Dos italianos da casa, Gianluca é o meu preferido. Ele está sempre gripado e anda pela casa de pijamas, assoando o nariz, com cara de irritado. Tem uma toalhinha de rosto com o nome bordado (!). E também acabou de acordar.

(Com a diferença de que ele é crupiê, e eu narcoléptica.)

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Mas tem também o Antonio, que ninguém nunca viu (até esta semana, quando ele foi pego subindo a escada uma vez e aparentemente trouxe a mãe para visitar). A brasileira aqui residente (falaremos dela depois) acha que ele é psicopata e está tramando matar todo mundo, mas eu acho que ele é um cara ótimo e já pensei em bater lá para pedir um abraço.

Ele nunca toma banho, nunca usa a cozinha, nunca é visto saindo e nem entrando. Não faz nenhum barulho no quarto. Ou é um vampiro, ou é um psicopata, ou será em breve meu melhor amigo.

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Eu também gosto do Giuseppe, que é o italiano que manda na casa. Gosto dele porque é limpinho, vive preocupado com as áreas comuns, tem uma roupa de chef de cozinha e é o dono de todos os materiais de limpeza da casa. O Giuseppe não fala inglês, mas é bem animado e de manhã bota um aquecedor no banheiro para poder tomar banho mais tarde.

Daí tem uns outros italianos que eu nunca sei quem são, e provavelmente é só mais um e provavelmente é o Marco, mas eu gosto que de capuz todos eles parecem o mesmo italiano. E falam alto. E gesticulam.

E quando alguém abre a porta, é que nem a Casa da Mãe Joana: um deles xinga alguma coisa, o outro grita e vem puxar assunto, engata-se uma entusiasmada conversa num idioma que não é exatamente o de ninguém e eu saio correndo em direção a um helicóptero e uma rota de fuga.

Paulo diz que às vezes os italianos vêm bater na porta perguntando se é tua a roupa na máquina de lavar, e quando não encontram exatamente o dono saem a gritar pela casa: “A roupa na máquina de lavar! A roupa! De quem é a roupa?”

Eu consigo visualizar o Marcelo Mastroianni no papel, e fico procurando a saída de Cinecittà.