Levanta-te e grifa

Postado em: 26th julho 2011 por Vanessa Barbara em Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
26 julho 2011, 10:30 am
 

Por Vanessa Barbara

Desde janeiro de 2002, sou a feliz editora de um almanaque eletrônico de periodicidade aleatória, A Hortaliça (www.hortifruti.org), que depende da ativa colaboração de leitores desocupados e da anuência de autores mortos — não os psicografados, entenda-se — para compor um periódico só de citações despropositadas, textos alheios tirados do contexto e textos próprios sem razão de ser.

Vivendo sobretudo à custa de citações, tenho que lidar pacientemente com os paradoxos da marcação livresca, essa grave ciência que trata do realce de trechos para posterior análise e transcrição, a fim de que não se percam para sempre num oceano de páginas intocadas pela experiência humana. Ou num canto escuro da memória onde jazem as senhas do ICQ, o sobrenome daquele japonesinho da quinta série, a área do triângulo-retângulo e o enredo do último filme do 007.

O que nos leva a uma questão absolutamente anterior a essa: marcar os livros, sublinhar parágrafos, fazer orelhas nas páginas, realçá-las com marca-texto, ceder a anotações ininteligíveis nas bordas — vandalismo ou apropriação lícita do texto escrito? Sou da segunda opinião, embora às vezes hesite em macular um volume especialmente novo e cheiroso, sendo meu fervor pró-marcação diretamente proporcional ao matiz amarelado das páginas, às onipresentes mordidas de traça, à mancha primordial de café na página 33 e ao carimbo do sebo de procedência, onde teria custado a bagatela de vinte cruzados novos.

De início, adquiri o hábito de anotar as partes mais pitorescas assim que elas surgiam. Além de impraticável em livros como Tristram Shandy ou Alice no país das maravilhas, que demandariam a transcrição completa no meu caderno espiral, esse método provou-se exaustivo e desanimador: a cada trecho promissor, lá ia a pobre alma que vos escreve apanhar o lápis e o papel, levantando-se pesadamente da cama só para registrar o texto. Interrompia-se a leitura e torcia-se para que o resto do livro fosse uma droga, só para não ter que se esforçar mais vezes. Em nenhum momento cogitou-se usar um bom e velho marcador de livros, que se destina tão exclusivamente a demarcar o andamento da leitura, ou sua utilização seria conspurcada para todo o sempre.

Mais à frente, resolvi anotar apenas o número das páginas que continham o trecho desejado, a ser copiado mais tarde. O sistema durou um bom tempo, até que passei a confundir irremediavelmente as notas, registradas em pedaços de papel na minha cabeceira — a página 116 anotada seria de Alex no país dos númerosSobre a morte e o morrer ou A conspiração franciscana, que estive lendo ao mesmo tempo? E mais: às vezes a tal página continha duas citações interessantes, de modo que uma delas passaria lamentavelmente despercebida, a menos que eu lesse de novo a folha inteira. Embora algumas passagens fossem de identificação gritante — a tal página 116 pertencia a Ensaios de amor, de Alain de Botton, e falava de um homem que pensava ser um ovo frito —, muitas eram tão obscuras ou circunstanciais que era preciso ler a página inteira várias vezes só para concluir que o número havia sido anotado em um momento de grande confusão mental e não correspondia a nada de lógico neste mundo.

Da notação numérica passei, portanto, ao método de grifar a lápis no próprio livro, apontando a localização e extensão do trecho por meio de pequenos colchetes. Às vezes também circulava o número da página só para facilitar a varredura posterior, folha a folha, quando então as marcas seriam apagadas. Esse método não prevê a costumeira ausência de material esferográfico nas redondezas e a preguiça de folhear mais tarde o livro à cata dos trechos.

Seguiu-se a adoção de um método mais limpinho e socialmente invejável — os “post-it flags”, que são aquelas tirinhas estreitas e coloridas que você pode colar e descolar facilmente das páginas, e até preencher com anotações classificatórias. De minha parte, hesito em aderir de corpo e alma ao procedimento pelos mesmos motivos da marcação a lápis, ou seja, ignora-se o dispêndio de energia necessário para apanhar o material e a possível falta deste à mão. Também acho as etiquetas demasiadamente jeitosas e acabo racionando a quantidade de trechos só para não gastá-las demais.

Outra alternativa infeliz foi fazer um vinco com a unha ao lado do trecho desejado, na esperança de que os olhos pudessem depois identificar as marcas, o que só ocorreria em casos de visão biônica. Sem falar no inconveniente de haver edições naturalmente vincadas, o que pode levar um editor à loucura em poucos dias.

A alternativa que por enquanto me parece a mais simples, mais honesta e menos trabalhosa é dobrar a ponta das páginas e entregar a vida ao Altíssimo. A marcação leva menos de cinco segundos (com o necessário calcamento e recalcamento digital, a fim de que a dobra não se desfaça) e pode ser facilmente rastreada olhando-se a borda do livro fechado. O ruim é que aqui em casa acabei ocupando uma gaveta inteira só de livros “a legumar”, o que dá aquela sensação ruim de trabalho infinito e acaba desestimulando a copista. Além disso, pode-se entrar em crise quando há necessidade de marcar um trecho na frente da folha e outro no verso.

A questão da marcação necessária ainda carece de resolução, e nem me venham falar em Kindle, que é leve e prático demais para causar transtorno. Esta coluna se baseia no corolário básico de que livro que é livro tem mesmo é de causar transtorno.

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Há alguns anos, comprei num sebo virtual Traçando Paris, de Luis Fernando Verissimo e Joaquim da Fonseca. A foto que ilustra este post dá uma ideia do tamanho da loucura com que me deparei. Em quase todas as linhas de absolutamente todas as páginas, uma certa Maria Solange Corrêa de Barros Oliveira, residente à rua Mostardeiro, n° 1035, Porto Alegre, se pôs a sublinhar, rasurar, realçar, rabiscar e escrever sandices como: “Eu estou com 56 anos et tenho dito. Assim seja. Amém”. Havia ilustrações esparsas de um certo Solar das Amigas, que não tem nenhuma relação com o livro, e alguns devaneios com a língua francesa, como quando ela anota, no sumário, que “quem pegar este cahier(caderno) vai receber um pito”. Escreve que “demi” é “chopinho” e garante que “genre” é “genro” em francês. Afirma, em letra de mão rebuscada: “Cannes fica no Canadá”.

Ela não sublinha apenas os trechos, mas também os créditos autorais, a ficha bibliográfica, a legenda das fotos, a minibiografia da orelha e algumas ruas do mapa de Paris. Há menções religiosas por toda parte e a palavra “diabo” é tachada em vermelho com tanta fúria que sai do outro lado.

O melhor comentário ao livro está bastante apagado e foi feito em lápis cor de laranja: “Marie Solange Olivier Corrêa: vá para a direita e volte para a esquerda. Assim seja. Amém”.

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Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.