniciativa própria. Compre um avental engraçado para expressar sua personalidade.

Medalha de Mérito Vida Familiar – Publique fotos com seus filhos no Instagram. Ensine-os ao menos uma habilidade de vida, como arrotar a palavra “abracadabra”, cuspir longe um caroço de azeitona, controlar seus gases ou incendiar coisas aleatórias. Pague a pensão alimentícia conforme determinado pela justiça.

Prêmio Antílope de Prata – Durante um dia inteiro, mantenha um diário de suas experiências de escuta. Identifique um exemplo e discorra com sua parceira após: (1) Obter informações, (2) Ser persuadido, (3) Reconhecer algo ou (4) Compreender os sentimentos de alguém.

Prêmio Thomas A. Edison de Inovador Excepcional – Desenvolva uma técnica para higienizar vegetais na máquina de lavar louça. Passe a aquecer sua comida com um secador de cabelo em vez de consertar o micro-ondas. Compre um aspirador de pó novo em vez de trocar o filtro. (Mas não se esqueça de levar o lixo para fora a fim de apagar seus rastros.)

Especialidade em Comunicação – Mantenha uma conversa simples com alguém por cerca de dez minutos, sem depreciar nenhum grupo minoritário ou ofender a dignidade das mulheres – algo que nunca aconteceria porque é só uma piada; francamente, por que levar tudo a sério? Você fica linda quando sorri.

Medalha Nacional de Conquista ao Ar Livre – Aceite levar o lixo para fora uma vez por semana. Só isso. Você não precisa cortar a grama, buscar seus filhos na escola ou fazer qualquer outra coisa pelo resto do ano.

Menção Honrosa Conjugal por Bons Serviços – O indicado deve ter prestado um mínimo de vinte minutos de bons serviços que se destaquem. Esta medalha geralmente é concedida pela esposa de outrem enquanto você finge ser prestativo após um jantar.

Prêmio Homem Qualificado – Durante sete dias consecutivos, não dê conselhos não solicitados a mulheres. Abstenha-se de analisar as escolhas de vida e carreiras de terceiros. Por favor, evite explicar coisas que você não entende completamente. Ok, cinco dias consecutivos.

Distintivo de Mérito Pioneiro – Tente tratar todos ao seu redor como se não fossem seus subordinados. Comporte-se com o mínimo de respeito, consideração e honestidade. É aconselhável não gritar ou socar a parede, nem quando aquela tonta fez por merecer.

Insígnia Nem Todo Homem – Não recorra a envenenamento, estrangulamento, espancamento, esfaqueamento ou fuzilamento em relação a qualquer mulher em um raio de pelo menos cinquenta metros.

A arte feminina de quebrar tudo

Dinah Craik’s Hidden Mother Portrait, 1863


#116 – São Paulo, 9 de março de 2026
Especial Matrescência
Cansaço, pele pálida e cabelo oleoso
hortifruti.org

“Mãe é uma mulher que ficou louca”
(Miguel Sokol)

:: EDITORIAL ::

Está chegando às livrarias no dia 9 de março um verdadeiro tratado sobre esse assunto complicado que é procriar, parir e então se ver irremediavelmente transformada em um legume para o resto da vida.

O que muda aí é o tipo de legume.

(Mulheres transformadas em inhames, por exemplo, são relativamente sortudas.)

Mas me afastei um pouco do cerne da questão. Matrescência é um livro de não ficção escrito pela jornalista científica britânica Lucy Jones e traduzido por esta vossa humilde criada. Está sendo publicado pela editora Fósforo. É grande e ficou especialmente caprichado, sobretudo na parte bibliográfica e nas notas de rodapé.

Leiam, divulguem, emprestem e usem como peso para fixar a cola nos brinquedos.

Matrescência: Sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade
Lucy Jones
Trad.: Vanessa Barbara
Editora Fósforo
384 páginas (!)
R$ 114,90


:: BABY JESUS ::

Lucy Jones, Matrescência

Essas ideias bizarras eram herança da teoria da “imaginação materna”, que prevaleceu entre os séculos XVI e XVIII. Os médicos acreditavam que as mulheres grávidas podiam transformar, com suas mentes, o feto em crescimento, e portanto os distúrbios congênitos eram culpa da mãe. Se ela se assustasse com um sapo, por exemplo, a criança poderia acabar com os pés palmados. Ou se ela passasse muito tempo olhando para uma imagem de Jesus, o bebê poderia nascer com uma barba.


:: ANESTESIA DE MORAES::
Lucy Jones, Matrescência

Quando James Young Simpson, professor de obstetrícia em Edinburgo e criador do modelo de fórceps utilizado até hoje, ofereceu essa opção a uma paciente chamada sra. Carstairs, ela ficou tão grata que batizou a filha de “Anestesia”.


:: PORÉM ::
Lucy Jones, Matrescência

Nem todos estavam satisfeitos com essas iniciativas para minimizar a dor das mulheres no parto. O apelo inicial de Simpson para empregar analgésicos “de acordo com todos os princípios da verdadeira humanidade”, em 1847, foi contestado por padres e médicos por razões religiosas e morais: em Gênesis, Deus amaldiçoa Eva por comer a maçã, e seu castigo é que o parto deveria doer – “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”. (O castigo de Adão era lidar com espinhos e cardos, o que me parece um pouco injusto.)


:: ENTES QUERIDOS IDOSOS ::
Lyz Lenz, Belabored

Dessa vez, eu me permiti comer mais do que nunca. Deixei meu corpo ditar sua relação com o mundo físico. Vi meu corpo se expandir, vi minha pele esticar. Muitas vezes sonhava que as pessoas vinham até mim e me ofereciam pratos de comida, seus animais de estimação, seus entes queridos idosos, e eu os enfiava delicadamente em minha boca.

[This time I let myself eat, like I never had before. I let my body dictate its relationship with the physical world. I saw myself expand, saw my skin stretch. I’d often dream that people came to me and offered me plates of food, their pets, their aging loved ones, and I’d gently draw them all into my mouth.]


:: PRIMEIRA MULHER EM MARTE ::
Abigail Tucker, Mom Genes

E, no entanto, como filha de uma mãe que, cerca de quatro décadas após meu nascimento, ainda me segue até os estábulos frios das ovelhas, e como mãe de uma filha que atualmente deseja ser a “primeira mulher em Marte”, mas também ter 22 filhos, tenho muitas perguntas sobre essa jornada feminina compartilhada e sobre os lugares aonde as mulheres vão sem saber.

