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	<title>Seleta de Legumes</title>
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		<title>Bartman e a maldição do bode</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 20:37:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
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		<description><![CDATA[Folha de S. Paulo – Ilustrada 20 de fevereiro de 2011 por Vanessa Barbara Em outubro de 2003, o time de baseball Chicago Cubs estava prestes a quebrar um jejum de 95 anos sem o título de campeão da World Series. Em casa, vencia o Florida Marlins por 3&#215;0, tendo já eliminado um jogador da equipe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S. Paulo – Ilustrada<br />
20 de fevereiro de 2011</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>Em outubro de 2003, o time de baseball Chicago Cubs estava prestes a quebrar um jejum de 95 anos sem o título de campeão da World Series. Em casa, vencia o Florida Marlins por 3&#215;0, tendo já eliminado um jogador da equipe rival.</p>
<div><img class="size-thumbnail wp-image-1939 alignleft" style="border-style: initial; border-color: initial; margin: 6px;" title="Steve-Bartman_320" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/02/Steve-Bartman_320-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Foi quando o rebatedor dos Marlins mandou uma bola alta em direção à linha das arquibancadas. O defensor Moisés Alou correu tresloucado para alcançá-la. Se conseguisse, eliminaria mais um atleta e praticamente garantiria a vitória para os Cubs. Mas os torcedores ali sentados, por instinto ou reflexo, esticaram-se para apanhar a bolinha – e o pacato Steve Bartman conseguiu tocá-la, desviando-a das mãos de Alou e melando o lance para os donos da casa.</p>
<p>Depois disso, o time sucumbiu ao pânico, a torcida esfriou e os Marlins viraram o jogo, vencendo por 8&#215;3. Hoje já são 103 anos de jejum para os Cubs.</p>
<p>É esse o tema do documentário “Catching Hell”, de 102 minutos, dirigido por Alex Gibney e produzido pela ESPN. O filme  conta como se elegem bodes expiatórios no esporte.</p>
<p>Sob uma chuva de cerveja, insultos e ameaças de linchamento, Bartman desapareceu sem deixar rastros. Chegou-se a sugerir que entrasse para o programa de proteção a testemunhas ou pedisse abrigo na Flórida.</p>
<p>São tocantes os closes do rosto de Bartman, sozinho e vulnerável na cadeira 113, mascando chicletes, com o olhar perdido no horizonte. Ele usava óculos de grau, boné azul dos Cubs, blusa verde de gola alta e um moletom por cima. “Nunca chegou a tirar os fones do ouvido”, dizem.</p>
<p>Até hoje Bartman não dá entrevistas e vive em reclusão, mantendo-se surpreendentemente fora do alcance dos repórteres e rejeitando propostas milionárias da mídia.</p>
<p>Como se analisasse o assassinato de Kennedy, o filme especula sobre a trajetória da bola, a direção do vento, as chances de Alou apanhá-la. Consulta as testemunhas-chave do incidente e até sincroniza a transmissão radiofônica para saber o que Bartman escutava naquele instante.</p>
<p>Sua tragédia é comparada à do jogador Bill Buckner, que em 1986 deixou uma bola escapar por baixo das pernas. Ele jogava pelos Red Sox, mas usava uma luva com o logotipo dos Cubs.</p>
<p>A maldição do time teria começado em 1945, quando expulsaram um torcedor do estádio porque seu bode estava fedendo. “Os Cubs não vão ganhar o campeonato. Nunca mais, enquanto não deixarem meu bode entrar.”</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
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		<title>Temperamentos em xeque</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 03:41:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O número 1 do xadrez perdeu as estribeiras no Parque do Ibirapuera Revista piauí n. 65 Fevereiro de 2012 por Vanessa Barbara &#160; Havia uma ambulância a postos na tenda principal do 4o Grand Slam de Xadrez, realizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Intrigados, corredores e ciclistas das imediações acharam graça – afinal, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O número 1 do xadrez perdeu as estribeiras no Parque do Ibirapuera</p>
<p>Revista <em>piauí</em> n. 65<br />
Fevereiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img src="http://revistapiaui.estadao.com.br/assets/media/images/artigos/1536/AH1328219352x0388.jpg" alt="" width="660" /></p>
<div>
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<p>Havia uma ambulância a postos na tenda principal do 4<span style="text-decoration: underline;"><sup>o</sup></span> Grand Slam de Xadrez, realizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Intrigados, corredores e ciclistas das imediações acharam graça – afinal, que tipo de emergência médica poderia acometer aqueles pacatos enxadristas, confinados num cubo de vidro durante três ou quatro horas, olhos pregados no tabuleiro?</p>
<p>Mal sabem eles que o xadrez é um esporte dos mais violentos. Talvez nunca tenham reparado na divisória de madeira que separa as pernas dos oponentes sob a mesa, prevenindo os enxadristas mais exaltados de agraciar seus adversários com pontapés. E decerto não conhecem os inúmeros casos de jogadores que sofreram colapsos nervosos durante as partidas ou enlouqueceram irreversivelmente.</p>
<p>Que o diga o letão Aaron Nimzowitsch. Ao antever uma derrota, ele subiu na mesa e gritou: “Como posso perder para esse idiota?” Ou o polonês Achilles Frydman, que foi parar num sanatório após um torneio particularmente exaustivo. De acordo com um artigo da <em>Chess Digest Magazine</em>, Frydman gostava de deixar a sala para dar telefonemas internacionais e encomendar objetos insólitos, como uma bicicleta alemã ou uma flauta húngara. Durante uma competição na Polônia, correu de cueca pelo hotel, gritando “Fogo!”. Outro caso irremediável é o do austríaco Wilhelm Steinitz, que alegava ter jogado xadrez contra Deus – e vencido.</p>
<p>Era reconfortante, afinal, que uma ambulância estivesse de prontidão para a eventualidade de um ataque de nervos vitimar algum dos enxadristas hospedados em São Paulo. Eram estrelas de primeira grandeza do xadrez, a começar pelo norueguês Magnus Carlsen, número 1 do mundo – um rapaz de 21 anos que guarda semelhança perturbadora com o ator Matt Damon.</p>
<p>**</p>
<p>A tenda montada nas proximidades do Planetário abrigou três partidas simultâneas por dia, durante uma semana. Os embates ocorriam dentro de uma sala de vidro com isolamento acústico, onde ficavam os enxadristas e os árbitros. Do lado de fora, o público podia acompanhar as partidas e ouvir o comentário de especialistas ao microfone.</p>
<p>Ao longo da semana, houve também atividades abertas ao público, como torneios simultâneos contra veteranos. Num deles, o grande mestre internacional Gilberto Milos, terceiro lugar no ranking brasileiro, enfrentou 32 jogadores de todas as idades. Ganhou 28 partidas, empatou três e perdeu uma. Quem o derrotou foi um menino franzino de 11 anos chamado Igor Kikuchi Cadilhac, natural de Registro, interior de São Paulo, que aprendeu a jogar xadrez com o vizinho e não tem treinador. Suas participações nos torneios são bancadas pelos amigos, familiares e estabelecimentos registrenses como a Swagat Modas (especializada em roupas indianas), o Mercado Preço Bom, a Pizzaria Beirute e a Esteiras Yoshimoto. Em 2011, Igor sagrou-se campeão paulista na categoria Sub-12.</p>
<p>Perto dele, brincando com uma garrafa d’água e falando sozinha, estava outra jovem promessa do xadrez brasileiro – uma menina chamada Katherine Vescovi, muito magra, pequena e loira, de olhos azuis e jeito de bailarina. Aos 12 anos, é campeã paulista, brasileira e sul-americana. A despeito de sua aparência frágil e angelical, enxadristas veteranos garantem: Katherine joga de forma agressiva e é conhecida por derrotar os adversários de forma impiedosa.</p>