[And yet, as the daughter of a mother who—some four decades after my birth—will still tail me into wintery sheep barns, and as the mother of a daughter who presently aims to be the “first girl on Mars” but also to have twenty-two children, I have many questions about this shared female journey, and the places that women unknowingly go.]


:: HIPNOPARTO ::
Lucy Jones, Matrescência

Em um dado momento, parecia que o bebê poderia rasgar o meu períneo, então rapidamente me moveram para outra posição. Nas horas seguintes, fui colocada em várias posições para aproveitar a força da gravidade: de quatro, em uma espécie de pose de cadeira, de joelhos e, por fim, deitada de lado com uma perna no ombro da parteira, porque, àquela altura, eu já não conseguia me sustentar. Estava no meu estado mais feral e primitivo. Queria queimar a indústria do hipnoparto até não sobrar mais nada.


:: A DOR ::
Olga Ravn, My Work

Mas a crença de que falar abertamente sobre a dor da maternidade prejudicaria a criança, e a própria mãe, é uma mentira. E eu não quero mais ter medo disso.

[But the belief that it would hurt the child, and the mother herself, to openly speak about the pain of motherhood is a lie. And I don’t want to be afraid of it any longer.]


:: AMAMENTAÇÃO ::
Lucy Jones, Matrescência

Baixei um livro, publicado pela La Leche League, chamado The Womanly Art of Breastfeeding [A arte feminina de amamentar]. A capa mostrava uma bela mulher de longos cabelos ruivos cacheados e soltos, envolta em um lençol branco. “Este livro irá me ensinar a arte feminina”, pensei. “Amamentar não te dá pontos extras. É apenas a forma normal de criar um bebê”, eu li.


:: ADENDO ::

Eu também li The Womanly Art of Breastfeeding inteirinho e não cheguei a entender grande coisa sobre a tal arte feminina.


:: PROFUNDO DESPREZO ::
Emily Van Duyne, Loving Sylvia Plath

Em seu testamento, Assia Wevill foi bem direta: “A Ted Hughes, o pai dela”, escreveu, “deixo minha ausência, sem dúvida bem-vinda, e meu profundo desprezo.”

[In her will, Assia Wevill made no bones: “To Ted Hughes, their father,” she wrote, “I leave my no doubt welcome absence and my bitter contempt.”]


:: PANÇA BALOUÇANTE ::
Lucy Jones, Matrescência

As reportagens nunca diziam: “Rowena ostenta seu abdome super rechonchudo apenas dois meses depois de dar à luz seu bebê”, ou: “Gia flexionou sua pança balouçante”, ou: “Ao sair de casa, Poppy fez questão de que todos olhassem para sua barriga flácida e cheia de estrias em um sutiã Balenciaga, exibindo sinais profundos de cansaço, a pele pálida e o cabelo perfeitamente oleoso”.


:: NEVOEIRO ::
Yvonne Perrin, The First Seven Years: A Record Book for Mother & Child

Ele […] deve dormir ao ar livre o dia todo, no inverno e no verão. A única condição climática realmente inadequada para o bebê é o nevoeiro.


:: EMOÇÕES DESCONTROLADAS ::
Lucy Jones, Matrescência

Publicado em 1894, The Care and Feeding of Children [Cuidado e alimentação infantis], do pediatra Luther Emmett Holt, foi um best-seller. “Nunca se deve brincar com bebês menores de seis meses; quanto menos isso acontecer, em qualquer época, melhor para eles”, escreveu. Outras regras incluíam não sair de casa com o bebê pelos primeiros três meses, assim como um aviso de que “emoções descontroladas, tristeza, excitação, medo e paixão podem fazer o leite cair mal à criança”.


:: GRAVIDEZ ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Durante a gravidez, todo o nosso corpo passa por mudanças. Nossas pintas podem escurecer e nossa voz pode ficar mais grave (como aconteceu com Kristen Bell grávida durante as gravações de Frozen — parece que a famosa trilha sonora poderia ter sido ainda mais estridente em alguns trechos). Nossos narizes alargam, nossos arcos plantares se achatam e nossas unhas dos pés caem. Nosso cabelo pode mudar de cor ou ficar cacheado. Podemos arrotar como se tivéssemos engolido uma bomba-relógio. Nosso fígado pode liberar bile, provocando uma coceira insuportável. E nos tornamos comprovadamente mais apetitosas para os mosquitos devido ao aumento da temperatura corporal e da produção de dióxido de carbono.

[In pregnancy our entire physical selves are in flux. Our moles may darken, our voices drop an octave (as a pregnant Kristen Bell’s did while recording Frozen—it seems that the notorious soundtrack could have been still shriller in places). Our noses widen, our arches flatten, and our toenails fall off. Our hair can change color or gain curl. We may burp as if we’ve swallowed a bomb cyclone. Our livers may leak bile, causing us to itch like the dickens. And we become demonstrably more delicious to mosquitoes because of our increased body temperature and carbon dioxide output.]


:: ULTRASSÔNICO ::
Abigail Tucker, Mom Genes

Um estudo com roedores revelou que as mães ratas precisam guinchar de modo ultrassônico para que os pais ajudem a cuidar dos filhotes.

[A rodent study revealed that mice moms must ultrasonically squeak at mice dads in order to get them to pitch in with childcare.)]

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Batata extasiada brincando na pia, nov. 2025

#115 – São Paulo, 6 de fevereiro de 2026
Especial dentistas
hortifruti.org

Até capturarmos esta tartaruga/
a outra já fugiu.”
(Rafael Mantovani)

:: EDITORIAL ::

Nesta edição, juntamos dois temas palpitantes que jamais foram abordados em conjunto: carnaval e dentistas.

Somos assim audaciosos — ou preguiçosos demais para buscar a necessária congruência.

Fica a dica para as escolas de samba que, em 2027, poderão usar o samba-enredo “Da Gengiva ao Implante: O Cuidado Bucal Vira Carnaval” ou “Com Dentadura ou Natural, Nosso Samba é Imortal”.

Para mais contexto, leiam a análise: “No quesito piada infame, nota da madrugada é 10”. E divirtam-se.


:: CARNAVAL ::

Mulher no metrô:

“…Aí me falaram que eu já era a quarta pessoa que ficava com ele e ainda era 6 da tarde! [pausa] Ou seja, o cara acordou cedo.”


:: CIDADE DOS MOLARES ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…

Segundo Roberto Díaz e Paula Hahn, administradores de um site de turismo médico chamado Border CRxing, a cidade de Los Algodones tem a maior concentração per capita de dentistas do mundo: bem mais de mil em uma população de 5.500 habitantes. É conhecida como a Cidade dos Molares.