<p>**</p>
<p>Contrariando a expectativa, o número 1 do mundo não se saiu muito bem na etapa brasileira do Grand Slam. Quem teve o melhor desempenho foi o ucraniano Vassily Ivanchuk, que ocupava a sétima posição no ranking, com três vitórias, um empate e uma derrota. Chucky, como é chamado, mostra um estilo de jogo imprevisível e inovador, o que o torna um competidor perigoso, porém instável. Sua originalidade não se limita ao tabuleiro: ele costumava fazer aulas de turco e já foi visto bêbado cantando poemas ucranianos, segundo seu próprio colega Viswanathan Anand disse a um jornal indiano.</p>
<p>A zebra correu solta no Ibirapuera na terceira rodada. No mesmo dia em que Ivanchuk bateu o atual campeão Anand, o favorito Magnus Carlsen perdeu para o espanhol Paco Vallejo, então número 28 do mundo, após um lance de rematada tolice. Até ali, o jogo estava favorável para Carlsen, não obstante jogasse com as pretas (no mundo do xadrez, sabe-se que as brancas têm ligeira vantagem no jogo, pois detêm o privilégio de começar a partida). O norueguês passou muito tempo tentando forçar a vitória e chegou inclusive a desperdiçar uma chance. Mas, num apuro de tempo, acabou “pendurando uma peça”, ou seja, cometendo um erro crasso que lhe custou a partida.</p>
<p>O lance fatídico se deu quando Vallejo ameaçou ingenuamente capturar o bispo de Carlsen com o cavalo. Teria sido só uma investida aparvalhada se, na sequência, o norueguês houvesse se esquivado do mensageiro equino da morte como qualquer amador faria ou, melhor ainda, caso tivesse se saído com um contra-ataque sofisticado. Em vez disso, “ele viu duendes”, na avaliação de um popular, e moveu a rainha de forma a deixar seu bispo exposto, pronto para a degola.</p>
<p>Ao perceber o lapso, Carlsen olhou para os lados como se o mundo tivesse caído, empurrou algumas peças, esboçou gestos de irritação para o árbitro e a plateia, e foi tomado pela fúria. Desistiu da partida doze lances depois, enquanto o elegante Vallejo saía de cena com sua garrafinha de Gatorade cítrico. Ao final, não deu autógrafos nem tirou fotos.</p>
<p>O algoz de Carlsen era o lanterna do grupo. Em São Paulo, vinha de duas derrotas consecutivas. Perderia de novo na rodada seguinte, mas nem por isso se deixou abalar. Vallejo foi um dos mais jovens enxadristas a ser sagrado com o título de “Grande Mestre”. Em 2000, após ganhar o mundial Sub-18, tomou a decisão: “Serei jogador profissional, mas não pretendo passar dez horas por dia treinando. Quero aproveitar a vida.” Dali para a frente, sua carreira progrediu mais lentamente, para desgosto dos espanhóis.</p>
<p>Três campeões mundiais julgam que Vallejo possui talento suficiente para estar entre os dez melhores do ranking. Mas ele dispensa esse tipo de ambição. “Isso implicaria estudar e me dedicar mais, e tenho outros interesses na vida”, explicou ao público do Ibirapuera, pouco antes do encerramento do torneio. Sobre o descontrole emocional dos enxadristas diante da derrota, Vallejo aproveitou para rir de si mesmo: “O bom de perder tanto é que a gente se acostuma e passa a encarar tudo com mais tranquilidade. Além disso, há maior mérito em se levantar após uma queda do que em seguir de pé.”</p>
<p>Já Carlsen deu uma entrevista coletiva desolado após perder para o lanterna. Mas manteve a cabeça erguida. “Eu simplesmente pendurei uma peça. Não sei se podemos chamar isso de ilusão de óptica.” Mais tarde, no Twitter, considerou “ultrajante” o fato de ter tido problemas com o tempo e de haver perdido uma posição vantajosa em poucos lances. Acinte mesmo foi o atentado gastronômico do qual ele fora vítima em São Paulo. “Servir pizza sem queijo para clientes desavisados é simplesmente um crime contra a humanidade.”</p>
</div>
</div>
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		<title>Bipolaridade e gracinhas</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 01:30:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Folha de S. Paulo – Ilustrada 13 de fevereiro de 2012 por Vanessa Barbara Nunca entendi a implicância do “Puxa Cachorra!” com o “Jornal Hoje”. O “Puxa!” é um blog de humor (puxacachorra.blogspot.com) com ênfase em tolices do mundo da música, artes e televisão. O nome é uma homenagem ao tio de alguém que, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S. Paulo – Ilustrada<br />
13 de fevereiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>Nunca entendi a implicância do “Puxa Cachorra!” com o “Jornal Hoje”. O “Puxa!” é um blog de humor (<a href="http://puxacachorra.blogspot.com">puxacachorra.blogspot.com</a>) com ênfase em tolices do mundo da música, artes e televisão. O nome é uma homenagem ao tio de alguém que, em reuniões de família, quando o assunto começava a ficar constrangedor, virava para a pessoa ao lado e dizia: “Está na hora de puxar a cachorra”.</p>
<p>Nunca entendi até que, na segunda-feira, prontifiquei-me a assistir uma edição do noticiário (Globo, seg. a sáb às 13h20). Por pouco não puxei as minhas tartarugas.</p>
<p>O telejornal começa com a tradicional “escalada” de notícias: “Aulas canceladas, estradas interditadas. Mais de trezentas pessoas já morreram em consequência do frio na Europa”, diz o âncora Evaristo Costa. A câmera passa para Sandra Annenberg: “Já aqui no Brasil, é verão e tempo de sorvete – e que tal um frozen yogurt?”</p>
<p>Sim, eu bem queria estar inventando. Ao que tudo indica, o “Jornal Hoje” é uma atração com transtorno bipolar. “Agora está todo mundo triste”, estranhou minha mãe, na matéria seguinte.</p>
<p>Os clichês se sucedem: por que uma notícia sobre as mudanças no Imposto de Renda tem de ser anunciada por uma repórter de campo, em frente ao Ministério da Fazenda? Por que todas as pautas sérias precisam ser “equilibradas” com futilidades? Faz sentido passar uma receita durante um telejornal?</p>
<p>A avalanche de gracinhas chega a ofender. Não precisava começar a matéria sobre a onda de frio europeia com a frase: “O branco é a cor de toda a Europa”. Mesmo: não precisava.</p>
<p>Dizem que o JH é assim por ser exibido na hora do almoço, quando há menos gente propensa a absorver notícias indigestas. Por isso, em meio às mortes na Europa, o locutor acha de bom-tom falar sobre a preocupação com os bichos do zoológico, “menos com aqueles poucos que gostam do frio” – seguem imagens de uma lontra e um urso polar.</p>
<p>Nem bem se recuperou da síncope depressiva na qual havia mergulhado segundos antes, Sandra dá um suspiro e diz: “Vamos refrescar um pouco esse clima?”. Ambos riem, felizes. “Sorvete nesse calor é tudo de bom!”</p>
<p>No jornal, a receita do acepipe ganhou um tempo total de 2 minutos, enquanto as notícias internacionais apareceram em flashes no quadro “O mundo em um minuto”.</p>
<p>E como termina a matéria sobre o frozen yogurt? “É sabor e saúde para aproveitar ainda mais o verão.”</p>
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		<title>Jornalismo de guerra</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 00:42:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
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		<description><![CDATA[Folha de S. Paulo – Ilustrada 6 de fevereiro de 2012 por Vanessa Barbara Pode não parecer, mas o Código Brasileiro de Trânsito determina que os pedestres têm preferência, já que são o elo mais fraco do sistema – em comparação a carros, motos, caminhões. A imprensa também devia seguir uma lógica parecida: quando se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S. Paulo – Ilustrada<br />