[According to Roberto Díaz and Paula Hahn, who run a website about medical tourism called Border CRxing, Los Algodones now has the highest per-capita concentration of dentists in the world: well over a thousand in a population of fifty-five hundred. It’s known as Molar City.]


:: RATOS EM CARTOLAS ::
Guimarães Rosa, Ave, palavra

Zôo (Jardin des Plantes)
Tartarugas, nas lajes: estouvam-se, remexendo-se, que nem ratos debaixo de cartolas.


:: 750 CONVIDADOS E 3 ELEFANTES ::

Janet Flanner, Paris era ontem

Em Versalhes [em 1939], lady Mandl deu um baile de época para 750 convidados e três elefantes, sendo que todos os três se recusaram a ser montados, entre outros, pela princesa de Kapurthala.


:: ASPECTO DE FRANGO ::
Nikolai Gogol, Taras Bulba

O dono da casa, depois de ter bebido um pequeno copo de uma misteriosa infusão, despiu o cafetã e, ficando de ceroulas e pantufas, adquiriu o aspecto de um frango. Depois foi deitar-se com a mulher em algo que parecia um armário. Dois rapazolas deitaram-se no chão, defronte do armário, parecendo simples cachorros.


:: CHAVE NO PRATO ::
Yasemin Saplakoglu, “At the Mysterious Boundary…

Na mesma época em que Loomis realizava experimentos com eletroencefalograma (EEG) em sua mansão, o artista surrealista [Dalí] fazia experiências com suas próprias transições para o sono. Como descreveu em seu livro de 1948, 50 Secrets of Magic Craftsmanship [50 segredos mágicos da pintura], ele se sentava em uma “poltrona esquelética, de preferência de estilo espanhol”, enquanto segurava frouxamente uma chave pesada sobre um prato virado para baixo no chão. À medida que adormecia, suas mãos relaxavam — e eventualmente a chave caía por entre seus dedos. O estalo repentino da chave ao bater no prato o despertava. Convencido de que acordar durante essa fase revigorava seu ser psíquico e impulsionava a criatividade, Dalí então se sentava e começava a pintar.

[Around the time that Loomis was conducting EEG experiments in his mansion, the surrealist artist was experimenting with his own transitions into sleep. As he described it in his 1948 book 50 Secrets of Magic Craftsmanship, he would sit in a “bony armchair, preferably of Spanish style,” while loosely holding a heavy key in one palm above an upside-down plate on the floor. As he drifted off, his hands would slacken — and eventually the key would fall through his fingers. The sudden clack of the key hitting the plate would wake him. Convinced that being aroused during this period revived his psychic being and boosted creativity, Dalí would then sit down and start painting.]

Recado para o meu TOC


:: PELO NARIZ ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…

Quando Luís XIV teve um dente extraído em Versalhes, o dentista puxou sua mandíbula com tanto zelo que abriu um buraco no palato, alcançando a passagem nasal. Por um tempo depois disso, qualquer líquido que o rei bebesse jorrava pelo seu nariz. Para estancar o sangramento, o cirurgião teve que cauterizar o buraco com um ferro em brasa.

[When Louis XIV had a tooth pulled at Versailles, his dentist yanked at his jaw with such zeal that he tore a hole through the palate and into the nasal passage. For a while after that, any liquid that the King drank would come spraying out of his nose. To plug it closed, his surgeon had to cauterize the hole with a red-hot iron.]


:: A FACILIDADE ::

Gay Talese, A Writer’s Life

Passo o dia todo sozinho, produzindo prosa com a facilidade de um paciente expelindo pedras nos rins, e por isso à noite prefiro jantar fora […].

[I am alone all day, producing prose with the ease of a patient passing kidney stones, and so at night I prefer to dine out…]


:: CINCO MILHÕES ::
Evan Osnos, “Donald Trump’s Politics of Plunder

Até mesmo os praticantes mais experientes do toma-lá-dá-cá de Washington ficaram espantados com as novas regras para a compra de influência. Em dezembro, um assento em um jantar coletivo em Mar-a-Lago podia ser garantido com uma contribuição de um milhão de dólares para a MAGA Inc., um super PAC que funciona como caixa de campanha para as eleições de meio de mandato. Mais recentemente, conversas individuais com o presidente passaram a estar disponíveis por cinco milhões de dólares.

[Even seasoned practitioners of Washington pay-to-play have been startled by the new rules for buying influence. In December, a seat at a group dinner at Mar-a-Lago could be had for a million-dollar contribution to MAGA Inc., a super PAC that serves as a war chest for the midterms. More recently, one-on-one conversations with the President have become available for five million.]


:: LET DEATH COME ::
Matthew Crawford, The World Beyond Your Head

Acho que […] esse tipo de passividade é uma libertação da necessidade de controle. Como autônomo, não tenho a rotina de um emprego fixo, então o arranjo de cada hora é uma questão de escolha, uma oportunidade de reflexão e avaliação. Às vezes, eu só quero ficar onde estou e assistir Dateline, porque é o que vem a seguir. Deixe a morte me levar.

[I think because the passivity of it is a release from the need for control. As someone who is self-employed, I don’t have the jig of a regular job, so the disposition of every hour is a matter of choice, an occasion for reflection and evaluation. Sometimes I just want to stay where I am and watch Dateline, because that’s what’s next. Let death come.]


:: NÃO É CERTO ::
Norah Vincent, Voluntary Madness

Não é certo estar num quarto tão pequeno quando se está perdendo a cabeça.

[It’s not right to be in such a small room when you’re losing your mind.]


:: INSALUBRIDADE ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…

Em 2020, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York revelou que três quartos dos dentistas admitiram ter sido atacados verbalmente por um paciente, e quase metade havia sofrido agressão física. Os estudantes de odontologia foram ainda mais maltratados: 86% deles haviam sofrido abuso verbal no ano anterior.

[In 2020, in a survey by the New York University College of Dentistry, three-quarters of dentists reported that they’d been verbally attacked by a patient, and nearly half had been physically assaulted. Dental students were treated even worse: eighty-six per cent had been verbally abused in the previous year.]


:: METRÔ ::
Jack London, The People of the Abyss

Estávamos tão apertados que vários homens aproveitaram a oportunidade e adormeceram profundamente em pé.

[So tightly were we packed, that a number of the men took advantage of the opportunity and went soundly asleep standing up.]