6 de fevereiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>Pode não parecer, mas o Código Brasileiro de Trânsito determina que os pedestres têm preferência, já que são o elo mais fraco do sistema – em comparação a carros, motos, caminhões. A imprensa também devia seguir uma lógica parecida: quando se tem um megaespeculador de um lado e 6 mil sem-teto de outro, a prioridade de entrevista seria dos últimos, que não têm tanto poder para se fazer ouvir.</p>
<p>Mas não é o que está havendo na cobertura televisiva da desocupação do Pinheirinho, uma área em São José dos Campos habitada há oito anos por 1.600 famílias. O terreno pertence à massa falida do grupo Selecta, do empresário Naji Nahas. É avaliado em R$ 180 milhões e foi objeto de desavenças em diferentes esferas do Judiciário, até que, há duas semanas, a Justiça estadual decretou a reintegração de posse.</p>
<p>No dia 22, o “Fantástico” dedicou pouco mais de dois minutos à cobertura. Abriu a reportagem com cenas dos policiais escancarando um portão e adentrando o terreno. Voz em off: “Seis e meia da manhã, a tropa de choque invade o Pinheirinho”. Deu para imaginar os policiais combinando com a Globo, um-dois-três-e-já.</p>
<p>A ação contou com um efetivo de 2 mil homens, dois helicópteros, 220 viaturas, 40 cães e 100 cavalos. “A situação ficou fora de controle”, explicou a locutora, e a cena era de um sujeito jogando uma pedra contra os policiais.</p>
<p>“Os moradores atearam fogo a prédios públicos e oito carros, entre eles o da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo.”</p>
<p>Aparece a repórter, com um colete à prova de balas: “Segundo policiais que entraram aqui nessa área, esses barracos todos estão abandonados porque eles serviam para o tráfico de drogas. Aqui era uma espécie de cracolândia, onde se vendia e consumia droga”.</p>
<p>Outra coisa que ficamos sabendo pelo “Show da Vida”: em protesto, os sem-teto bloquearam por meia hora uma das pistas da Via Dutra. Um homem foi atingido por um tiro de arma de fogo durante a operação, mas a polícia diz que só usou balas de borracha. Fim da reportagem.</p>
<p>Nada foi dito sobre a presença de tanques de guerra e de soldados da cavalaria com suas espadas. Nada foi dito sobre o uso de força contra idosos e crianças e nem sobre o destino dos desalojados. Alguns receberam da prefeitura de São José dos Campos passagens rodoviárias para seus “estados de origem”.</p>
<p>Só que muitos são paulistas.</p>
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		<title>Não, não e não</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 16:34:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog da Cia. das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Edmund Wilson]]></category>
		<category><![CDATA[enxaqueca]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Blog da Companhia das Letras 1 de fevereiro de 2012 por Vanessa Barbara Um dos maiores críticos literários do século, Edmund Wilson nunca primou pela delicadeza. Não hesitava em criticar duramente seus próprios amigos, entre eles Vladimir Nabokov, autor de uma controversa tradução de Eugene Oneguin, de Pushkin. Wilson acusou Nabokov por “erros graves de inglês”, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdacompanhia.com.br/2012/01/nao-nao-e-nao/" target="_blank">Blog da Companhia das Letras</a><br />
1 de fevereiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/02/Edmund-Wilson.jpeg"><img class="size-full wp-image-1921 alignnone" title="Edmund Wilson" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/02/Edmund-Wilson.jpeg" alt="" width="520" height="410" /></a></p>
<p>Um dos maiores críticos literários do século, Edmund Wilson nunca primou pela delicadeza. Não hesitava em criticar duramente seus próprios amigos, entre eles Vladimir Nabokov, autor de uma controversa tradução de <em>Eugene Oneguin</em>, de Pushkin. Wilson acusou Nabokov por “erros graves de inglês”, “um estilo desnecessariamente canhestro”, “uma linguagem pobre e deselegante”, expressões vulgares, imodéstia, transliteração imprecisa, falta de bom senso, um apêndice tedioso e interminável, um entendimento pobre de prosódia russa e falhas sérias de interpretação.</p>
<p>No campo do mau humor, porém, sua obra mais conhecida é um bilhete intitulado <a href="http://www.listsofnote.com/2011/12/edmund-wilson-regrets.html">“Edmund Wilson lamenta”</a>, enviado como resposta a pedidos de participação em palestras, festivais, entrevistas.</p>
<p>Diz o bilhete:</p>
<p>“Edmund Wilson lamenta, mas para ele é impossível:</p>
<p>- Ler originais,<br />
- Escrever artigos ou livros sob encomenda,<br />
- Escrever prefácios ou introduções,<br />
- Dar declarações para fins publicitários,<br />
- Desempenhar qualquer tipo de trabalho editorial,<br />
- Ser juiz de concursos literários,<br />
- Dar entrevistas,<br />
- Ministrar cursos,<br />
- Organizar conferências,<br />
- Dar palestras ou fazer discursos,<br />
- Aparecer na TV,<br />
- Participar de congressos literários,<br />
- Responder questionários,<br />
- Tomar parte em simpósios ou “mesas” de qualquer espécie,<br />
- Doar manuscritos para leilão,<br />
- Doar cópias de seus livros para bibliotecas,<br />
- Autografar livros para estranhos,<br />
- Permitir que seu nome seja usado em cabeçalhos,<br />
- Fornecer informações pessoais a seu respeito,<br />
- Dar opiniões sobre literatura ou outros assuntos.</p>
<p>(Também não aceito convites para fazer leituras públicas, a menos que me ofereçam um bom dinheiro. E.W.)”</p>
<p>À parte a ranhetice e a antipatia, é preciso aplaudir o sr. Wilson. Se fosse contemporâneo, passaria a maior parte do tempo perdido em turnês de divulgação, participando de festivais literários, integrando mesas de debate sobre blogs e literatura, sendo afável em bares, respondendo se dá pra viver de quadrinhos no Brasil, filmando participações em programas de TV e dando entrevistas para estudantes que lhe perguntariam em que ano nasceu. Não teria tempo de escrever, pois gastaria toda a energia em falar sobre o assunto.</p>
<p>Há escritores que gostam de dar aulas e proferir palestras. Outros gostam de viajar para participar de festivais e conhecer colegas de profissão. Alguns acabam até mudando de ofício, ou conciliando a escrita com outras atividades mais sociáveis. Fato é que não dá pra dizer “sim” a tudo o que aparece, sob pena de virarmos pés de tomate e não conseguirmos tempo para escrever.</p>
<p>Já recebi convites para participar do programa do Ronnie Von e de congressos no Amapá. Já me sondaram para apresentar um programa na MTV e virar repórter de um jornal diário. Me pediram para traduzir um livro técnico e participar de bancas examinadoras de graduação. Por mais que a gente queira ajudar, é impossível agradar a todos — de modo que acabo aceitando só o que eu consigo fazer. E o que não me dói em demasia.</p>
<p>Meu bilhete de recusa personalizado atualmente está neste pé:</p>
<p>“Vanessa lamenta, mas para ela é impossível:</p>
<p>- Atender o telefone,<br />
- Participar de congressos,<br />
- Aparecer na tevê,<br />
- Ministrar cursos,<br />
- Tirar fotos fingindo ler ou conversar,<br />
- Comparecer a congraçamentos sociais com mais de sete pessoas,<br />
- Fazer parte de bancas examinadoras,<br />
- Escrever livros sob encomenda,<br />
- Ser afável indiscriminadamente,<br />
- Trabalhar de graça quando o contratante pode pagar,<br />
- Responder questionários com mais de seis itens,<br />
- Responder questionários “pra amanhã”,<br />
- Analisar originais,<br />
- Discursar em jantares (o jantar em si é bem aceito).</p>
<p>(Consulte-nos sobre a disponibilidade de escalar uma atriz contratada para atuar em meu lugar, se necessário. V.B.)”</p>
<hr />
<p><strong><a href="http://www.hortifruti.org/">Vanessa Barbara</a></strong> tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou <em>O livro amarelo do terminal </em>(Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), <em>O verão do Chibo </em>(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil <em>Endrigo, o escavador de umbigo </em>(Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da <em>Folha de S.Paulo</em> e colaboradora da revista <em>piauí</em>. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.</p>
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		<title>Congestão espontânea</title>
		<link>http://www.hortifruti.org/2012/01/30/congestao-espontanea/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 19:26:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[TV]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Folha de S.Paulo – Ilustrada 30 de janeiro de 2012 por Vanessa Barbara No último dia 15, o colega Fabrício Corsaletti lançou uma campanha na revista sãopaulo contra a praga das televisões ligadas em bares, lanchonetes e restaurantes. Dizia o poeta que a prática se justifica em dias de jogo (vá lá) ou efemérides extraordinárias, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S.Paulo – Ilustrada<br />
30 de janeiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>No último dia 15, o colega Fabrício Corsaletti lançou uma campanha na revista <strong>sãopaulo</strong> contra a praga das televisões ligadas em bares, lanchonetes e restaurantes. Dizia o poeta que a prática se justifica em dias de jogo (vá lá) ou efemérides extraordinárias, mas que não faz sentido comer um beirute diante de uma reprise do &#8220;Vídeo Show&#8221; ou de um programa vespertino de fofocas, quando só o que se quer é prestar atenção no interlocutor ou nas copiosas fatias de rosbife no prato.</p>
<p>Faço coro à causa de Fabrício. Já dizia um best-seller da literatura que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de ver televisão e tempo de contar longas histórias sem clímax.</p>
<p>Via de regra, a prática de assistir TV devia limitar-se à intimidade do lar e ao aconchego do sofá. Fazê-lo durante uma conversa entre amigos devia ser punido como falar ao celular dirigindo, e é tão deselegante quanto responder mensagens SMS no meio de um casamento. Sendo um dos noivos.</p>
<p>Uma das piores consequências da TV ligada em congraçamentos sociais de fundo gastronômico é quando a gente conta uma história engraçada e a pessoa cai na gargalhada, batendo a mão na mesa e babando, e a gente se sente um Groucho Marx redivivo. Isso até perceber que o sujeito em questão não ouviu nada – estava prestando atenção na TV atrás de você.</p>
<p>Dessa prática decorre todo tipo de reações despropositadas, exageradas, distraídas ou simplesmente alheias ao que se passa ao redor.</p>
<p>Nada mais triste do que perder para o “Globo Repórter” ou ser trocada por um episódio de “Family Guy” – sobretudo aquele em que o cachorro pede o divórcio.</p>
<p>É por isso que rogamos: desliguem as TVs dos bares, lanchonetes, restaurantes; acabem com as TVs dos ônibus e do metrô. Vamos silenciar os locais públicos e ouvir melhor o que nos dizem. Ter a atenção dividida não é bom pra ninguém – nem para o Carlos Nascimento, que está ali tentando comunicar uma notícia de escopo interplanetário, e nem para o Paulão, chapeiro da padaria que acaba de perguntar se você quer o seu lanche com ou sem maionese.</p>
<p>Fora que, dependendo da programação, o comensal pode até sofrer uma grave congestão.</p>
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		<title>Dez anos de conduta absurda</title>
		<link>http://www.hortifruti.org/2012/01/29/dez-anos-de-conduta-absurda/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 01:21:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[A Hortaliça]]></category>
		<category><![CDATA[dez anos]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Stephanie Avari]]></category>

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		<description><![CDATA[Folha de S.Paulo &#8211; Ilustrada 29 de janeiro de 2012 por Vanessa Barbara Em 22 de janeiro de 2002, tomada por um tédio sem precedentes, resolvi reunir todas as anotações coletadas em meus 19 anos de vida e criar uma audaciosa compilação de tolices. Cursava a faculdade de jornalismo e vivia no Mandaqui, Zona Norte [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S.Paulo &#8211; Ilustrada<br />
29 de janeiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>Em 22 de janeiro de 2002, tomada por um tédio sem precedentes, resolvi reunir todas as anotações coletadas em meus 19 anos de vida e criar uma audaciosa compilação de tolices. Cursava a faculdade de jornalismo e vivia no Mandaqui, Zona Norte de São Paulo, uma localidade digna de boas movimentações anedóticas. Mantinha um caderno espiral onde registrava tudo o que me parecia digno de nota. Foi como nasceu <em>A Hortaliça</em>, um almanaque eletrônico de humor com ênfase em legumes, recheado de trechos de obras literárias, fotos pitorescas e afirmações alheias tiradas do contexto. (Disponível em <a href="http://www.hortifruti.org">www.hortifruti.org</a>.)</p>
<p>Há exatos dez anos, na madrugada do dia 23, às 3h15 da manhã, a primeira <em>Hortaliça </em>foi enviada por e-mail a uma população de aproximadamente vinte vítimas. Era uma época pré-blogs e pré-Facebook, de modo que compilar insignificâncias era uma relativa novidade. Entre os assinantes primordiais estava a também mandaquiense Stephanie Avari, que cunhou um de nossos 364 slogans: “Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido”.</p>
<p>De lá pra cá, foram enviadas eletronicamente 87 caudalosas edições aos nossos atuais 703 assinantes – a octogésima oitava sai amanhã, se não chover – e muitas madrugadas perdidas na organização e catalogação das besteiras que nos mandavam. Foi por causa d’<em>A Hortaliça</em> que fui chamada para trabalhar como preparadora de texto na Companhia das Letras e, mais adiante, como repórter na revista <em>piauí</em> e colunista na <em>Folha</em>, em nada servindo para tais propósitos minha douta formação universitária, a fluência em quatro idiomas (além de Código Morse) e nem aquele curso de sobrevivência na selva que fiz em 1998.</p>
<p>Nosso maior diferencial é a periodicidade: sempre que dá, ou um pouco depois disso. Não há como prever a chegada de uma edição, assim como não dá para desejar que ela vá logo embora – <em>A Hortaliça</em> respeita um tempo próprio regido pelos ventos, pelas chuvas e pela colheita do algodão. Somos também conhecidos pela utilização aleatória do plural majestático e pelo péssimo hábito de tirar as declarações do contexto, como esta frase do crítico de arte Rodrigo Naves, catalogada sob a alcunha “Heróis da abolição” e proferida numa aula de história da arte: “O sujeito que dá autonomia ao pastel é o Degas”.</p>
<p>Outras boas citações nestes dez anos de <em>Hortaliça</em>:</p>
<p>“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” (Guimarães Rosa, <em>A Hortaliça</em> #001)</p>
<p>“A vida é apenas uma tigela de cerejas” (letra de canção popular americana, #004)</p>
<p>“Se você não sabe aonde está indo, qualquer lugar servirá” (Lewis Carroll, #018)</p>
<p>“Se teu olho te irrita, arranca-o!” (Lutero, #020)</p>
<p>“Todo fazedor de jornais deve tributo ao Maligno” (La Fountaine, #042)</p>
<p>“Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?” (Tolstói, #049)</p>
<p>“Que cara engraçada! Seria uma mulher ou uma alcachofra?” (Fellini, <em>A estrada</em>, #054)</p>
<p>“Os tolos vão correndo por caminhos que os anjos temem trilhar” (Alexander Pope, #055)</p>
<p>“Tudo escorre” (Lucrécio, #061)</p>
<p>“Como consegue dormir de bruços com esses botões tão grandes?” (Groucho Marx, #063)</p>
<p>“Pode-se perdoar a um homem a realização de uma coisa útil, contanto que ele não a admire. A única desculpa para se fazer uma coisa inútil é admirá-la imensamente.” (Oscar Wilde, <em>O retrato de Dorian Gray</em>, #066)</p>
<p>“Oito dias com febre! Poderia ter escrito mais um livro” (Balzac, #068)</p>