:: DONOS DA ÁGUA ::
W. David Marx, Status and Culture

A socióloga Ashley Mears, que pesquisou os escalões superiores do circuito global de festas em Nova York, Miami, Ibiza e Saint-Tropez, descobriu que “os esbanjadores mais duvidosos eram os não ocidentais, como russos, árabes e ‘asiáticos loucos de ricos’, ou caras que ‘são donos de toda a água da Sérvia’”.

[The sociologist Ashley Mears, who researched the top echelons of the global party circuit in New York, Miami, Ibiza, and Saint-Tropez, found that “the most dubious of big spenders were non-Westerners, like Russian, Arab, and ‘crazy rich Asian’ spenders” or guys who “own all the water in Serbia.”]


:: INSALUBRIDADE – PT. 2 ::
Burkhard Bilger, “Mexico’s Molar City…

Dois anos depois, em Nova Orleans, uma mulher de 55 anos foi acusada de esfaquear seu dentista no olho.

[Two years later, in New Orleans, a fifty-five-year-old woman was accused of stabbing her dentist in the eye.]


:: BEREZNA – BERIA – BERING ::
Masha Gessen, The Future is History

Maya pegou um volume da Grande Enciclopédia Soviética, um tomo encadernado em tecido azul-escuro. Era o volume cinco, que começava e terminava com palavras completamente incompreensíveis: “Berezna” e “Botokudy”. Maya abriu o livro e deparou-se com um retrato de página inteira de um homem de meia-idade, quase careca, com rosto redondo, lábios finos e óculos de pincenê com lentes redondas sem aro.

Era Lavrentiy Beria, descrito no artigo de quatro páginas que acompanhava o retrato como “um dos líderes mais destacados do Partido Comunista Soviético Bolchevique e do Estado soviético, um aluno leal e camarada de J. V. Stálin”, e assim por diante. Não era o avô de Arutyunyan — era o principal executor de Stálin. Depois que o próprio Beria foi executado, os assinantes da Grande Enciclopédia Soviética receberam uma carta que Maya agora lhe mostrava: a editora estatal acadêmica da Grande Enciclopédia Soviética recomenda que as páginas 21, 22, 23 e 24, bem como o retrato anexado entre as páginas 22 e 23, sejam removidos e substituídos por novas páginas, anexas a esta carta. Use tesoura ou lâmina de barbear para remover as páginas mencionadas, tomando cuidado para preservar as margens internas onde as novas páginas serão coladas.

As páginas de substituição continham um artigo sobre o Estreito de Bering.

[Maya got out a volume of the Great Soviet Encyclopedia, a tome in blue-black cloth. This was volume five, which began and ended with perfectly incomprehensible words: “Berezna” and “Botokudy.” Maya opened the book to a full-page portrait of a middle-aged, mostly bald man with a round face, perfectly thin lips, and a pince-nez with round rimless lenses. This was Lavrentiy Beria, whom the accompanying four-page article described as “one of the most outstanding leaders of the All-Soviet Communist Party of Bolsheviks and of the Soviet state, a loyal student and comrade of J. V. Stalin,” and so forth. This was not Arutyunyan’s grandfather—this was Stalin’s chief executioner. After he himself was executed, subscribers to the Great Soviet Encyclopedia received a letter that Maya was now showing her: The state scholarly publishing house of the Great Soviet Encyclopedia recommends that pages 21, 22, 23, and 24, as well as the portrait bound in between pages 22 and 23, be removed and replaced with new pages, enclosed with this letter. Use scissors or a razor blade to remove the above-mentioned pages, taking care to retain inner margins to which new pages are to be glued. The replacement pages contained an article on the Bering Strait.]


:: OBRA- PRIMA ::

Este álbum é uma obra-prima.

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Agradecimentos: Adriano Bastos, Arthur Tertuliano, Gigio, minha mãe. Esta edição foi possível graças a 27 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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Duas novidades aleatórias e um alerta

O desenho acima representa a autora fugindo de uma espiral de extravagância. Talvez ela tenha uma mochila nas costas e um par de botas bufantes. Ou então está tentando escapar de um rocambole descontrolado.

Nesta edição extra, trazemos dois comunicados importantes e um alerta. O boletim “O Mês em Batata” virá quando possível, pois não trabalhamos sob pressão.

São eles:

1. O aniversário é do episódio e quem perde somos nozes

Esses dias comemoramos o aniversário de um ano do episódio “CPF na nota?”, esse feito literário intrépido que nos enche de orgulho.

Algumas coisas que aconteceram desde então:

  • Fui acusada de “monetizar meu chifre”
  • Recebi 2 (dois, deux, two, zwei) pedidos de desculpas de homens envolvidos
  • Alguns veículos de imprensa se prestaram quase que imediatamente a descredibilizar a vítima
  • Houve inúmeras tentativas de descobrir meus interesses escusos
  • Um total de zero pessoas foi cancelada, apesar do pânico moral
  • Um sujeito lembrou que eu era colaboradora regular do NYT, e que portanto minha carreira jamais foi prejudicada. Achei humilde que ele tenha admitido exercer influência significativa em jornais americanos. (A autoestima do homem branco!)
  • Mulheres colocaram meu relato em dúvida e falaram em questões inverificáveis
  • Mulheres que me defenderam estão sendo processadas
  • As escritoras — eu gostaria de ter contado com o apoio de meia dúzia delas. Mas nessa selva editorial, isso pode significar perder emprego, prêmio, contrato.
  • Um jornal chegou a anunciar que houve um aumento de 13.800% nas vendas dos meus livros, em um levantamento realizado a pedido do veículo. Os números absolutos não foram fornecidos, mas estou aqui para fornecê-los: vendi 3 mil exemplares do livro Operação Impensável. Hoje vivo em Bora Bora e apoio os pés nas carcaças dos homens que desgracei.

Não deixem de ouvir Silenciadas, podcast narrativo da Cristina Fibe, e O chá revelação, de Chico Felitti, para um pouco mais de contexto.

2. Reedição do Amarelinho

Entrou em pré-venda a nova edição de O Livro Amarelo do Terminal.

A obra foi originalmente publicada em 2008 pela CosacNaify. No ano seguinte, ganhou os prêmios APCA e Jabuti de melhor livro reportagem. Também nesse ano, a capa do livro, criada por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio, entrou para a lista de melhores do mundo do American Institute of Graphic Arts (AIGA). O livro foi republicado em 2018 pela editora do SESI-SP.

Com o tempo, todas essas edições se esgotaram.

Em 2026, a Fósforo preparou esta nova edição com um projeto gráfico totalmente distinto, assinado por Flávia Castanheira. Ela decidiu atualizar a cara do livro usando elementos das passagens rodoviárias de hoje: linhas pontilhadas, fontes monospaced, QR codes e códigos de barras.

Aproveito para agradecer a minha editora, Juliana Rodrigues, pela paciência e pelo capricho.

O lançamento oficial é em 4 de fevereiro.

  • Editora ‏ : ‎ Fósforo
  • Data da publicação ‏ : ‎ 4 fevereiro 2026
  • Número de páginas ‏ : ‎ 224 páginas
  • Peso do produto ‏ : ‎ 193 g
  • Dimensões ‏ : ‎ 14 x 1 x 20 cm
  • Quantidade de vezes que eu tive que reler : quatro

O release fala em “obra essencial do jornalismo literário brasileiro”, e quem sou eu para questionar?, e faz um resumo da trama:

“Borrando as fronteiras entre jornalismo e literatura, esta obra tornou-se um registro atemporal do funcionamento da segunda maior rodoviária do mundo, na qual Vanessa Barbara assume ao mesmo tempo os papéis de historiadora e investigadora, exploradora e cronista, dissecando a ‘cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas’.

3. Cuidado!

Se eu não tivesse lido direitinho a descrição dessa promoção, não sei o que faria com uma família tão grande.

Tomem cuidado.

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A fila do xixi tem que andar


#114 – São Paulo, 9 de janeiro de 2026
Especial podcasts
Aceitamos pix e molho para tacos
hortifruti.org

“A gente claramente perdeu o controle do arco narrativo”
(Pedro Daltro e Cristiano Botafogo)

Levanta-se a hipótese de que ele seja burro”
(idem, sobre o general Augusto Heleno)


:: EDITORIAL ::

Nada como escutar um podcast para impedir o córtex pré-frontal medial de cavar valas macabras no cerne da consciência humana enquanto o corpo físico se ocupa em limpar o sifão da pia. É realmente uma ocupação antidepressiva exemplar, um verdadeiro escudo acústico contra a ruminação. Uma ótima ideia para começar o ano.

Aqui vão alguns de nossos podcasts favoritos.


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

Muitas de nossas associações musicais são verbais, e às vezes absurdas. Esta semana do Natal, quando comi salmão defumado (que adoro), ouvi na mente o verso “O come, let us adore Him”. E agora, para mim, o hino ficou associado ao salmão.


:: PAGO POR SUBSTANTIVO ::

Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Ele é pago por substantivo?
[Is he paid by the noun?]
(Michael, sobre um livro que eu não lembro qual era)

É, realmente parece que ele está só sentando e digitando sem ler nada.
[Yeah it really feels that he’s just sitting down and typing and not reading it.]

Vou só ficar aqui lendo um outro livro enquanto você fala.
[I’ll just be sitting here reading a different book while you talk.]


:: PRESOS ::

Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

Um tá preso de fato e o outro tá preso na própria loucura.

(Sobre Daniel Silveira e Marcos do Val)


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

Ele acha que mudanças no estilo de vida podem curar toda e qualquer doença. [He thinks that lifestyle can cure every single illness] (Michael)

É isso que você pensa quando tem uma saúde relativamente boa, quando sempre teve acesso a cuidados médicos e quando lhe ensinaram que saúde é uma meritocracia. E que você colhe o que planta, o que não é verdade para quase nada nesta vida. [Which is what you think when you have relatively good health, when your healthcare has always been provided to you, and when you’ve been taught that health is a meritocracy. And you get out of it what you put into it, which is not true of almost anything in this life.] (Aubrey)

[…] Confundir a percepção que as pessoas têm da sua saúde com o seu caráter, moralidade e valor enquanto seres humanos. [Muddling up people’s perceived health with their carachter and morality and worth as people.]


:: MERITOCRACIA DA SAÚDE – PT. 2 ::
Michael Hobbes e Aubrey Gordon
Maintenance Phase

É claro que nossos estilos de vida afetam nossa saúde, há uma certa dose de verdade nisso. Mas acredito que a adoção dessa ideia, especialmente pela indústria, acaba introduzindo o que os pesquisadores chamam de ‘paradigma do risco associado ao estilo de vida’. O fato de o estilo de vida influenciar o risco de doenças é bastante inquestionável, mas, com o tempo, a ideia passou a ser vista como a única coisa que afeta esse risco. Chegamos, então, à conclusão oposta: que todos que adoecem devem ter feito algo para merecê-lo.

[Of course our lifestyles affect our health, there is truth at the heart of this. But I think the adoption of this and specially the takeup of this by industry ends up smuggling in what the researchers call “the lifestyle-risk paradigm”. The fact that your lifestyle affects your risk for disease is pretty unobjectionable but eventually it became that your lifestyle is the only thing that affects your risk for disease. We then get the reverse understanding that well, then, everybody who is sick must have done something to deserve it.] (Michael)

Tudo isso parte da premissa — e ao mesmo tempo reforça — a ideia de que, mais uma vez, pessoas magras e sem deficiência estão fazendo as coisas “certas”, e que quaisquer custos assumidos por um empregador são culpa das pessoas gordas e das pessoas com deficiência.

[All of this is both predicated on and reinforcing the idea that, again, thin people and non-disabled people are doing right things and that any costs that an employer shoulders are the fault of fat people and disabled people.]


:: INCENTIVAR ::

Zawn Villines
Liberating Motherhood, “The shock of motherhood in a patriarchy

Meu marido realmente espera incentivar o lesbianismo [em nossas filhas].

[My husband is really hoping to encourage lesbianism.]


:: AS DEZ MAIS DO CÓRTEX ::
Oliver Sacks, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

W. Penfield impressionou-se com a frequência dos ataques musicais e deixou muitos exemplos fascinantes e quase sempre engraçados, uma incidência de 3% nos mais de 500 pacientes com epilepsia do lobo temporal que ele estudou. […]

Em cada caso, a música era fixa e estereotipada. A mesma melodia era ouvida repetidamente, fosse no decorrer de ataques espontâneos, fosse mediante estimulação elétrica do córtex propenso a ataques. Portanto, essas melodias não eram populares só no rádio, mas igualmente populares como ataques alucinatórios; elas eram, por assim dizer, “As dez mais do córtex”.


:: RESPONSABILIZAÇÃO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could Kill

Isso refletia uma espécie de responsabilização de baixo para cima, que eles se sentiam impotentes para disciplinar.