<p>“Cangaceiro Zeferino: ‘Céus! Que burrice extraordinária!’ Graúna: ‘Agora preciso cuidar para que a consagração não me suba à cabeça!’” (Henfil, #071)</p>
<p>“Ai! Por que estas coisas, e não outras?” (Beaumarchais, #077)</p>
<p>“Todos os pensamentos de uma tartaruga são tartaruga.” (Ralph Waldo Emerson, #081)</p>
<p>“É arremessado pelas ondas, mas não afunda” (#087)</p>
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		<title>Crítica: &#8220;A fabulosa história dos legumes&#8221;</title>
		<link>http://www.hortifruti.org/2012/01/28/critica-a-fabulosa-historia-dos-legumes/</link>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 19:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[couve]]></category>
		<category><![CDATA[ervilha]]></category>
		<category><![CDATA[Évelyne Bloch-Dano]]></category>
		<category><![CDATA[legumes]]></category>
		<category><![CDATA[pastinaca]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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		<description><![CDATA[Folha de S. Paulo – Ilustrada 28 de janeiro de 2012 por Vanessa Barbara “O legume mais modesto contém em si a aventura do mundo”, diz o filósofo Michel Onfray no prefácio de A Fabulosa História dos Legumes. Nele, a escritora francesa Évelyne Bloch-Dano traça uma biografia histórica, literária e sentimental dos vegetais, detendo-se em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S. Paulo – Ilustrada<br />
28 de janeiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara<br />
</strong></p>
<p>“O legume mais modesto contém em si a aventura do mundo”, diz o filósofo Michel Onfray no prefácio de <em>A Fabulosa História dos Legumes</em>. Nele, a escritora francesa Évelyne Bloch-Dano traça uma biografia histórica, literária e sentimental dos vegetais, detendo-se em dez deles.</p>
<p>O livro partiu de aulas ministradas na Universidade Popular do Gosto, em Argentan, na França, onde ela pôde dar a palavra a uma alcachofra, conferir voz a um tomate e dotar de verbo o tupinambor (tubérculo similar à batata).</p>
<p><img class=" wp-image-1897 alignleft" style="margin: 6px;" title="imgres" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/imgres.jpeg" alt="" width="144" height="221" /></p>
<p>A importância do tema é óbvia. Diz ela que “os legumes estão na aurora da humanidade, constituem o grau elementar da organização social, a passagem do cru ao cozido, da natureza à cultura: os seres humanos domesticaram os legumes como domesticaram os animais”.</p>
<p>Um dos capítulos mais comoventes fala do tupinambor, “aquela coisa esquisita, disforme, violácea e rugosa”, que por muito tempo não teve nome e nem origem precisa. É considerado o pior dos legumes. Era consumido na Quaresma, a título de penitência, e suspeitava-se que podia causar lepra. “São raízes aguadas, insípidas, nocivas à saúde e produzem muitos gases, por isso ninguém lhes dá importância”, afirmou-se em 1771.</p>
<p>Como se já não bastasse, logo surgiu a batata, e foi o fim para o tupinambor.</p>
<p>Hortaliça mais querida é a couve, verdura versátil e de domesticação arcaica. Para Catão, o Velho, ela “cura a melancolia, dá um fim em tudo, cura tudo”. O escritor Joseph Delteil afirma que “é boa para raquíticos, jovens mães e coelhos”.</p>
<p>Para Évelyne, falar de legumes é partir em busca de territórios e culturas. Ela cita o comentário de Marcel Proust sobre a expressão “estúpido como uma couve” – acaso seriam as couves mais estúpidas do que outras coisas? (Infelizmente para nós, brasileiros, não há qualquer menção ao termo “zé das couves”.)</p>
<p>Dentre os legumes citados, tupinambor e pastinaca sofreram <em>bullying</em> histórico. O mesmo não se pode dizer da ervilha, cuja “existência selvagem se perde na noite dos tempos”. A impaciência de comê-las, o prazer de tê-las comido e a alegria de comer mais eram as únicas preocupações da corte no século XVII. “É uma moda, é um furor.”</p>
<p>O livro é permeado de receitas, poemas e trechos literários. Há reproduções de pinturas relacionando a popularidade de um vegetal às naturezas-</p>
<p>mortas da época, ou debatendo a mudança de coloração da cenoura a partir dos temas da pintura flamenga.</p>
<p>Ainda assim, o resultado é um guisado confuso e sem substância que não chega a constituir um bom caldo.</p>
<p>**</p>
<p><strong>A FABULOSA HISTÓRIA DOS LEGUMES<br />
</strong><strong>AUTOR</strong> Évelyne Bloch-Dano<br />
<strong>EDITORA</strong> Estação Liberdade<br />
<strong>TRADUÇÃO</strong> Luciano Vieira Machado<br />
<strong>QUANTO</strong> R$ 49 (184 págs.)<br />
<strong>AVALIAÇÃO</strong> regular</p>
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		<title>&#8220;Sherlock&#8221; da TV bate o do cinema</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 01:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de S. Paulo]]></category>
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		<description><![CDATA[Folha de S. Paulo – Ilustrada 23 de janeiro de 2012 por Vanessa Barbara À beira de uma piscina, Sherlock Holmes encara seu arqui-inimigo Jim Moriarty. Aponta um revólver para o rival, mas hesita: Watson está na mira de atiradores e há explosivos no chão. Sherlock mira em Moriarty e, sem opções, passa para os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folha de S. Paulo – Ilustrada<br />
23 de janeiro de 2012</p>
<p><strong>por Vanessa Barbara</strong></p>
<p>À beira de uma piscina, Sherlock Holmes encara seu arqui-inimigo Jim Moriarty. Aponta um revólver para o rival, mas hesita: Watson está na mira de atiradores e há explosivos no chão. Sherlock mira em Moriarty e, sem opções, passa para os explosivos. Vai ou não atirar?</p>
<p>Essa dúvida perseguiu os fãs durante um ano e meio, mas em 1<span style="text-decoration: underline;"><sup>o</sup></span> de janeiro foi finalmente desfeita com a estreia da segunda temporada de “Sherlock” na BBC (ver coluna de 9/1/11, “O Napoleão do Crime”).</p>
<p>A cena fica em suspenso até que o celular de Moriarty se põe a tocar – a ringtone é “Staying Alive”, dos Bee Gees. “Tudo bem se eu atender?”, pergunta o educado vilão, pedindo constrangidas desculpas aos presentes.</p>
<p>Se a primeira temporada da minissérie foi genial, a segunda não fica atrás. A mente de Sherlock é como “uma locomotiva sem controle, um foguete se despedaçando no ar”, e isso se traduz em imagens. Sempre que possível, o detetive não explica em diálogos como chegou a uma conclusão: seguindo seu olhar, a câmera capta detalhes de objetos e faz estourar deduções por escrito na tela.</p>
<p>No episódio “O cão dos Baskerville”, Sherlock projeta um mapa mental onde deposita suas memórias. “Teoricamente, você nunca esquece nada do que viu”, explica Watson. “Tudo o que precisa é encontrar o caminho de volta.” É o que ele faz diante do espectador, arrastando e descartando no ar inúmeras associações de palavras, imagens e lembranças, à la “Minority Report”.</p>
<p>Também os cenários sofrem vertiginosas montagens a serviço da trama – Sherlock está na sala e “vai e volta” de uma cena de crime, ou deleta um grupo de pessoas do sofá e torna a enxergá-los assim que dizem algo interessante.</p>
<p>Desta nova leva, destacam-se a participação demolidora de Irene Adler e o desfecho da temporada, baseado no conto “O problema final”. O episódio foi exibido no dia 15 e já é motivo de sangrentas discussões nos fóruns. Só aqui em casa os últimos minutos foram repassados cinco vezes, com pausas estratégicas para levantamento de hipóteses.</p>
<p>Não se trata apenas da versão contemporânea de um clássico, mas de uma bela reinvenção de linguagem.</p>
<p>Bem diferente, aliás, de “Sherlock Holmes 2: O Jogo de Sombras”, longa-metragem que estreou no Brasil no último dia 13 e usa os efeitos especiais sem critérios, contentando-se com algumas boas cenas de ação e pouca engenhosidade na trama. Curiosamente, ambas as versões falam do mesmo conto.</p>