[It reflected a sort of bottom-up accountability that they felt powerless to discipline] (Peter, sobre a “cultura do cancelamento”)

Esse medo entre os membros da maioria — pessoas que surtam com a escolha das palavras, “nem dá mais para dizer isso” —, em vez de pensarem em como a aceitação afetaria os membros da minoria, pensam em como a aceitação afetaria os membros da maioria.

[This fear among members of the majority – people who freak out about word choice, “you can’t even say this anymore” – instead of thinking about how acceptance would affect members of the minority, they think about how acceptance would affect members of the majority.]


:: ENTROPIA ::
Sarah Marshall
You’re Wrong About, “The Auralyn

[…] viver com depressão crônica ou algo parecido. Significa que você não pode simplesmente se deitar e deixar acontecer, porque o que está acontecendo, e cada pequena coisa que você faz, cada gato que você desenha… Na verdade, você está lutando bravamente contra essa entropia em que está vivendo.

[[…] living with long-term depression or something like that. It just contains you can’t lie back and let it happen to you because it’s what’s happening and that every little thing you do and every cat that you draw is… actually, you’re very bravely fighting against this entropy that you’re living in.]

Me vê 50 reais em picolé?

:: MEDIOCRIDADES ::
Michael Hobbes
If Books Could KillThe Identity Trap

[…] Todas essas mediocridades que acabam prosperando porque dizem às pessoas no poder o que elas querem ouvir.

[All these mediocrities that are allowed to flourish because they’re telling people in power what they want to hear]


:: MOSQUITO ::
Tom Rachman, The Imperfectionists

[…] um pequeno tocador de áudio que colocaríamos no quarto dele e que reproduziria um loop infinito do zumbido de um mosquito. Mas o aparelho só se ativaria no escuro, então, toda vez que ele apagava as luzes, o zumbido começava. Aí ele acendia as luzes para procurar o mosquito e ele não estava lá. E assim por diante, até que camisas de força fossem necessárias.

[… a little audio player that we’d stick in his bedroom and that would play an endless loop of a mosquito whining. But it would only activate in darkness, so every time he turned off the lights the whining would start. Then he’d turn on the lights to hunt for it and the mosquito wouldn’t be there. And so on and so on, until straitjackets were required.’]


:: LUTA ::
Pedro Daltro e Cristiano Botafogo
Medo e Delírio em Brasília

São 34 minutos de luta contra as próprias palavras.

(Sobre a entrevista do Jair Renan com o Léo Dias)


:: VOLTAR NO TEMPO ::
Michael Hobbes e Peter Shamshiri
If Books Could KillThe Secret

Eu daria tudo o que tenho para poder voltar no tempo e ler isso para o Karl Marx.

[I would give up everything I own to be able to go back in time and read that to Karl Marx.]


:: ACONTECE ::
Oliver Sacks, Alucinações musicais

“E de súbito”, Llinás conclui, “ouvimos uma música na cabeça ou, aparentemente vindo do nada, surge-nos uma forte vontade de jogar tênis. Isso às vezes simplesmente nos acontece.”


:: OUTROS PODCASTS ::

Outros podcasts que recomendamos:

Rádio Novelo Apresenta
Foro de Teresina
, revista piauí
Só no Brasil, de Pedro Duarte e Victor Camejo
Noites Gregas, de Cláudio Moreno
This American Life
A Hora
, de Thais Bilenky e José Roberto de Toledo
Calma Urgente
Science Vs.,
 de Wendy Zukerman
The Burnt Toast
, de Virginia Sole-Smith
Nathalie Haynes Stands Up For The Classics
Can I Have Another Snack
, de Laura Thomas
Xadrez Verbal, de Matias Pinto e Filipe Figueiredo

Audiosséries:

The Retrievals, de Susan Burton
Silenciadas, de Cristina Fibe
O Chá Revelação, de Chico Felitti
Avestruz Master
Shell Game
, de Evan Ratliff
Not a Very Good Murderer
, de Ronan Farrow
vinte mil léguas, de Sofia Nestrovski e Leda Cartum


:: MOLHO PARA TACOS ::
Kelly and Zack Weinersmith, A City on Mars

Aparentemente, o ambiente espacial também faz com que a comida tenha um sabor menos intenso. Isso pode ser resultado da mudança de fluidos corporais, que cria uma pressão nos seios nasais semelhante à de um resfriado, ou pode ser que, na ausência de gravidade, os cheiros não cheguem ao nariz, ou ainda pode ser algo relacionado à atmosfera artificial. Seja qual for o motivo, os astronautas frequentemente cobiçam os condimentos picantes, como sal, pimenta, Tabasco e maionese. E, claro, molho para tacos.

O molho para tacos, salgado e saboroso, é tão apreciado pelos astronautas que, por cerca de uma semana em 1991, tornou-se a primeira moeda específica do espaço sideral. No voo do ônibus espacial STS-40, o molho para tacos era usado em tudo. O piloto Sid Gutierrez lembrou: “Embora eu mesmo não tenha feito isso, observei meus colegas de tripulação colocando molho para tacos em cereais Rice Krispies pela manhã”.

Por volta do oitavo dia, o comandante da STS-40, Bryan O’Connor, percebeu que o consumo de molho para tacos pela tripulação logo ultrapassaria o estoque disponível. Segundo Gutierrez, o comandante “confiscou todo o molho para tacos restante e o dividiu igualmente entre os membros da tripulação. A partir daí, o molho para tacos tornou-se a moeda de troca. Por exemplo, se fosse a sua vez de limpar a latrina, você podia pagar a alguém com um ou dois molhos para tacos para fazer isso por você.”

[The environment of space also reportedly makes food taste less flavorful. This may be a result of the fluid shift creating sinus pressure similar to a cold, or it may be that in zero gravity smells don’t waft up into your nose, or it may be something about the artificial atmosphere. Whatever the reason, astronauts often lust for piquant condiments, such as salt, pepper, Tabasco, and mayonnaise. And, of course, taco sauce. Salty, zesty taco sauce is so beloved by astronauts that for about a week in 1991 it became the first form of currency specific to outer space. On shuttle flight STS-40, taco sauce went on everything. Pilot Sid Gutierrez recalled, “Although I didn’t do it myself, I observed crewmates putting taco sauce on Rice Krispies in the morning.” Around day 8, STS-40’s Commander Bryan O’Connor realized the crew’s rate of taco sauce consumption would soon outstrip the taco sauce supply. According to Gutierrez, the commander “secured all the remaining taco sauce and divided it equally among the crew members. Thereafter taco sauce became the medium of exchange. For example, if it was your turn to clean the latrine, you could pay someone a taco sauce or two to do it for you.]