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		<title>A Hortaliça &#8211; edição #088 &#8211; 10 anos</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 05:15:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vanessa Barbara</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hortaliças]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; !! A Hortaliça!! =============================== Cerzir bem para cerzir sempre #088 &#8211; São Paulo, 23 de janeiro de 2012 Edição especial de aniversário – 10 anos Todo poder à beterraba www.hortifruti.org &#160; &#8220;Eu poderia esculpir um homem melhor de uma banana&#8221; (Theodore Roosevelt) &#8220;E me perguntei a respeito do presente: qual era a sua largura, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Impact; font-size: xx-large;"><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Tartaruga-mini-e-morango-2.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1866" style="margin: 8px;" title="Tartaruga mini e morango 2" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Tartaruga-mini-e-morango-2-300x181.jpg" alt="" width="240" height="145" /></a>!<span style="color: #c0c0c0;">!</span> A </span> <span style="font-family: Impact; font-size: xx-large;">Hort</span><span style="font-family: Impact; font-size: xx-large;">aliça<span style="color: #c0c0c0;">!</span>!</span><br />
<span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;">===============================<br />
<strong><span style="font-size: small;">Cerzir bem para cerzir sempre</span></strong></span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><br />
</span></span>#088 &#8211; São Paulo, 23 de janeiro de 2012<br />
Edição especial de aniversário – 10 anos<br />
Todo poder à beterraba<br />
<a href="http://www.hortifruti.org">www.hortifruti.org<br />
</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center">&#8220;Eu poderia esculpir um homem melhor de uma banana&#8221;<br />
(Theodore Roosevelt)</p>
<p align="center">&#8220;E me perguntei a respeito do presente: qual era a sua largura, qual a sua profundidade e quanto dele era meu.&#8221;<br />
(Kurt Vonnegut Jr.)</p>
<div align="center">
<p>&#8220;Não me deixe só<br />
Eu tenho medo do escuro<br />
Eu tenho medo do inseguro<br />
Dos fantasmas da minha avó&#8221;<br />
(Vanessa da Mata)</p>
</div>
<p><strong>:: EDITORIAL ::</strong></p>
<p>Há exatos dez anos, no dia 23 de janeiro de 2002 às 3h15 da madrugada,<em> A Hortaliça</em> vinha ao mundo. Destinatários criteriosamente selecionados receberam a primeira edição deste periódico, e possivelmente a enviaram direto para a lixeira. Os que assim não o fizeram foi por burrice, ou quem sabe por implicância do Mailer-Daemon – a cada número da Horta, 3,54% do nosso universo de assinantes manifesta seu desagrado via Mailer-Daemon, e uma porcentagem cada vez menor manifesta seu desagrado por meio de pesadas ofensas ao nosso staff. Destes, muitos são colegas de trabalho do meu pai (criteriosamente selecionados), que não têm culpa de haver acontecido em 2003 um tilt sistêmico no catálogo de endereços do Outlook Express, misturando os religiosos assinantes da Horta aos profanos técnicos de refrigeração deste mundo. O que permanece inexplicado é o fato de continuarem recebendo este hebdomadário, apesar dos apelos desesperados e ameaças de processo. (Um abraço para o eng. Kan Wing e o Señor Rodriguez. Alô alô, gente com sobrenome esquisito.)</p>
<p>Mas hoje vamos tentar não mudar de assunto: após 88 caudalosas edições enviadas a 703 assinantes, completamos dez anos de vida com a mesma falta de credibilidade e noção que nos caracterizaram desde o início. <em>A Hortaliça</em> nasceu naqueles dias ociosos de férias de verão em que a gente já dormiu o suficiente, cavou um buraco no jardim e chegou a martelar sem motivos a parede do vizinho, só de tédio. Esta editora-chefe que vos escreve tinha 19 anos de idade e uma multidão de colaboradores imaginários disponíveis para a empreitada, sobretudo os mortos, que não tinham como reclamar. Juntos, pinçamos trechos pitorescos de coisas que estávamos lendo, elegemos cerca de 20 destinatários e enviamos o número de estreia deste que se tornaria um jornal lendário na comunidade hortifrutigranjeira.</p>
<p>E aqui cabe um pronunciamento oficial sob orientação de nosso Departamento Jurídico, com vistas a dissipar os boatos que vêm circulando a nosso respeito. Quando o caderno Ilustríssima publicou uma edição d’<em>A Hortaliça</em>, em agosto de 2010, correram rumores de que o almanaque mandaquiense se tornaria um suplemento fixo do jornal <em>Folha de S.Paulo</em>, dadas as similaridades botânico-folhosas de ambas as publicações. Venho aqui esclarecer que se trata de um boato infundado: <em>A Hortaliça</em> nunca teve tal pretensão; ao contrário, a <em>Folha</em> é que se transformaria num encarte do nosso querido hebdomadário leguminoso.</p>
<p>As negociações não vingaram por motivos exteriores à vontade dos envolvidos – nossa redação demonstrou ganância desmedida na hora de impor os seus termos, que envolviam a instalação de uma piscina de bolinhas com raia olímpica em pleno coração do bairro –, mas o afeto mútuo permanece. O leitor desocupado que acessar o sítio <a href="http://www.hortifruti.org">http://www.hortifruti.org</a> verá, além do arquivo integral com nossas 88 edições abertas, uma centena de crônicas resultantes da joint-venture entre ambas as empresas jornalísticas.</p>
<p>E a história continua, mais ou menos cambaleante, daqui até os próximos dez anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: QUERIDO SCOTT, QUERIDA ZELDA ::</strong></p>
<p>26 de abril de 1934<br />
Para Zelda</p>
<div align="justify">
<p>E a única tristeza é viver sem você [...]. Você e eu fomos felizes; não fomos felizes uma vez só, fomos felizes mil vezes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS ::</strong><br />
Oliver Sacks, <em>O Olhar da mente</em></p>
</div>
<p>Existem diversos recursos ópticos ou mecânicos para ampliar o campo de visão quando se perde um olho. O uso de um prisma, por exemplo, pode permitir de seis a oito graus adicionais de campo visual, e há também engenhosas estratégias com espelhos. Uma solução mais drástica foi tentada no século XV por Frederico, duque de Urbino, que perdeu um olho em um torneio. Diante da eterna ameaça de assassinato, e para preservar sua habilidade no campo de batalha, ele mandou cirurgiões amputarem a ponta de seu nariz para dar a seu olho remanescente um campo visual mais amplo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: ADÍLIA LOPES ::</strong><br />
Rafael Mantovani, em <em>Cão</em></p>
<p>1.<br />
vejo Adília Lopes ler no vídeo<br />
um rato a Capela do Rato<br />
mas sumiu o som do vídeo</p>
<p>como senti saudades de Adília Lopes<br />
enquanto reiniciava o computador</p>
<p>como se ela morasse pra sempre numa rua muito longe<br />
rua rio muito longe</p>
<p>[...]</p>
<p>5.<br />
Adília Lopes tem poemas<br />
tão simples<br />
que não entendo</p>
<p>de tão finos não consigo<br />
entrar<br />
porque saio do outro lado</p>
<p>são herméticos<br />
ao contrário</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: SERIA NELSON JOBIM MANDAQUIENSE? ::</strong><br />
da <em>piauí</em></p>
<p>Ainda menino, ele tinha obsessão pela pontualidade. Se precisasse pegar um trem, digamos, às onze da manhã, fazia questão de chegar à estação uma hora antes. Sua mãe o deixava lá, voltava para casa, e depois retornava à estação para embarcá-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: MAIS MANDAQUI ::</strong><br />
Juro pelo seu Farias que ouvi essa conversa</p>
<p>- Como é o seu nome?<br />
- Gregório.<br />
- E como eu posso te chamar?<br />
- De Greg.<br />
- Posso te chamar de &#8220;Delícia&#8221;?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: ENSAIOS DE AMOR ::<br />
</strong>Alain de Botton</p>
<p>Então, inevitavelmente, eu comecei a esquecer. Poucos meses após romper com ela, descobri-me na área de Londres em que ela havia vivido e reparei que pensar nela não me causava mais tanta agonia, eu até notei que meu primeiro pensamento não era para ela (embora aquelas fossem exatamente as suas vizinhanças), mas para o encontro que eu havia marcado com alguém num restaurante nas proximidades. Percebi que a lembrança de Chloe havia se neutralizado e se tornado parte da história. Mas a culpa acompanhava esse esquecimento. Não era mais a ausência dela que me feria, mas minha crescente indiferença por ela. [...]</p>
<p>Foi preciso um longo tempo para que as centenas de associações que Chloe e eu havíamos acumulado juntos se desvanecessem. Tive de viver com meu sofá por meses antes que a imagem dela deitada nele de camisola fosse substituída por outra imagem, a imagem de um amigo lendo um livro nele, ou de meu casaco jogado sobre ele. Tive de andar por Islington por numerosas ocasiões até poder esquecer que Islington não era só o distrito de Chloe, mas um lugar útil para se fazer compras ou jantar. Tive de revisitar quase todos os locais físicos, reescrever todos os tópicos de conversação, tocar de novo cada música e repassar cada atividade que ela e eu havíamos compartilhado para reconquistá-las para o presente, para desfigurar suas associações. Mas aos poucos eu me esqueci.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: AS TARTARUGAS ENTENDERAM TUDO ::</strong></p>
<p><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Turtles-have-figured-out-man.png"><img class="size-full wp-image-1870 alignnone" title="Turtles have figured out man" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Turtles-have-figured-out-man.png" alt="" width="574" height="207" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: COISAS QUE ME SÃO CARAS ::</strong><br />
Ivan Karamázov, psicografado por Dostoiévski</p>
<div align="justify">
<p>Tenho vontade de viver e vivo, ainda que contrariando a lógica. Vá que eu não acredite na ordem das coisas, mas a mim me são caras as folhinhas pegajosas que desabrocham na primavera, me é caro o céu azul, é caro esse ou aquele homem de quem, não sei se acreditas, às vezes a gente não sabe por que gosta, me é caro um ou outro feito humano no qual a gente talvez tenha até deixado de acreditar há muito tempo e mesmo assim, movido pela lembrança antiga, o respeita de coração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: RIQUELME ::</strong></p>
<p>De um blog português, falando sobre a seriedade em campo do jogador Riquelme:</p>
<p>A verdade é que, a julgar pelo semblante de Riquelme, parece que lhe morre um irmão todos os dias em que joga!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: PARA SCOTT ::</strong></p>
<p>de Zelda Fitzgerald<br />
9 de março de 1932</p>
<p>Querido, eu o amo – como com certeza você já sabe – e conquanto continue confusa quanto à posição que me cabe neste universo desconcertante e cataclísmico, não me esqueci do ímpeto original: que tem sido, por um período considerável, já, moldar-me em algo de onde possamos, quietinhos, continuar nos amando como aprouver aos deuses e nós mesmos julgarmos justo e direito. De modo que se conseguir aceitar alguma ligação espiritual com esta massa de confusão, que é como cada vez mais eu me vejo, me ame também. Ao menos tente, já que um dia hei de produzir algo que vai satisfazer minha necessidade de acreditar, ao passo que você vai se sentir muito mal quando vir minha obra-prima, caso tenha de dizer: &#8220;Se ao menos eu não tivesse levado a vitrola&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: SLOGAN DE CAMPANHA ::</strong><br />
Para a festa da democracia</p>
<p>Mais leite, mais água, mas menos água no leite – Vote no Barão de Itararé, Apparício Torelly.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: HIPOTIREOIDISMO ::</strong><br />
Kurt Vonnegut Jr., <em>Matadouro n. 5</em></p>
<p>– Salvei a sua vida mais uma vez, débil mental – disse Weary a Billy na vala. Há dias que vinha salvando a vida de Billy, xingando-o, acertando-lhe pontapés, esbofeteando-o, obrigando-o a ficar em movimento. Era absolutamente necessário usar de crueldade, pois Billy nada fazia para salvar a si próprio. Billy queria desistir. Tinha frio e fome, sentia-se desajeitado e incompetente. Mal podia distinguir entre sono e vigília e agora, no terceiro dia, tampouco notou diferenças importantes entre andar e ficar parado.</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<p><strong>:: QUADRAS PAULISTANAS ::</strong><br />
Fabrício Corsaletti</p>
<p>pichação mais esquisita<br />
nunca vi, sem brincadeira<br />
&#8220;Rosivane, sem-vergonha<br />
devolva minha assadeira&#8221;</p>
<p>missoshiro, missoshiro<br />
delicado companheiro<br />
que ressaca não se cura<br />
com teu aroma e tempero?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: RACISTAS! ::</strong><br />
Quino, <em>Mafalda</em></p>
<p><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Mafalda-racistas.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-1869" title="Mafalda racistas" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Mafalda-racistas.jpeg" alt="" width="943" height="281" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: PLANOS PARA 2012 ::</strong><br />
Wim Wenders, <em>Asas do Desejo</em></p>
<p>Damiel: Às vezes me canso dessa existência espiritual. Em vez de pairar para sempre sobre os humanos eu gostaria de sentir um peso crescendo em mim, findando a eternidade e prendendo-me à terra. Gostaria de, a cada passo, a cada rajada de vento, poder dizer &#8220;Agora. Agora e agora&#8221;, e não mais &#8220;para sempre&#8221; e &#8220;por toda a eternidade&#8221;. Sentar-me num lugar vazio à mesa de carteado e ser cumprimentado, mesmo que seja com um aceno. Toda vez que participamos, foi de mentira. Brigamos de mentira com alguém, pescamos um peixe de mentira, sentamo-nos à mesa de mentira, comemos e bebemos de mentira. Fingimos comer carneiro assado e tomar vinho em tendas no deserto. Não, não preciso ter um filho e nem plantar uma árvore, mas seria ótimo voltar pra casa após um dia cansativo e dar comida para o gato, como Philip Marlowe, ter febre e os dedos sujos de tinta do jornal, empolgar-se não só por ideias, mas por uma refeição ou pela linha suave de uma nuca. Mentir! Na cara dura. Sentir os ossos conforme a gente anda. E finalmente supor, em vez de saber. Ser capaz de dizer &#8220;ah&#8221; e &#8220;oh&#8221; e &#8220;ei&#8221;, em vez de &#8220;sim&#8221; e &#8220;amém&#8221;.</p>
<p>Cassiel: É, ser capaz de apreciar de vez em quando a maldade. Sugar todos os demônios dos transeuntes e persegui-los mundo afora. Ser um selvagem.</p>
<p>Damiel: Ou ao menos saber como é a sensação de tirar os sapatos debaixo da mesa e alongar os dedos dos pés.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: PLANOS PARA 2012 &#8211; SEGUNDA PARTE ::</strong></p>
<p>Damiel: Primeiro, tomarei um banho. Depois farei a barba com um turco que me dará direito a massagem. Depois comprarei um jornal e o lerei das manchetes até o horóscopo. [...] Se alguém tropeçar em mim, terá que pedir desculpas. Serei empurrado e empurrarei de volta. No bar lotado, o garçom me arrumará uma mesa. Um carro oficial irá parar e o prefeito me dará carona. Serei conhecido de todos e não desconfiarei de ninguém. Não direi uma só palavra e entenderei todos os idiomas. Esse será o meu primeiro dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: 501 LOTES PARA CARPIR ::</strong><br />
Porque tá fácil cuidar da vida alheia</p>
<p><a href="http://501lotesparacarpir.tumblr.com/">http://501lotesparacarpir.tumblr.com/</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: DIPLOMACIA ::</strong><br />