Meu peso em gelinho

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Feliz Natal?


Somos 4,3 mil

#113 – São Paulo, 4 de dezembro de 2025
Uma de minhas mãos segurando firme a outra
Chiques e corajosas
hortifruti.org


my one hand holding tight/ my other hand;
come celebrate/ with me that everyday/
something has tried to kill me/ and has failed.”

(Lucille Clifton)


:: EDITORIAL ::

Na semana passada, chegamos à marca de 4,3 mil assinantes. São 4,3 mil almas que eventualmente terão de aumentar a dose dos psicotrópicos, dobrar a frequência semanal da terapia ou abraçar a completa e descarada loucura. Vamos repetir: 4,3 mil assinantes! A meta é de 1 milhão. Ou melhor: a meta é a de não sermos acusados de exercício ilegal da medicina. Se conseguirmos passar mais uns meses sem sermos processados, ainda melhor.

Lembrando que Natal é tempo de renascer, de renovar a esperança e de concretizar uma assinatura paga a este periódico. Venha você também se juntar aos 23 senhores e senhoras que nos ajudam a custear a sertralina. A meta é de 1 milhão. Basta escolher um modelo de assinatura no Substack:

E agora para as coisas de fato importantes. Nos últimos tempos, estamos lidando com uma condição extremamente inquietante, um cenário em que a criança começa a falar no momento em que põe os pés em casa e só para de falar quando fatalmente dorme.

A mesma coisa ocorre de manhã: a criança acorda já falando, ainda que sejam excertos amolengados de histórias não muito bem estabelecidas, e vai ganhando ímpeto narrativo conforme o dia avança, numa explosão de monstros aquáticos, alienígenas, princesas, nenês, bruxas, porcos-espinhos —alguns com suas respectivas músicas-tema —, de modo que o que nos resta a fazer é prestar a máxima atenção ao enredo, pois pode muito bem chegar sem aviso para nos testar uma questão sobre a pertinência de uma árvore de Natal de mexericas com uma estrela de carambola no topo.

Para além dessas dificuldades, estivemos nas últimas semanas em uma missão jornalística secreta que nos obrigou a acordar muito cedo e consequentemente drenou toda nossa energia de viver.

Mas estamos de volta e iremos publicar mais um ou dois boletins especiais antes do fim do ano. Pela paciência, obrigada.


:: VIÚVA NEGRA ::
Sasha Bonét, The Waterbearers

Betty Jean tornou-se mãe aos dezessete anos e, quando o Reverendo lhe pediu que fugisse com ele para o Mississippi, ela recusou. Sentia-se jovem demais para ser uma esposa. Para ser possuída. No caso de Betty Jean, essa recusa se tornaria rotineira. Seus familiares a chamavam de “Viúva Negra” por atrair homens, fazê-los se apaixonar e ter filhos, apenas para desaparecer e deixá-los destruídos, definhando. Muitos desses homens se tornaram pastores, como se, depois que Betty terminasse de usá-los, só Deus lhes restasse.

[Betty Jean became a mother at seventeen, and when Reverend asked her to run away with him to Mississippi, she refused. She felt she was too young to be a wife. To be possessed. For Betty Jean, such refusal would become practice. Her family members referred to her as the “Black Widow,”enticing men to fall in love and have children, only to disappear and leave the man broken, withered. Many of these men went on to be preachers, as if once Betty was finished with them, only God could keep them.]


:: COMPETIÇÃO DE MASSAGEM ::
Sarah Larson, “In the World of Competitive Massage

“Você ouviu falar da mulher que, num ano desses, acabou coberta de chocolate?”, ela sussurrou.

[“Did you hear about the woman one year who ended up covered in chocolate?” she whispered.]


:: COCÔ DE CABRA ::

Rivka Galchen, “The Radical Development…

Dioscórides de Anazarbo, um médico grego do século I, recomendava tratar a dor no quadril com excrementos de cabra montanhesa em lã embebida em óleo; para fins de anestesia, sugeria raiz de mandrágora fervida ou pedra de Mênfis; e para enxaquecas, unguento de rosas aplicado nas têmporas e na testa. Plínio relatou o uso de um dente de toupeira como alívio para dor de dente em humanos. Cerca de mil e oitocentos anos depois, Nietzsche tratava suas enxaquecas com sanguessugas aplicadas no ouvido.

[Dioscorides of Anazarbus, a first-century Greek physician, recommended treating hip pain with mountain-goat droppings on oil-soaked wool; for anesthesia, he suggested boiled mandrake root or Memphitic stone, and for migraines an unguent of roses, applied to the temples and forehead. Pliny reported the use of a mole’s tooth as an aid for human toothache. Some eighteen hundred years later, Nietzsche had his migraines treated with leeches applied to his ears.]


:: CAVAR UM CAMINHO ::
Sophie Elmhirst, A marriage at sea

O suicídio era apenas uma ideia, um pensamento. Mas, como todos os seus pensamentos, quanto mais pensava nele, mais fácil era pensar nele novamente. O pensamento retornava; cavava um caminho.

[Suicide was only ever an idea, a thought. But like all his thoughts, the more he thought it, the easier it was to think it again. The thought recurred; it dug a path.]


:: GOLFINHOS E CAVALOS ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia

Na África do Sul, aplicavam nas crianças enemas com água sanitária diluída para livrar o corpo de espíritos malignos; em outro lugar, usava-se o mesmo método para matar a “bactéria” causada pelo autismo. Os pais se inscreviam na “terapia do abraço”, promovida por uma psiquiatra de Nova York chamada Martha Welch e endossada por um ornitólogo premiado com o Nobel. Consistia em fazer as mães abraçarem os filhos com toda a força ao mesmo tempo que gritavam com eles até que se acalmassem, coisa considerada como o começo da cura. Na França, pais tentaram a “terapia de packing”, que consistia em embrulhar fortemente a criança em lençóis úmidos e refrigerados, como um casulo, deixando só a cabeça de fora. Outras abordagens envolviam regimes de megavitaminas, dietas especiais e exposição a golfinhos e cavalos.


:: ESTAR CHIQUE ::
Lyz Lenz, Belabored

Mas eu tenho um adesivo de princesa colado na sola do meu sapato. O vestido que estou usando foi escolhido por minha filha de quatro anos, que me ouviu dizendo a meu marido que estava nervosa com a perspectiva de sair. Ela desceu as escadas correndo, arrastando um vestido de tricô preto e branco e um colar. “Estar chique vai te ajudar a ser corajosa”, ela me disse. Então eu me troquei.