Shimomura &amp; Markoff, <em>Contra-ataque</em></p>
<p>A diplomacia é a arte de falar &#8220;que cachorrinho lindo&#8221; enquanto se tenta pegar o porrete.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: DA IMPORTÂNCIA DOS ABSURDOS ::</strong><br />
Ivan Karamázov, de novo</p>
<p>– O problema é que existe esse porém&#8230; – bradou Ivan. – Saibas tu, noviço, que os absurdos são necessários demais na Terra. É sobre os absurdos que se funda o mundo, e neste talvez não acontecesse absolutamente nada sem eles. Nós sabemos o que sabemos!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: PARA SCOTT ::</strong></p>
<p>Primavera/verão de 1931,<br />
Clínica Prangins, Nyon, Suíça</p>
<p>Querido –</p>
<p>Fui a Genebra sozinha, eu e outra doida, e a cidade estava densa e carregada antes da chuva. O céu cinzento gotejava sobre as calçadas feito uma sobremesa cheirosa, depois de uma refeição pesada, e eu queria tanto estar em Lausanne com você – Sábado, voltando de Berna, procurei entre todos os que estavam na estação, quando passamos. Parecia incrível que algo tão querido quanto sua face luminosa não estivesse no mesmo lugar onde eu a vi pela última vez. Alguma vez já se sentiu solitário a ponto de se julgar eternamente culpado – como se não tivesse posto parte das roupas – eu o amo tanto e estar sem você é como ter saído e deixado o gás aceso, ou largado o bebê no cesto de roupa suja. Mas vou vê-lo em breve, e a chuva martela do lado de fora da janela, achata as árvores encharcadas, sobrecarrega o cascalho do passeio e eu torço para que a terra encolha com toda essa molhadeira, assim você ficará mais perto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: NA NORUEGA É ASSIM ::</strong><br />
a sabedoria de Rafael Mantovani, <em>Cão</em></p>
<p>(na Noruega é assim:<br />
o sono desce de trenó<br />
desembarca em pernas curtas<br />
traz uma mochila, diz que vai morar comigo</p>
<p>ele tem o rosto de um cachorro<br />
e um rastro escuro na barriga<br />
ele guarda os nomes de lugar<br />
escritos todos numa lista.)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Turtles-all-the-way-down.jpeg"><img class="alignnone  wp-image-1868" title="Turtles all the way down" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/Turtles-all-the-way-down.jpeg" alt="" width="384" height="415" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: OTIMISMO EM GOTAS ::</strong></p>
<p>Como dizia o Barão de Itararé, &#8220;é de onde não se espera nada que não sai coisa alguma&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: PARA SCOTT ::</strong></p>
<p>25 de novembro de 1931<br />
Montgomery, Alabama</p>
<p>O Natal está chegando e sua mãe estará aqui dentro de duas semanas, espero. Mandei o vestido para Annabel. Ela vai achá-lo um tanto Botticelli, mas talvez acabe sendo convidada para um festival de morangos, ou para rolar toras nos jogos da Vestfália, e aí poderá usá-lo para amarrar as canelas; ou talvez se veja presa num prédio em chamas e o vestido servirá para fazer uma escada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: MUITAS VEZES ::</strong><br />
Marcel Proust, <em>Em busca do Tempo Perdido</em> (Combray)</p>
<p>&#8220;É engraçado, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não posso pensar muito de cada vez&#8221;.</p>
<p>&#8220;Muitas vezes, mas pouco de cada vez, como o pobre do velho Swann&#8221; tornara-se uma das frases favoritas do meu avô, que a dizia a propósito das coisas mais diversas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: O AVÔ NA MPB ::</strong></p>
<p>Nos últimos dez anos, a série &#8220;O avô na Música Popular Brasileira&#8221; andou progredindo e agora comporta a variante &#8220;avó&#8221; – às vezes mesclada ao seu companheiro e às vezes em voo solo, como nos exemplos a seguir. Outra novidade revelada por nossos estudos: além de &#8220;amor&#8221; por &#8220;avô&#8221; e &#8220;voz&#8221; por &#8220;avó&#8221;, temos também &#8220;alegria&#8221; por &#8220;alergia&#8221;, vocábulos substituídos no tempo da ditadura para despistar os milicos dos nossos familiares e das nossas crises de rinite.</p>
<p>&#8220;Tanto tempo longe de você<br />
Quero ao menos lhe falar<br />
A distância não vai impedir<br />
Meu avô de lhe encontrar</p>
<p>Cartas já não adiantam mais<br />
Quero ouvir a sua avó<br />
Vou telefonar dizendo<br />
Que eu estou quase morrendo<br />
De saudades de você&#8221;<br />
(MONTE, Marisa)</p>
<p>&#8220;Coração não é tão simples quanto pensa<br />
Nele cabe o que não cabe na despensa<br />
Cabe o meu avô<br />
Cabem três vidas inteiras<br />
Cabe uma penteadeira&#8221;<br />
(CIDADE, Banda Mais Bonita da)</p>
<p>&#8220;Quem inventou o avô?<br />
Me explica por favor<br />
Daqui vejo seu descanso<br />
Perto do seu travesseiro<br />
Depois quero ver se acerto<br />
Dos dois quem acorda primeiro&#8221;<br />
(URBANA, Legião)</p>
<p>&#8220;Meu peito agora dispara<br />
Vivo em constante alergia<br />
É o avô que está aqui&#8221;<br />
(MONTE, Marisa)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>:: NÃO GOSTEI ::</strong></p>
<p>Março de 1920<br />
Montgomery, Alabama</p>
<p>Eu amo você, querido Scott, e você me ama, de modo que podemos ao menos ser gratos por isso –<br />
Obrigada pelo livro – não gostei –<br />
Zelda Sayre</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>&gt;&gt;&gt;&gt; Agradecimentos</strong></p>
<p>A Isabel A. W. de Nonno, Marcos Barbará, Mariana Delfini, Nayra Dmitruk, Paulo Henrique Martins. Assessoria jurídica: dr. Renato Onofri. Aproveitamos para cumprimentar alguns dos mais vetustos colaboradores deste jornal, a saber: Adriano Marcato, Antonio Prata, Bruno Brasil, Chico Mattoso, Maria Emilia Bender, Paulo Werneck, Reinaldo Moraes, Ricardo Monier, Sérgio Praça, Stephanie Avari, o Zé, os Dadás.</p>
<div align="center"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;">======================================</span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></div>
<div align="center"></div>
<div style="text-align: center;" align="center"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;">&#8220;Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado &#8212; logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido&#8221; (Stephanie Avari, a moradora mais ilustre da rua Paulo da Silva Gordo)</span></span></span></span></span></span></span></span></span> <span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"> </span></span></span></span></span></span></span></span></span> <span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;">## Você está recebendo <strong>!!Witzelsucht!! </strong>porque estava na mala direta. Ou então, ou então! Você está recebendo o <strong>!Rododendro!</strong> porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila. Caso não queira voltar a receber este jornalzinho, mande um e-mail para <a href="mailto:hortalica@gmail.com">hortalica@gmail.com</a> e diga na linha de assunto: &#8220;Foi demais para Kudno Mojesic&#8221;, mesmo que você não seja &#8212; e nem queira ser &#8212; Kudno Mojesic.</span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></div>
<div align="center"></div>
<div align="center">
<p><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;">::: <a href="http://www.hortifruti.org">www.hortifruti.org</a> :::</span></span></span></span></span></span></span></span></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/NY090727_Hamlets_duplex.gif"><img class="aligncenter size-full wp-image-1867" title="NY090727_Hamlets_duplex" src="http://www.hortifruti.org/wp-content/uploads/2012/01/NY090727_Hamlets_duplex.gif" alt="" width="465" height="329" /></a></p>
</div>
<div align="center"></div>
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