[But I have a Princess sticker stuck to the bottom of my shoe. The dress I am wearing was chosen by my four-year-old, who heard me tell my husband I was nervous to leave. She came tramping down the stairs dragging a black-and-white knit dress and a necklace. “Being fancy will help you be brave,” she told me. So, I changed.]


:: POETAS ::
Ben Taub, “Russia’s Espionage War in the Arctic

Berg foi levado para uma cela de isolamento na prisão de Lefortovo, o notório centro de detenção russo para prisioneiros políticos, críticos, poetas e espiões.

[Berg was taken to an isolation cell in Lefortovo Prison, Russia’s notorious detention center for political prisoners, critics, poets, and spies.]


:: MAPA ::

Tim Berners-Lee, This Is For Everyone

Por essa época, esbocei um mapa da web, inspirado no mapa da Terra Média de J. R. R. Tolkien. O alegre riacho saía do Condado da Rede Mundial de Computadores e chegava ao tranquilo Mar da Interoperabilidade. Ao sul, porém, cercado pelas Planícies Áridas Devastadas, os Montes Patenteados e o Desfiladeiro Proprietário, erguia-se o sinistro e anagramático Tor de Cism. Se você desse um zoom, veria que o olho de Sauron é, na verdade, o “e” do logotipo do Internet Explorer. O mapa está pendurado até hoje na porta do meu escritório no MIT.

[Around this time, I drafted a map of the web, inspired by J. R. R. Tolkien’s map of Middle Earth. The happy stream led from the shire of the World Wide Web to the tranquil Sea of Interoperability. To the south, however, surrounded by the Wasted Arid Plains, the Patent Peaks and Proprietary Pass, loomed the sinister, anagrammatic Tor of Cism. If you zoomed in, you would see that the eye of Sauron is in fact the ‘e’ on the Internet Explorer logo. The map still hangs on the door to my MIT office today.]


:: NOVECENTOS DIAS ::
Sasha Bonét, The Waterbearers

Foi exatamente o que ocorreu com o fim da escravidão, que o general Granger anunciou aos negros em Galveston, Texas, dois anos após a promulgação da Proclamação de Emancipação do Presidente Lincoln, em 1863. Durante novecentos dias, os negros trabalharam sob o impiedoso sol do Texas para os brancos texanos, sem saber que haviam sido legalmente libertados.

[Just as with the end of slavery, which General Granger announced to Black folks in Galveston, Texas, two years after the enforcement of President Lincoln’s Emancipation Proclamation of 1863. For nine hundred days, Black people labored under the merciless Texas sun for Texas White folks, unaware that they had been legally freed.]


:: GATOS E FAXINEIRAS ::
Lucia Berlin, A Manual for Cleaning Women: Selected Stories

As vozes das mulheres sempre sobem duas oitavas quando falam com faxineiras ou gatos.

[Women’s voices always rise two octaves when they talk to cleaning women or cats.]


:: OITOCENTOS LIVROS ::
Philip Kendall, “Man searching for the meaning of life…

Um jovem de Nanjing, na China, foi preso após roubar mais de 800 livros de ciências sociais, história e poesia de uma livraria da cidade. Ao ser interrogado pela polícia, o jovem afirmou que estava procurando “o sentido da vida” nas páginas dos livros.

[A young man from Nanjing, China, has been arrested after stealing more than 800 social science textbooks, history compendiums and poetry books from a book shop in the town. When questioned by police, the young man maintained that he was searching for ‘the meaning of life’ within the books’ pages.]


:: OLÁ, 1487 ::
John Donvan e Caren Zucker, Outra sintonia

Ele também tinha na cabeça a lista de todas as pessoas da cidade e dos respectivos números —os quais ele lhes havia atribuído pessoalmente. Por exemplo, Janelle Brown era primeiranista quando Donald, então no último ano, a abordou. Nunca tinham conversado. “Ahn, ahn… Janelle Brown, de hoje em diante o seu número é 1487”, anunciou, então deu meia-volta e foi embora. Quando tornou a se encontrar com Janelle no corredor, dirigiu-se a ela, mas dessa vez chamou-a não pelo nome, e sim pelo número. “Ahn, olá, 1487!”E se afastou.


:: AS FREIRAS DO ABOLICIONISMO PENAL ::
Lawrence Wright, “The Nuns Trying to Save the Women…”

Uma vez por semana, elas saem do convento para atividades recreativas — futebol, basquete, natação — tudo isso usando seus hábitos, inclusive na piscina.

[Once a week, they leave the convent for recreation—soccer, basketball, swimming—all accomplished while wearing habits, even in the pool.]


:: ATLETISMO CIRCENSE ::

Jacqueline Nesi, “The Man Who Ran 71 Miles While Juggling

Em uma entrevista de 2015, que li na íntegra, ele é questionado sobre como descobriu que a corrida de malabarismo era o seu esporte. Ele responde: “Assim que percebi que não conseguiria entrar na NHL [Liga Nacional de Hóquei], olhei para o meu exemplar surrado do Guinness Book of World Records e pensei: ‘Existem dezenas de milhares de recordes ali. Em algum lugar, deve haver algo em que eu possa ser o melhor. Só preciso de uma coisa.’

Um dia, folheando o livro, que era como uma Bíblia para mim na época, me deparei com o recorde da maratona de corrida de malabarismo, e de repente os anjos desceram do céu e me avisaram que o juggling era a minha verdadeira vocação. Disseram-me que um dia eu seria o maior atleta da categoria que o mundo já viu. E naquele momento, eu soube que a minha vocação era correr longas distâncias enquanto lançava objetos para o alto.”

[In a 2015 interview, which I read in its entirety, he is asked how he realized joggling was his sport. He says, “Once I realized that I wasn’t going to make the NHL, I looked at my tattered copy of the Guinness Book of World Records and thought, “There are tens of thousands of records in there. Somewhere, there must be something that I can be the best at. I just need one thing.” One day I was flipping through the book, which was a sort of Bible to me at the time, and came across the record for the fastest “joggling” marathon, and all at once the angels flew down from above and advised me that joggling was my true calling. They told me that one day I would be the greatest joggler the world has ever seen. And at that moment, I knew my life’s calling was to run long distances while tossing objects in the air.”]

Pense em poodles de topete

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“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)

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